esquina
Duanne Ribeiro Fev 2023 15h10
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A barca Lady Ligia Maria parte de Barcarena, cidade do Norte do Pará, com destino a Belém, capital do estado, quase no exato momento em que a seleção do Marrocos dá o toque inicial do jogo contra a França. Passageiros se acomodam perto da televisão, instalada em frente a um balcão onde se vende café e chás. O reflexo do Sol nas águas projeta-se sobre a tela, atrapalhando a visão. Mesmo assim, a semifinal da Copa do Mundo do Catar promete espantar a pasmaceira da viagem: há algo para ver.
Navegando pelo Rio Acará até o seu encontro com o Guamá, a Lady Ligia Maria costuma levar pouco mais de uma hora para chegar ao destino. Veículos e pedestres adentram a embarcação por uma passarela de metal pintada de verde e amarelo. Há acomodações para os passageiros nos dois andares da barca. O andar superior oferece mais cadeiras, mas é no de baixo, onde há menos lugares, que está a tevê.
Naquela quarta-feira, dia 14 de dezembro, a fileira da frente, voltada para a tela e com doze lugares, está toda ocupada. Um passageiro dorme, outro mexe no celular, mas a maioria assiste à partida. Na fileira de trás, com vista para o estacionamento, um rapaz torce o tronco para acompanhar o jogo. A certa altura, um homem improvisa seu camarote: traz um banquinho marrom de três pés e o coloca entre as fileiras. A barca ganha velocidade, e o vento abafa a voz do locutor.
Os passageiros sentados assistem à partida em silêncio. Mais distantes da tevê, três homens encostados em uma grade falam alto sobre futebol. A conversa não é a respeito do jogo em curso, mas da Seleção Brasileira. O mais falante do trio acredita ter decifrado o motivo da desclassificação da equipe de Tite no jogo com a Croácia. “O Brasil quer jogar para dar espetáculo. As outras equipes jogam para ganhar”, diz, com a convicção de um Casagrande. Ele desdenha a habilidade do goleiro croata – “a maioria das bolas foi em cima dele” – e assevera que, apesar de tudo, o título poderia ter sido nosso: “O Brasil tinha time para ganhar da França.”
Nas margens do rio, galhos cheios de folhas de um verde intenso balançam ao vento, roçando o marrom das águas. A França abre o placar pouco antes dos cinco minutos, com o gol de Theo Hernández. Passa a sofrer com a pressão marroquina, mas responde rápido. “Meeeeeeeeeentira!”, berra um homem na fileira da frente, diante da segunda chance de gol perdida pelos franceses, aos 35 minutos. Perto do fim do primeiro tempo, o marroquino Jawad El Yamiq mete uma bola de bicicleta na trave e põe às claras para que lado pende a torcida na Lady Ligia Maria. “Vai dar zebra!”, prevê o vendedor de café e chás, que nem podia enxergar a tevê de onde estava. E acrescenta: “Merece esse título!”
O Marrocos mereceria mesmo. Foi a primeira seleção da África a alcançar uma semifinal. Na fase inicial, foi o primeiro lugar de seu grupo, e em seguida derrotou Espanha e Portugal. Na última Copa, o time africano esteve na posição do underdog: aquele que vem de baixo e, com talento, garra e sorte, vence quem é mais reputado. E quem não gosta de um underdog?
Nos acréscimos do primeiro tempo, aos 46 minutos, o Marrocos perde um ataque de bobeira e um homem de voz rouca exclama, desalentado: “Aaaaaaaahh!” A torcida circunstancial agora está entrosada, e os comentários se multiplicam. “Ele aproveitou que o cara se segurou um pouquinho e se jogou.” “Saiu! Saiu essa bola!” Aos 50 minutos, o francês Mbappé é derrubado. Um motociclista acha que a queda foi encenada e solta exclamações irônicas. Pouco depois, com uma troca de passes efetiva, o Marrocos quase chega ao empate. “Que jogada, que frieza!”, comenta um passageiro. “O zagueiro foi muito bem!”, retruca outro, com uma gostosa gargalhada.
“Vai empatar. E, se empatar, vira!”, profetiza alguém quando está quase acabando a primeira metade do jogo. No intervalo, a tevê volta a ser um objeto indiferente, atrás de um fio de luzinhas de Natal apagadas e entre dois pratos decorados – um deles exibe um tucano vermelho, azul e amarelo; o outro traz a inscrição BELÉM-PA. Os passageiros vão até o balcão onde o vendedor vaticinou a virada do Marrocos. O cafezinho custa 2 reais, o café com leite, 6 reais. A barca passa lenta por uma mata cheia de açaizeiros. Contrapostos a uma nuvem branca, voam vários urubus.
Pela metade do segundo tempo, a barca desacelera para atracar no cais, o que permite ouvir o som da tevê com mais clareza. Mas logo os veículos são ligados (entre eles, um caminhão de Ananindeua, também no Pará, com uma placa na qual se lê “RÁPIDO LOUCURA – Rafinha o Big Love – Deus proverá”), e o ronco dos motores encobre a narração do jogo. A água bate barulhenta na balsa. Todos são obrigados a desembarcar.
Aos 33 minutos do segundo tempo, Randal Kolo Muani cravou mais um gol, selando a vitória francesa. Mas, a essa altura, a Lady Ligia Maria provavelmente fazia a viagem de volta a Barcarena, com outra torcida a bordo.