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IMPACTOS DO ESPÍRITO SANTO

A conselheira espiritual de Michelle Bolsonaro
CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2026
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Três dias antes de publicar o vídeo que dividiu o bolsonarismo, Michelle Bolsonaro, de 44 anos, teve um encontro divino. Na sede da Comunidade das Nações, igreja evangélica que frequenta em Brasília, ela recebeu a nigeriana Obii Pax-Harry, que se apresenta como “apóstola” e uma “voz global” do cristianismo. Em meio a incontáveis referências a Deus e Jesus Cristo, a pregadora aconselhou Michelle a permanecer firme e suportar as provações. Dias depois, Pax-Harry publicou imagens do encontro em uma rede social, descrevendo a ex-primeira-dama como uma “serva incomum” e uma “arma secreta” nas mãos de Deus.

Quem ouviu a conversa entre as duas diz que Pax-Harry não acompanha a campanha eleitoral brasileira e dificilmente teria condições de oferecer conselhos específicos sobre o tema. O seu site oficial, porém, a descreve como mentora de “líderes” na igreja, nos negócios e nos governos. Michelle costuma defini-la como uma “amiga” e uma “mulher de Deus”. No último ano, a ex-primeira-dama manteve um canal direto de aconselhamento com a religiosa, justamente no período em que se tornaram mais nítidos os seus planos políticos – e os obstáculos para concretizá-los.

Em 24 de junho, quando Michelle publicou o vídeo em que criticou Flávio Bolsonaro, até mesmo a publicação de Pax-Harry no Instagram – rede na qual tem apenas 8 mil seguidores – foi alvo dos apoiadores do candidato do PL à Presidência da República. O bolsonarismo voltou-se contra a mulher de Bolsonaro. “Fique em casa, Michelle. Não atrapalhe mais a direita”, escreveu um eleitor. Naquele momento, Pax-­Harry ainda estava no Brasil. Seria a única mulher a falar em uma conferência organizada pelo bispo JB Carvalho, fundador da Comunidade das Nações. Ela não voltou a se encontrar com Michelle.

Obii Pax-Harry é uma senhora de cabelo curto, com mechas grisalhas, que usa óculos de aro largo e roupas de cores exuberantes. Deve ter entre 60 e 70 anos (ela não divulga a idade). Residente do estado de Mary­land, nos Estados Unidos, Pax-Harry tem vindo ao Brasil com frequência. Só no último ano, esteve no país quatro vezes. Em pelo menos duas delas, encontrou-se com Michelle. 

A nigeriana integra a Coalização Internacional de Líderes Apostólicos (Ical, na sigla em inglês). É uma organização que articula diferentes igrejas do movimento apostólico, segmento do neopentecostalismo que defende a expansão da influência cristã para além das igrejas, nas mais variadas esferas da sociedade: governo, mídia, educação, economia, artes. Fundada por John Kelly, a quem alguns fiéis se referem como “papa”, a coalizão tem entre seus integrantes brasileiros figuras como Estevam Hernandes, da Renascer em Cristo, e JB Carvalho.

Numa viagem a Dallas, onde fica a sede da Ical, a pastora e apóstola Débora Guillen conheceu o trabalho de Pax-Harry e a convidou para um evento de sua igreja, a Action Church – uma dissidência da Igreja Batista da Lagoinha, fundada pela família Valadão, e que tinha entre seus pastores Fabiano Zettel, preso depois de ser implicado nos escândalos do Banco Master. 

JB Carvalho gostou da ideia e ajudou a trazer Pax-Harry para o Brasil. Foi ele quem a apresentou à ex-primeira-dama. Desde que se mudou para Brasília, Michelle frequenta os cultos de Carvalho. A mulher do pastor, Dirce Carvalho, tornou-se uma das suas melhores amigas. Os dois se aproximaram do casal Bolsonaro quando Jair e Michelle ainda ocupavam o Palácio do Alvorada, e a ligação se manteve mesmo depois da mudança do governo, em 2023.

