CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2024
Jogos de poder na Gávea
A disputa por uma quadra de tênis na Zona Sul do Rio
Carolina Bottino | Edição 220, Janeiro 2025
De um lado da briga, está a Associação de Moradores do Conjunto Residencial Marquês de São Vicente, conhecido como Minhocão da Gávea, uma das obras arquitetônicas mais famosas do Rio de Janeiro. Do outro, um homem que ostenta o título de “embaixador do frescobol”. O motivo da disputa é uma área localizada entre o Minhocão da Gávea, onde hoje vivem muitas famílias de baixa renda, e o Condomínio Jardim Pernambuco, que tem um dos metros quadrados mais valorizados da cidade – lá foi vendida em meados do ano passado uma das casas mais caras do Brasil, anunciada por 220 milhões de reais.
A origem da discórdia remete ao início dos anos 1980, quando as obras do último trecho da autoestrada Lagoa-Barra começaram a ser feitas. Para isso, foi necessário cortar parte da longa estrutura curva do Minhocão da Gávea – projetado no início dos anos 1950 por Affonso Eduardo Reidy, arquiteto que também desenhou o Museu de Arte Moderna do Rio. Vários apartamentos do conjunto residencial foram demolidos, e a prefeitura realocou parte dos moradores em três prédios – apelidados Três Porquinhos –, erguidos na área de lazer do Minhocão (que em 2001 foi tombado como patrimônio arquitetônico, histórico e cultural da Prefeitura do Rio).
Tempos depois da construção dos três prédios, uma nova área de lazer para os moradores foi feita em um terreno da Companhia Estadual de Habitação do Rio de Janeiro (Cehab-RJ). Com o passar dos anos, parte dessa área, que tinha quadra poliesportiva, campo de futebol e creche, caiu em desuso.
Em 2023, os moradores se deram conta de que, no local onde ficava o campo de futebol, havia sido construída uma quadra de tênis. O idealizador da quadra foi o jogador de frescobol Luiz Carlos da Silva, de 76 anos, conhecido como Luiz Negão. “Essa quadra é a minha polêmica”, ele diz.
Além do campo de futebol, outras instalações da área, como uma creche, também foram ocupadas irregularmente por terceiros. Atualmente, os moradores do Minhocão têm o controle apenas da quadra poliesportiva, que eles também alugam para eventos.
Silva pratica o frescobol desde a juventude e já participou de campeonatos internacionais no México, Itália, Espanha e Japão. Em 2015, foi declarado embaixador do esporte pela Associação Brasileira de Frescobol (Abraf). Criado no Parque Proletário da Gávea – um conjunto habitacional erguido para moradores de favelas removidas nos anos 1940 –, Silva mora há 47 anos em uma casa entre o Minhocão da Gávea e o Jardim Pernambuco, em frente ao terreno disputado. No quintal, mantém uma oficina onde fabrica raquetes de frescobol.
Ele conta que a área de lazer do Minhocão estava abandonada. “As crianças costumavam brincar lá, mas depois foram para dentro de casa.” Daí surgiu a ideia de incluir o espaço no programa Adote.Rio, que permite que empresas ou cidadãos privados cuidem de locais públicos. O adotante é o professor de tênis José Ribamar Martins Almeida, um amigo de Silva que embarcou na ideia de construir a quadra de tênis. O jogador de frescobol diz que os dois, sozinhos, desenvolveram o projeto de construção.
A prefeitura considerou a obra irregular, mas só atuou para desfazer o aterramento quando uma segunda quadra começou a ser construída em janeiro do ano passado. Mesmo assim, em dezembro ainda havia aulas de tênis no local, todos os dias, das 6h às 21h30, o que estava perturbando os moradores do Minhocão da Gávea. “Tem pessoa que reclama, porque desde muito cedo tem aula, e o barulho incomoda”, diz Luiz Carlos Farias Fernandes Alves, presidente da Associação de Moradores do Minhocão.
A quadra atende sobretudo moradores do Condomínio Jardim Pernambuco, que pagam pelas aulas. Silva alega que os residentes do Minhocão podem frequentá-la de graça, mas não têm demonstrado interesse: apenas cinco dos mais de oitocentos moradores estariam jogando tênis. Aos alunos que não moram no Minhocão é pedida “uma contribuição”, de qualquer valor. Entretanto, o Adote.Rio veta o uso comercial de áreas adotadas. O adotante tem apenas o direito de divulgar sua marca no local.
A Fundação Parques e Jardins, que concede a adoção dos espaços, não consultou a Cehab, dona da área, antes de dar o título a Almeida. A resposta da companhia foi entrar com um pedido para a fundação rescindir a adoção. A Cehab afirma, em nota, que “mantém entendimentos com a Associação dos Moradores e a Fundação Parques e Jardins para a regularização das áreas de lazer do conjunto”.
Criado no Minhocão, Alves, de 40 anos, jogava futebol na área de lazer quando criança. “Construíram a quadra de tênis sem consultar os moradores, que ficaram indignados”, conta. No ano passado, ele reativou a associação de moradores, que estava parada desde 2008, com a meta de retomar o controle do terreno.
O Minhocão da Gávea enfrenta dificuldades financeiras. A taxa de condomínio, de 440 reais, é insuficiente para a manutenção do edifício, de acordo com Marcia Farias, mulher de Alves e secretária da associação. “Já ficamos sem orçamento para comprar desinfetante”, diz ela. “Para fazer o pagamento do décimo terceiro dos funcionários, precisa ter cota extra.”
Alves conta que a documentação comprovando que a Cehab cedeu a área de lazer ao Minhocão perdeu-se nos quase quarenta anos desde sua construção. Mas, caso retome o terreno, a associação espera que parte do dinheiro arrecadado com as aulas de tênis seja destinada às despesas do condomínio. “O espaço é do Minhocão”, defende Alves.
O embaixador do frescobol contesta. “O lugar é público, não podem falar que é do Minhocão”, diz. A verba arrecadada nas aulas, segundo Silva, vai para a remuneração do professor e a manutenção da quadra. “O dinheiro não pode ir para o Minhocão, eles não têm nada aqui, não são donos de nada. O espaço é da prefeitura.”
Silva diz que sua paixão pela quadra de tênis é desinteressada. “Nosso objetivo é integrar o filho do bacana com o filho da nossa classe”, diz. “Fizemos isso aqui para a comunidade. Eu trabalho vendendo raquete, não ganho um tostão na quadra.”
O texto é um dos sete selecionados para publicação entre os participantes do concurso Uma História na Minha Esquina, voltado a estudantes de jornalismo
