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Pedro Tavares 02 Jun 2026
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Na tarde de 13 de maio passado, Fabiano e Silva Leitão Duarte cancelou todos os seus compromissos e estacionou o carro nas proximidades do Congresso Nacional. Por volta das 17 horas, usando um boné vermelho e branco estampado com o nome “Lula”, tirou seu trompete da caixa e voltou-se com o instrumento na direção da entrada do Senado, por onde o senador Flávio Bolsonaro (pl-rj), pré-candidato à Presidência, havia passado pela manhã, vindo de um compromisso no STF. Na Praça dos Três Poderes, o trompetista fez soar as notas iniciais da canção Amigo, de Erasmo e Roberto Carlos, composta em 1977.
Um trecho famoso da música – Você, meu amigo de fé, meu irmão camarada – ganhou, no contexto, uma ressonância irônica. Naquela tarde, o site Intercept Brasil havia revelado as mensagens de celular em que Flávio Bolsonaro pedia repasses milionários a Daniel Vorcaro para a produção de Dark horse, o filme sobre o pai do senador. Nas conversas, Flávio trata Vorcaro por “irmão”.
Duarte tocou ainda o grande hit de seus vídeos nas redes sociais: uma adaptação para trompete da Marcha fúnebre de Chopin (da Sonata para piano nº 2 em si bemol menor, op. 35). No ano passado, ele interpretou essa mesma marcha em diferentes fases do julgamento de Jair Bolsonaro no STF, com o objetivo de decretar, segundo ele, “o fim da carreira política” do ex-presidente. Agora, espera fazer o mesmo pela candidatura presidencial do filho.
Como Flávio Bolsonaro não apareceu na entrada do Senado, Duarte foi para o Aeroporto de Brasília, pois tinha ouvido falar que o senador deixaria a capital federal à noite. Passou cerca de duas horas e meia ali, esperando em vão. O ativista então se deslocou até o Lago Sul e parou em frente à mansão de Flávio Bolsonaro, onde de novo tocou Amigo e a Marcha fúnebre. Por volta das 22 horas, voltou para casa. “Missão cumprida”, disse.
Filiado ao PT desde 2012, foi só durante a campanha presidencial de 2018, que Duarte consagrou-se no ativismo musical, ganhando o apelido de Fabiano Trompetista (atenção para o trocadilho). Ele diz que sua luta foi por duas causas: a democracia (e contra Jair Bolsonaro) e a liberdade de Lula, ainda preso na Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, para onde Duarte viajou mais de dez vezes em 2018. “O trompete é a minha forma de fazer política. E eu tenho muita responsabilidade com essas intervenções”, afirma. “Pode reparar que nunca toquei contra o Bolsonaro quando ele estava no hospital.”
Em 2019, ele soprou suas notas de protesto contra a visita ao Brasil de Mauricio Macri, então presidente argentino, e contra Luiz Fux, quando o ministro do STF suspendeu as investigações sobre Fabrício Queiroz, outro amigo camarada da família Bolsonaro. Em agosto de 2021, o ativista tentou emular o estudante chinês que, em 1989, parou um tanque nos protestos na Praça da Paz Celestial. O trompetista postou-se diante de um desfile de blindados da Marinha que atravessou Brasília até o Palácio do Planalto, então ocupado por Bolsonaro. Os militares o retiraram da rua com rapidez e com truculência: seu trompete foi quebrado.
Poucos dias depois, Lula, já em liberdade, telefonou para Duarte. “A primeira coisa que o presidente me perguntou foi: ‘Fabiano, seu trompete estava no seguro?’ Eu ri demais”, lembra o ativista. Militantes do PT fizeram uma vaquinha para lhe dar um novo instrumento, que custou cerca de 5 mil reais. Hoje, Duarte tem três trompetes em condição de uso, mas ainda guarda o danificado. “Virou acervo histórico. Para contar para os meus filhos.”
Curiosamente, sua apoteose na internet (9 milhões de visualizações no Instagram) não foi só com um trompete: em janeiro passado, durante a caminhada de 240 km que o deputado federal Nikolas Ferreira (pl-mg) conduziu da cidade mineira de Paracatu até Brasília, o ativista e uma colega sopraram um berrante para saudar os bolsonaristas quando eles estavam a 80 km do destino.
Em meados de maio, Duarte contou à piauí que pretendia oficializar sua candidatura a deputado distrital em Brasília no dia 31 do mesmo mês, data de seu aniversário de 47 anos. O Bar e Restaurante Tia Zélia, tradicional reduto da esquerda brasiliense, foi o local escolhido para a festa. “Quero mostrar que não somos só o trompete, que temos formação política e queremos contribuir para o crescimento de Brasília”, diz. Sua principal plataforma não é musical: ele propõe reativar os supermercados públicos que existiram na capital ao tempo da Sociedade de Abastecimento de Brasília (sab), entre 1962 e início dos anos 2000. É a segunda vez que tenta a eleição. Em 2022, só teve 4,4 mil votos. No Instagram, tem mais de 320 mil seguidores.
Os petistas são entusiastas do ativismo musical de Duarte. “Ele consegue estar no lugar certo na hora certa e foi fundamental para animar nossa militância”, diz o deputado Paulo Guedes (PT-MG). O colega de bancada Reginaldo Lopes (PT-MG) também derrama elogios: “O Fabiano é um bom exemplo de uma nova forma de militância. O som do seu trompete às vezes ecoa mais forte que uma manifestação de milhares de pessoas.”
Fabiano e Silva Leitão Duarte recebeu sua formação política em casa, vinda da mãe, uma enfermeira piauiense (o pai, um matemático paraguaio, se afastou da família quando Duarte tinha só 2 anos). “Minha mãe é bem de esquerda. Para você ter uma ideia, na Olimpíada de 1988 eu torci pela União Soviética”, conta, rindo.
Ainda garoto, na Escola de Música de Brasília, teve lições de violino, mas resolveu se dedicar a dois instrumentos de sopro: flauta e trompete. Entre 2005 e 2008, trabalhou no Japão, como operário de fábrica. De volta a Brasília, se engajou em projetos sociais, sobretudo no ensino de música e começou a cursar relações internacionais no Centro Universitário do Distrito Federal (UDF), faculdade que não concluiu. Atualmente, é assessor político na Secretaria Agrária Nacional do PT.
O momento mais emocionante de sua militância se deu na posse de Lula em 2023. No Congresso Nacional, o presidente contou como havia ganhado a caneta com que assinaria o termo de posse – e a história envolvia a Igreja de São Benedito, em Teresina, onde Duarte foi batizado, embora tenha nascido em Brasília.
O ativista musical acompanhava a posse deitado no gramado do Palácio do Planalto, quando recebeu uma mensagem de Ricardo Stuckert, fotógrafo do presidente: estava sendo chamado para tocar quando Lula subisse a rampa do Planalto. “Eu chamo esse dia de milagre de São Benedito”, diz, em lágrimas. Por sorte, ele havia saído de casa com o trompete e caprichou no jingle político Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula.