cine-aventuras
Werner Herzog Abr 2024 19h10
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Tradução de Sonali Bertuol
Na época em que eu preparava o filme Onde sonham as formigas verdes,[1] na Austrália, li em um jornal que Bruce Chatwin[2] estava em Sydney, lançando um novo livro, Colina negra. Eu conhecia seu extraordinário Na Patagônia e o romance O vice-rei de Uidá, sobre um bandido brasileiro que se torna o maior traficante de escravos da África Ocidental em seu tempo e vice-rei do Daomé.[3] Em praticamente todos os meus filmes, eu próprio criei o argumento e o roteiro, mas, ao ler O vice-rei de Uidá, me veio à cabeça que o livro poderia ser a base para um longa-metragem. De repente, tudo ficou mais claro para mim a esse respeito – e entrei em contato com a editora em Sydney. Não, Chatwin já havia desaparecido nas profundezas do outback, para fazer as pesquisas de um novo livro. Deixei o número de meu telefone em Melbourne, onde eu organizava as filmagens de Onde sonham as formigas verdes, e pedi que me avisassem assim que ele reaparecesse no radar.
Uma semana depois, recebi um telefonema: se eu ligasse nos próximos 60 minutos para determinado número no Aeroporto de Adelaide, talvez conseguisse falar com ele. Chatwin, para minha surpresa, sabia quem eu era, conhecia uma série de filmes meus e – surpresa ainda maior –, carregava naquele momento na mochila o livro que escrevi, Caminhando no gelo, sobre a minha jornada a pé para encontrar Lotte Eisner.[4] Ele estava voltando para Sydney e de lá pretendia regressar à Inglaterra. Perguntei-lhe se poderia fazer um desvio até Melbourne e adiar o voo de volta. Ele topou, sem hesitar: chegaria à tarde. Eu não sabia como era Chatwin, como poderia reconhecê-lo, e ele apenas disse: “Sou alto, loiro e pareço um estudante. Estou carregando uma mochila de couro.” Quando fui buscá-lo com meu anfitrião, Paul Cox, localizei-o a 100 metros de distância no meio da multidão.
Enquanto saíamos do aeroporto, ele desatou a contar uma história após a outra, e seguiu-se então uma maratona de 48 horas na qual nos contamos histórias e mais histórias, isto é, eu mesmo quase não conseguia interrompê-lo, pois seu fluxo verbal era vigoroso e inesgotável como uma cachoeira. Mas acho que nesse aspecto fui um interlocutor bastante especial: nós nos estimulávamos a contar mais e mais histórias. Dois terços do tempo era ele quem falava, como que em êxtase, um terço do tempo era eu. Naturalmente, em meio a tudo isso, também comemos e dormimos. Ele ficou com a minha cama na casa de Paul Cox, eu dormi no sofá. Depois eu soube que, em outras ocasiões, ao se hospedar na casa de pessoas que não conhecia, ele começava a contar uma história assim que saía do carro e continuava ao entrar na casa, cumprimentando seus anfitriões apenas com um aceno de cabeça. Era então cercado pelos presentes, que se dedicavam simplesmente a ouvi-lo. Jamais esquecerei nosso primeiro contato.
Como eu estava enfronhado em meu novo filme, concordamos que eu começaria a trabalhar na história de Chatwin sobre o traficante de escravos Francisco Manoel da Silva[5] assim que surgisse uma oportunidade para isso e o financiamento estivesse acertado. Por cautela, também pedi a ele para me avisar se mais alguém quisesse comprar os direitos do livro. Esse tipo de acesso direto que tivemos um ao outro foi facilitado certamente por termos, nós dois, experiências com caminhadas. Para ser mais preciso: não éramos mochileiros que, com barraca, saco de dormir e utensílios para cozinhar, carregavam uma casa nas costas, mas duas pessoas que percorriam longas distâncias quase sem bagagem. O mundo se revela a quem viaja a pé. No caso de Bruce, deve-se acrescentar a sua profunda compreensão das culturas nômades, combinada com o seu entendimento de que todos os problemas da humanidade tinham a ver com o abandono da vida nômade. Somente com o início da vida sedentária se desenvolveram povoados, cidades, monoculturas e ciências, com um intenso aumento da população – coisas que não são boas para a sobrevivência da humanidade. Por outro lado, está claro que não podemos girar ao contrário a roda do tempo.
