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MÁRTIR DA CASTIDADE

Devoção a uma beata agita Santana do Cariri
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Orfã de pai e mãe, Benigna Cardoso da Silva foi criada por tias e estava com 13 anos quando começou a ser assediada por Raul Alves, de 17. Rechaçou as investidas do jovem, até que ele a agarrou de surpresa perto da cacimba onde ela buscava água e tentou estuprá-­la. Benigna resistiu, e então Alves, enfurecido, matou-a com golpes de facão.

O crime se deu em 1941, no distrito de Inhumas, em Santana do Cariri, cidade cearense a 530 km de Fortaleza. Eram tempos de violência e machismo exacerbado no sertão nordestino, mas esse assassinato comoveu o povo, e Benigna passou a ser venerada como santa. Passados 82 anos, a crença popular foi reconhecida pela Igreja Católica, que em 2022 beatificou a Menina Benigna, como ela é conhecida entre os fiéis. A beatificação é uma etapa no caminho para a santificação.

“Pelo menos desde 1942, um ano depois do assassinato, a gente sabe de tropeiros e ciganos que passavam pela região e, quando ouviam a história de Benigna, desviavam o caminho para ir até o local do martírio para fazer orações e pedir graças”, conta Maria da Penha Pereira, de 60 anos, que participou da comissão de beatificação e faz trabalhos voluntários na capela em homenagem a Benigna, erguida em 2005 em Inhumas.

Lá se conservam inúmeros ex-votos de madeira, cartas e outros artigos em agradecimento pelas graças alcançadas. Próximo à capela de pedra cariri construída pelo povo, há uma área de 48 mil m2 na qual o governo do Ceará realiza obras de um novo santuário, com pontos de apoio para os romeiros que visitam a região.

Benigna consegue ao mesmo tempo sensibilizar a moral católica tradicional – é considerada uma “heroína da castidade” – e mobilizar causas seculares como a luta contra a violência sexista. A data de sua morte, 24 de outubro, entrou para o calendário oficial do Ceará como dia de combate ao feminicídio. Foi nesse dia que, no ano passado, ocorreu a cerimônia de beatificação, no Parque de Exposição de Crato, cidade próxima de Santana do Cariri e com mais estrutura para receber os 60 mil fiéis que compareceram.

Santana do Cariri está desde então celebrando a sua beata. Bandeiras vermelhas e brancas enfeitam as ruas. São cores associadas à menina: ela usava um vestido vermelho com bolinhas brancas quando foi morta. Nas ruas, homens e mulheres vestem-se com esse padrão, e o vestido figura nas vitrines do comércio local. A imagem oficial de Benigna está presente na maioria das portas e portões das residências.

Moradora da cidade, Irismar Bráulio de Souza, de 81 anos, usava o vestido vermelho de bolinhas brancas quando visitou a capela de Benigna, no dia da beata. Vinha acompanhada de sua irmã, Maria Maroly Bráulio de Souza, de 76 anos, que vive em São Paulo, para agradecerem juntas pelas graças que alcançaram. Irismar acredita que Benigna a curou de um cisto na garganta. “Tomei um chá com babosa. Mas, antes, tive fé nela, porque aqui, em Santana, ela sempre foi santa.”

Maroly já estava com cirurgia marcada para o joelho doente quando a irmã recomendou que ela rezasse a Benigna e tomasse o chá. Nos exames pré-­operatórios, descobriu-se que a cirurgia não seria necessária. “O médico me perguntou o que eu tinha feito para estar curada, mas eu não quis falar a verdade porque muitos não acreditam nessas coisas”, diz a aposentada.

Nas mensagens de celular que trocava com a irmã, Maroly costumava dizer que Irismar era “sortuda” por poder participar da festa de beatificação. Estava resignada a assistir às celebrações pela televisão. Oito dias antes da cerimônia, veio a surpresa: “Sem eu saber, meus filhos organizaram toda a viagem.”

O processo de beatificação foi iniciado pela Diocese de Crato em 2010. Até então, a Igreja Católica ignorava a devoção à Menina Benigna, que transformou Santana do Cariri em lugar de romarias. Em 2013, foi concedido à menina o título de serva de Deus, e em 2019 o papa Francisco autorizou a beatificação. Ela é a primeira beata do Ceará.

A região do Cariri já era reconhecida nacionalmente pelo turismo religioso, centrado em Juazeiro do Norte, onde cresceu padre Cícero Romão Batista (1844-1934), o Padim Ciço, nascido, contudo, em Crato. Personagem controverso, ele teve suas ordens sacerdotais suspensas pelo Vaticano por causa de uma disputa em torno de um alegado milagre. Em agosto de 2022, os devotos tiveram uma feliz notícia: o papa autorizou o início do processo de beatificação de Padim Ciço, que, mesmo quando esteve afastado da Igreja continuou atraindo milhões de católicos a Juazeiro.

Em outubro passado, na semana em que Benigna foi beatificada, o papa rogou a Nossa Senhora Aparecida que livrasse o Brasil do ódio. A fala repercutiu no país. No Cariri, porém, celebrou-se outra declaração de Francisco. “Um aplauso à nova beata”, ele pediu. A declaração de Francisco deixou Irismar eufórica. “É uma felicidade grande ver que algo por que a gente lutou tanto se realizou. Aquela semana foi só de choro, todo mundo aqui não tem mais lágrimas”, ela diz. “É Benigna na boca do papa, o Cariri na boca do papa.”


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Jornalista e autora de Memórias Interrompidas: testemunhos do sertão que virou mar. Foi estagiária de jornalismo na piauí e também já contribuiu com Universa Uol, G1 Ceará e Diário do Nordeste.