esquina

O CHEIRO DA ORCA

Um perito em esqueletos
Imagem O cheiro da orca

5 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Numa segunda-feira recente, o biólogo Antonio Amâncio chegou ao Museu de Anatomia Veterinária da Universidade de São Paulo carregando uma serra, um alicate, um martelo e uma chave de fenda. Passou diante de um esqueleto de girafa, cruzou com um pelicano taxidermizado e então avistou, a 3 metros de altura, a ossada de uma orca. Pediu que o cetáceo fosse descido ao chão, para que ele pudesse desmontá-lo. “A sequência das costelas estava errada. E também havia musculatura ressecada em alguns dos ossos”, diagnosticou. Passaria a semana trabalhando no esqueleto.

Para o biólogo, baleia boa é baleia morta. Ele é dono da única empresa do país especializada em armar e desarmar esqueletos de cetáceos, a Amâncio Osteomontagem. Já remontou uma jubarte no Rio Grande do Sul, um cachalote no Ceará e uma baleia-de-Bryde no Maranhão. Ultimamente, tem se dedicado a uma ossada de 13 metros no aquário marinho a ser inaugurado no Rio de Janeiro pouco antes das Olimpíadas. Receberá 82 mil reais pelo trabalho, que deve se estender pelo ano inteiro.

Amâncio nasceu há 35 anos em Barroquinha, município pequeno e pobre na divisa do Ceará com o Piauí. Capinou na infância, estudou até o sétimo ano e diz ter matado “muito beija-flor para comer com feijão”. Na adolescência, foi pedreiro e funcionário numa fábrica de confecção. Aos 20 anos, aceitou um emprego de office-boy na Aquasis, uma ONG especializada em fauna marinha, sediada nas imediações de Fortaleza. “Uma semana depois de chegar, pediram que eu ajudasse a desenterrar a ossada de uma baleia”, contou Amâncio. Foi amor à primeira inalada: “Aquele cheiro da matéria em decomposição me fascinou.”

Fez um curso-relâmpago de anatomia. Como dispusesse de tempo livre, resolveu desmontar e montar os cinco golfinhos da coleção da Aquasis. “As pessoas gostam de ver golfinho nadando, mas eu me identifiquei mais com o esqueleto”, contou. “É um quebra-cabeça gigante.” Quatro anos depois, assumiu a coordenação do acervo osteológico da ONG. Em 2007, foi chamado para montar uma baleia jubarte na Bahia e viu que havia um nicho a ser ocupado. “Não tinha ninguém fazendo isso no Brasil.”

Terminou o ensino fundamental e o médio num curso supletivo e estudou biologia durante a noite numa universidade pública de Fortaleza. Formou-se em 2011, mesmo ano em que abriu sua empresa. Hoje, diz ter 26 trabalhos encomendados no Brasil e outros três no exterior. Leva duas jubartes tatuadas sobre as costelas. “Foi o primeiro bicho que resgatei, e o primeiro grande esqueleto que montei”, justifica.

Dos animais marinhos, a orca é possivelmente o que mais se beneficiaria de uma consultoria de imagem. Apesar de tida como uma baleia, trata-se, na verdade, de um golfinho (baleias têm cerdas bucais; golfinhos e orcas, dentes). Ganhou fama de poucos amigos por causa de Orca – A Baleia Assassina – um filme de horror lançado em 1977, na esteira do sucesso de Tubarão. Apesar disso, nada mais é do que um grande mamífero de dieta carnívora, e não houve Free Willy que a livrasse da má reputação.

Quando era mais do que um amontoado de ossos, a orca do Museu de Anatomia Veterinária chamava-se Nandu. Capturada em 1983 na Islândia, no ano seguinte foi vendida ao parque de diversões Playcenter, de São Paulo. Lá permaneceu, enclausurada em quatro tanques à beira da Marginal Tietê, até morrer de úlcera e câncer, em 1988. Seu corpo foi doado à universidade, que tratou de enterrá-lo, desenterrá-lo e montá-lo sem muitos cuidados (ossada nenhuma consegue ser armada sem o concurso de fungos e bactérias, que se encarregam de decompor pele, músculos e órgãos internos durante uma quarentena obrigatória sob sete palmos).

Assim que o museu conseguiu recursos para remontar os restos de Nandu, Amâncio foi convocado para a tarefa. Cobrou 12 500 reais pelo serviço, valor que incluiu a vinda de Fortaleza, a hospedagem em São Paulo e sua mão de obra, além da produção de réplicas dos ossos que faltavam. “Eu tinha os peitorais originais de uma orca em casa. Fiz cópia em poliuretano e fibra de vidro”, contou. “Também fabriquei dois ossos da cintura pélvica.”

Para dar conta da montagem na capital paulista, recrutou cinco estudantes de medicina veterinária que, em troca, receberam um certificado. Naquela segunda-feira, o grupo se encarregou de descer o esqueleto da orca, retirar o crânio, serrar o vergalhão que atravessava a coluna e lixar os ossos que ainda apresentavam restos de tecido muscular. No dia seguinte, misturaram reagentes para formar uma espuma branca de poliuretano que mais tarde foi cortada em fatias, para fazer as vezes de cartilagem entre cada vértebra do animal. A remontagem propriamente dita começou na quarta-feira.

Eram quatro da tarde de quinta-feira quando Amâncio encaixou a última vértebra da espinha do cetáceo. “Agora alinhou”, disse o biólogo, deitado sob o esqueleto erguido a 1 metro do chão. “Está perfeito.” Em seguida, ordenou a uma assistente que, aparelhada com um secador de cabelo, endurecesse a cola entre os ossos. Para outra, entregou um pano e pediu que limpasse as costelas – até aquele momento no chão, aguardando o momento de serem encaixadas. O processo era observado por alunos e professores. “A orca vai ter peitoral, nadadeira, os cinco dedos, as falanges”, notou Maurício Cândido da Silva, o curador do museu. “Vai ser boa para os professores discutirem o processo de evolução.”

Amâncio pegou a furadeira e fez um orifício no osso esterno, no tórax. “Muito bom o cheiro”, disse. Furou também um osso da costela, para uni-lo ao esqueleto por meio de um pino. “Antes a estrutura ficava exposta”, criticou. Levaria mais um dia para encaixar as nadadeiras, a mandíbula inferior e os peitorais. “Essa vai ser a orca mais completa do Brasil”, comemorou.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


É jornalista e redator do Piauí Herald. É autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras