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ESTILISTA DO BRASIL PROFUNDO

Airon Martin, cujas roupas chamaram a atenção de Janja, cresceu em um cabaré de estrada
Imagem Estilista do Brasil profundo

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Quando reconheceu a mulher que havia entrado na loja da Misci, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, a vendedora de imediato ligou para o criador da marca. O estilista Airon Martin, de 30 anos, recebeu a ligação em seu escritório, a curta distância da loja, e foi correndo atender a socióloga Rosângela Silva, a Janja.

Entre outras peças, a hoje primeira-­dama comprou uma camisa de seda branca com estampas vermelhas, que usou uma semana depois, em 13 de novembro, na sua entrevista ao Fantástico – a primeira que concedeu após a vitória de Lula. Como seria inevitável, a roupa suscitou contendas nas redes sociais, sobretudo por causa do preço: 2 580 mil reais. “Foi uma discussão bo­ba”, desdenha Martin. “Seria cafona se ela vestisse uma roupa estrangeira sem significado.” Na diplomação de Lula, no dia 12 de dezembro, Janja usou um look da Misci, com blazer e saia comprados na mesma ocasião.

Criada recentemente, a marca está em ascensão. A primeira loja foi aberta em plena pandemia, em agosto de 2020. Menos de seis meses depois, já se mudava pa­ra um espaço maior – onde Janja fez suas compras. Há dois meses, Martin abriu uma butique no Shopping Cidade Jardim, um dos mais caros de São Paulo. As peças também são vendidas online, e a grife já começou a receber pedidos de clientes do exterior.

Janja encontrou a marca certa para reforçar a imagem de primeira-dama ativa e progressista: os materiais da Misci são sustentáveis, e suas coleções buscam temas políticos e sociais. O nome da grife vem de “miscigenação”, aludindo à ascendência de seu criador, que é negra e indígena pela linhagem materna e branca pela paterna. E Martin tem uma história incomum. Não serão muitos os estilistas que começaram a frequentar lojas de roupas acompanhando prostitutas no interior de Mato Grosso.

Negro retinto, o paraibano Lourival Mario do Nascimento, avô de Martin, fazia um curso de piloto de avião em Porto Velho, Rondônia, quando conheceu Lucia Pereira, a avó, cearense descendente de indígenas. No começo dos anos 1970, os dois se mudaram para Sinop, cidade de Mato Grosso conhecida como a capital da soja. Com seu monomotor, Nascimento começou a fazer transporte de ouro ilegal. De pepita em pepita, passou a garimpeiro – de novo, ilegalmente – em uma reserva yanomami de Roraima. Um dia, se encantou por outra mulher e abandonou a esposa e as quatro filhas pequenas.

Para sustentar a família, Lucia Pereira tornou-se empreendedora. Começou com um bar arrendado no Centro de Sinop, cuja atração maior eram as prostitutas. Depois, abriu um complexo com bar e boate na BR-163, que liga Cuiabá ao Porto de Santarém e é uma das principais vias de escoamento do agronegócio. As prostitutas recebiam os clientes, quase todos caminhoneiros, no local, enquanto a família de Martin vivia em uma casa nos fundos.

Foi nesse ambiente que Martin cresceu. O menino era paparicado pela avó, pela mãe, Sonaly Pereira do Nascimento, por três tias e pelas prostitutas, que com frequência o levavam para comprar roupas. “Muitas delas trabalhavam para bancar filhos que criavam sozinhas”, ele recorda.

No registro de nascimento, consta que Airon Martin é filho de Leandro Martins, primeiro marido de sua mãe. “Eu cresci pensando que ele era o meu pai”, diz o estilista (que suprimiu o “s” em seu sobrenome artístico). Coube a Ronaldo Ortiz, segundo marido de Sonaly, apresentar Martin, então com 12 anos, ao pai biológico, José Marino Santos, membro de uma família rica ligada ao agronegócio que teve um relacionamento breve com Sonaly, após ela se separar de Martins.

Um exame de DNA, realizado para que Santos pagasse pensão ao filho, confirmou ser ele o pai de Martin. Mas isso não fez com que os dois criassem um laço afetivo. O estilista se sente mais próximo de Leandro Martins: “Ele é a pessoa que me criou, de quem carrego o sobrenome e tenho a filiação registrada no RG, embora não saiba que não é meu pai biológico.”

