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Leandro Aguiar 02 Jul 2026
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Ao final do depoimento, todos na sala onde se reuniu a Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania – inclusive a então ministra Macaé Evaristo – ergueram o punho cerrado, gesto consagrado pelo movimento negro americano Panteras Negras. Por unanimidade, a comissão reconheceu em 2 de dezembro passado que José Reinaldo de Lima, o maior artilheiro da história do Atlético Mineiro, foi perseguido pela ditadura, e que essa perseguição lhe causou prejuízos pessoais e profissionais. O Estado brasileiro pediu perdão ao jogador e o indenizou em 100 mil reais.
“Talvez vocês se lembrem da minha trajetória nos campos, mas pode ser que não saibam da luta, muitas vezes silenciosa, que tive que enfrentar”, declarou Reinaldo, com voz embargada. “Todos sabemos dos horrores da ditadura que tiraram a vida de tantos brasileiros, mas a repressão foi além dos porões e não usava só a violência física. Criavam campanhas de difamação para acabar com a reputação das pessoas que consideravam ameaças. Era uma máquina de mentiras que agia nas sombras, com resultados terríveis na vida real.”
Nos anos 1970 e 1980, quando os militares ainda mandavam no país, Reinaldo costumava levantar o punho cerrado sempre que fazia um gol. Era um gesto de protesto e luta dos negros na época: punhos cerrados também foram erguidos no pódio dos Jogos Olímpicos do México, em 1968, pelos velocistas americanos Tommie Smith – medalha de ouro nos 200 metros –, e John Carlos, medalha de bronze.
Os problemas de Reinaldo com os militares começaram na preparação brasileira para a Copa do Mundo de 1978. A Argentina, país sede da disputa, era então governada pelo general Jorge Videla, que desejava vender a imagem de que tudo corria bem por lá. O ditador viu a seleção da casa levar a Copa. Teve, porém, de engolir o protesto da seleção holandesa, a vice-campeã, que se recusou a participar, depois da final, de uma cerimônia com a presença de Videla.
Naturalmente, os generais que detinham o poder no Brasil não desejavam melindrar o amigo argentino. Por isso, preocupavam-se com o jovem mineiro que despontava como craque na equipe que tinha Rivellino e Zico.
Meses antes da Copa, Reinaldo, então com 21 anos e cabelo black power, defendera, em entrevista ao jornal de esquerda Movimento, a criação de uma Constituinte, a anistia aos presos políticos e a realização de eleições diretas. Em Porto Alegre, antes do embarque para Buenos Aires, o escrete foi chamado para um encontro com o presidente Ernesto Geisel, no Palácio Piratini, sede do governo gaúcho. “O general disse que eu jogava muito bem, mas que não deveria falar de política porque disso eles cuidavam. Fiquei assustado e não respondi nada”, recordou o jogador num depoimento registrado em Punho cerrado: a história do Rei, biografia escrita por Philipe Van Lima, seu filho.
No primeiro jogo da Copa, o Brasil perdia de 1 a 0 para a Suécia quando Toninho Cerezo recebeu a bola na intermediária e, num passe perfeito, encontrou Reinaldo na grande área. Com um toque sutil, ele se desvencilhou do zagueiro e chutou no ângulo, sem chances para o goleiro. Fez o gol e, sorrindo, ergueu o punho cerrado para o estádio.
Reinaldo não exerceu impunemente a liberdade de expressão. Até o fim da ditadura, espiões do Serviço Nacional de Informações (SNI) seguiram os passos do jogador, dando conta de atividades consideradas “subversivas”: a amizade com Frei Betto e a presença em eventos como o lançamento da Associação Cultural José Martí, voltada à promoção da cultura cubana. Antes sigilosos, esses relatórios são hoje públicos. A perseguição da ditadura a Reinaldo está documentada.
Mais difíceis de comprovar são as retaliações da Confederação Brasileira de Desportos (atual CBF) às ousadias do atleticano. Comandada então por Heleno Nunes, almirante filiado à Arena, partido de sustentação da ditadura, a entidade proibiu Reinaldo de jogar a final do Brasileirão de 1977 contra o São Paulo. O pretexto: ele havia sido expulso pelo juiz, por reclamação, em uma partida que acontecera seis rodadas atrás.
Na final de 1980, vencida pelo Flamengo, o centroavante foi expulso, outra vez por reclamação. Na semifinal da Libertadores de 1981, também contra o Flamengo, o juiz expulsou cinco atletas do Atlético Mineiro, entre eles Reinaldo. Sua senhoria, o vexame foi o título que a revista Placar deu à reportagem sobre o jogo.
Para Reinaldo – e boa parte dos atleticanos – esses lances não foram casuais. Pelo contrário, refletiam a perseguição ao craque. “Não existia uma linha clara entre o público e o privado. O governo se metia em todas as áreas da sociedade. Por que teriam o limite ético de ficar de fora das decisões dentro de campo?”, questiona o jogador, em conversa com a piauí.
Depois da Copa de 1978, uma campanha de difamação, coordenada não se sabe por quem, começou a circular na imprensa mineira, sugerindo que Reinaldo era usuário de maconha, comunista e homossexual. Embora seguisse marcando gols e quebrando recordes, o centroavante nunca mais foi convocado para uma Copa.
"Os prejuízos não voltam, mas acho importante que as histórias sejam encaradas, sem fingir que nada aconteceu”, diz Reinaldo, refletindo sobre sua recente condição de anistiado político. “Já vimos que esse movimento de varrer para debaixo do tapete só serve para os erros voltarem a acontecer.”
Prestes a completar 70 anos, Reinaldo hoje se dedica a outro esporte: o xadrez. Amigo dos livros, ele percorreu as biografias de grandes mestres enxadristas, como Magnus Carlsen e Garry Kasparov, estudando suas estratégias. Criou também o Torneio de Xadrez do Rei, evento anual realizado em cidades mineiras que consta no calendário da modalidade.
Embora tenha sempre sido um atleta engajado, Reinaldo não estranha que boa parte dos jogadores de futebol não se importe com política. “A maioria vem de famílias humildes e deixam de estudar muito cedo. Por isso, existe uma dificuldade em ter um bom conhecimento de tudo que se passa”, diz. Exceção é Vinícius Júnior, atacante da Seleção Brasileira e do Real Madrid. “O esporte pode ajudar a despertar o que há de melhor nas pessoas, por isso é louvável a atitude do Vini de usar sua força para conscientizar o público sobre o racismo”, elogia Reinaldo.
Apesar dos sobressaltos que a democracia brasileira experimentou nos últimos anos, o eterno Rei do Atlético prefere ver o copo meio cheio. “A democracia não é uma obra pronta, deve ser continuamente aperfeiçoada”, ele reflete. “No Brasil, existem motivos para pessimismo e otimismo. Eu prefiro fazer a minha parte para conseguirmos um mundo melhor para nós.”