Bruce gostou dos meus dez mandamentos, a minha lista de pecados da civilização moderna: entre eles, a criação do primeiro porco doméstico – o que não se equipara à criação de um cachorro, que se tornou um companheiro de caça – e também a primeira escalada de uma montanha apenas por escalar. Petrarca foi o primeiro de que temos notícia a escalar uma montanha, e pela carta em latim que escreveu sobre isso se pode depreender que tinha uma atração pelo insólito, pelo quase proibido. Todos os povos da montanha, como os suíços, os sherpas e os baltis, nunca pensaram em escalar uma montanha.
Talvez eu fosse o único com quem Bruce podia se entender facilmente sobre a sacralidade do caminhar. Minha própria caminhada para ver Lotte Eisner, gravemente doente, de Munique a Paris, no inverno de 1974, teve algo do ritual de não admitir a sua morte iminente por causa de uma doença. Na época, Lotte não soube que eu iria ao seu encontro, viajando a pé na neve por 21 dias. Quando cheguei a Paris, ela, devido a um milagre, estava quase saudável e recebeu alta do hospital. Havia algo esconjurador na minha caminhada, foi como uma peregrinação. Oito anos depois, quando já beirava os 88 anos, Lotte me chamou a Paris. Ela estava quase cega, mal conseguia andar, e disse: “Estou farta da vida.” Será que eu poderia libertá-la da maldição que a impedia de morrer? Ela falou isso um pouco em tom de brincadeira, mas senti que na realidade não era, e respondi com um gesto suave, indicando que a maldição estava suspensa. Ela morreu pouco depois de uma semana.
A maneira de caminhar que Bruce e eu compartilhávamos nos forçava a buscar refúgio, a nos conectar com as pessoas, porque nossa vulnerabilidade durante o percurso exigia isso. Não consigo me lembrar de termos sido rejeitados por alguém, porque existe um reflexo profundo, quase sagrado, de hospitalidade, que está apenas aparentemente enterrado na nossa civilização. Mas muitas vezes em minhas caminhadas também ocorreram situações em que não havia por perto nenhuma aldeia ou propriedade rural, nenhum teto. Eu dormia então em campos abertos e debaixo de pontes. Quando chovia ou fazia um frio glacial, e eu encontrava apenas uma cabana de caça vazia ou uma casa de férias isolada, nunca vi problema em invadi-las. Muitas vezes, entrei em casas trancadas sem causar danos, nem quebrar nada, porque sempre tenho comigo um pequeno “instrumental cirúrgico”, feito de duas molas de aço, que me permite abrir fechaduras de segurança. Ao ir embora, frequentemente deixo um breve bilhete de agradecimento, ou termino as palavras cruzadas largadas na mesa da cozinha. Sentindo-me incomodado com o que se pratica nos cursos de cinema em todo o mundo, fundei a Rogue Film School, uma escola alternativa, de guerrilha, onde as únicas duas coisas que realmente ensino são a falsificação de documentos e o arrombamento de fechaduras de segurança. Tudo o mais são instruções para subverter o sistema existente, para fazer filmes a partir de si mesmo.
Um dia, recebi uma carta de Bruce dizendo que David Bowie queria comprar os direitos de O vice-rei de Uidá. Aparentemente, ele também queria fazer o papel principal. Liguei para Bruce e disse: “Deus do céu, Bowie é o cara errado, ele é andrógino demais para esse personagem.” Bruce era da mesma opinião, e eu então raspei o tacho e comprei os direitos do romance. Em minha adaptação, Klaus Kinski faria o vilão. O próprio Bruce havia ficado profundamente impressionado com Kinski, que ele já tinha visto no cinema.
