CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2024
Memórias do Reich
Palacete no interior do Paraná ocultava um quadro nazista
João Batista Jr. | Edição 212, Maio 2024
O Casarão Villa Anna é a joia arquitetônica de Campo do Tenente, cidade a cerca de 100 km de Curitiba. Construído entre 1923 e 1928, é considerado um dos mais belos palacetes preservados do Paraná. Tem três andares (além de um misterioso subsolo), com 980 m² de área construída sobre um terreno de 27 mil m². Até quatro anos atrás, os visitantes só podiam admirar seu exterior em estilo neoclássico alemão. O lugar estava desocupado desde 2015, mas os proprietários não permitiam visitações.
Em 2019, quando o casarão foi posto à venda, havia duas formas de arrematá-lo: com todo o mobiliário, ou apenas o imóvel. Por 2,7 milhões de reais, o município comprou o lugar sem a decoração, para convertê-lo em sede da Secretaria Municipal de Educação e Esportes. Foi então que encontraram certos pertences muito singulares deixados pelos ex-proprietários.
No segundo andar do casarão, uma sala conservava uma substantiva memorabilia nazista, com vários livros em alemão exibindo a suástica na lombada. O item mais vistoso estava em cômodo com objetos da família: um quadro de mais de 1 metro de largura, de autor desconhecido, intitulado O dia de Potsdam.
Assim ficou conhecida a data de 21 de março de 1933, quando Adolf Hitler, chanceler da Alemanha, encontrou-se na cidade de Potsdam, nos arredores de Berlim, com o presidente do país, Paul von Hindenburg, herói da Primeira Guerra Mundial. O encontro foi planejado pelo recém-nomeado ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, como uma consagração do nascente regime nazista, ungido por um representante do velho establishment. A elite militar, política e econômica da Alemanha estava presente.
Hitler e Hindenburg estão no centro do quadro. Uma etiqueta atrás da tela documenta sua origem: Der Schule Campo do Tenente / vom Volksbund für das Deutschtum im Ausland über den ldl (À escola de Campo do Tenente, / da Associação Popular para Germanidade no Exterior, por intermédio da LDL). LDL é a sigla da Landesverband Deutsch-Brasilianischer Lehrer (Liga Nacional de Professores Teuto-Brasileiros). A data do envio da obra para “Curityba” foi 30 de abril de 1936.
A Volksbund für das Deutschtum im Ausland foi criada no entreguerras para auxiliar os alemães que estavam se radicando em outros países. “Com a perda de poder e de território após a Primeira Guerra, muitas pessoas deixaram a Alemanha”, diz Luís Edmundo Moraes, professor de história contemporânea da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e doutor pelo Centro de Pesquisa sobre Antissemitismo da Universidade Técnica de Berlim. “A associação que doou o quadro ficou com a missão de ajudar na manutenção da cultura e língua alemãs no exterior, fazendo doação de livros para escolas e entidades culturais. Com o surgimento do nazismo, ela foi nazificada e passou a difundir valores do partido.”
São Paulo e Rio de Janeiro, entre outras capitais brasileiras, contavam com escritórios da associação. Seus representantes não eram necessariamente nazistas. “Mas o Partido Nazista foi forte aqui no Brasil nos anos 1930. Contou com 3 mil inscritos”, diz Moraes.
Sublinhando as estranhezas do Casarão Villa Anna, o subsolo tem três túneis. Dois deles, malconservados, já não permitem circulação. O terceiro, com 200 metros de comprimento, conduz até os fundos da casa, onde passa um riacho. Com o teto côncavo, tem mais de 1 metro de largura, permitindo o trânsito de duas pessoas lado a lado. No seu interior foram encontradas correntes e peças de madeira.
Emancipado em 1961 – até então, era distrito do município vizinho de Rio Negro –, Campo do Tenente vive da agricultura. Metade de seus 8 mil habitantes mora na zona rural, onde se cultiva soja, maçã, feijão e batata. A população é composta sobretudo de descendentes de imigrantes alemães e poloneses.
O homem que ergueu o casarão da Villa Anna era natural de Hamburgo. Chamava-se Enrich Stahlke (1865-1942) – ou, como seria conhecido no país de adoção, Henrique. “Ele se casou com Anna Grein em 1906, aqui no Brasil”, conta o historiador e escritor Fábio Koifman, um dos maiores especialistas em imigração no Brasil. O nome do casarão vem da esposa de Stahlke.
A imprensa local da época qualificava Stahlke como um “industrial”. Ele montou uma olaria e serrarias movidas a força hidráulica. A olaria chegou a produzir 120 mil telhas por mês. Ele também fazia caixas para a exportação de laranjas. No esforço de atrair trabalhadores para Campo do Tenente, construiu casas para seus funcionários, com iluminação elétrica. Por sua posição eminente, Stahlke ganhou o posto de major da Guarda Nacional.
“A prefeitura reuniu os pertences deixados pela família Stahlke e criou um memorial”, informa Cleusa Komarchewski, da Secretaria de Desenvolvimento, Cultura e Turismo do município da cidade. O quadro e os livros nazistas foram levados para este acervo aberto ao público. “Isso faz parte da história da família, que era alemã. Não quer dizer que a prefeitura apoie o nazismo.”
O casarão vem sendo cedido pela prefeitura para uso privado. Há dois meses, a equipe do filme de terror Relicário, do diretor paranaense Guto Pasko, fez gravações ali. “A prefeitura já emprestou também para cursos e eventos. Nós não cobramos aluguel, mas exigimos uma contrapartida”, explica Guilherme Vinicius Machado da Silva, diretor da Secretaria de Cultura. A produção do filme, por exemplo, oferecerá aulas gratuitas de dramaturgia para a população.
Quem vendeu o casarão à prefeitura foi Marga Stahlke Grein, descendente de Henrique e Anna. Ela hoje mora em uma propriedade rural. Seu filho, Guilherme, é presidente da cooperativa agrícola mais importante da região. Dias após a piauí procurar a prefeitura de Campo do Tenente para falar do quadro nazista, a reportagem foi informada que a tela seria agora doada ao Museu do Holocausto, de Curitiba.
