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João Batista Jr. Dez 2023 15h04
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Em janeiro de 2023, a tensão aumentou na rádio Jovem Pan. No rastro do ataque a Brasília no dia 8, o Ministério Público Federal pediu o cancelamento das três outorgas de radiodifusão da emissora por seu alinhamento “à campanha de desinformação que se instalou no país”. O empresário Antônio Augusto Amaral de Carvalho Filho, o Tutinha, dono da emissora, entrou em pânico. Ele não temia apenas perder a concessão pública: com medo de ser preso, passou várias semanas em Paris.
Para tentar apagar o incêndio que se formava, entrou em cena Tiago Pavinatto, 39 anos, então a principal estrela da Jovem Pan. Apresentador do Linha de frente, cuja audiência chegava a encostar na da GloboNews, Pavinatto resolveu escrever para uma das figuras públicas mais atacadas em seu programa: Alexandre de Moraes, ministro do STF e presidente do TSE.
“Mandei um e-mail para uma conta pessoal e antiga de Moraes”, conta Pavinatto, que é formado em direito pela USP. Moraes não apenas respondeu como, segundo o apresentador, o convidou para um almoço no TSE, em Brasília, em 30 de maio de 2023, com a presença de Mariana Ferreira, então editora-chefe da Jovem Pan. Até agora, o apresentador não havia falado sobre essa conversa: o público da Jovem Pan jamais o perdoaria por se encontrar com o “inimigo”.
Orgulhoso de sua popularidade, Pavinatto recorda que, ao chegar ao TSE, foi tietado por um segurança, uma recepcionista e um ascensorista. O encontro com o ministro durou quase duas horas. “Ele disse que nunca havia pedido a minha cabeça na Jovem Pan e que, apesar da forma passional dos meus comentários, juridicamente eu não cometia nenhum absurdo.” Corria o boato de que Moraes pedira a demissão do apresentador, que em dezembro de 2022 havia chamado o ministro de “covarde” em seu programa. Na verdade, Pavinatto foi só temporariamente afastado. Voltou no mês seguinte – e só foi demitido de fato em agosto passado, por outro motivo.
Moraes confirma o encontro no TSE, mas diz que nunca convidou Pavinatto para ir até lá e que não houve almoço. Segundo o ministro, a reunião foi feita a pedido da Jovem Pan para que a emissora formalizasse um pedido de desculpas a Moraes e ao país. Diz a nota do STF enviada à piauí: “O presidente do TSE e ministro do STF, Alexandre de Moraes, jamais almoçou com o jornalista Pavinatto. Pavinatto foi recebido, em audiência oficial no gabinete do TSE no dia 30/5/2023, juntamente com a CEO da Jovem Pan, Mariana, ocasião na qual o grupo pediu desculpas sobre episódios de comportamento antidemocrático e preconceituoso durante as eleições de 2022.”
Que houve um pedido de desculpas, não há dúvida. A própria Jovem Pan levou uma cópia do tal pedido ao YouTube como argumento para reconquistar o direito à monetização de seus vídeos exibidos na plataforma. O canal da rádio no YouTube faturava 8 milhões de reais por mês até novembro de 2022, quando os pagamentos foram suspensos por causa da profusão de notícias falsas e teorias da conspiração propagadas pela emissora. O YouTube, no entanto, não restabeleceu a monetização (e não confirma os valores repassados aos canais). A piauí tentou falar com o dono da Jovem Pan, mas não obteve resposta.
Pavinatto segue no ataque a Moraes. Em dezembro, protocolou uma representação contra o ministro na Procuradoria-Geral da República (PGR) pelos crimes de “maus-tratos, abuso de autoridade e tortura”, pedindo seu afastamento. As acusações dizem respeito à morte, em novembro, de Cleriston Pereira da Cunha, que estava preso no Centro de Detenção Provisória Masculino II de Brasília por ter participado da intentona de 8 de janeiro. Cunha tinha sérios problemas de saúde, e a PGR havia pedido sua liberdade provisória em setembro. Dois dias depois da morte do preso, Moraes concedeu liberdade provisória a quatro réus que também tinham um parecer favorável da PGR.
“O objetivo dessa minha ação contra Moraes é saber se um juiz do STF está sujeito à lei como qualquer outro brasileiro”, diz Pavinatto. “Moraes, como conhecedor da lei, sabe que infringiu a obrigação de conceder liberdade provisória a um homem com problemas de saúde.”