Cobra verde, como chamei o filme de 1987 adaptado de O vice-rei de Uidá, veio a ser a quinta e última colaboração entre Kinski e eu. Naquela época, ele era como um demônio, movido pela loucura. Interiormente, já estava em outro filme, o seu próprio longa-metragem sobre Paganini. Como era de esperar, não chamou esse filme de Paganini apenas, mas Kinski Paganini (1989). Durante anos, ele insistiu para que eu assumisse a direção, mas o roteiro, de seiscentas páginas, era o que se chama no ramo de beyond repair – sem conserto.
Logo no início das filmagens de Cobra verde, em Gana, ele aterrorizou de tal modo o meu cinegrafista que a situação ficou insustentável. Kinski exigiu expressamente a demissão de Thomas Mauch, apesar de saber, desde Aguirre, a cólera dos deuses (1972), que estava lidando com um profissional de primeira categoria. Mauch se deu conta de que eu não poderia apoiá-lo, pois isso poderia acarretar a suspensão das filmagens de Cobra verde de modo inevitável, e desistiu do filme. Às vezes, intimamente, lá no fundo, tenho a sensação de que o traí. Eu queria ter conseguido ser leal e apoiá-lo naquele momento, mas se o fizesse o filme deixaria de existir e os danos a todos os demais membros da equipe teriam sido irreparáveis. Trabalhar com filmes muitas vezes envolve destruição. Quando se desbasta o matagal da história do cinema, o chão que se revela está cheio de coisas destruídas. Felizmente, Mauch lidou bem com tudo aquilo: fez seus próprios filmes e também foi diretor de fotografia de muitos projetos de outros diretores.
Nunca mais trabalhei com Kinski depois desse episódio, mas houve outras razões para isso. Em cinco longas-metragens, eu dei vida a personagens muito diferentes por meio dele, e depois não havia mais nada a descobrir. Em favor de Kinski, no entanto, devo dizer que muitas vezes ele conseguia ser extraordinariamente generoso e prestativo, e que tivemos momentos de profunda camaradagem. O filme Meu melhor inimigo[6] é uma prova disso. Mostra que Kinski podia ser muito respeitoso e gentil com suas parceiras diante da câmera, o que ficou particularmente visível com relação às atrizes Claudia Cardinale e Eva Mattes, das quais ele reconhecia o talento e o carisma únicos. Mas a colaboração entre Kinski e eu muitas vezes chegou a extremos, a zonas onde nos tornávamos perigosos um para o outro.
Planejamos matar um ao outro, o que não passou de uma pantomima, de uma cena grotesca. Uma noite, subi a encosta íngreme que levava até seu chalé em San Francisco, situado no meio das sequoias ao Norte da cidade (o caminho normal, transitável, ficava do outro lado) para atacá-lo. Mas eu não tinha muita certeza do que queria fazer e, quando o cão pastor dele começou a latir, foi uma boa deixa para escapar dali.
Apenas uma vez realmente o ameacei de morte: foi em Aguirre, quando Kinski arrumou suas coisas e colocou-as em um barco, decidido a partir duas semanas antes do final das filmagens, o que era inadmissível, porque trabalhávamos em algo que estava além, acima de nós mesmos. Eu estava desarmado, sem nada nas mãos, e falei num tom contido, mas Kinski percebeu que não era uma ameaça vazia. Já havia tirado dele a Winchester com a qual às vezes atirava furioso à sua volta. Na selva, isso era absolutamente tolerável, e ele pensava estar se defendendo com valentia dos ataques de onças e cobras venenosas. Uma noite, porém, depois do fim das filmagens, quando cerca de trinta figurantes ainda jogavam cartas e bebiam aguardiente em uma cabana, Kinski teve um acesso de cólera, depois de ouvir de sua cabana isolada no topo da colina uma risada distante que o perturbou. Ele disparou a esmo três tiros em direção à cabana dos figurantes, com paredes construídas de bambu, que as balas atravessaram como se fossem de papel. Por mero acaso ele não acertou em cheio algumas das pessoas apinhadas lá dentro – apenas arrancou a falange superior do dedo médio de um dos jovens.
