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A NEGAÇÃO DO OUTRO

Em São Paulo, oito anos de clássicos sem torcida visitante forjaram uma geração que não sabe o que é conviver com o contraditório
Imagem A negação do outro

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No dia 3 de abril de 2016, o corintiano Luan Araujo cumpriu o mesmo ritual de todos os domingos com clássicos estaduais disputados por seu time na condição de visitante. Ainda pela manhã, deixou sua casa na Cidade Tiradentes, no extremo Leste de São Paulo, e, com a camisa do Corinthians escondida, seguiu de ônibus e metrô até a sede da torcida Gaviões da Fiel, na Marginal Tietê, uma das principais vias expressas da capital paulista. É dali que partem as caravanas da maior torcida organizada do Corinthians.

Naquele dia, Araujo era um entre pouco mais de mil corintianos concentrados para iniciar uma caminhada de 6 km até o Estádio do Pacaembu, onde aconteceria a partida entre Corinthians e Palmeiras. Como estipulado desde meados da década passada, os torcedores visitantes têm direito a 1,8 mil ingressos, cerca de 5% da carga total. Aos que torcem pelo time mandante são destinados pouco mais de 35 mil assentos. Em vista da disparidade numérica, convencionou-se que a logística seria a caminhada da coletividade forasteira partindo de um local previamente definido. Para os corintianos, a quadra da Gaviões. Para os palmeirenses, o Allianz Parque. Para os são-paulinos, a sede da Torcida Independente. Sob escolta do 2º Batalhão de Polícia de Choque, na ida e na volta, o agrupamento em menor número pode chegar ao estádio sem atrito com rivais.

Por volta das 13 horas, a multidão de corintianos foi autorizada a deixar o ponto de concentração. Camisa 12, Pavilhão Nove, Estopim da Fiel e Fiel Macabra – outras torcidas organizadas corintianas que também estavam no local – iniciaram o trajeto com a Gaviões. Os 6 km foram percorridos em uma hora e meia, ora a passos largos, ora com retenções promovidas pelo policiamento, que buscava agrupar os torcedores em um bloco coeso. Viaturas policiais seguiam à frente e atrás da torcida, ladeada por agentes a cavalo ou em motos.

Para quem observava de fora, aquela turba provocava uma sensação amedrontadora. Eram centenas de pessoas, homens na quase totalidade, marchando a passos fortes e apressados, e entoando canções que relembravam antigos enfrentamentos com rivais. Longe de tranquilizar motoristas e transeuntes, o ruidoso efetivo policial contribuía para transmitir a impressão de que poderia haver uma explosão a qualquer momento. Era algo difícil de ocorrer, mas a tensão aumentava nos esporádicos cruzamentos com palmeirenses que iam na mesma direção. Porém, separados por dezenas de metros, tudo o que os rivais podiam fazer era trocar insultos e gritos de guerra.

Quando os corintianos se aproximavam do destino, seus líderes tomaram a dianteira e, fazendo valer a nomenclatura de “linhas de frente”, caminharam de braços dados, formando uma corrente humana para controlar o ímpeto de quem vinha atrás. Faltando pouco mais de uma hora para o início da partida, a escolta policial entregou os corintianos ao setor lilás do Pacaembu, pequeno enclave destinado à coletividade visitante – um canto completamente isolado pelo esquema de segurança.

Naquele domingo, o Palmeiras venceu por 1 a 0, com gol do atacante Dudu. Para a história do dérbi paulista, entretanto, o resultado é irrelevante. Ao final do jogo, como de praxe, os corintianos só puderam deixar o Pacaembu depois de esperar cerca de uma hora, até a dispersão dos mandantes. Começou então, já na noite daquele domingo, uma nova caminhada, agora de volta à quadra da Gaviões da Fiel. Nem Araujo nem pessoa alguma poderia imaginar que aquela seria a última vez que uma torcida organizada visitante percorreria as ruas de São Paulo, antes e depois de um clássico.

Não mais do que 20 minutos de carro separam a minha casa do portão principal do Pacaembu. Conheço bem a caminhada feita por Araujo, mas no sentido oposto. Vestindo uma camisa verde, parti algumas vezes de outro canto da cidade, na Zona Oeste, e segui a pé em direção ao setor visitante do estádio, também como parte integrante de uma multidão de torcedores. Mas, naquele dérbi de 3 de abril de 2016, não precisei sair tão cedo porque o Palmeiras era o mandante.

Almocei tranquilamente em casa e me programei para ir ao Pacaembu por volta das 14 horas. Antes disso, começaram a chegar as más notícias. Os grupos de WhatsApp, bem mais agitados do que o habitual para um domingo cedo, informavam sobre brigas por toda a região metropolitana. Uma, mais séria, resultara na morte de uma pessoa.

O confronto fatídico aconteceu em uma praça do bairro de São Miguel Paulista, a cerca de 30 km de distância do palco do jogo. De manhã, grupos de alviverdes e alvinegros se enfrentaram nas imediações de uma estação de trem do bairro e, em circunstâncias até hoje incertas, um tiro atingiu o peito de José Sinval Batista de Carvalho, de 53 anos. O homem, que sequer gostava de futebol, caminhava pelo local ao ser baleado e só teve sua identidade confirmada quatro dias depois.

