questões ensaísticas

O DILEMA DO ESPAGUETE SUICIDA

A inusitada convergência entre a animação Rick and Morty e a literatura de J.M. Coetzee
Imagem O dilema do espaguete suicida

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Ao que parece, a escritora australiana e o cientista americano não teriam o que conversar. Ela conhece a fundo a literatura ocidental e mantém-se atualizada na filosofia contemporânea, mas sua relação intuitiva com o mundo não casa bem com a objetividade científica. Ele alcançou uma compreensão revolucionária da física que rege o tempo e o espaço, mas seus interesses culturais são pedestres – passa o tempo livre assistindo aos mais vulgares programas de auditório que a televisão de todo o universo é capaz de oferecer. Há ainda uma barreira talvez intransponível entre eles: suas posições éticas sobre o direito dos animais. A escritora angustia-se com o sofrimento imposto pela indústria da carne a galinhas e vacas, enquanto o cientista não atribui muita importância sequer à vida humana. Até os traços de personalidade que os dois compartilham contribuem para afastá-los: ambos cultivam uma intransigência ranzinza na defesa de crenças obstinadas e hábitos arraigados, característica que a idade avançada vem acentuando.

Outro ponto em comum: os dois são pessoas fictícias, seres de faz de conta. Elizabeth Costello, a escritora, saiu da soturna imaginação literária de J.M. Coetzee, de 83 anos. Delegada ficcional do autor sul-africano – que tem as mesmas objeções éticas ao consumo de animais –, essa personagem surge em A vida dos animais (1999), protagoniza uma coleção de narrativas que leva seu nome, Elizabeth Costello (2003), figura ainda no romance Homem lento (2005) e em cinco dos sete textos de Contos morais (2017), obras publicadas no Brasil pela Companhia das Letras. Rick Sanchez, o cientista, é o anti-herói alcoólatra e ególatra da série de animação Rick and Morty, ensandecida paródia de ficção científica criada por Dan Harmon e Justin Roiland e exibida desde 2013 pelo canal americano Adult Swim (no Brasil, está disponível também na plataforma HBO Max). Roiland fazia a voz dos personagens Rick e Morty até a sétima e mais recente temporada, quando foi afastado do Adult Swim por causa de uma série de acusações de assédio e abuso sexual.

Como a liberdade criativa tem o condão de contornar improbabilidades, nada impede que Elizabeth Costello e Rick Sanchez sejam reunidos por um escritor ou roteirista ousado o suficiente para se arriscar a um processo por violação de direitos autorais. Os dois poderiam se conhecer em um cruzeiro intergaláctico no qual seriam as celebridades convidadas (há um precedente: em O romance na África, segunda narrativa de Elizabeth Costello, a australiana é paga para fazer uma conferência em um cruzeiro marítimo).

Até pouco tempo atrás, eu julgaria ridícula essa proposta de cross-over. Comecei a ver Rick and Morty no início de 2023, a princípio só para acompanhar meu filho de 13 anos (sim, estou ciente de que a indicação etária é 16), e acabei curtindo a levada anárquica da série. Nem por isso me ocorreu aproximar uma animação, cujos protagonistas ilustram campanhas publicitárias de redes de fast-food, da obra séria do Nobel de Literatura de 2003, autor de livros magistrais como Desonra e Verão. A ideia só me veio em novembro de 2023, quando assisti ao quarto episódio da sétima temporada, cujo enredo está entre os mais absurdos de uma série na qual já apareceram dragões tarados que promovem surubas telepáticas e espermatozoides gigantes que entram em combate com a trupe do Cirque du Soleil em Las Vegas. Nessa história, sem dizer uma palavra sobre aviários e pecuária intensiva ou sobre veganismo e direitos animais, Rick and Morty expôs a hipocrisia de todos nós, consumidores de carne.