Em Fitzcarraldo, os ashaninkas[7] ficavam visivelmente com medo quando Kinski se enfurecia, então se sentavam em círculo no chão e cochichavam entre si. No convívio social desse povo nunca ocorrem discussões barulhentas. Um dos seus chefes mais tarde me disse que eu não deveria pensar que eles estavam com medo daquele louco que urrava, mas, sim, com medo de mim, pois eu me mantinha muito quieto. Esse chefe também se ofereceu para matar Kinski. Recusei educadamente, mas sei que, caso tivesse aceitado, eles teriam passado à ação no mesmo instante.
Convidei Bruce para ver as filmagens de Cobra verde em Gana, mas ele escreveu que estava tão doente que não podia mais viajar. Contraíra um fungo muito raro, que estava se alastrando pela sua medula. Esse fungo havia sido encontrado apenas em uma baleia encalhada na Costa da Arábia e em morcegos de uma caverna em Yunnan, no sudoeste da China, que Bruce visitara. Mais tarde, porém, verificou-se que a infecção fúngica dele era apenas consequência da Aids. Continuei insistindo para que ele viesse e, quando de repente melhorou um pouco, me perguntou se era possível chegar até mim numa cadeira de rodas. Respondi que o terreno do local onde estávamos filmando não era adequado. Escrevi: “Vou arranjar para você uma rede com seis carregadores, além de um homem com um enorme guarda-sol, daqueles que os pequenos reis locais sempre têm por perto como guarda de honra.” Ele não pôde resistir à proposta. Mas depois conseguiu andar sozinho, ainda que apenas por curtas distâncias.
Bruce escreveu sobre essa visita em seu livro What am I doing here (O que estou fazendo aqui). Ele ficou particularmente impressionado com o rei Nana Agyefi Kwame ii, omanhene de Nsein,[8] que faz um papel no filme. O rei aparece em traje cerimonial completo, com 350 pessoas em sua comitiva: tocadores de tambor, dançarinos, suas mulheres, seu poeta da corte. Para o filme, também escalamos um exército de amazonas, com oitocentas jovens que foram treinadas durante semanas num campo esportivo em Acra por Benito Stefanelli, o melhor coordenador de dublês da Itália. Stefanelli, que havia coreografado inúmeras pancadarias em filmes de faroeste spaghetti,[9] viu-se diante de um exército de jovens loquazes, confiantes e que quase não se deixavam controlar. Bruce testemunhou uma pequena insurreição delas no local de filmagens em Elmina e descreve a cena em seu livro, com espanto.
Além de Kinski, eu também tinha diante de mim uma legião de guerreiras maravilhosas e difíceis, e me lembro de um incidente ocorrido no dia em que o cachê da semana seria pago em dinheiro. No pátio de um forte, as mulheres começaram a trocar de roupa depois das filmagens, e eu sabia por experiência própria que elas não fariam fila para serem registradas e pagas. No pagamento anterior, elas simplesmente haviam avançado sobre a mesa onde estava o dinheiro – e tudo acabara num grande caos. Dessa vez, a equipe local decidiu usar uma passagem na forma de túnel entre o pátio interno do forte e o portão externo como um gargalo natural para canalizar a multidão de mulheres e a esperada confusão.
Foi um grande erro. Quando anunciamos que o salário da semana seria pago lá fora, todas correram rumo ao pesado portão externo, do qual, deliberadamente – para evitar que muitas passassem ao mesmo tempo –, apenas uma porta menor fora deixada aberta. Em poucos instantes, os corpos de várias das mulheres estavam entalados uns nos outros na estreita passagem na forma de túnel, e a pressão que vinha de trás crescia de tal forma que pude ver algumas delas, mais à frente, desmaiarem. Como a multidão era muito compacta, elas não deslizavam para o chão, mas permaneciam eretas em seus desmaios. As que estavam mais atrás empurrando não tinham ideia do que estava acontecendo à frente e urravam, e eu gritei em vão para que elas parassem de empurrar. Estava claro que 10 quilogramas-força de pressão apenas, mas vindos de oitocentos corpos, logo significavam 8 mil kgf para as que estavam à frente, era uma situação com risco fatal que se agravava a cada segundo. Dessa mesma forma costumam acontecer acidentes terríveis em estádios de futebol.