O apresentador já conhecia Moraes antes do encontro em Brasília: foi seu aluno em 2005, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da USP. “Moraes tinha cabelo, muito cabelo, naquela época”, lembra. “As suas aulas eram uma stand-up comedy. Ele é uma pessoa engraçada, do tipo que não consegue segurar uma piada. Conhece muito de direito e já na época tinha poder dentro da esfera pública.”
Tiago Luís Pavinatto Gonçalves nasceu na cidade paulista de Itapira e estudou em colégios particulares, graças a bolsas de estudo. Seu pai era aposentado por invalidez e sua mãe trabalhava na padaria dos irmãos dela. Quando se mudou para São Paulo, seu primeiro endereço foi uma república no bairro Bela Vista. Foi expulso de lá três anos depois, quando se assumiu gay.
Seu estágio em direito foi no escritório de Cristiano Zanin, que defendeu Lula e agora é ministro do STF. “Ele é o advogado mais brilhante que já vi na vida”, diz o apresentador. (Zanin confirma que Pavinatto trabalhou em seu escritório, mas não quis dar entrevista a respeito.) Sempre no Largo São Francisco, Pavinatto concluiu mestrado e doutorado. “Gilmar Mendes fez parte de minha banca de doutorado.” De 2006 a 2014, foi filiado ao PSDB, onde ajudou a fundar o Diversidade Tucana, voltado às minorias. Apoiou o Movimento Brasil Livre (MBL) e filiou-se ao Patriota, pelo qual se candidatou a vereador nas eleições de 2020, sem sucesso.
Em junho de 2022, Pavinatto foi convidado para ser comentarista na Jovem Pan. A emissora apostava todas as fichas na reeleição de Bolsonaro, e ele engrossou a campanha. Depois da demissão de algumas figuras famosas da programação, tornou-se a voz mais estridente da emissora. Até que, em agosto de 2023, criticou a absolvição de um fazendeiro acusado pelo crime de estupro de vulnerável – o septuagenário havia tido relações com uma garota de 13 anos. “Em determinadas ocasiões, podemos encontrar menores de 14 anos que aparentam ter mais idade”, escreveu o desembargador Airton Vieira, do Tribunal de Justiça de São Paulo, em sua decisão. O apresentador chamou Vieira de “tarado”. A Jovem Pan mandou que pedisse desculpas, mas ele se negou – e foi demitido. Vieira entrou com uma ação por danos morais contra o apresentador.
Dias depois de sua saída da Jovem Pan, Pavinatto lançou o livro Da Silva: a grande fake news da esquerda, sobre Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Na capa, aparece a imagem de uma mão masculina fazendo o L (de Lampião, mas basta um único neurônio para saber o que está implícito). O livro vendeu 60 mil exemplares, de acordo com Rodrigo Mentz, diretor da editora Almedina, e rendeu também outro processo por danos morais contra o autor, movido por Expedita Ferreira Nunes, única filha de Lampião e Maria Bonita. Os advogados alegam que a ação não é censória, pois não exige a retirada do livro do mercado: pede apenas a supressão de expressões como “notório estuprador”, “terrorista mercenário” e “maior traficante de armas pesadas da história do Brasil”.
Um ex-ministro de Bolsonaro – que pediu para não ser identificado – avalia que Pavinatto tem boas chances eleitorais, mas que dentro da “ala ideológica” é muito criticado. “O Carlos Bolsonaro detesta o Pavinatto”, conta. Bolsonaro pai, no entanto, compareceu ao lançamento do livro do apresentador em Brasília e se reuniu com ele nos eventos paralelos durante a posse de Javier Milei, em Buenos Aires. Recentemente, Pavinatto foi convidado (agora sim, de verdade) para almoçar com Paulo Guedes, ex-ministro da Economia, na churrascaria Giuseppe Grill, no Leblon.
Apelidado de Pavivi e com 1,92 metro, Pavinatto fatura com palestras para empresários. O cachê de eventos em São Paulo é de 20 mil reais; em outros estados, sobe para 30 mil. Seu círculo de amizades inclui figuras do high society festivo, como Ana Paula Junqueira e Narcisa Tamborindeguy. O apresentador está solteiro. Acredita que a solidão se deve, em parte, à sua inclinação política: “Não sofro preconceito entre os bolsonaristas por causa da minha orientação sexual, mas sofro preconceito da maioria dos gays, que rechaça quem é de direita.”