Quando eu era criança, costumava passar as férias em Vila Ferraz, localidade rural na região centro-­leste do Rio Grande do Sul, onde um casal de tios tinha uma pequena propriedade. Lembro-me do dia em que um porco foi trazido do chiqueiro para o abate. Crianças da vizinhança estavam no entorno, talvez até ajudando no trabalho, mas eu, menino urbano, fui isolado dentro da casa. Para evitar que eu espiasse a cena, minha mãe fechou a porta que levava ao pátio onde o suíno seria sangrado. Ouvi os guinchos do pobre animal. Tive pena, mas não deixei de comer a linguiça que meus tios faziam.

No início do quarto episódio, Rick serve espaguete à família – sua filha Beth, que é veterinária; Jerry, o genro cronicamente desempregado; e os netos Summer e Morty, de 17 e 14 anos. Em torno da mesa, todos se lambuzam com o molho à bolonhesa que, na definição de Summer, equilibra à perfeição sabores picantes e adocicados. Rick vai até a cozinha para servir porções renovadas da massa, e seu neto o segue para perguntar qual o ingrediente secreto do molho. Inadvertidamente, Morty faz aquilo que não tive coragem de fazer quando criança: abre a porta para ver o que não deveria.

Há um cadáver na despensa, aberto do alto do tórax até o baixo abdômen. O interior do corte é todo preenchido por espaguete, que Rick remove com uma colher.

Na sequência seguinte, Morty, enojado e indignado, é conduzido pelo avô ao planeta 41-Kepler B, de onde veio o cadáver. Em visita a um necrotério, Rick mostra que os suicidas locais têm suas entranhas convertidas em saborosa massa. A metamorfose é causada por uma poderosa descarga de cortisol, que só acontece quando a pessoa tira a própria vida (explicações científicas comicamente fajutas abundam na série). Da perspectiva hedonista de Rick, comer o espaguete suicida é um crime sem vítima. Morty, no entanto, quer redimir-se da prática de canibalismo: insiste para que Rick o leve ao velório do homem que sua família devorou. Faz até um canhestro discurso fúnebre, que terá consequências desastrosas adiante.

De volta à Terra, a dupla de viajantes espaciais encontra os demais integrantes da família chocados com a origem do espaguete. Mas não é contra Rick que eles se revoltam: “Morty arruinou a noite do espaguete”, acusa Summer. Beth, sempre no papel de adulta responsável da casa, repreende seu pai por induzi-los a uma insuspeita forma de antropofagia, mas está claro que ela gostaria de continuar consumindo o espaguete em feliz ignorância. Jerry, inconformado, quer que a família abandone seus pruridos morais para continuar a comer humanos convertidos em massa com molho. “Já pensamos em largar tudo e nos juntar à metade fascista do país. Eles podem fazer mais coisas”, sugere.

Na linha satírica aberta pela animação South Park, o humor desses diálogos afiados reside no cinismo explícito, sem dissimulação nem sutileza. As grosserias de Jerry e Summer escancaram o fundo moralmente obscuro das cadeias de produção que nos servem, do qual temos vislumbres ocasionais quando a imprensa noticia que uma empresa emprega trabalho escravo ou explora mão de obra infantil. Como o produto eticamente contaminado aqui é um alimento, torna-se inevitável lembrar os matadouros. Podemos muito bem estar conciliados com o fato de sermos predadores industriais – eu mesmo, talvez tão cinicamente quanto Jerry e Summer, acredito que o consumo de carne consolidou-se como fato cultural incontornável (talvez deva informar que sou gaúcho?). Ainda assim, preferimos que a porta atrás da qual os porcos são mortos permaneça cerrada.

E que a porta não seja transparente: o último dos Contos morais de Coetzee chama-se O matadouro de vidro. Começa com Elizabeth Costello telefonando de madrugada para seu filho John, professor de física e astronomia. Ela o acordou para pedir ajuda na execução de um projeto excêntrico: um matadouro com paredes de vidro. “Me ocorreu que as pessoas só toleram o abate de animais porque não veem nada do que acontece”, explica ela. “Não veem, não escutam, não sentem o cheiro.” Filho paciente, John tenta dissuadir a mãe do projeto excêntrico. “Não vai dar em nada”, diz.

