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Adriano Cirino Mar 2023 19h13
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O líder indígena e ambientalista Ailton Krenak, de 69 anos, portava uma espécie de colar com penas na noite de sua posse na Academia Mineira de Letras (AML), em 3 de março passado. “É uma gravata”, ele explicou depois à piauí. “No Novo México, nos Estados Unidos, os indígenas utilizam um artefato de distinção, uma tira de couro com uma pedra de lápis-lazuli incrustada. Eu acho que os brancos nos imitaram, utilizando uma gravata de pano.”
Ailton adentrou o Auditório Vivaldi Moreira – lotado, com capacidade para 120 pessoas sentadas – por volta das 20 horas. Estava acompanhado de Rondon Krenak, cacique de seu povo, e Joenia Wapichana, presidente da Funai. Depois de ouvir o Hino Nacional executado em duas flautas transversais, ele assinou o termo de posse – lido por Jacyntho Lins Brandão, secretário-geral da AML – recebeu o diploma do deputado federal Patrus Ananias (PT-MG) e o distintivo do prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo de Araújo Santos (PV), ambos acadêmicos. “Nós não temos o fardão, mas temos o distintivo”, comentou Rogério Faria Tavares, presidente da instituição. O broche dourado traz a inscrição em latim Scribendi nullus finis (“O escrever não tem fim”).
Seguiram-se o pronunciamento institucional por parte de Tavares, encerrado com menção a uma reparação histórica (“Demorou 500 anos, mas agora você está conosco”), e o discurso de recepção proferido pela escritora, ensaísta e acadêmica Maria Esther Maciel, que usava um colar de miçangas vermelhas dos quíchuas, do Equador, em homenagem aos povos indígenas. Ela evocou a planta Lippia krenakiana (nome dado em homenagem a Ailton) e descreveu o novo acadêmico como “xamã das letras” e “homem dos trânsitos e traspassamentos de fronteiras”.
Quando Ailton enfim subiu ao púlpito, ele comentou sobre o que haviam dito nos discursos a seu respeito: “Parece que tudo o que eu fiz [na vida] foi bom. Ainda bem que a minha mãe está aqui.” A plateia riu. E não somente sua mãe, dona Lucy, de 92 anos; também sua mulher Irani, seu filho Nakatã, sua irmã Miraci e seu cunhado José Siqueira estavam presentes.
O xamã das letras havia preparado um discurso – intitulado “Diplomacia Indígena” – e o pronunciou. Nele, resgatou a história do Parque Indígena do Xingu, oficializado em 1961, e exaltou “a sabedoria e a inteligência” das lideranças xinguanas na luta pela demarcação e conservação de terras no Brasil, antes da Constituição de 1988 (que tornou lei a demarcação dos territórios indígenas). Em suas palavras, as lideranças do Xingu “não estavam interpelando o Estado no tribunal. Estavam fazendo diplomacia”.
Ailton Krenak é o primeiro indígena a integrar uma academia de letras no Brasil (vale lembrar que Davi Kopenawa foi eleito para a Academia Brasileira de Ciências em 2021). Ele ocupa a cadeira 24 da AML, cuja patrona é a poeta e inconfidente Bárbara Heliodora (1759-1819). Sua eleição ocorreu em 14 de junho de 2022, um mês antes de a instituição sediada em Belo Horizonte lançar a edição 81 de sua revista, com um dossiê sobre literaturas africanas de língua portuguesa e outro de poesia indígena de Minas Gerais – este último organizado por Ailton e Maria Inês de Almeida. A posse só ocorreu agora por causa de restrições impostas durante a pandemia.
Foi Tavares quem convidou Ailton a se candidatar, após identificar entre os acadêmicos um consenso prévio a favor do seu nome. “Seria interessante homenagear a literatura dele e fazer um gesto de reverência aos povos originários do Brasil”, afirmou. Ailton recebeu 36 dos 39 votos da AML, da qual também fazem parte o escritor Silviano Santiago, o jornalista Humberto Werneck e o pintor Carlos Bracher, entre outros artistas e intelectuais.
“Felizmente, a Academia Mineira de Letras está num momento de abertura à pluralidade, buscando reconhecer outros saberes e artes que não apenas os legitimados por uma casta da humanidade”, disse Maciel. Ela explicou seu voto em Ailton: “Ele é, hoje, um dos pensadores mais inventivos e admiráveis do país. Cria seus livros pela voz, tem um olhar poético e vigoroso sobre a vida. Vê a ancestralidade no futuro e acredita ser possível criar novas cartografias para depois do fim.”
Ailton disse à piauí que, para ele, o ritual “tipicamente branco” da cerimônia de posse era uma “situação extravagante”. “Eu não sou um cara que vai ficar ilustrando a academia, porque tenho mais o que fazer.” O autor de Ideias para Adiar o Fim do Mundo (2019) contou que está escrevendo um livro sobre a história de colonização do Vale do Rio Doce (onde fica o território do povo Krenak, em Minas Gerais), que se encontra profundamente afetado pela atividade de extração de minérios. “É um livro extenso e difícil, um livrão, diferente dos meus outros livros, pequenos e falados”, descreveu.
Depois da cerimônia de posse, os convidados se dirigiram ao salão no segundo piso da AML, onde seria servido o Banquete para Adiar o Fim do Mundo, bufê composto por seis “instalações gustativas”, idealizado por treze cozinheiras e cozinheiros artistas. Preparado com ingredientes locais e sazonais, produzidos por agricultura familiar, o banquete brindava os povos originários. “Ailton procurava algo diferente dos coquetéis convencionais da academia”, explicou Silvia Herval, fundadora da Cozinha Comum, núcleo de experimentação e práticas com alimento e arte. Foi ela quem coordenou a logística do bufê.
Ao centro do salão, uma mesa baixa, bem próxima ao chão, repleta de beijus e folhas de bananeira, convidava o público a se agachar e servir-se com as próprias mãos, provando as iguarias: salada de banana-da-terra, pasta de feijões, refogado de jaca e tomates verdes. Barcas de madeira ofereciam maxixe com queijo de amendoim, fitas de chuchu fermentado e compotas. Ao fundo, outra mesa trazia um relevo de frutas e flores coletadas em mercados da cidade. Para beber, quase 100 litros de infusões de plantas de quintal – folhas de pitangueira, erva-cidreira e pariri –, cujo aroma irradiava pelo salão.
O público provou de tudo um pouco, com muita curiosidade, apesar do estranhamento inicial. “Foi uma verdadeira festa para os sentidos, uma sinestesia”, contou Maciel. “Eu não imaginava que seria algo tão típico e atípico. No início, eu me enrosquei: uma amiga que já estava agachada, colocando um refogado de jaca e tomate sobre um beiju, percebeu meu desconcerto e me ensinou como me servir.”
De acordo com Herval e as demais cozinheiras, as “dinâmicas de comensalidades” sofreram enorme regramento – do comportamento ao vestuário – a partir do processo de colonização. “Ao retirarmos as cadeiras e convidarmos as pessoas a transitar pelo espaço, buscamos deslocar essa posição rígida”, explicou.
Ailton Krenak tirou tudo de letra. Para ele, as instalações gustativas foram “uma dedicatória poética, num mundo em que o que chega à mesa já vem com veneno”.