O boletim de ocorrência registrou que o disparo ocorreu antes da chegada do policiamento, mas nem testemunhas nem as câmeras de vigilância atestaram essa versão. O projétil que tirou a vida de Carvalho não foi encontrado mesmo depois de duas diligências ao local do crime, e os exames residuográficos dos torcedores detidos (e logo liberados) e dos policiais envolvidos na ação deram resultado negativo. Oito anos depois, a despeito dos apelos de familiares da vítima, a investigação conduzida pelo Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) não foi capaz de apontar o autor do disparo.

A tragédia teve efeito imediato na opinião pública, levando ao agendamento de uma reunião, já no dia seguinte, 4 de abril, de representantes do Ministério Público, da Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo, do 2° Batalhão de Choque da PM, da Polícia Civil e da Federação Paulista de Futebol (FPF). Ao fim do encontro, coube a Alexandre de Moraes, então secretário de Segurança Pública, anunciar a determinação de que os clássicos paulistas (os embates envolvendo Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo) teriam de ser disputados com a presença de apenas uma torcida, a do mandante.

Com vigência até 31 de dezembro de 2016, a medida, apresentada como emergencial, foi prorrogada por mais um ano, até o final de 2017. Depois, ainda mais um ano. E, tendo sido renovada de maneira protocolar ano após ano, segue em vigor ainda hoje, com a inclusão preventiva de Guarani e Ponte Preta, os dois clubes de Campinas que têm uma rivalidade enorme entre si, mas não necessariamente com os grandes da capital.

O primeiro jogo disputado na era da torcida única colocou frente a frente Santos e Palmeiras na semifinal do torneio estadual de 2016. Apenas santistas puderam comparecer à Vila Belmiro, no dia 24 de abril. O mundo do futebol interpretou que a decisão era um remédio amargo, a ser adotado por tempo limitado, com o objetivo de aplacar a indignação da opinião pública. Pois bem: oito anos depois, com o debate interditado, parece impossível imaginar duas torcidas adversárias disputando o mesmo espaço nas praças esportivas de São Paulo.

O jornalista Luan Araujo e eu não somos exatamente amigos, mas temos amigos em comum, nos seguimos mutuamente em redes sociais e, além da profissão, compartilhamos valores semelhantes sobre o futebol como manifestação cultural e popular. Aos 33 anos, ele já foi a 835 jogos em 55 estádios. Eu, nove anos mais velho, já acompanhei 1 155 partidas em 83 campos pelo mundo. Somos sujeitos obcecados, com agendas pessoais e profissionais atreladas ao calendário de nossos clubes: não perdemos sequer um compromisso em casa e viajamos pelo Brasil e exterior para desbravar territórios hostis.

Nunca tive a oportunidade de cumprimentar pessoalmente Araujo, mas sei que, pelo menos até a decretação da torcida única em 2016, nossos caminhos se cruzaram a cada confronto entre Palmeiras e Corinthians. Os jogos podem ter acontecido no Morumbi, no Pacaembu, no Allianz Parque, na Arena Corinthians ou mesmo no interior do estado, mas certo mesmo é que ele e eu dividimos o mesmo espaço por um punhado de horas, cada qual em um setor.

Devemos ter nos avistado entre grades, cercas ou cordões de isolamento. Eu devo tê-lo xingado a distância. Ele deve ter retribuído a gentileza. Cantamos um na direção do outro para proclamar uma rivalidade centenária. Festejamos o sofrimento um do outro. Empurramos nossos times e entoamos gritos de guerra um contra o outro. Há quem enxergue isso tudo como selvageria, eu bem sei, mas devo dizer que desempenhamos, com camisas diferentes, a função para a qual fomos destinados: a de torcedores de um clube de massa.

Desde 2016, Araujo e eu nunca mais pudemos nos encontrar anonimamente em uma praça esportiva. Nem nós dois nem qualquer outro torcedor dos grandes times paulistas. E esse distanciamento, que caminha a passos largos para completar uma década, vai forjando uma geração de aficionados que perdeu a capacidade de conviver com o contraditório. A torcida única nos clássicos paulistas é reflexo de uma sociedade menos tolerante: em vez de aprender e evoluir com as divergências, fez-se a opção por evitá-las.

As autoridades paulistas sempre tiveram dificuldades para lidar com a violência no futebol – e pontue-se que não se trata de “violência do futebol”, mas sim de “violência no futebol”. A distinção é necessária porque não existe uma violência relacionada especificamente ao esporte, mas sim uma extrapolação das mazelas nacionais para esse ambiente: sendo o Brasil um país violento, o futebol, inclusive pela capacidade de aglutinar segmentos da população mais jovens e vulneráveis, não fica imune.