Do lado de fora, junto à mesa com as notas de dinheiro empilhadas (em Gana imperava uma inflação galopante e as notas tinham que ser transportadas em carrinhos de mão), um soldado montava guarda. Gritei para ele dar um tiro para o alto, mas o soldado estava como que paralisado por aquela agitação. Tive que arrancar a arma da mão dele – e eu mesmo atirei para o alto. Assustada, a multidão recuou no túnel, e só então quatro ou cinco das mulheres inconscientes caíram ao chão.
O estado de saúde de Bruce piorou nos dois anos seguintes. Em 1987, ele ainda pôde ir a Bayreuth para o festival de óperas de Wagner, onde encenei Lohengrin. Foi com sua mulher, Elizabeth, e fez a maior parte do trajeto ao volante do seu “pato de lata”, um Citroën 2cv. Algum tempo depois, fiz um documentário no Sul do Saara sobre o povo nômade Wodaabe, mais precisamente sobre um encontro anual de vários povos em algum lugar do semideserto do Níger, onde havia uma espécie de mercado de casamento. Lá, eram os homens, considerados os mais bonitos do mundo, que se embelezavam e se maquiavam em rituais que levavam dias. Depois, as mulheres decidiam quais eram os mais belos e com mais carisma. Elas escolhiam um homem do grupo de dançarinos para passar a noite e, caso ele não as tivesse agradado, devolviam o candidato sem cerimônia.
Eu havia contado a Bruce sobre a edição do filme e ele estava ansioso por vê-lo. No momento em que Wodaabe, pastores do sol (1989) finalmente ficou pronto, recebi um telefonema de Elizabeth, que estava na comuna francesa de Seillans, na Provence, onde Bruce havia se refugiado num castelo antigo. Ele estava muito mal, mas queria sem falta ver o meu filme. Peguei o carro e fui de Munique até lá. Levei uma cópia em videocassete.
Quando cheguei, Elizabeth me parou à porta e, sussurrando, me perguntou se eu queria mesmo entrar. Bruce estava morrendo. Embora eu tenha tido um momento para me preparar, depois de receber essa notícia, fiquei profundamente chocado ao vê-lo. De Bruce, restava somente um esqueleto, apenas os grandes olhos ainda ardiam em seu crânio, e ele quase não conseguia mais falar. Bruce pediu para ficar sozinho comigo. A sua boca e a sua garganta estavam infestadas por uma camada clara de fungos que havia se alastrado até os pulmões. A primeira coisa que ele me disse foi: “Estou morrendo.” Eu respondi: “Estou vendo, Bruce.” Ele queria que eu o ajudasse em sua agonia, queria saber se eu podia matá-lo. Eu disse: “Você acha que devo bater em você com um taco de beisebol ou sufocá-lo com um travesseiro?” Mas ele estava pensando numa droga de ação rápida. Por que não falara com Elizabeth sobre isso? Não, ela era católica demais, era impossível lhe pedir tal coisa. Mas Bruce acabou retirando o pedido que me fizera e quis ver o filme, do qual mostrei os primeiros quinze minutos. Depois, por um tempo, ele caiu em um estado de inconsciência.
Quando voltou a si, quis assistir ao restante do filme, o que começou a fazer, parte por parte. Foram as últimas imagens que viu. Suas pernas, que chamava de boys e pareciam fusos feitos de ossos, estavam doendo. Ele me pediu para mudar a posição de seus boys, o que fiz. Então, de repente, acordou de um semicoma e gritou: I have to be on the road again, I have to be on the road again! (Tenho que pegar a estrada de novo). Eu disse: “Sim, Bruce, a estrada é o seu lugar”, e ele olhou para as próprias pernas e viu que não havia mais nada, não havia mais corpo, apenas uma alma ardente, e me disse: “Minha mochila é muito pesada para mim.” Eu respondi: “Bruce, eu sou forte, posso carregar a mochila para você.” Ele assistiu ao filme até o fim.
