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CANTO E DESENCANTO

A desilusão de um músico peruano com a política de seu país
CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2026
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Em meados dos anos 1970, quando ainda era um adolescente, Miguel Laura trabalhava nas ruas, vendendo livros e revistas em Lima, capital do Peru. Era um canillita, como são chamados esses ambulantes no país (a palavra vem de canilla, “canela da perna”).

Um dia, Laura se envolveu em um tumulto que tomou a Plaza Dos de Mayo, quando forças militares investiram contra trabalhadores que marchavam por Lima com destino à sede da Confederação Geral dos Trabalhadores. O presidente era então o general Francisco Morales Bermúdez, ferrenho anticomunista, que em 1975 derrubara do poder o também general Juan Velasco Alvarado, na melhor tradição das quarteladas latino-americanas.

Em meio à confusão nas ruas da capital, Laura foi detido pelas forças de Bermúdez. Duas obras explosivas haviam sido encontradas entre os livros que o garoto vendia: O estado e a revolução, de Lênin, e As cinco teses filosóficas, de Mao Tsé-tung. O segundo título era especialmente perigoso: o grupo guerrilheiro peruano Sendero Luminoso seguia a linha maoista.

Laura, que nunca teve envolvimento com a luta armada, foi interrogado pelos militares, que o liberaram em seguida. Mas essa breve passagem pelo aparato de repressão deixou sua marca. “Foi uma experiência muito forte que vivi, muito dramática, e que me fez aprender que o que eu vendia tinha algo diferente, distinto, que podia ser um perigo”, ele conta à piauí.

Ainda jovem, Laura se iniciou na música e na literatura, escrevendo canções, poemas e contos de teor crítico, sobre a pobreza e as injustiças no Peru. Hoje, aos 60 anos, ele é um dos principais compositores peruanos de cúmbia, gênero musical popular que nasceu na costa caribenha da Colômbia e se espalhou pela América de língua espanhola, misturando ritmos indígenas, africanos e europeus. É também um importante historiador desse estilo musical, sobre o qual já publicou livros, o mais recente deles Historia de la cumbia peruana (2021). “A cúmbia é um grito de humanidade diante de um mundo desumanizado, materialista e mercantilista”, ele define.

Ao longo de sucessivos regimes autoritários no Peru, Laura se viu obrigado a engavetar muitas de suas letras. “Sempre tive uma posição humanista como artista, como músico”, diz. “Sempre tive uma simpatia profunda pelo meu povo, pelos mais necessitados e humildes.” Essa simpatia nunca esmoreceu, mas as repetidas crises no Peru desiludiram o compositor. Ele já não acredita que a política institucional possa trazer soluções para as mazelas de seu país.

Por isso mesmo, no segundo turno das eleições presidenciais peruanas, em 7 de junho passado, Laura tomou uma decisão radical: resolveu se abster pela primeira vez na vida.

No Rio de Janeiro, o estudante Diego Fuentes, sobrinho de Miguel Laura, também não estava entusiasmado com as eleições peruanas. No dia do segundo turno, porém, ele tomou ânimo, acordou cedo e foi de seu apartamento em Copacabana até a Paróquia Santa Teresinha do Menino Jesus, no bairro de Botafogo. Ali estava instalada uma cabine de votação para que os peruanos residentes no Rio pudessem escolher entre Keiko Fujimori, do partido de direita Força Popular, e Roberto Sánchez, da legenda de esquerda Juntos pelo Peru. Apesar do desalento, o estudante de 23 anos não teve dúvida na hora do voto: apostou em Sánchez.

Há catorze anos no Brasil, os familiares de Fuentes rejeitam a direita, mas também estavam reticentes em relação ao candidato da esquerda. Por isso, alguns deles se abstiveram de votar. “O Peru realmente sofre com questões de segurança pública, uma das razões por que minha família saiu de lá. Esse é também um dos motivos de Keiko ser, hoje, a favorita. Ela quer militarizar o país”, afirma Fuentes, que é aluno do curso de rádio e tevê na UFRJ.