O esporte mais praticado do planeta é movido por rivalidades centenárias, e manifestações exacerbadas ocorrem em todas as partes do mundo. O aparato de segurança destacado para os clássicos paulistas pode surpreender os menos familiarizados, mas não difere muito do que é mobilizado na Alemanha, na Itália e em outros países com forte cultura torcedora. Há rodadas da aparentemente civilizada Uefa Champions League que demandam uma operação de guerra para evitar embates entre rivais. Não raro, o esquema falha e os pontos turísticos das metrópoles europeias são tomados pela barbárie. No entanto, nunca houve decreto oficial impondo torcida única na Alemanha, na Itália ou na Inglaterra.

A imposição de torcida única em clássicos não se deve unicamente à morte de uma pessoa a cerca de 30 km do Pacaembu. A medida foi ganhando força na opinião pública à proporção que os arroubos restritivos do Ministério Público e da Polícia Militar se mostraram impotentes para evitar novos enfrentamentos. Isso significa que, por paradoxal que seja, os sucessivos fracassos das medidas para coibir os episódios de violência foram ampliando a licença social do Estado para aplicar punições e apertar o cerco contra as torcidas, que ficaram mais violentas com o tempo.

As primeiras mortes decorrentes de confrontos entre torcedores nas ruas de São Paulo datam do final dos anos 1980. Mas o histórico de atuação do poder público em relação a brigas no futebol remonta ao início da década de 1990, quando as organizadas paulistas atingiram o ápice em número de associados – até que, em 20 de agosto de 1995, ocorreu a famigerada batalha campal do Pacaembu, que mudou a arquibancada para sempre.

Era apenas um jogo de categorias de base, mas, valendo-se da negligência do efetivo policial e dos paus e pedras deixados em uma obra no estádio, palmeirenses e são-paulinos invadiram o gramado e partiram para a selvageria, deixando 102 feridos e provocando a morte do são-paulino Márcio Gasparin da Silva, de 16 anos. As imagens correram o mundo, e as autoridades reagiram prontamente, com as extinções da Mancha Verde, torcida organizada do Palmeiras, e da Torcida Independente, do São Paulo, além da proibição de todas as demais nos estádios paulistas. Em 1998, o palmeirense Adalberto Benedito dos Santos, de 23 anos, foi condenado a doze anos de prisão pela morte do adolescente.

Uma agenda de repressão foi acionada a partir de então. Bandeiras de mastro foram proibidas nos campos pelos 27 anos seguintes, os estádios ficaram sem instrumentos de percussão por mais de uma década e faixas e outros materiais agora são liberados ou vetados de acordo com o comportamento das organizadas: seus integrantes sabem que qualquer deslize na arquibancada pode resultar em sanções, com uma dosimetria pouco clara e, não raro, por tempo indeterminado. Não se discute a necessidade desses mecanismos de controle do público, mas faltam método e consistência para um combate efetivo aos episódios de violência. Quase tudo é proibido dentro e fora dos estádios paulistas, com o Estado, em especial o Ministério Público, atuando como bedel de arquibancada.

Torcedores, mesmo os não organizados, costumam reclamar da truculência do 2º Batalhão de Choque da pm, e a falta de bom senso da corporação encarregada do controle de multidões se revela em sutilezas. Livros, revistas e jornais são proibidos nas arenas, o que impede, por exemplo, que um estudante gire a catraca portando sua mochila escolar. Justificativa: o papel é inflamável. “Alguém pode atear fogo ao livro”, ouvi de um policial certo dia. Se isso já aconteceu antes? Nunca.

A batalha campal do Pacaembu foi um evento traumático e redefiniu a relação entre os torcedores e o Estado. Apesar de as organizadas terem sido extintas ou proibidas em termos institucionais, seus integrantes não deixaram de ir aos jogos e, ainda que em menor número, continuam se agrupando nos mesmos setores e cantando as mesmas músicas. Só mudou o fato de não poderem vestir o uniforme das entidades ou usar adereços (faixas, bandeiras, instrumentos de percussão, sinalizadores etc.). Impedidas de frequentar os campos em São Paulo, as organizadas passaram a existir apenas nas caravanas interestaduais.

Autor de diversos livros sobre futebol e torcidas, o sociólogo Bernardo Buarque de Hollanda, professor pesquisador da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV), aponta que a repressão que vem desde os anos 1990 produziu resultado contrário ao pretendido: “A proibição gerou como efeito colateral o investimento das organizadas no Carnaval paulistano, fortalecendo as associações, que ampliaram seu raio de ação para as esferas cultural e de lazer da cidade.”

O braço carnavalesco das entidades surgiu inicialmente como um complemento das atividades antes restritas à arquibancada, mas foi se profissionalizando nas décadas seguintes. “O fato de três entre as cinco primeiras colocadas do Carnaval de 2024 [Dragões da Real, Gaviões da Fiel e Mancha Verde] serem constituídas por esse amálgama entre escolas de samba e torcidas organizadas comprova a força institucional e organizacional angariada na capital paulista, apesar de as torcidas, paradoxalmente, serem tidas como bandos de vândalos e desordeiros”, diz Buarque de Hollanda. Não à toa, as entidades costumam se apresentar como movimentos sociais.