Depois de quase dois dias, Bruce me falou que estava com vergonha de morrer na minha frente, e eu disse que entendia, embora não tivesse medo de ficar com ele. Quando eu por fim estava indo embora, a pedido dele, Bruce disse num instante de perfeita lucidez: “Werner, você tem que ficar com minha mochila, você vai carregá-la em meu lugar.” Fui embora, e alguns dias depois Elizabeth levou-o para o hospital em Nice, onde ele morreu em algumas horas. Foi ela quem me enviou a mochila de Bruce, que estava guardada em sua casa, perto de Oxford. A mochila não é um suvenir, eu a uso. De todas as coisas materiais que possuo, é ela, feita de couro resistente por um seleiro de Cirencester, na Inglaterra, a mais preciosa para mim.
Menos de dois anos depois da morte de Bruce, a sua mochila teria um papel importante. Eu tinha começado a filmar o longa-metragem No coração da montanha, que viria a ser lançado em 1991. A ideia desse filme partiu de Reinhold Messner,[10] e tratava da disputa entre dois montanhistas ao escalarem a mais difícil de todas as montanhas, a Cerro Torre, na Patagônia. Essa montanha parece uma agulha de granito de 2 km de altura, coroada por um cogumelo de gelo e neve compactada. Muito poucos alpinistas subiram até o topo, somente a crème de la crème. O número dos que alcançam o topo do Monte Everest num único fim de semana é o dobro daqueles que já chegaram alguma vez ao da Cerro Torre. Além das paredes íngremes e hostis, há o fato de que o Sul da Patagônia costuma ser assolado por tempestades inimagináveis.
Walter Saxer produziu o filme e também coescreveu o roteiro. Isso acabou se revelando um verdadeiro problema para o projeto, pois sou eu que sempre adapto a história, de forma a torná-la compatível com a minha perspectiva. Ao fazer dessa maneira, porém, entrei em choque com uma resistência obstinada. No final, ficou implícito que eu deveria proceder de acordo com as indicações precisas do roteiro, o que, no alto de um rochedo, durante uma tempestade de neve, é impossível fazer. O roteiro e a edição se tornaram o ponto crucial do filme, mas posso viver com isso. Quase tudo que é produzido no cinema funciona dessa maneira. Eu gostaria que o filme fosse todo ele de Walter Saxer ou todo meu, mas No coração da montanha acabou não sendo nem de um nem de outro.
O ator principal, Vittorio Mezzogiorno, usa a mochila de couro no filme, em homenagem a Bruce Chatwin. E eu a usava quando ela não era necessária em cena. Numa sequência, depois de os dois alpinistas rivais terem alcançado o cogumelo de gelo saliente perto do cume, o mais jovem deles cai de sua corda e morre. Esse papel foi representado por um alpinista de verdade, Stefan Glowacz, que vencera o Rock Master, na Itália, e com isso se tornara uma espécie de campeão mundial não oficial. Devido às tempestades no alto na montanha, transferimos as filmagens de algumas tomadas para o vale. Durante mais de uma semana, não se podia ver a montanha nem chegar perto dela. Então, de repente, houve uma trégua. As nuvens se dissiparam, seguiu-se uma noite sem uma brisa sequer, estrelada e maravilhosamente silenciosa.
De manhã cedo, o céu estava azul, com sol, nada se movia. Estávamos confiantes de que, agora, poderíamos filmar a difícil cena perto do cume, então escolhemos um cogumelo de neve parecido com o do cume verdadeiro, a alguma distância dele e acessível por uma estreita crista nevada. Mas tínhamos que agir depressa. Decidimos que Stefan Glowacz, o cinegrafista-alpinista e eu iríamos de helicóptero primeiro até lá. Glowacz, assistido pelo cinegrafista e por mim, começaria a instalar no local, em segurança, a sua corda. Assim pouparíamos tempo e, em 20 minutos, um grupo de alpinistas chegaria para nos apoiar e montar rapidamente um acampamento improvisado, por segurança, com barracas, sacos de dormir, cordas e provisões. Essa decisão era contra os rígidos procedimentos protocolares, mas naquela manhã, depois de uma breve deliberação com os alpinistas, entre eles alguns dos melhores do mundo, e dadas as circunstâncias, concordamos em fazer as coisas de maneira diferente.
