posfácios do nosso tempo II
Elif Batuman Mai 2023 16h39
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A primeira e única vez em que estive na Ucrânia foi em 2019. Meu livro Os Possessos – um conjunto de ensaios que publiquei sobre meus estudos da literatura russa em 2010 – acabava de ser traduzido para o russo, junto com A Idiota, um romance autobiográfico. Eu estava indo à Rússia no papel de emissária cultural, em uma iniciativa da PEN America e do Departamento de Estado norte-americano. No caminho, parei em Kiev e Lviv: cidades que, até então, eu só conhecia de leituras, primeiro dos romances russos e depois do noticiário internacional. Em 2014, forças de segurança haviam matado uma centena de manifestantes na Praça da Independência, em Kiev, e separatistas apoiados pelos russos declararam a independência de duas minirrepúblicas na região de Donbass. Quase todo mundo que conheci em minha viagem – jornalistas, estudantes, adidos culturais – parecia saber de alguém que havia sido ferido ou morto nos protestos, ou que se alistara no exército voluntário que combatia os separatistas no Leste.
Por ser autora daqueles dois livros intitulados Os Possessos e A Idiota, ouvi um bom número de opiniões sobre Dostoiévski. Chegaram a me dizer que ninguém na Ucrânia queria pensar em Dostoiévski naquele momento, porque os romances dele continham a mesma retórica expansionista usada pelos russos para justificar a agressão militar. Minha reação imediata foi desprezar essa ideia, tomando-a como um compreensível efeito colateral da guerra, como algo “não objetivo”.
Eu estava treinada nesse tipo de distanciamento. Quando estudante, muitas vezes me perguntaram se eu tinha parentes russos e, caso contrário, por que me interessava tanto “pelos russos”. Será que eu estudava as similaridades entre Pedro, o Grande, que ocidentalizou a Rússia, e Mustafa Kemal Atatürk, que ocidentalizou a Turquia, país de onde vinha a minha família? Essas perguntas me pareciam mesquinhas. Por que eu estudaria uma literatura pelo simples fato de ter sido produzida por meus ancestrais? Eu estava lendo literatura russa de uma perspectiva humana, não de um ponto de vista nacional. Escolhera aqueles livros exatamente pela qualidade universal expressa em títulos como Pais e Filhos, Crime e Castigo e Almas Mortas.
É evidente que, durante uma guerra – vi isso em Kiev –, não se deve esperar que as pessoas não leiam as obras a partir de uma perspectiva nacional. Pensei no que eu sabia sobre a vida de Dostoiévski. Quando jovem, por defender o socialismo utópico, ele foi submetido a uma falsa execução e, em seguida, o exilaram na Sibéria. Nos anos 1860, depois de seu retorno do exílio, escreveu Crime e Castigo e O Idiota, contribuindo para o desenvolvimento do romance psicológico. Lembrei que em uma obra posterior, Diário de um Escritor, havia discursos terríveis afirmando que a Rússia ortodoxa estava destinada a unir os povos eslavos e a recriar o reino de Cristo na Terra. Em retrospecto, pude ver que havia, de fato, uma conexão de Dostoiévski com partes da propaganda estatal russa.
Mas não é justamente essa a razão pela qual temos uma admiração tão escassa por Dostoiévski como comentarista político? O que ele fazia bem era escrever romances. Qualquer personagem seu que proferisse um discurso inflamado e ilegível estava fadado a ser rebatido, algumas páginas depois, por outro personagem inflamado, com um ponto de vista oposto: trata-se de uma técnica conhecida como dialogismo, que tem importância tanto para a literatura russa quanto para o meu modo de pensar. Nos meses seguintes à minha viagem, a crítica ucraniana a Dostoiévski continuou a soar com frequência em minha mente, entrando em discussão com o que eu havia pensado em outros tempos e ecoando em outras ponderações que eu vinha fazendo, nos últimos anos, sobre o papel dos romances russos em minha vida.