A proibição das organizadas em estádios reduziu as ocorrências violentas associadas ao futebol em São Paulo na segunda metade dos anos 1990, mas apenas em estádios e suas imediações. Porém, enquanto a polícia age com eficácia para evitar conflitos dentro e nas proximidades das arenas, as brigas e emboscadas entre agrupamentos rivais continuam a ocorrer em cidades vizinhas de São Paulo, bairros da periferia e outros locais afastados – e as autoridades se mostram inaptas para punir os brigões. Contam-se às centenas as mortes causadas por confrontos entre torcedores nas últimas décadas, mas pouquíssimas pessoas foram julgadas e condenadas pelos crimes cometidos. A impunidade é o fator determinante para explicar a violência no futebol: punir o CPF teria mais efeito do que a imputação de uma pena ao CNPJ.

Na virada do século, as organizadas, incluindo Mancha e Independente, foram recuperando espaço e retomaram direitos, embora nunca tenham conseguido modificar a percepção negativa da sociedade: por mais que sejam capazes de promover festas grandiosas, basta uma briga para que todo o histórico de violência seja relembrado.

O jornalista americano Bill Buford, ex-editor da revista New Yorker e tido como um dos expoentes do chamado “realismo sujo”, escreveu uma das obras mais fortes sobre os hooligans (vândalos, em inglês) e o hooliganismo. O comportamento agressivo desses torcedores deixou o Reino Unido em polvorosa entre as décadas de 1980 e 1990 e foi combatido com mão de ferro e práticas no mínimo controversas pela ex-primeira-ministra Margaret Thatcher.

No livro Entre os vândalos, Buford se infiltrou em grupos de torcedores, aproximando-se de uma profusão de personagens cruéis, desdentados e embriagados, correndo todo tipo de riscos e levando muitas pancadas da polícia. O autor não tarda muito a admitir-se fascinado pela violência e pelo poder da multidão. Ao refletir sobre sua incursão entre figuras tão degradantes, Buford elabora uma valiosa reflexão sobre o jornalismo investigativo:

O essencial em um trabalho jornalístico é seu imperativo de objetividade. Cabe a ele registrar e transmitir a verdade dos fatos, como se a verdade estivesse ali, exposta à visitação, aguardando a chegada do repórter. Tal é a premissa do jornalismo objetivo. O que esta premissa exclui é aquele fato incerto e relativo referente ao responsável pela reportagem, a noção de que não existe o percebido sem aquele que percebe e que excluir as circunstâncias envolvendo a história é relatar uma inverdade.

Essa passagem de Entre os vândalos me lembra que preciso ser transparente com quem lê este texto: tenho um lado nessa história, uma vez que é inevitável que ele seja permeado pelo fato de que sou um torcedor organizado há quase três décadas. Resolvi me associar ainda na adolescência, em 1997, dois anos depois da batalha campal do Pacaembu, quando a Mancha Verde se reinventou como Mancha Alvi Verde, com um CNPJ distinto e uma sede quase clandestina em uma galeria comercial na região central de São Paulo. Então apenas um garoto que sonhava ser jornalista, eu, como Buford, me deixei seduzir pelo poder da multidão.

Tantos anos depois, conheci muitas cidades do Brasil e vários países viajando atrás do Palmeiras. Tenho também uma posição de destaque na Mancha Verde e lancei, em 2021, o livro Forasteiros: crônicas, vivências e reflexões de um torcedor visitante (um capítulo foi publicado na piauí_179, agosto de 2021), em que me apoio na minha vivência na arquibancada para refletir sobre como a experiência de ver futebol in loco foi se modificando nas últimas três décadas.

Tenho críticas ao tratamento dado pelas autoridades aos entusiastas de futebol no Brasil, mas reconheço a dose de culpa que cabe aos torcedores, em especial às organizadas. Entendo que alguém pouco afeito a frequentar a arquibancada enxergue tais entidades como violentas e até criminosas, mas penso ser importante apresentar uma perspectiva distinta.

A marginalização das torcidas tem a ver com a imagem transmitida, há décadas, por programas sensacionalistas de tevê, por uma mídia esportiva pouco interessada em se aprofundar no tema e por comentaristas de estúdio que deixaram de frequentar estádios há muito tempo. Muitas críticas são justas e pertinentes, mas gostaria de colocar em questão essa narrativa e as argumentações reducionistas com seu discurso condenatório feito de antemão.

Quando lancei Forasteiros, ouvi várias vezes esta pergunta: “É um livro sobre o Palmeiras?” Não, não é. O livro é sobre pessoas que percorrem longas distâncias para desbravar territórios inóspitos e cantar mais alto do que a multidão que ocupa os demais setores de um estádio. Ainda que a perspectiva seja a de um palmeirense, tem um olhar sensível sobre o outro torcedor, com uma trinca de capítulos iniciais em que eu rendo homenagens (não explícitas, mas tampouco contidas) a corintianos, são-paulinos e santistas. Não foi algo intencional, mas interpreto como um reconhecimento do quanto o embate com o contraditório forjou a minha identidade. Ainda hoje, tendo passado dos 40 anos de idade, eu me sinto impelido a seguir até as trincheiras (imaginárias, por favor) do futebol porque só consigo assimilar o mundo ao meu redor ao me deparar com quem tem um ponto de vista divergente.

