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Pedro Moro 02 Jul 2026
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A cafeteria Sheroes Hangout, em Nova Delhi, abre às onze da manhã e segue em atividade até onze da noite, bem perto da estação de metrô Sultanpur, em uma região movimentada da metrópole com mais de 30 milhões de habitantes. Antima Sharma trabalha lá faz oito meses. Organiza mesas, limpa balcões e atende os clientes no charmoso ambiente em que pequenas lâmpadas amarelas pendem de pergolados cobertos de plantas.
A atendente de 28 anos conta à piauí que a Sheroes Hangout desperta “curiosidade nos visitantes” – uma curiosidade voltada para as funcionárias da casa. Sharma e suas colegas de trabalho carregam marcas visíveis de uma forma de violência misógina enraizada na Índia: queimaduras de ácido, lançado sobre elas por homens.
O nome do lugar exalta, em inglês, a coragem das sobreviventes que preparam e servem café. Sheroes aglutina as palavras she (ela) e heroes (nesse contexto, heroínas). Hangout é ponto de encontro. A primeira cafeteria da marca foi aberta em 2014, na cidade de Agra, por iniciativa da Fundação Chhanv, ONG criada um ano antes para amparar as vítimas de ataques com ácido.
A proposta era montar um espaço de acolhimento e trabalho para mulheres que outros empregadores recusavam por preconceito. “O trabalho me dá dignidade. Me faz sentir que não estou apenas sobrevivendo”, diz Sharma. A Sheroes Hangout é hoje uma pequena rede nacional, que opera no modelo “consuma e pague quanto quiser”. Além de Agra e da capital, Nova Delhi, as cidades indianas de Lucknow, Noida e Pune também contam com unidades da cafeteria.
Dados de 2022 do Departamento Nacional de Registros Criminais vêm apontando entre 200 e 250 ataques com ácido por ano na Índia. As mulheres representam cerca de 80% das vítimas, um percentual consolidado por levantamentos da ONG britânica Fundação Internacional para Sobreviventes de Ácidos (Asti, na sigla em inglês). De acordo com uma revisão epidemiológica global publicada na revista científica PRS Global Open, os homens são 89% dos autores desses crimes. Na maioria dos casos, o agressor é uma pessoa conhecida da vítima.
Quando se sente confortável com os clientes, Antima Sharma às vezes conta a história do ataque bárbaro que sofreu há três anos, em sua própria casa.
Então com 25 anos, Sharma estava dormindo quando um homem invadiu a casa de sua família em Ayodhya, por volta das duas e meia da madrugada do dia 11 de julho de 2023. Ele foi até o quarto da jovem e derramou ácido sobre seu peito e rosto. A dor foi – e ainda é – “indescritível”. “Em um único instante, minha vida mudou completamente”, ela diz. Sharma teve de passar por diversas cirurgias, três delas foram no peito e outras duas para remover a pele queimada. Ela ficou três meses na UTI. Perdeu o olho esquerdo e partes do nariz e dos lábios.
Sharma conhecia o agressor: ele quase foi seu marido. De acordo com a ancestral tradição do matrimônio arranjado, ainda vigente em boa parte da Índia, a família fez os acertos para o casamento dos dois. Mas Sharma depois percebeu que ele bebia demais – tinha “hábitos ruins”, nas palavras dela – e cancelou o acordo. Inconformado, o sujeito decidiu atacar a ex-noiva.
No hospital, Sharma passou por uma traqueostomia, o que dificultava sua fala. “Eu estava passando por tanta dor que não conseguia compartilhar meus sentimentos com ninguém”, recorda. Sua mãe, sua irmã e o irmão lhe deram amparo, mas ela também recebia visitantes insensíveis. “Eles diziam coisas como: ‘Ela é uma garota, agora quem vai casar com ela?’” Por causa de comentários assim, Sharma passou muito tempo escondendo o rosto.
Desfigurar as vítimas é parte da lógica perversa dos ataques com ácido: a socióloga Garima Rawal, doutoranda da Escola de Economia de Delhi, que há quase uma década estuda essa forma extrema de misoginia, diz que ela representa “uma manifestação sistêmica do controle patriarcal”: o criminoso busca “punir a autonomia feminina” e provocar a “morte social” da mulher atacada.
O irmão de Sharma bancou parte das despesas hospitalares. “Algumas vezes, ele passava fome, mas sempre tentou ajudar”, ela conta. Meses depois da alta, a jovem ainda precisou ir ao hospital para continuar o tratamento.
Em uma das consultas em Lucknow, o médico lhe falou da Sheroes Hangout, que tinha uma unidade na cidade. No dia seguinte, 7 de setembro de 2024 – por coincidência, seu aniversário –, Sharma decidiu conhecer a cafeteria. “Quando fui lá, encontrei pessoas que eram como eu”, lembra. Inspirada pelas atendentes do lugar, ela foi aos poucos perdendo a vergonha do convívio social. “Eu me senti bem feliz lá.” Também passou a frequentar as atividades da Sheroes Hangout em Noida. Em 15 de outubro de 2025, quando a unidade de Nova Delhi foi inaugurada, Sharma começou a trabalhar na capital.
Na Índia, até pouco mais de uma década atrás, as substâncias mais empregadas em ataques contra mulheres podiam ser adquiridas quase sem restrições no comércio, a preços razoáveis. Ácido sulfúrico e ácido nítrico, altamente corrosivos, eram vendidos para uso doméstico na limpeza de banheiros e encanamentos.
Em 2013, depois de forte pressão social liderada pela ativista Laxmi Agarwal, sobrevivente de um ataque, e por organizações como a Stop Acid Attacks (embrião do que pouco depois seria a Fundação Chhanv), a Suprema Corte indiana regulou a venda de ácidos. Comerciantes agora têm de registrar a identidade dos compradores de substâncias corrosivas e declarar seus estoques às autoridades legais.
O Bharatiya Nyaya Sanhita, novo Código Penal indiano, em vigor desde 2024, prevê penas para ataques com ácido que podem chegar à prisão perpétua. Mas a Comissão Nacional de Direitos Humanos da Índia considera que ainda é demasiado fácil obter corrosivos perigosos no país.
Na Sheroes Hangout, mulheres queimadas por essas substâncias agora criam, nas redes sociais, campanhas contra a violência misógina. Aparecem sempre sorrindo, por razões que Sharma explica bem: “Quero que a sociedade entenda que sobreviventes não são pessoas quebradas. Nós temos sonhos, habilidades e o direito de viver plenamente.” Em abril, um vídeo publicado pela equipe de Nova Delhi no Instagram ultrapassou 4 milhões de visualizações.
Trabalhando na cafeteria, Sharma diz ter compreendido uma noção essencial para a vida pós-trauma. “Hoje eu consigo olhar para mim mesma e entender que sou mais do que aquilo que aconteceu comigo”, diz. Ela reforça o recado que todas as mulheres da Sheroes Hangout tentam dar à Índia: “A vergonha pertence ao agressor.”