Essas questões assumiram uma dimensão repugnante no fim de fevereiro do ano passado, quando a Rússia invadiu a Ucrânia. Como eu já estava alerta, não foi difícil perceber a presença da literatura russa no discurso em torno da guerra – em particular nas frequentes invocações de Vladimir Putin do “Mundo Russo” (Russkiy Mir), um conceito popularizado por “filósofos” ligados ao Kremlin desde a queda da União Soviética. O Mundo Russo imagina uma civilização transnacional russa que se estende até mesmo além da “nação panrussa” da “Grande Rússia” (Rússia), da “Pequena Rússia” (Ucrânia) e da “Rússia Branca” (Belarus). Esse mundo está unido pela Igreja Ortodoxa Oriental, pela língua russa, pela “cultura” de Aleksandr Púchkin (1799-1837), Liev Tolstói (1828-1910) e Fiódor Dostoiévski (1821-81) – e, quando necessário, por ataques aéreos.
Por isso, não me causou grande surpresa a notícia, no começo de março, de que vários grupos de literatura ucranianos, incluindo o PEN Ucrânia, haviam assinado uma petição pedindo “total boicote a livros russos no mundo” – um boicote que visava não apenas selar o fim dos laços econômicos com editoras russas, mas também interromper a distribuição e a promoção de qualquer escritor russo. O raciocínio era igual àquele que eu tinha ouvido em 2019: “A propaganda russa está presente em muitos livros, o que faz deles armas e pretextos para a guerra.” O boicote não estava de acordo com o estatuto do PEN, que diz: “Em tempos de guerra, obras de arte, que são patrimônio da humanidade como um todo, devem passar incólumes às paixões nacionais e políticas”. O PEN Alemanha não demorou a publicar uma nota afirmando que políticos insanos do século XXI não podem ser confundidos com grandes escritores que, por acaso, são do mesmo país. O título da nota dizia “O inimigo é Putin, não Púchkin”.
Púchkin estava no olho do furacão. Amplamente reverenciado como o fundador da literatura russa, ele é autor de Eugênio Oneguin, tido muitas vezes como o primeiro grande romance russo e que foi publicado de início na forma de folhetim, a partir da década de 1820, época em que boa parte da vida aristocrática na Rússia era conduzida em francês. A relação do próprio Púchkin com o Estado russo foi problemática. Em 1820, aos 20 anos de idade, ele foi banido de São Petersburgo por ter escrito versos antiautoritários (em especial a ode Liberdade, mais tarde encontrada em posse dos rebeldes dezembristas[1]). Em 1826, obteve permissão para voltar a Moscou – tendo o czar Nicolau I como censor pessoal. Ele acabou retornando a São Petersburgo, onde morreu, aos 37 anos, depois de um duelo claramente evitável. O Império Russo e a União Soviética erigiram Púchkins de bronze no mundo todo, desde Vilnius, na Lituânia, até Havana, em Cuba, passando por Tashkent, no Uzbequistão. Muitos monumentos foram construídos no auge dos expurgos stalinistas, em 1937, ano do centenário de morte do poeta.
Em abril, um movimento conhecido como Pushkinopad (Queda de Púchkin) começou a varrer a Ucrânia, resultando no desmanche de dezenas de suas estátuas. Uma dupla de técnicos de informática criou um chatbot no Telegram – @cancel_pushkin_bot – para identificar escritores russos que não mereciam ter seus nomes batizando coisas na Ucrânia. O chatbot descreve Púchkin e Dostoiévski como chauvinistas russos (Tolstói, que se tornou um arauto do pacifismo nas três últimas décadas de vida, ganha um salvo-conduto).
Mais ou menos nessa época, recebi um convite para uma palestra sobre literatura russa em Tbilisi, na Geórgia. O convite veio de um programa de língua russa para estrangeiros que normalmente ocorria em São Petersburgo, mas foi realocado, junto com seu fundador, um educador britânico chamado Benjamin Meredith.
O convite me trouxe novas reflexões. Certamente havia muita coisa a aprender nessa rica conjunção de circunstâncias geoespaciais e históricas. Mas, na minha condição de eterna estudante da literatura russa, será que eu devia impor a mim mesma mais uma visita a um antigo território tanto do Império Russo quanto da União Soviética?
