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ORGULHO ANTES DO ORGULHO

Um acervo da memória LGBTQIAPN+ em Belo Horizonte
CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2026
CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2026

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Em abril de 1958, o agricultor Edmundo de Oliveira se casou com Maria Raimunda da Silva em um cartório de Belo Horizonte. O enlace foi anunciado por uma nota no jornal O Diário, que pertencia à arquidiocese da cidade. O periódico católico, porém, ignorava o que havia de pioneiro nas núpcias: Oliveira era um homem trans, talvez o primeiro a se casar oficialmente no Brasil – “e com a bênção da Santa Madre Igreja”, brinca o escritor Luiz Morando, de 61 anos, que descobriu esse caso inusitado.

Rato de arquivos, Morando é uma espécie de arqueólogo do movimento LGBTQIAPN+: sua pesquisa se concentra no período em que essa sigla ainda não era conhecida e tampouco existia um movimento minimamente organizado. Ele começou a se interessar pela história do agricultor em 2013, quando encontrou na Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais um exemplar do jornal Estado de Minas de agosto de 1981 que noticiava a morte de um “rondante” (vigia noturno), vítima de infarto. No pronto-socorro, verificou-­se que o falecido tinha seios e vagina. “Rondante era mulher”, estampou o jornal. Era Edmundo de Oliveira.

A história da revelação póstuma trouxe à lembrança de Morando outro texto, que ele já tinha guardado em seus arquivos pessoais: uma matéria publicada pelo Diário de Minas, em 1952, sobre uma transição de gênero (para usar a expressão atual) que se tornara pública na capital mineira. “Um sonho que não poude [sic] ser”, troçava o jornal. O sujeito que sonhava o impossível era, de novo, Oliveira.

O pesquisador passou então a devassar os cartórios da cidade, até encontrar uma certidão de nascimento emitida para um homem adulto em 1954. Seu nome: Edmundo de Oliveira. “Ele contou alguma história que colou: que foi assaltado, que perdeu os documentos num incêndio, numa inundação”, especula Morando. Foi com essa certidão que Oliveira casou-se com Raimunda, num ato dissimulado de desobediência civil. “Quando confirmei que o sujeito de 1981 era o mesmo de 1952 e 1958, eu chorei”, diz Morando. “Hoje, a gente luta pelo direito de ser tratado com respeito, e impressiona ver como essa pessoa se manteve à margem e viveu com autonomia e orgulho. Fiquei exultante.”

Edmundo de Oliveira conseguiu enganar o cartório para se identificar como homem nas certidões de batismo e matrimônio, mas acabou sepultado com o nome feminino de batismo.

Morando começou a colecionar excertos de jornais, fotos, cartas e outros documentos da vida LGBTQIAPN+ no Brasil em 1987, quando se preparava para o mestrado em letras na UFMG. Em sua dissertação, estudou a relação do discurso médico do fim do século XIX com a literatura do período.

Seguiu a pesquisa no doutorado, e logo o que havia começado como uma modesta coleção de documentos e periódicos se transformou numa das maiores coleções sobre o assunto. Só de matérias publicadas na imprensa, são 250 pastas organizadas por temas como cinema, violência urbana, movimentos sociais, saúde, boemia e teatro, cobrindo um período que vai de 1917 até os anos 2000.

Nesse acervo que só fazia crescer, Morando encontrou temas para dois livros. Paraíso das maravilhas, publicado em 2008 pela Fino Traço, narra a história de um crime que em 1946 atiçou a imaginação belo-horizontina: um assassinato cometido no Parque Municipal, ponto de encontros eróticos de homens gays no Centro da cidade. Enverga mas não quebra, lançado em 2020 pela editora O Sexo da Palavra, é a biografia de uma figura que ganhou contornos lendários na noite mineira a partir dos anos 1950, a travesti Cintura Fina.

Convertida em personagem de Hilda Furacão, romance de Roberto Drummond, Cintura Fina também figurou na minissérie inspirada no livro que a Rede Globo exibiu em 1998. Foi interpretada por Matheus Nachtergaele. Biografia, romance e minissérie mostram como a Justiça, a medicina e a imprensa tratavam aqueles que não se adequavam à norma heterossexual: eram tidos como pessoas degeneradas e doentes, sujeitas ao deboche público.

Depois de iluminar esses personagens esquecidos, Morando começou a se questionar sobre o destino dos documentos que vem recolhendo. “Ainda espero viver muito e tal, mas e, quando eu morrer, o que aconteceria com o acervo? Não quero que se desfaçam de nada sem a minha orientação”, diz. Por isso, em 2017, o escritor iniciou as tratativas para entregar seu acervo ao Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT+ da UFMG.

Vencida a burocracia e superada a pandemia, a coleção de Morando foi abrigada pela universidade. Acrescida de relíquias doadas por outros pesquisadores, está aberta para a consulta do público desde agosto do ano passado. O acervo ocupa duas salas na biblioteca da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, e já se cogita a abertura de uma terceira dependência, tamanha a quantidade de documentos. O nome do arquivo homenageia uma figura histórica cuja vida Morando reconstituiu: Acervo LGBT+ Cintura Fina. É a primeira coleção do gênero incorporada por uma universidade. “Essas histórias nos mostram pessoas que estão tentando não digo nem se organizar socialmente, mas bancar uma identidade minimamente confortável para elas”, diz Morando. “As gerações mais novas precisam conhecer seus precursores para poderem ter uma ideia de lastro, de rastro.”

Nos arquivos, é possível ler manchetes de jornais como o Diário da Tarde, de Belo Horizonte, em 1959: “Menores efeminados queriam fundar um clube na capital” (a iniciativa foi proibida pela polícia). Já no museu digital Bajubá – outra iniciativa de Morando – constam despachos de censores do governo, como aquele que, no mesmo ano, vetou a encenação de A mulher proibida, peça de autoria de Cassandra Rios. “Os diálogos da peça são uma apologia declarada e nada decorosa ao lesbianismo”, justificou um burocrata.


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É jornalista e doutor em Comunicação pela UnB