Nos últimos anos, o crime organizado se expandiu enormemente no Peru. Como outros políticos da direita latino-americana, Keiko Fujimori vê um caminho a ser seguido na linha dura que Nayib Bukele, presidente de El Salvador, adotou contra organizações criminosas, com o sacrifício de direitos constitucionais. Essa também foi a direção tomada na Colômbia pelo advogado Abelardo de la Espriella, de extrema direita, que venceu as eleições presidenciais no mês passado. 

Às vésperas do segundo turno no Peru, as pesquisas apontavam empate técnico entre Keiko Fujimori e Roberto Sánchez. Como a apuração se arrastou por semanas, com os candidatos se alternando na liderança da contagem, o suspense tomou conta do país, gerando novos conflitos. A campanha de Fujimori acusou irregularidades em várias atas eleitorais, e o mesmo fez o grupo de Sánchez. A Justiça Eleitoral teve que se debruçar sobre a recontagem de cédulas em algumas regiões, enquanto aguardava os votos vindos do estrangeiro, que tendiam a preferir Fujimori. 

Para frustração de Fuentes, em 24 de junho – dezessete dias depois da votação –, com 99,86% das atas apuradas, as autoridades eleitorais peruanas disseram que Keiko Fujimori havia obtido uma vantagem insuperável em relação a Sánchez, com 50,12% dos votos contra 49,88% – uma diferença de cerca de 43 mil votos. Prevendo a derrota, Sánchez já havia anunciado que não reconheceria o governo de Fujimori, acirrando a crise política.

Keiko é filha do ex-presidente Alberto Fujimori, que, eleito em 1990, deu um golpe de Estado dois anos depois, fechando o Congresso, a pretexto de debelar a crise institucional e econômica do país, e também de combater a guerrilha. O ditador enfraqueceu o Sendero Luminoso à custa de violações de direitos humanos, controlou a hiperinflação e estabilizou a economia, mas não conseguiu resolver os principais problemas sociais do Peru.

Acossado por graves denúncias de corrupção e protestos em todo o país, Alberto Fujimori renunciou à Presidência em 2000, por meio de um fax enviado do Japão, onde estava em uma viagem oficial. A renúncia foi rejeitada, e o presidente acabou destituído pelo Congresso. Fujimori não retornou ao Peru. Passou cinco anos no Japão e foi preso no Chile em 2005. Dois anos depois, foi extraditado para seu país. Julgado e condenado por vários crimes, só deixou a cadeia em 2023. Morreu no ano seguinte, aos 86 anos.

Agora, o receio de muitos é que o fantasma autoritário de Alberto Fujimori volte a assombrar o país no governo de sua filha, que segue a típica cartilha da ultradireita: promete construir megaprisões, expulsar imigrantes e retirar o Peru da Corte Interamericana de Direitos Humanos.

“As propostas de Roberto Sánchez são muito mais amplas que as de Keiko Fujimori”, afirma o estudante Diego Fuentes. “Mas digamos que são uma cópia do que os presidentes de esquerda anteriores propuseram. Não têm renovação.” Sánchez defendia um Estado mais forte, políticas de redistribuição de renda e apoio prioritário aos que vivem no interior do país.

Também para Miguel Laura o candidato de esquerda seria mais tolerável que Keiko Fujimori. “Mas ser tolerável não basta para conquistar o coração do eleitor”, diz o compositor. “Eu estou um pouco decepcionado, desencantado, mas mantenho a esperança de que encontraremos, em algum momento, uma transformação integral.”

O Peru teve oito presidentes nos últimos dez anos, quatro deles afastados pelo Congresso. A instabilidade é um dos motivos do agudo desencanto com a política que assola o país. Sinal disso foi o que ocorreu neste segundo turno. Apesar de o voto no Peru ser obrigatório para cidadãos de 18 a 69 anos (inclusive para os que vivem fora do país), calcula-se que, como Laura, em torno de 28% dos 27,3 milhões de eleitores peruanos optaram pela abstenção. Cerca de 6,5% votaram branco ou nulo.


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