esquina

MEMÓRIA REBELDE

As dificuldades para inaugurar o Museu Marinheiro João Cândido
Imagem Memória rebelde

5 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Aos 64 anos, Athaylton Jorge Monteiro Belo não tem a estampa de um homem rebelde. Frei Tatá, como é conhecido, usa óculos de lentes grossas que deixam seus olhos desproporcionalmente pequenos, coleciona fios brancos no cavanhaque, calça sandálias de duas tiras e fala num tom de voz quase inaudível. Na juventude, porém, pulava muros e janelas para fugir do seminário e juntar-se a reuniões noturnas do movimento negro. Desde então, dividiu-se entre a Igreja Católica e a militância – e várias vezes juntou as duas coisas.

Em 2007, com apoio de um grupo de padres, bispos e diáconos negros de todo o Brasil, conseguiu aprovar uma lei municipal em São João de Meriti, para a construção do museu dedicado à memória do marinheiro João Cândido, líder da Revolta da Chibata, de 1910. Gaúcho de nascimento, Cândido passou as últimas quatro décadas de sua vida na cidade da Baixada Fluminense. O local escolhido foi uma casa do século XIX que pertenceu a um embaixador de Portugal – daí o nome do lugar onde está instalada: Morro do Embaixador. Do topo desse morro, avistava-se a Baía de Guanabara, palco da revolta dos marinheiros. A ideia era construir ali um mirante, integrado ao futuro museu.

Mas, passados dezessete anos da lei que o instituiu, o museu ainda não foi inaugurado. O atraso se estendeu por três governos municipais, todos alegando falta de verba. Nesse tempo, outro desafio se impôs: o Comando Vermelho agora domina o Morro do Embaixador, situado a 4 km do Centro de São João de Meriti. Em área controlada pelo tráfico, a casa que deveria abrigar o museu foi descaracterizada pelo descuido. Seus azulejos portugueses já se foram, e a crescente favelização obstruiu a vista que se tinha da Baía de Guanabara, pondo fim à ideia do mirante.

Na manhã do dia 12 de junho passado, Frei Tatá estava mais uma vez reunido com voluntários e integrantes de movimentos sociais que lutam pela inauguração do espaço. Sentados em círculo na biblioteca de uma escola pública, eles reclamaram do desinteresse do poder público, discutiram planos de ação e lembraram a importância da memória de João Cândido. Até que Frei Tatá mostrou que sua veia rebelde ainda pulsa. “Pessoal, é importante lembrar que, quando exigimos reparação, estamos falando de grana também”, pontuou ele. “A família passa necessidade até hoje e nunca recebeu nada do Estado.”

Em novembro de 1910, João Cândido Felisberto liderou a tomada de quatro navios de guerra na Baía de Guanabara, apontando oitenta canhões em direção à orla do Rio. Entre outras demandas, a rebelião exigia o fim dos castigos físicos – como chibatadas – que a Marinha aplicava aos membros de baixa patente. À época, cerca de 90% dos marujos eram negros, filhos e netos de escravizados. Duas crianças morreram atingidas pelos disparos de canhão. O governo acabou aceitando as reivindicações, mas não cumpriu a promessa de anistia: prendeu e torturou os rebeldes.

Expulso da Marinha, João Cândido passou a vender peixes na Praça XV, no Centro do Rio – o que não lhe garantiu uma vida pacata. Novamente detido na década de 1930, acusado de subversão, decidiu mudar-se com a família para a Baixada Fluminense. Durante a ditadura militar, receando ser preso, ele queimou documentos e objetos relacionados a seu passado combativo.

O pescador raramente falava da revolta a seus filhos. Morreu em 1969, aos 89 anos, sem perdão nem homenagens. Uma de suas filhas, Zeelândia Cândido de Andrade, assumiu a luta pela anistia post mortem do pai e por sua reintegração à Marinha. Ele foi finalmente anistiado em agosto de 2002, três anos antes da morte de Zeelândia, mas sua família nunca recebeu os benefícios previdenciários militares.

Mais de um século depois do levante, João Cândido continua no centro de renhidas disputas. A sua estátua, hoje na Praça XV, passou anos guardada no Museu da República porque a Marinha não queria vê-la em espaço público. Só autorizou que fosse inaugurada em 2008 desde que estivesse posicionada de modo a não “olhar” para a Escola Naval, localizada nas proximidades.

No fim de abril deste ano, a Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados realizou uma audiência pública, presidida pelo deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB), para debater a inclusão do nome de João Cândido no livro Heróis e heroínas da pátria, pedido que se arrasta desde 2018. Frei Tatá fez questão de comparecer, acreditando se tratar de uma discussão respeitosa. Teve que ouvir um orador convidado evocar a filosofia grega para negar o heroísmo de João Cândido. “Eu não podia falar porque não estava inscrito, mas não consegui ficar sentado de tanto nervosismo”, conta o religioso.

Dias depois, o almirante Marcos Sampaio Olsen, comandante da Marinha, enviou uma carta à comissão se opondo à homenagem. Apesar de reconhecer a justa luta contra os castigos físicos, afirmou que os revoltosos buscavam “vantagens corporativistas e ilegítimas” e os qualificou de “abjetos”. “As chibatadas agora são com as palavras”, disse Frei Tatá aos colegas de militância, no início de junho, ao se lembrar da audiência. “A gente toca numa ferida que eles não querem mexer.”

A falta de documentos particulares – destruídos pelo próprio Cândido – não impediu a construção do acervo do futuro museu, composto por livros, banners, recortes de jornais antigos e objetos de época. Neste ano, a Escola de Samba Paraíso do Tuiuti, que homenageou o Almirante Negro em seu enredo, doou quase todo o material do quinto carro alegórico ao museu. O acervo está guardado num prédio próximo à Prefeitura de São João de Meriti.

Os voluntários costumam levar a exposição itinerante a escolas públicas da região. “Antes não tínhamos quase nada, agora precisamos de caminhão para levar tudo”, diz Frei Tatá. A expectativa é que o espaço seja inaugurado no mês que vem – eles acreditam que o prefeito João Ferreira Neto (PL) não vai entregar de bandeja para a próxima gestão a oportunidade de inaugurar o primeiro museu municipal da cidade. Quando isso acontecer, a visita deverá ser feita em grupo, e uma van conduzirá o público da entrada da comunidade até o museu.

Há ainda uma razão forte para ter pressa na inauguração. O último filho vivo de João Cândido, Adalberto (conhecido como Candinho), já tem 85 anos e sonha em ver o prédio inaugurado na cidade onde cresceu. Ele não se importa com as honrarias da Marinha: seu desejo é poder celebrar o pai como um herói popular.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


É repórter da piauí