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MONTANHAS DE AR

O artista JR cria uma caverna no Centro de Paris
CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2026
CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2026

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Há pouco mais de dois meses, uma cadeia de montanhas se elevou sobre o Rio Sena, em pleno Centro de Paris. Essa insólita cordilheira ocultou a Pont Neuf – que, apesar do nome (“ponte nova”, em português), é a ponte mais antiga da cidade. Os montes pareciam feitos da mesma rocha com que a ponte foi construída, em 1607, mas eram apenas longas extensões de tecido costurados à mão e inflados com ar – uma obra concebida por jr, francês de 43 anos, responsável por intervenções urbanas em várias cidades mundo afora. 

O artista que assina seus trabalhos só com iniciais ficou conhecido no Brasil por obras temporárias montadas no Rio de Janeiro. Uma delas mudou a aparência do Morro da Providência, a primeira comunidade brasileira a ser chamada de “favela”, no fim do século XIX. Em 2008, JR decorou os muros que circundam a Providência com imensas fotos em preto e branco de habitantes do lugar, que pareciam observar as atividades do Centro carioca. Nos Jogos Olímpicos de 2016, ele montou duas figuras hiperbólicas no Rio: um atleta do salto em altura que passava por cima de um prédio do Aterro do Flamengo e uma nadadora gigante na Enseada de Botafogo.

Comparados a esses esportistas descomunais, os montes infláveis que se refletiam nas águas do Sena até parecem modestos. Mas eles não estavam lá apenas para serem contemplados: JR concebeu uma experiência sensorial para os habitantes e turistas de sua cidade natal, que, ao atravessar a ponte, cruzavam por dentro a cadeia de montanhas, como se se aventurassem em uma caverna. Vem daí o título da obra: La caverne du Pont Neuf. 

Fica clara a alusão ao mito da caverna de Platão – a alegoria em que as pessoas dentro da caverna confundem sombras na parede com a realidade. Em plano menos metafísico, a obra homenageia dois pioneiros das intervenções urbanas em grandes dimensões: o búlgaro Christo (1935-2020) e sua mulher, a francesa Jeanne-Claude (1935-2009). Em 1985, o casal realizou um de seus feitos mais conhecidos: embrulhou a Pont Neuf com um tecido sedoso dourado. No ano passado, para marcar os quarenta anos dessa obra, Vladimir Yavachev, sobrinho do casal e diretor de projetos da Fundação Christo e Jeanne-Claude, convidou JR para celebrar seus tios com mais uma reconfiguração da velha ponte.

JR, que também é fotógrafo, em muitos de seus trabalhos cola suas imagens sobre muros e paredes, como fez no Morro da Providência. Mas ele não quis empregar esse método na ponte. Também descartou os andaimes de metal que sustentaram os atletas gigantes no Rio. “Seriam pesados demais”, diz Marc Azoulay, diretor do estúdio de JR. Yavachev sugeriu então que ele trabalhasse com infláveis, como Christo. JR aceitou o desafio. A estrutura da caverna foi projetada em colaboração com a Air Toiles Concept (ATC), empresa da Bretanha, no noroeste da França. A cor e a textura do pano imitavam o cinza-claro do calcário luteciano, também conhecido como a “pedra de Paris”. Comum na região, essa rocha foi empregada na construção de marcos da cidade, como o Museu do Louvre, o Arco do Triunfo e, claro, a Pont Neuf. A ideia era reconfigurar a ponte mais celebrada de Paris na forma de sua matéria original – como uma pedra bruta no Centro da capital francesa.

Depois de um teste no Aeroporto de Paris-Orly, La caverne du Pont Neuf, com 18,9 mil m² de tecido e 20 mil m³ de ar, foi erguida sobre a ponte em 20 de maio. Com estrutura externa quase concluída e faltando apenas montar o interior da caverna, o plano era abri-la para o público em 4 de junho. Mas então os eventos climáticos extremos que vinham assolando a França – e quase toda a Europa – cobraram seu preço. Dois dias antes da inauguração, Paris, recém-saída de uma onda de calor esturricante, foi fustigada por tempestades de granizo. Os ventos fortes rasgaram o tecido das montanhas.

O ar, elemento que deu vida ao projeto, quase o destruiu. 

Desconjuntada, com as entranhas expostas, a caverna parecia uma colagem surrealista, conjugando uma cordilheira a uma lagarta. Críticos avessos a projetos de arte pública em grande escala – sempre numerosos, ainda mais em Paris, onde se valoriza o antagonismo – aproveitaram o percalço meteorológico para subir o tom nos ataques ao projeto de JR. O radialista aposentado Jérôme Godefroy chamou a obra de “gruta brutalista”. No outro lado do Canal da Mancha, o jornal londrino The Times perguntou se a intervenção “polarizadora” de jr “passou do ponto – ou da ponte”. 

Sob os olhos dos parisienses céticos, o trabalho de reparo foi iniciado. Suspensos por cordas, operários labutaram dia e noite em torno do esqueleto luminoso da instalação, muito acima dos barcos turísticos que passeavam pelo Sena. Centímetro por centímetro e ponto por ponto, o tecido rasgado foi laboriosamente restaurado. A corrida para concluir La caverne du Pont Neuf tornou-se uma performance pública dentro da obra maior, uma ópera visual encenada 24 horas por dia. 

No dia 15 de junho, finalmente a caverna recebeu o público, gratuitamente. Aqueles que a atravessaram imergiram seus sentidos em uma realidade descolada da paisagem urbana lá fora. Sentia-se no ar um aroma que evoca o cheiro da terra logo depois da chuva – criação da Sarah Bouasse, perfumista e escritora. Thomas Bangalter, da dupla parisiense de música eletrônica Daft Punk, compôs a ambientação sonora. O objetivo era levar o visitante a “perder a noção de tempo e espaço”, nas palavras de JR. “Na verdade, você está logo acima do Rio Sena, o único elemento natural primordial que restou em Paris, e a Torre Eiffel fica logo atrás”, diz o artista. “Mas você não vê nada disso, pois está dentro da caverna.”

Cicatrizes da restauração foram deliberadamente preservadas, para demonstrar o esforço cooperativo que o projeto exigiu. “O trabalho acontece dentro do processo. É o processo de criação da obra que constitui a própria obra”, teoriza JR. Tal como acontecia com os colossais embrulhos de Christo e Jeanne-­Claude, a montanha de pano e ar criada por JR tinha data marcada para desaparecer. Apesar do atraso na abertura, La caverne du Pont Neuf encerrou suas atividades em 28 de junho, como previsto. No dia seguinte, começou o trabalho de desmontagem.


Tradução de Isa Mara Lando


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Escritor, investigador cultural e skatista, publicou Nothing by Accident: Brazil on the Edge (Independent Publishing Network)