Rick concordaria com John: não dá em nada. E por que se preocupar com matadouros? De acordo com seu figurino de cientista maluco, Rick não tem maiores preocupações éticas. No entanto, a certa altura do episódio do espaguete, ele menciona de passagem um lugar-comum da discussão moral: o famoso “dilema do bonde”, experimento mental proposto pela filósofa inglesa Philippa Foot em 1967 e expandido pela filósofa americana Judith Jarvis Thomson nove anos depois. Na versão mais simples do dilema, um bonde desgovernado está prestes a matar cinco pessoas que estão sobre os trilhos a sua frente, e uma pessoa está posicionada junto a uma alavanca capaz de desviar o bonde para outro trilho, no qual ele matará só uma pessoa. Ela deve acionar a alavanca?

O suicida com entranhas de espaguete configura uma versão alucinada desses cenários esquemáticos que alguns filósofos empregam para tratar de questões morais. Certamente é repulsivo comer espaguete proveniente do interior de um morto. Mas é imoral? Rick diria que não – ou, pelo menos, que não é errado quando apenas ele e os seus comem o espaguete.

Ocorre que a homenagem de Morty feita no velório do suicida repercutiu em 41-Kepler B. Ao tomar conhecimento de que em planetas vizinhos as entranhas de suicidas são iguaria fina, o governo local tem a ideia de aliviar a dívida pública massificando a produção de espaguete. Para tanto, promove campanhas públicas para estimular o suicídio. Comerciantes e consumidores do espaguete sabem de sua tétrica origem. Nem por isso a demanda diminui.

A porta do matadouro foi aberta, e as pessoas querem mais carne.

Na virada de 1997 para 1998, Coetzee proferiu as Tanner Lectures, ciclo de conferências da Universidade Princeton no qual pensadores de áreas diversas são chamados a falar sobre temas da ética. No lugar de uma exposição convencional, o escritor sul-­africano leu duas narrativas sobre uma escritora que, também convidada a dar conferências em uma universidade, decide falar sobre o direito dos animais. Trata-se, claro, de Elizabeth Costello.

Mais tarde integradas ao livro Elizabeth Costello, essas duas histórias de Coetzee foram publicadas em A vida dos animais. Em um apêndice deste livro, quatro acadêmicos discutem as ideias de Coetzee/Costello. Um deles é o filósofo australiano Peter Singer, professor de bioética em Princeton e referência no campo dos direitos animais. Embora esteja do lado de Costello na oposição à indústria da carne, Singer a critica por não considerar diferenças de estatuto moral entre humanos e animais. O filósofo diz que dor é dor, pouco importa a espécie que a sinta. A morte de um animal que não tem consciência do que significa perder a vida, no entanto, não seria tão significativa quanto a morte de uma pessoa. Costello, ao contrário, acredita que os animais têm entendimento da morte.

Outra diferença de fundo: Singer é um utilitarista, cujo pensamento ético busca equacionar o maior bem comum possível. A ordem é aumentar o montante de felicidade no mundo e diminuir o acumulado do sofrimento. Costello despreza o pensamento utilitarista. Isso fica claro em A velha e os gatos, de Contos morais, quando ela explica ao filho suas razões para adotar uma gata com filhotes que encontrou em um bueiro: “Abomino a mentalidade que vê a vida como uma sucessão de problemas apresentados ao intelecto para serem resolvidos. Um gato não é um problema. A gata naquele bueiro fez um apelo a mim e eu respondi. Respondi sem questionar, sem me referir a cálculo moral.” A base dessa ética singular é a empatia – a capacidade que os humanos têm de se colocar no lugar não só de outros humanos, mas de gatos, porcos, bodes, morcegos.

Quando examinamos mais de perto que força empática é essa que pode assumir a perspectiva de qualquer criatura viva, percebemos que se trata de uma qualidade literária. Em A vida dos animais, Costello traz o exemplo de dois poemas que o inglês Ted Hughes escreveu sobre o jaguar: “Ao encarnar o jaguar, Hughes nos mostra que nós também podemos encarnar em animais, pelo processo chamado de invenção poética.” Esta é uma defesa enfática da imaginação ficcional – e, de forma polêmica, uma afirmação de que a ficção não é um passatempo ocioso, de que ela nos exige compromissos morais talvez incompreensíveis para os acadêmicos que se especializam em ética.

Ao aproximar um produto pop à obra de um grande escritor, não pretendo sugerir que as duas coisas sejam equivalentes. É decerto notável que um desenho animado consiga tangenciar dilemas e paradoxos que a imaginação filosofante de Elizabeth Costello suscita. Mas talvez eu só veja certos elementos em Rick and Morty porque li Coetzee. Não se verifica o mesmo em via inversa: Rick and Morty não enriquece minha leitura de Elizabeth Costello.

O estratagema que Rick encontra para encerrar o comércio do espaguete suicida ampara-se no apelo à empatia que Costello exalta como um milagroso talento humano. Mas é uma solução narrativa simplista, que jamais encontraríamos em um romance de Coetzee – nem, podemos supor, nos livros fictícios de Costello.

Por meio de um leitor mental, Rick transmite para todo o planeta os pensamentos finais de Fred, um paciente terminal de câncer que resolve abreviar a própria vida. O que se vê então é aquele filme da vida inteira que, reza a lenda, passa por nossa mente quando ela está para se apagar. Embalada por uma versão um tanto melosa de Live forever, canção do Oasis, a sequência é uma faísca de lirismo sentimental na escuridão niilista de Rick and Morty. Infância, escola, primeiro amor, fracasso acadêmico, sucesso profissional, reencontro com o grande amor, velhice, viuvez – toda uma vida trivial e maravilhosa transcorre em 2 minutos e meio, sem um só diálogo. E dá certo: a empatia com o suicida afugenta os mercadores da morte, pois ninguém mais aceitará consumir vidas como aquela que Fred levou.

A misantropia de Rick matiza a ingenuidade desse encerramento, em uma lição ao neto Morty: “A vida é mesmo errada, o que significa que a morte é certa. Mas você não pode tomar o partido dessa ideia, então você vive.”

Eis como eu imaginaria o diálogo impossível, adaptando livremente diálogos da animação e dos livros de Coetzee:

Elizabeth Costello está sozinha no restaurante, bebendo vinho e admirando as nebulosas de colorido kitsch na janela do cruzeiro espacial. Sem ser convidado, Rick Sanchez senta-se a seu lado. Sempre impertinente, ele abre a conversa perguntando que tal é conquistar a fama literária roubando ideias de outro escritor – referência à obra A casa da rua Eccles, romance de Costello cuja protagonista é a Molly Bloom do Ulisses de James Joyce. “Certos livros são tão pródigos de invenção que ainda sobra muito material para outros autores trabalharem”, ela responde, sem se abalar. É a deixa para o cientista vaidoso proclamar-­se ele mesmo um gênio pródigo em invenções. A conversa envereda pelas viagens interdimensionais de Rick.

Costello interrompe Rick quando ele se gaba de exterminar soldados e burocratas de um império totalitário alienígena. “Nós, contadores de histórias, temos de nos precaver contra esses horrores que você descreve. Se nossas histórias têm o poder de nos tornar melhores, têm também o poder de nos tornar piores. Não sei se você concorda.” Rick discorda, e de modo agressivo. “Nada do que você acha importante importa de verdade. Tudo isso aqui está acontecendo infinitas vezes em infinitas realidades”, discursa. E então lança a pergunta que esperava fazer há um tempo: por que diabos Costello se importa tanto com a vida de leitões e pintinhos?

“Porque sou o único ser do universo que ainda se lembra deles”, ela responde, serena. “Depois que eu for embora, haverá apenas o vazio.” Memória e empatia, os pilares da ficção. Rick recorda-­se da vida que Fred revisou em seus minutos finais. Repete para Costello o que disse para Morty: “A vida é mesmo errada, o que significa que a morte é certa. Mas você não pode tomar o partido dessa ideia, então você vive.”

Escritora e cientista, afinal, encontram um terreno em comum. “Sim”, concorda Elizabeth Costello. “Não podemos tomar o partido da morte.”


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É jornalista e escritor. Publicou o romance Os Dias da Crise (Companhia das Letras)