esquina
Luiza Miguez Dez 2015 15h22
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O grupo começou a chegar à rodoviária Tietê, em São Paulo, bem cedo, por volta das seis da manhã. Aparentando cansaço e escorados uns nos outros, cinco dos sete jovens que viajariam dali a algumas horas aguardavam sonolentos o restante dos companheiros. “Bom dia, parças (parceiros), partiu Rio de Janeiro!”, saudou, entusiasmada, Rafaela Boani, fazendo soar o “r” típico da periferia paulistana, enquanto se aproximava dos colegas. “Estão com sono, né? E eu, que estou há um mês no colégio sem dormir?!”, disse, rindo.
Um dos adolescentes tinha colocado para tocar no smartphone a canção Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, de Geraldo Vandré. O grupo cantava, compenetrado, alguns de olhos fechados. Iriam percorrer a Dutra a convite da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, que promovia na capital fluminense debates sobre direitos humanos. Os jovens, de 16 e 17 anos, eram a grande surpresa política dos últimos meses de 2015, líderes de ocupações em colégios paulistas, em protesto contra o anúncio do governo estadual de fechamento de escolas e transferência de estudantes em 2016.
Rafaela Boani tem 16 anos. Baixinha, de seus cabelos longos e pretos desponta uma única mecha loira. “Foi muito triste me despedir do pessoal lá no colégio”, ela dizia a um dos companheiros, enquanto passeava os dedos pelo estojo de canetas. “Você ficou todos esses últimos dias direto lá dentro?”, perguntou o amigo. “Todos”, ela respondeu orgulhosa.
Antes dos protestos, Boani nunca havia se interessado por política. O comunicado da reorganização veio no final de setembro, quando a Secretaria da Educação informou que fecharia mais de noventa escolas estaduais e faria a transferência de 311 mil alunos dali a poucos meses. O governo argumentava que estabelecimentos que atendem a estudantes de uma mesma faixa etária têm desempenho melhor. Daí a necessidade de redistribuí-los, concentrando-os em colégios de ciclos únicos.
Previa-se que a Escola Estadual Diadema, onde Boani estuda, não mais abrigaria alunos do ensino médio em 2016. “Como eles remanejam a gente sem antes pensar em fazer uma reforma no ensino, dar merendas melhores, colocar sabonete no banheiro?”, argumentou Boani, à espera do ônibus. “Imagina começar 2016 sem poder ligar para as amigas e comprar material escolar juntas, ter que estudar num lugar que não conheço.”
No final de outubro, enquanto debatia com os colegas a melhor maneira de resistir à medida anunciada pelo governador Geraldo Alckmin, chegou às mãos de Boani uma cartilha. O manual “Como ocupar um colégio?” trazia orientações dos “pinguins” chilenos – os estudantes que em 2006 protestaram por melhorias na educação pública – para tomar uma escola e lá permanecer pelo tempo que fosse necessário.
Dias depois, a estudante subiria num banco no pátio da Escola Estadual Diadema e, levantando a voz entre os demais 400 alunos, declararia: “Nossa escola está ocupada. A partir de agora, vamos dormir aqui.” A adolescente contou que, menos de 24 horas depois, começaram a chegar notícias de que outras escolas estavam seguindo os passos dos alunos de Diadema. Em alguns dias, seriam mais de 200 estabelecimentos ocupados. “Eu só pensava: ‘Meu Deus, o que eu fiz?!’”, lembrou Boani.
Vanessa da Silva, a sétima e última integrante da viagem dos secundas, só daria as caras na rodoviária por volta das oito horas, quase três horas depois do combinado. A paulista de 17 anos preside o grêmio da Escola Estadual Brigadeiro Gavião Peixoto, em Perus, na periferia de São Paulo. Ao chegar, disse que não se sentia bem, parecia ter dificuldade para manter os olhos abertos e falar sem bocejar. Estava cansada e tonta depois de ter comandado, por três semanas, a ocupação de uma das maiores escolas públicas da América Latina.
A adolescente era uma das poucas pessoas do grupo que defendia a desocupação. A opinião dos estudantes paulistas havia se dividido seis dias antes da viagem, desde o anúncio do governador Geraldo Alckmin de que a reorganização escolar ficaria suspensa até 2017, para que a Secretaria de Educação pudesse debater com os estudantes os pontos de divergência no projeto. Rafaela Boani e outros alunos de Diadema pretendiam continuar com a ação até que a ideia fosse abandonada por completo.
Deitada num banco, com os olhos semicerrados, Vanessa da Silva comemorava sua melhor entrevista desde o início dos protestos, “na horizontal, sem estresse”. Ela explicava a decisão de desocupar a escola. “A população está a favor da gente, conseguimos o adiamento, precisamos sair enquanto estamos fortes”, ponderou a jovem. “Nós fizemos cair o secretário de Educação do estado, também diversos diretores de escolas. O próximo alvo é o Alckmin”, acrescentou, lançando um olhar maroto e um sorriso malicioso.
“Olha o Cristo Redentor”, observou um dos secundas, apontando o monumento que surgia ao longe no horizonte. Os estudantes estavam havia mais de seis horas na estrada, agora retidos no trânsito intenso da avenida Brasil, porta de entrada para o Rio de Janeiro. Pareciam se divertir planejando manifestações por onde passavam. “Como a gente ocupa o ônibus?”, um deles perguntou. “Essa avenida é moleza, está parada, a gente queima uns pneus, é sussa.”
A maioria viajava pela primeira vez na vida. Rafaela Boani puxou algumas músicas para cantarem. Alguém perguntou se ela estava animada para assistir ao show de Caetano Veloso, que se apresentaria no Parque Madureira, na Zona Norte da cidade, logo depois do debate dos estudantes. “Muito! Eu adoro música de velho – Caetano, Lulu Santos, Nando Reis”, ela falou.
Cerca de 200 pessoas foram ouvir o discurso dos alunos paulistas. O calor de mais de 40 graus castigava os secundas, que se abanavam e suavam bastante enquanto falavam. Olhando ao redor, Boani avaliou a possibilidade de os colegas cariocas ocuparem os colégios na cidade. “Acho que seria massa”, ela falou. “Quer dizer, acho que não seria possível, não. Duvido que os ventiladores funcionem nas escolas públicas daqui. E com esse calor…”