Antes de JB Carvalho, o principal pastor e conselheiro espiritual de Michelle era Josué Valandro Jr., da Igreja Batista Atitude, que ela frequentava quando morava na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Valandro Jr. chegou a abrir uma filial da igreja em Brasília para atender a fiel mais conhecida da congregação. Como não conseguiu se dividir entre a Barra e o Plano Piloto, acabou desbancado por Carvalho.

Embora Pax-Harry apresente a formação de líderes como uma de suas principais missões na Ical, não se conhecem políticos de destaque que tenham passado por sua mentoria. Em Abuja, na Nigéria, ela mantém um instituto de inspiração cristã, onde funciona a Escola de Governança e Ciência Política, que tampouco tem ex-alunos ou participantes de notoriedade pública.

A presença da apóstola nas redes sociais é bem modesta para os padrões de líderes religiosos com atuação internacional, e não se pode dizer que ela seja uma influência entre integrantes da bancada evangélica do Congresso. 

A piauí perguntou sobre a relevância de Pax-Harry no meio cristão brasileiro ao deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), pastor, teólogo e um dos principais articuladores políticos do segmento neopentecostal. Ele admitiu não a conhecer. “Nunca ouvi falar especificamente, mas normalmente esses são movimentos de mulheres de oração, as intercessoras, e a Michelle gosta muito disso”, afirmou. “Intercessor” é o termo usado no meio evangélico para designar pessoas que se dedicam a orar por terceiros ou por uma causa.

A proximidade com Michelle Bolsonaro vem dando certa visibilidade a Obii Pax-Harry no Brasil, onde seus livros foram publicados pelas editoras cristãs Sete Montes (que pertence a Débora Guillen) e Rica. Grande parte dos seguidores da nigeriana no Instagram é formada por brasileiros, incluindo parlamentares e pré-candidatas ligadas ao PL Mulher, organização que Michelle presidiu até romper com Flávio Bolsonaro.

Dora Rodrigues, pregadora ligada ao movimento apostólico que se dedica ao aconselhamento de empresários, acompanha o trabalho de Pax-Harry há cerca de cinco anos e tem a nigeriana como uma referência para mulheres que buscam ocupar espaços de liderança no meio evangélico, historicamente dominado por homens. “Por muitos anos, sobretudo aqui no Brasil, prevaleceu a ideia de que o cristão deveria ser aquele pobre miserável ou alguém restrito aos templos. Ela trouxe uma visão de influência, de uso dos talentos. Não de domínio e poder, mas de influência”, diz a pregadora. 

As viagens de Pax-Harry ao Brasil foram a convite de igrejas, mas a nigeriana diz que obedece a um chamado espiritual. “Ela me falou que estava vindo porque tinha recebido um direcionamento do Espírito Santo para impactar esta nação por alguns anos”, conta Dora Rodrigues. 

O pastor Marcelo Mardson tomou conhecimento de Pax-Harry também há cerca de cinco anos, ao ler um de seus livros, e logo começou a segui-la nas redes. Ela retribuiu e puxou papo, propondo conectá-lo com outros brasileiros proeminentes. Mardson diz que, em sua pregação, ela convoca os cristãos a serem “uma voz de influência na sociedade” e a tratarem de questões que antes eram “tabu” na igreja, como a política. “Antigamente, dizia-se que o crente não se misturava com política”, afirma. “Já essa leitura, chamada de Teoria dos Sete Montes, entende que o crente tem que influenciar.” Embora Pax-Harry não tenha criado tal teoria – que, divulgada por evangélicos americanos, não tem um autor único –, ela a propaga com fervor.

Se o aconselhamento espiritual de Pax-Harry teve alguma influência na decisão de Michelle de divulgar o vídeo que detonou a crise ainda inconclusa com Flávio Bolsonaro, a profecia do impacto sobre a nação está confirmada. Procurada pela piauí por intermédio da editora Sete Montes e de Débora Guillen, Pax-Harry não quis conceder entrevista. 


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Repórter da piauí. Foi editora de política na Veja, editora do Globo em Brasília e editora-chefe na Época