Entre agosto de 1998 e abril de 2016, o Palmeiras foi a campo 169 vezes para enfrentar Corinthians, Santos ou São Paulo. Esses enfrentamentos de quase duas décadas foram realizados em onze estádios. Eu tinha 16 anos quando iniciei a sequência que perduraria até completar 35. E só interrompi a marca porque, em abril de 2016, Alexandre de Moraes assinou a determinação de que eu não seria mais bem-vindo nos jogos com mando dos meus rivais.

O primeiro clássico do Palmeiras depois da instituição da torcida única foi contra o Santos, na Vila Belmiro. Encarei como se fosse um erro das autoridades, como um jogo fantasma, como se a ausência de quem veste verde no antigo setor visitante da casa alvinegra fosse uma ofensa à história do confronto. Ainda hoje, depois de ser impedido de comparecer a 36 duelos como forasteiro, não consigo me adaptar à transmissão televisiva e considero um ultraje não poder exercer o meu direito de torcer.

Desconforto parecido se aplica aos encontros realizados com mando do Palmeiras. Foram 38 entre abril de 2016 e abril de 2024, e meu olhar sempre se dirige para o espaço normalmente destinado aos forasteiros. Gostaria de ver ali adversários vestindo o preto e o branco de Corinthians e Santos ou as três cores do São Paulo, mas só há verde por todos os lados, em um ambiente monocromático que contraria a vocação da cidade como um espaço de convivência e interação.

A comemoração dos gols segue intensa – são as camisas do rival que estão no gramado, afinal –, mas a ausência de oponentes na arquibancada torna a experiência um tanto estéril: é como se tamanha euforia fosse um pouco covarde, uma vez que não há quem possa reagir na tribuna oposta.

Nada é tão acintoso quanto o silêncio dos gols anotados pelos times sem representantes na arquibancada. Quando muito, é possível escutar os gritos dos atletas dentro de campo; nem mesmo as manifestações dos dirigentes reverberam no estádio, uma vez que eles são confinados nos camarotes envidraçados, em algum canto discreto.

Entre as muitas jornadas sem a presença de público de fora, nenhuma foi tão significativa quanto a final do Campeonato Paulista de 2018, entre Palmeiras e Corinthians, no Allianz Parque, a arena alviverde. Diante de 40 mil pessoas, o visitante devolveu o placar adverso do jogo de ida, em Itaquera (onde fica a casa do Corinthians), e levou a decisão para os pênaltis. Os alvinegros converteram quatro cobranças e os donos da casa, apenas três.

O Corinthians foi campeão vencendo uma final fora de casa contra seu rival pela primeira vez na história – e fez-se silêncio na Zona Oeste da capital paulista. O elenco campeão não teve para onde correr na hora da festa e coube a um pequeno grupo de dirigentes e convidados desempenhar, com discrição e certo desconforto, o papel que deveria caber à maior torcida do estado.

Foi uma tarde traumática para os palmeirenses, mas o pior, ao menos para mim, não foi a perda do título, tampouco as polêmicas de arbitragem: o que mais me marcou foi o silêncio dos gols anotados (no tempo normal e depois nas penalidades) pelos jogadores corintianos. Tendo crescido e amadurecido no embate com quem veste uma camisa diferente da minha, eu somente consigo assimilar as derrotas quando elas vêm acompanhadas pelo urro ensurdecedor de a quem eu tanto me oponho.

E naquele caso, sem a presença dos meus oponentes em uma das esquinas do Allianz Parque, foi como se a derrota não tivesse se consumado, como se algo tivesse faltado para o terror daquela tarde de domingo me perseguir pelos anos seguintes. Penso na perda do Paulista de 2018 como se fosse um evento inconcluso, como um duelo que teve apito inicial, mas nunca chegou ao seu desfecho.

Quase não há contestação à torcida única em São Paulo. Os clubes parecem conformados, e alguns até defendem a medida, ainda que veladamente. As autoridades demonstram satisfação com resultados que são divulgados sem qualquer escrutínio. E a imprensa esportiva, que não prima exatamente pelo senso crítico apurado, já naturalizou a ocorrência dos jogos com apenas uma torcida: se nos primeiros anos havia ao menos um tom de lamento no noticiário, agora o assunto é mencionado como se fosse corriqueiro. E não é: estados com futebol potente, como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Ceará nunca adotaram a torcida única.

A exemplo de São Paulo, o veto a visitantes já foi adotado por outros estados, mas a maioria faz isso em caráter pontual. É assim em Minas Gerais, na Bahia e em Pernambuco. Neste último estado, o ataque covarde promovido por torcedores do Sport ao ônibus que transportava a delegação do Fortaleza, em jogo da Copa do Nordeste em fevereiro deste ano, levou o presidente da Federação Pernambucana a sugerir à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) a implantação de torcida única em todo o país. Mas seu pleito foi ignorado, como já acontecera em âmbito local: em janeiro, ele determinara, com um ato administrativo, a proibição de forasteiros nos clássicos entre Náutico, Santa Cruz e Sport. A medida caiu três dias depois, quando o Tribunal de Justiça Desportiva acatou recurso dos clubes locais.