O helicóptero nos levou – a vanguarda da filmagem – até o cume, a uma distância de 10 minutos do vale. Depois, deu meia-volta para buscar a equipe de segurança. Caminhamos apenas alguns passos na crista: de um lado, a Argentina e a geleira que se estendia de Cerro Torre até perder de vista; do outro, o Chile. Em ambos os lados, mais de mil metros de falésias que descem quase verticalmente até as profundezas. Então, notei algo estranho, com o canto do olho. Do lado chileno, bem abaixo de nós, havia nuvens firmes, como flocos de algodão, imóveis. Tudo estava tão claro que dava para ver, a 100 km de distância, a linha do Pacífico no horizonte. De repente, todas aquelas nuvens brancas entraram numa rebelião silenciosa. Os flocos de algodão dispararam em nossa direção, pareciam cogumelos atômicos. Gritei para Glowacz, perguntando o que aquilo significava, mas ele apenas ficou parado, tomado pelo espanto. Apanhei o meu walkie-talkie e imediatamente chamei o helicóptero de volta. Ele era apenas um ponto distante no ar, mas vi quando mudou de rumo e veio na nossa direção. Quando estava perto, ao nosso alcance, fomos atingidos pela primeira rajada da tempestade, que varreu dali o helicóptero.
Em questão de segundos, estávamos num white-out,[11] em meio ao qual só conseguíamos enxergar a nossa própria mão estendida, envolvidos por uma tempestade que nos atingia com uma velocidade de cerca de 200 km/h, a uma temperatura de 20°C negativos. Nós nos agarramos uns aos outros e alcançamos uma sólida parede de neve, dentro da qual nos enterramos. Tínhamos apenas uma picareta de gelo, além da corda que Glowacz usaria na cena, mas estávamos sem barraca, sem sacos de dormir, sem comida. Eu tinha duas barras de chocolate num dos meus bolsos e a mochila vazia de Bruce Chatwin. Conseguimos criar uma minúscula caverna bivaque, não muito maior do que um barril. Agachados lado a lado, poderíamos ficar razoavelmente seguros, pois lá dentro, depois de fechar a entrada com pedaços de gelo, a temperatura era de 1°C ou 2°C, devido à nossa respiração e ao calor dos corpos.
Eu me sentei sobre a mochila vazia para não perder muito calor do corpo no contato com o gelo. Mais tarde, ouvi algumas pessoas dizerem que a mochila salvou a minha vida, mas isso não faz sentido, porque os outros dois homens que estavam comigo também sobreviveram, sem a mesma proteção. A cada duas horas, exatamente, eu contatava nosso pessoal no vale por um momento. Dessa forma, pretendia economizar bateria do walkie-talkie. Reparti entre nós o pouco chocolate que eu tinha. Cada um deveria fazer suas pequenas rações. Passamos o dia inteiro e a noite apinhados ali, e logo o cinegrafista, que era um alpinista habilidoso e traquejado, começou a passar mal. Glowacz e eu o colocamos no meio de nós dois e o forçamos a manter os dedos das mãos e dos pés em constante movimento, porque as extremidades do corpo ficam sempre mais rapidamente expostas ao congelamento. No entanto, ele piorou depressa e, no final da noite, estava em péssimo estado. Quando liguei o walkie-talkie que mantinha aquecido sob a axila, ele arrancou o dispositivo de minha mão e comunicou que não sobreviveria a outra noite como aquela.