Na adolescência, Martin era bom no vôlei. Graças ao desempenho nas quadras, ganhou bolsas em escolas particulares. Morou em Cuiabá e em São Paulo, onde atuou no time do Esporte Clube Pinheiros. Por volta dos 16 anos, sua altura estacionou em 1,79 metro, o que o limitava à posição de líbero. Em busca de outro caminho profissional, Martin começou a estudar direito, mas desistiu. Foi estudar medicina em Buenos Aires e largou a faculdade. No bairro portenho de Palermo ficou extasiado com a profusão de lojas de móveis e roupas – e descobriu assim sua vocação para o design.

Com recurso do Fundo de Financiamento ao Estudante no Ensino Superior (Fies), Martin se matriculou no Istituto Europeo di Design, em São Paulo. “Não escolhi moda na época porque, na minha cabeça, o design de produtos era menos gay”, diz. Ele, porém, já havia assumido a homossexualidade desde a adolescência.

Ao longo da faculdade, o interesse por design de moda acabou se impondo. O trabalho de conclusão de curso de Martin, apresentado em 2018, foi a primeira coleção da Misci, intitulada “Raça Humana”. As roupas não tinham gênero e traziam elementos comuns a todo ser humano. “A coleção tinha pespontos vermelhos, em referência à corrente sanguínea”, conta o estilista.

O investimento inicial foi modesto: 10 mil reais. O retorno excedeu a expectativa: vendidas em duas lojas paulistanas, as roupas foram selecionadas por produtoras e stylists para editoriais de revistas e produções artísticas. Sasha Meneghel, Giovanna Ewbank e Silvia Braz viraram clientes e amigas da nova marca. “Mas não tive essa coisa de uma fada madrinha”, ressalva Martin. “Tenho de aceitar que sou bom no que faço.”

As cinco coleções seguintes buscaram elementos do Brasil profundo, com certa pegada ativista. “Brasil Impúbere” criticava o descompromisso do país na preservação da natureza, o que seria, como sugere o título, um sintoma de imaturidade política. A coleção “Boleia” faz referência aos caminhoneiros, clientes do cabaré de Lucia Pereira. “Fuxico Lanches” se inspirou nas lanchonetes do interior do país. “Eva Mátria Brasil” – da qual saiu a camisa de Janja – homenageia as mães que administram a família sozinhas. “Jerimum” faz referência à abóbora e sua metamorfose em carruagem, como no conto de Cinderela. Uma das criações mais recentes de Martin é um casaco de jacquard, 100% algodão, estampado com imagens de satélite de áreas desmatadas da Amazônia. “A roupa transmite uma mensagem e uma história”, diz o estilista. “Ela precisa se comunicar e ter uma razão para existir.”

De acordo com seu espírito ativista, a Misci busca materiais nacionais e certificados. A seda vem da Bratac, produtora paranaense que fornece fios para a Hermès e a Dior. O couro de pirarucu chega a São Paulo, congelado, vindo da Amazônia, e é tratado pelo curtume orgânico Nova Kaeru, em Três Rios, no interior fluminense. O curtume vende sobretudo para marcas norte-americanas ligadas ao universo country, que são 80% da clientela. Mas também atende grifes como Givenchy, Rick Owens e Osklen. Entre os planos futuros de Martin, está o lançamento de uma linha de vestidos e de uma grife com seu nome, para criar peças mais autorais.

Devido aos compromissos de trabalho, hoje ele vai a Sinop com menos frequência do que gostaria, embora se mantenha atualizado a respeito das notícias locais. Recentemente, soube que seu melhor amigo de infância – que também é gay – esteve acampado na porta de um quartel, pedindo intervenção militar para garantir a permanência de Jair Bolsonaro na Presidência. Mas o criador da Misci prefere falar de outras qualidades do torrão natal. Ele diz que vem de lá seu espírito empreendedor: “Minha cidade não tem uma cena cultural forte, mas as pessoas trabalham muito. Eu tenho isso dentro de mim.”

Desde 2019, ele tem como sócio seu companheiro, o médico neurorradiologista Wilson Rodrigues Fernandes Júnior, que também cuida do financeiro da empresa. Os dois se conheceram no festival hipster MECAInhotim, em Brumadinho, Minas Gerais, mas o primeiro beijo só rolou em São Paulo, em um ambiente muito diferente. “Foi durante um show da Marília Mendonça”, conta Martin.


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Repórter da piauí, publicou A Beleza da Vida: A Biografia de Marco Antonio de Biaggi (Abril)