Sigo inconformado com a impossibilidade de dividir um estádio com meus rivais, mas devo admitir que, ao longo dos últimos anos, tive duas oportunidades fortuitas de revê-los, em circunstâncias que não foram exatamente as ideais.

Uma delas foi a final da Copa Libertadores de 2020, disputada entre Palmeiras e Santos, em janeiro de 2021, no Maracanã. Ainda em meio à pandemia de Covid, o jogo deveria ter seguido a rotina dos dez meses anteriores, com portões fechados para o público. Mas a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) rasgou os protocolos de saúde e, de maneira um tanto clandestina, permitiu que cerca de 3 mil convidados ocupassem um setor que não é diretamente focalizado pelas câmeras de tevê.

Em tese, havia a necessidade de usar máscaras de proteção e manter certo distanciamento social, mas isso durou pouco tempo: com a tensão do jogo, a maior parte dos presentes passou a se comportar como se não houvesse o risco de transmissão de uma doença que deixou mais de 700 mil mortos em todo o país.

O Palmeiras foi campeão continental com um gol nos acréscimos, mas a experiência pareceu artificial: havia mais convidados de patrocinadores do que torcedores habituados àquele espaço; os santistas estavam fora do meu campo de visão; e, com o país em frangalhos, não havia clima para festa. Depois dessa exceção, foram mais nove meses de portões fechados.

Em abril de 2022, resolvi me juntar a alguns amigos argentinos em uma visita do Boca Juniors à casa do Corinthians, em Itaquera. Contrariando as demais jornadas em que me infiltrei em hinchadas que vêm da Argentina, minha atenção não foi para as lideranças de La 12, a barra brava da instituição mais popular da Argentina, mas sim para a multidão alvinegra que eu reencontrei após anos de afastamento forçado. (Barra brava é o nome que se dá, nos países de fala hispânica na América, tanto aos equivalentes locais das torcidas organizadas quanto aos torcedores que fazem parte dela.)

Meu habitual olhar de admiração pelos argentinos foi sobrepujado pelo fascínio do reencontro com a torcida do meu grande rival. Do jogo em si eu não guardo nenhuma lembrança, nem mesmo dos gols. Tudo o que fiz foi analisar o comportamento das organizadas que ocupam a arquibancada Norte, ouvir as músicas que foram criadas nos últimos anos e analisar as interações de um público que me é tão estranho e tão familiar ao mesmo tempo. Em silêncio e com um ar quase solene, me flagrei sorrindo para uma multidão que eu rejeito com todas as minhas forças.

Eis então que revi primeiro os santistas e depois os corintianos. Faltavam os tricolores. E isso foi acontecer em 2024, em grande estilo, mas longe de casa.

Em meio a uma agenda de cerceamento de direitos, há que se registrar ao menos uma evolução para quem vive a arquibancada: a presença feminina em relação ao público total nos estádios brasileiros é hoje sensivelmente maior. Toda uma geração de mulheres passou a frequentar estádios de futebol depois da Copa do Mundo de 2014, responsável pelo surgimento no Brasil das arenas multiuso (o tal do “Padrão Fifa”) e de novos regramentos de conduta. Tais mudanças também foram responsáveis pela acentuada elitização das tribunas, com o afastamento das camadas mais populares, e pelo indesculpável embranquecimento da arquibancada (o que se pode constatar comparando fotos dos anos 1990 e de hoje).

A são-paulina Alessandra Gomes e a palmeirense Letícia Oliveira, ambas com 31 anos, têm o hábito de prestigiar todos os compromissos caseiros de seus respectivos times e costumam viajar para outras cidades, estados e mesmo fora do Brasil. Mas, ainda que já experientes (287 jogos em 30 estádios para Gomes e 240 partidas em 45 canchas para Oliveira), elas nunca haviam comparecido a um clássico com duas torcidas dividindo a arquibancada meio a meio.

A oportunidade chegou em fevereiro de 2024, com a Supercopa do Brasil, uma disputa de início de temporada que reúne, em jogo único, os vencedores do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil do ano anterior. Como Palmeiras e São Paulo haviam conquistado os dois torneios, aconteceu o que se insinuava desde a retomada dessa competição: a CBF teria de pensar em uma maneira de permitir duas torcidas paulistas no mesmo estádio.

Foram semanas de indefinição. A solução mais lógica, que seria jogar em São Paulo, foi descartada: essencialmente pelo veto de 2016 a duas coletividades, mas também pela impossibilidade de encontrar um campo neutro. Brasília, que já recebera edições anteriores da Supercopa, estava com seu principal equipamento esportivo, o estádio Mané Garrincha, alugado para outro evento. Os clubes manifestaram a preferência pelo Maracanã, mas a sugestão foi rechaçada em função do cronograma de manutenção do gramado. Por fim, depois de serem cogitadas cidades como Belém, Uberlândia e até Miami, a CBF optou pelo Mineirão, em Belo Horizonte – em outra jurisdição, não haveria o que as autoridades paulistas pudessem fazer para evitar a presença de duas torcidas.