Isso alarmou os montanhistas no vale. Eles formaram dois grupos, cada um com quatro homens, que deveriam tentar nos alcançar por duas rotas diferentes. Um dos grupos logo desistiu por causa da tempestade, da falta de visibilidade e do frio congelante. O segundo grupo chegou perto, a algumas centenas de metros abaixo de nós, mas então o homem mais forte de todos, o melhor alpinista argentino dos Andes, tirou as luvas. Ele as arrancou com os dentes e as jogou na tempestade. Em seguida, estalou os dedos, como se chamasse um garçom para pedir a conta do seu cappuccino. Seus camaradas tiveram que colocá-lo a salvo [de si mesmo] e o levaram quase perto de uma geleira, mas foram arrastados um pouco mais para baixo por uma pequena avalanche. Também eles tiveram que fazer uma caverna bivaque, mas estavam seguros, porque tinham alimentos, sacos de dormir e um fogareiro para derreter a neve.
Enquanto isso, no alto, na crista da montanha, nós nos forçávamos a comer neve e mantínhamos nossas mãos e pés em movimento. Assim passamos o dia seguinte e a segunda noite. No terceiro dia, de repente as nuvens se abriram um pouco, a tempestade quase se dissipou, e o helicóptero arriscou subir até nós, mas não ousou pousar direto no cume. Içamos nosso homem doente para o helicóptero, depois, em questão de segundos, Glowacz também entrou, e eu subi na cesta de metal instalada do lado de fora para o resgate. Por um momento, levantei-me, a fim de rastejar para dentro do helicóptero, mas o piloto, em pânico, simplesmente disparou para longe dali, e eu cambaleei para trás. Consegui me agarrar a uma das barras de ferro da cesta e segurei firme, agachado. Foram poucos minutos de descida até o vale, mas meus dedos nus agarrados à barra congelaram de tal forma que eu não conseguia mais soltá-los. Até que um dos argentinos da equipe pediu às damas que se afastassem e urinou nos meus dedos. Com o calor da urina, eles reviveram.
Trecho do livro Cada um por si e Deus contra todos: memórias, a ser lançado em junho pela editora Todavia.
[1] Where the green ants dream (1984), sobre um grupo de aborígenes em defesa de um território sagrado.
[2] Bruce Chatwin (1940-89), escritor inglês, renomado por seus relatos de viagem.
[3] O Reino do Daomé, importante centro de tráfico negreiro, existiu entre os séculos XVII e XIX. Em 1904, foi incorporado à colônia de Daomé e Dependências, da França. Em 1960, a colônia ficou independente, com o nome de República de Daomé. Depois, tornou-se Benim, seu nome atual.
[4] Lotte H. Eisner (1896-1983), historiadora e crítica de cinema alemã, autora de estudos sobre o expressionismo, Fritz Lang e F. W. Murnau, e interlocutora importante dos diretores do Novo Cinema Alemão, como Herzog e Wim Wenders (que a ela dedicou Paris, Texas).
[5] O personagem principal do romance O vice-rei de Uidá, Francisco Manoel da Silva, foi inspirado no traficante de escravos brasileiro Francisco Félix de Souza (1754-1849).
[6] Meu melhor inimigo, documentário de Werner Herzog sobre Klaus Kinski, foi lançado em 1999.
[7] Membros do povo Ashaninka, que vive na Amazônia, entre o Acre e o Peru, participaram do filme Fitzcarraldo, lançado em 1982, com Kinski no papel-título.
[8] Omanhene é o rei de uma região eleito pelo povo. Nsein é um vilarejo no Oeste de Gana, país cuja capital é Acra.
[9] Faroeste spaghetti, ou spaghetti western, foi o nome dado aos filmes de faroeste feitos na Itália entre os anos 1960 e 1970, por diretores como Sergio Leone e Sergio Corbucci.
[10] Reinhold Andreas Messner (1944), nascido em Brixen/Bressanone, comuna da Província Autônoma de Bolzano-Alto Adige, na Itália, é considerado um dos melhores montanhistas do século XX.
[11] White-out é um fenômeno climático em que uma forte cobertura de nuvens sobre um ambiente de neve reduz a visibilidade a quase zero.