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MÃO BARROCA

A alemã que fabrica cravos no interior de São Paulo
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Como muitos lugarejos na Alemanha, a cidade de 5 mil habitantes onde Maren Gehrts nasceu e cresceu oferecia uma boa educação musical para as crianças. Em Hohenwestedt, no estado de Schleswig-Holstein, extremo Norte do país, a menina teve lições de acordeão, piano, órgão e oboé. Também cantou em corais na igreja – que contava com um belo órgão de tubos – e na escola. “Eu já sabia ler notas antes de ler o alfabeto”, diz. Mas foi só aos 19 anos que ela teve contato com sua grande paixão: o cravo histórico. O instrumento que conheceu então era uma cópia de um exemplar de época, decorado com pinturas e arabescos. “Tinha um som maravilhoso, além de ser uma obra de arte por fora também”, lembra.

Radicada no Brasil desde 2004, Maren Machado (nome que adotou no casamento), de 52 anos, é hoje a única mulher a integrar a pequena confraria dos fabricantes de cravos no país. Também faz clavicórdios e pianofortes, ancestrais do piano. Pelo íngreme caminho de terra que liga a Estrada Darcy Penteado ao sítio onde ela mora com a família em São Roque, no interior paulista, passam instrumentos delicados que ela faz sob encomenda. Seus clientes são, em geral, intérpretes de música erudita que se dedicam a composições antigas e barrocas.

Como o trabalho é meticuloso e leva meses, ela produz só dois ou três instrumentos por ano. Um cravo custa a partir de 42 mil reais, e um clavicórdio pequeno, 14 mil reais. Os valores aumentam quando o acabamento é mais elaborado, como foi o caso do cravo de 80 mil reais feito para Lord Vinheteiro, pianista cujo canal no YouTube tem mais de 7 milhões de inscritos. O instrumento tem pés em estilo francês e é decorado com folhas de ouro e pinturas da flora e da fauna brasileiras. “Por que pintar plantas e bichos europeus num cravo feito aqui?”, ela sugeriu a Vinheteiro. Em seu canal, o músico já usou o cravo para tocar peças de Bach e Mozart, mas também a trilha do videogame Super Mario Bros e a canção Barbie Girl, sucesso dos anos 1990 resgatado na onda do filme Barbie.

Os teclados produzidos pela Ars Cordae, a empresa de Maren Machado, são réplicas de ancestrais do piano. O cravo lembra, em seu formato, um piano de cauda, mas o som aproxima-se mais da harpa. Enquanto no piano e no clavicórdio as teclas acionam mecanismos que percutem as cordas, no cravo as cordas são pinçadas por pequenas palhetas (plectros). É um instrumento que brilhou nos séculos XVII e XVIII, mas depois foi suplantado pelo piano. Na França, acabou associado ao Antigo Regime. Houve até jacobinos musicais que destruíam cravos.

No século XX, quando intérpretes e construtores de órgão se voltaram às raízes desse instrumento, o interesse chegou também ao cravo e ao repertório barroco. Alguns fabricantes lançaram modelos em série, com novos tamanhos e materiais – a estrutura do cravo, antes feita só de madeira, ganhou reforços de metal. Mas também havia tradicionalistas que preferiam seguir desenhos e materiais de época, na ambição de produzir instrumentos que soassem como aqueles que Bach conheceu. Maren Machado qualificou-se para fazer parte deste time.

Foram anos de aprendizado em Stutt­gart e Munique para dominar o ofício de restauradora e construtora de instrumentos antigos. Em 1996, ela conheceu seu futuro marido, o brasileiro Francisco Machado, que fazia mestrado em filosofia em Munique. Foi uma época agitada para Maren Machado. Ela começou a trabalhar no Instituto Greifenberg na fabricação de instrumentos tal como antigamente, sem máquinas. “Eu abria madeira na mão”, conta. Também trabalhou no restauro de órgãos de igreja e ingressou no mestrado em construção de instrumentos antigos da Câmara de Artes e Ofícios de Munique. E ainda achava tempo para cursar aulas de português. “O que o amor não faz?”, diz ela, rindo.

Em 2002, já casada, Maren Machado concluiu o mestrado. No ano seguinte, quando nasceu o primeiro de quatro filhos e seu marido estava concluindo o doutorado, os planos se voltaram para o Brasil. “Não era fácil para um estrangeiro crescer na universidade na Alemanha, ainda mais em filosofia”, ela explica. Sua expectativa era encontrar no Brasil um mercado para seus teclados históricos. Mas havia um projeto alternativo: “Se não desse certo, eu até faria brinquedos de madeira. Não queria só ser mãe e dona de casa.”

Carregando ferramentas na bagagem, ela se instalou no fim de 2004 em São Roque, onde morava a família do marido – que se tornou professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Dois anos depois, na saída de um concerto em São Paulo, conheceu Edmundo Hora, professor de cravo da Unicamp, que a chamou para fazer a manutenção de seus instrumentos. “Me admirei de encontrar aqui uma construtora e restauradora que fosse mulher e mãe”, ele conta. Foi o primeiro de uma fila de cravistas que, de Curitiba a Manaus, contrataram os serviços da alemã. Logo passou a ser requisitada para fabricar instrumentos, nicho em que já atuavam outros três profissionais: Abel Vargas, William Takahashi e Cesar Ghidini, também no estado de São Paulo. Ela juntou dinheiro para levantar uma oficina no sítio e, em 2012, começou a aceitar encomendas.

Madeiras brasileiras como jequitibá e caixeta incorporaram-se aos materiais usados pela alemã. Mas a sonoridade tradicional exige produtos europeus. “Isto é abeto dos Alpes”, diz Maren Machado, batendo no tampo de um cravo em construção. “Só ele tem essas características de som.” Também vêm de fora as cordas e o couro de alce utilizado em certas peças. Ela constrói todo o instrumento, mas as pinturas decorativas ficam a cargo do artista Sandro Rolim.

No momento, Maren está construindo um cravo e iniciando o restauro de dois pianos, um de 1797, outro de 1832. Na fila, já tem encomendas até o próximo ano. Ela acha que não conseguiria tanto trabalho na Alemanha, onde há muitos bons construtores, em sua maioria homens.

Em setembro do ano passado, Maren Machado foi a Minas Gerais para entregar a um músico o último cravo que concluiu. Nesse instrumento, foi inscrita a frase em latim Indocta manus noli me tangere. É uma espécie de mandamento pintado em alguns teclados históricos: “Mão destreinada não deve me tocar.”


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