De imediato, houve quem apontasse os riscos inerentes à escolha do local. O principal deles, de ordem logística, é que duas multidões que se enxergam co­mo inimigas teriam de seguir de São Paulo até a capital mineira usando o mesmo caminho: a Rodovia Fernão Dias, em um trajeto de 1 160 km (somando ida e volta).

Além disso, um agravante era a realização, no mesmo fim de semana, do explosivo clássico local, entre Atlético e Cruzeiro. Ainda que as partidas estivessem programadas para dias distintos (esta no sábado, a outra no domingo), temia-se que ocorressem confrontos anabolizados pela chegada antecipada de palmeirenses e são-paulinos à cidade e, também, em razão das alianças de longa data entre organizadas paulistas e mineiras: a Mancha Verde tem uma relação de amizade com a atleticana Galoucura, e a Independente é próxima da cruzeirense Máfia Azul.

Ciente dos riscos, o comando do policiamento organizou um esquema de segurança exemplar, com foco em dois pilares: planejamento detalhado e cooperação com as torcidas organizadas. As lideranças de Mancha, Independente e de entidades menores foram convidadas para reuniões em Belo Horizonte na semana que antecedeu o duelo. Lá foram definidas as bases para que as caravanas saíssem de São Paulo na noite de sábado, com intervalo de três horas entre alviverdes e tricolores. Com escolta policial durante todo o trajeto, elas chegariam ao Mineirão por rotas distintas.

Um acordo de paz foi selado entre diretores das entidades, e os comandantes do policiamento local tiveram a sensibilidade de liberar instrumentos de percussão, bandeiras de mastro, faixas e adereços em quantidade bem acima do normal, resultando em uma festa comparável às que eram vistas nos estádios paulistas na década de 1990.

Uma caravana de ônibus de torcedores é uma imagem de forte impacto. São dezenas de coletivos enfileirados, ocupando quilômetros de estrada e demandando a ação de um aparato policial que só amplia o efeito da passagem. Os relatos passam de geração para geração, por vezes com números que extrapolam a realidade. O usual é a viagem de centenas de forasteiros para encarar um mandante em sua própria cidade, mas o que aconteceu na Supercopa do Brasil é fato inédito, com a terceira e a quarta maiores torcidas do país se deslocando em massa pela mesma rodovia para se encontrarem em outra capital.

Há doze anos sem um Choque-Rei (apelido pelo qual o clássico é conhecido desde a década de 1940) com estádio dividido ao meio, palmeirenses e são-­paulinos entenderam que havia outra disputa, em paralelo com a que ocorreria no campo: qual torcida compareceria em maior número?

O boletim financeiro divulgado pela CBF não permite responder à pergunta com convicção, mas, tomando por base a comparação dos ingressos vendidos para os setores exclusivos das duas torcidas, os são-paulinos formaram ligeira maioria (51,4% contra 48,6% de palmeirenses). O equilíbrio numérico entre alviverdes e tricolores no Mineirão reflete o poder de mobilização das organizadas: Mancha Verde e Independente deixaram a capital paulista com cerca de setenta ônibus cada uma – é difícil cravar o número exato, porque veículos de subsedes e torcidas menores costumam se juntar ao comboio.

Além do aluguel dos ônibus e da venda das passagens, os organizadores precisaram se preocupar com os ingressos para cerca de 3 mil integrantes e toda a preparação da festa que seria realizada longe de casa – a Mancha Verde, por exemplo, levou 2 bandeirões com pelo menos 120 metros de comprimento cada um, 20 bandeiras de mastro, 20 mil bandeirinhas, faixas plásticas e outras peças. Para transportar todo esse material foram necessários três ônibus.

A contadora Alessandra Gomes e a jornalista Leticia Oliveira não foram a Belo Horizonte nas caravanas, mas viveram intensamente um fim de semana dedicado a seus clubes de coração. O inusitado dos dias passados na capital mineira foi a convivência prolongada com adversários. A rivalidade torna essa situação um tanto desconfortável para os mais fanáticos, mas, à exceção de desentendimentos pontuais, não se teve notícia de nenhum incidente grave em Belo Horizonte, na estrada, nas rodoviárias ou nos aeroportos.

Palmeiras e São Paulo fizeram um jogo truncado, com poucas oportunidades de abrir a contagem, e ficaram no empate em 0 a 0. A disputa seguiu para os pênaltis, e o tricolor levou o troféu para o Morumbi. Mas boa parte das 43 mil pessoas que pagaram ingresso não se mobilizaram apenas pelo título em disputa ou pela boa fase dos dois clubes, mas sobretudo pela rivalidade e a perspectiva de reviver um clássico como nos velhos tempos.

O sucesso do clássico com estádio dividido bem longe da capital paulista se deve muito à conscientização das torcidas, mas também ao planejamento e à integração entre diversos órgãos de segurança pública. Para se ter uma ideia da obstinação para evitar confrontos, havia policiais de prontidão em todos os postos de combustível e redes de serviços nos 580 km da Rodovia Fernão Dias.

O sociólogo Bernardo Buarque de Hollanda enfatiza algo que é corroborado pelos presidentes das torcidas: a repressão das últimas décadas em São Paulo, inadequada para resolver ou ao menos atenuar o problema da violência, cedeu espaço para o diálogo – aberto pelo delegado César Saad, da Delegacia de Polícia de Repressão aos Delitos de Intolerância Esportiva (Drade), que ocupou o vácuo deixado por promotores mais midiáticos e estabeleceu uma relação mais transparente com as lideranças das organizadas. “Se os promotores nomeados pelo Ministério Público de São Paulo para lidar com a violência apostavam em uma retórica de agressividade e em uma lógica de vigiar-punir-proibir, o relacionamento colaborativo fez com que os líderes das organizadas passassem a ter voz ativa e se enxergassem não mais como problema, mas sim como parte da solução”, diz Buarque de Hollanda.

Para Gomes e Oliveira, o Choque-­Rei em Belo Horizonte valeu mais pelos fatores extracampo. “Eu sabia que estaria vivendo a história, e vi muito pouco do que aconteceu no gramado”, conta Oliveira. “O mais importante era cumprir a minha missão na arquibancada.” Gomes diz que “valia qualquer coisa para estar lá, porque não se sabe quando teremos outro clássico de verdade”.

Era possível notar certo deslumbramento no olhar dos mais jovens diante da primeira oportunidade de encarar os adversários na curva oposta. Desde a imposição da torcida única, os estádios são frequentados por uma geração que desaprendeu a lidar com o contraditório, ou nunca soube fazê-lo. Uma das consequências é a intolerância: são vários os episódios de agressões a pessoas que, por não estarem trajadas com o uniforme do time da casa, foram confundidas com visitantes infiltrados.

É uma geração que desconhece a sensação de festejar uma vitória enquanto os oponentes abandonam a arquibancada em silêncio. E que tampouco faz ideia do quanto o estrondo do gol adversário é doloroso, na mesma medida em que é necessário para a formação do caráter. Mas, ao menos por uma tarde ensolarada em Belo Horizonte, foi possível sentir a emoção de uma época em que havia uma saudável disputa territorial para ser maioria na arquibancada do Morumbi – o grande palco dos clássicos paulistas para mais de 100 mil pagantes.

Tão logo terminou a Supercopa do Brasil, começou outro tipo de contenda, esta mais contemporânea: nas redes sociais, palmeirenses e são-­paulinos proclamavam supremacia na arquibancada, com cada grupo afirmando ter cantado mais alto e feito a festa mais bonita. Uma frase, entre todas, funciona como síntese do discurso de alviverdes e tricolores: “Eu nem ouvi a torcida deles cantar.”

É o que eu defino como um processo de “negação do outro”. Os estádios, outrora tão plurais, diversos e democráticos, passaram a abrigar pessoas que perderam a capacidade de enxergar o diferente, como se ele não pudesse existir. O fato de o sujeito não ter escutado a torcida adversária não quer dizer que faltou incentivo do outro lado; quer dizer, isso sim, que o sujeito cantou tanto que a sua voz e a de seus companheiros de arquibancada ofuscaram o barulho vindo da curva oposta. Sempre foi assim nos clássicos com estádio dividido ao meio, mas a proibição de forasteiros retirou de muitos aficionados a sensibilidade de aceitar o outro como parte indispensável da festa.

Menciono aqui uma geração mais jovem e pouco habituada ao futebol de outras décadas, mas o prolongamento da proibição de forasteiros em clássicos parece ter produzido efeito deletério mesmo entre torcedores da chamada velha guarda. Na saída do Mineirão, um amigo meu, com um cartel de centenas de jogos e habituado a visitar canchas rivais, não se empolgou com a perspectiva de retorno dos visitantes. “Eu não lembrava mais como era a sensação de ver a comemoração de quem eu odeio”, disse ele. “Foi muito dolorido, e eu prefiro não passar mais por isso.”

Na semana seguinte à Supercopa, a Mancha Verde publicou em suas redes sociais uma nota, que eu mesmo me encarreguei de redigir, com uma autocrítica de erros cometidos no passado e elogios ao efetivo de segurança para o Choque-­Rei e ao comportamento dos torcedores. Considerando o sucesso do clássico em Minas e uma alegada “maturidade” das organizadas, o texto conclamou as autoridades a reconsiderar a determinação da torcida única. Aproveitando um raro momento de trégua por parte da opinião pública, lideranças da Independente também manifestaram esse desejo.

Mas nenhuma autoridade se pronunciou oficialmente sobre o assunto, e os clássicos no estado de São Paulo seguem sendo disputados apenas para mandantes. Desde 2016, foram 144 os duelos nessa condição, e os jogadores de Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo balançaram as redes 114 vezes fora de seus domínios. Foram 114 gols comemorados apenas por atletas, comissões técnicas e um pequeno séquito de dirigentes, 114 estrondos que não se fizeram ouvir, 114 vezes em que foi revogado o direito de manifestação de quem pensa diferente. Em oito anos, foram 114 gols silenciados pelo Estado.


Rodrigo Barneschi responde pela comunicação institucional da Mancha Verde.


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é jornalista, autor de Forasteiros: crônicas, vivências e reflexões de um torcedor visitante (Editora Grande Área).