O entrelaçamento histórico entre Geórgia e Rússia parecia abrir para mim outro caminho em um labirinto que nunca deixava de se bifurcar. Em 1783, o rei Erekle II assinou um tratado com Catarina, a Grande, pelo qual a Rússia assegurava proteção às terras da Geórgia contra o Império Persa (e contra o Império Otomano e várias outras tribos e canados da região). A Rússia jamais cumpriu o que previa o tratado e, em 1801, começou a anexar a Geórgia. Tíflis – como Tbilisi era conhecida naquela época – transformou-se em uma capital colonial, com imprensa, escolas e um teatro de ópera. Também se tornou a base para a expansão russa rumo à Chechênia e ao Daguestão. Como resposta às incursões russas, muitos habitantes das partes altas do Norte do Cáucaso se uniram para formar um exército de resistência, liderado por uma série de imãs do Daguestão, dos quais o último, o imã Shamil, rendeu-se em 1859.
Durante a guerra, gerações de jovens literatos russos – dentre eles, Púchkin e Tolstói – foram à região. Eles escreveram sobre suas experiências, construindo aquilo que viria a ser conhecido como literatura russa do Cáucaso: obras que me empolgaram muito quando as estudei na faculdade, porque, com frequência, apareciam palavras turcas no texto. À medida que o século XIX avançava, jovens literatos georgianos começaram a estudar em São Petersburgo, a ler Púchkin e a adotar uma retórica romântica russa para descrever a identidade nacional georgiana.
A Geórgia foi conquistada pelo Exército Vermelho em 1921 e se separou da União Soviética em 1991. Todos os anos, o país lembra o trágico dia 9 de abril de 1989, quando o Exército soviético esmagou uma manifestação a favor da independência em Tbilisi. O aniversário de Stálin continua sendo celebrado todo mês de dezembro em sua cidade natal, Gori. Em 2008, a Rússia enviou tropas à Geórgia para apoiar as repúblicas separatistas da Ossétia do Sul e da Abkházia. A memória dessa guerra contra os russos tem tido um papel importante para fomentar o apoio popular dos georgianos aos ucranianos. Apesar disso, o partido Sonho Georgiano, que governa o país – e foi fundado por Bidzina Ivanishvili, um bilionário que fez sua fortuna na Rússia –, não se uniu às sanções internacionais contra a Rússia.
Depois da invasão da Ucrânia, centenas de milhares de cidadãos russos atravessaram a fronteira com a Geórgia, tanto por razões ideológicas quanto por pragmatismo. Dezenas de milhares passaram a morar na capital Tbilisi, reavivando memórias históricas e elevando o preço dos apartamentos. Enquanto isso, como muitas vagas para alunos estrangeiros estudarem na Rússia foram canceladas, as matrículas no programa de Meredith, normalmente minúsculo, cresceram abruptamente, chegando a mais de oitenta. Pensando sobre o convite, eu me perguntei como o povo de Tbilisi se sentiria vendo sua cidade se tornar o destino de estudiosos da filologia russa.
Anna Kariênina foi o primeiro romance russo que me fisgou, lá nos anos 1990. Como filha única, me dividindo entre as casas de meus pais divorciados (ambos cientistas) durante o ano letivo e passando os verões com a família na Turquia, eu cresci cercada por opiniões e visões de mundo diferentes e muitas vezes excludentes.
Passei a ter orgulho de mim mesma ao acreditar que eu conseguia ser objetiva, reter na mente os bons argumentos de cada lado e, ao mesmo tempo, dar o devido peso às críticas. Eu me apaixonei por Anna Kariênina por causa da clareza com que o romance mostrava que nenhum personagem estava errado –, que mesmo as pessoas aparentemente insensatas estavam fazendo o que lhes parecia certo, com base em seu conhecimento e suas experiências. Como todos tinham conhecimentos e experiências diferentes, os personagens discordavam entre si e causavam a infelicidade alheia. E, no entanto, todas as vozes e perspectivas conflitantes, em vez de criarem um caos sem sentido, de algum modo trabalhavam juntas para produzir mais sentido.
Quando eu soube que alguns críticos consideravam Anna Kariênina uma continuação do romance em versos Eugênio Oneguin, de Púchkin, decidi que minha próxima leitura seria a obra de Púchkin. O livro abre com o personagem-título, um cosmopolita entediado, que herda uma grande propriedade no campo. Ali, conhece Tatiana, uma adolescente provinciana obcecada por romances, que lhe escreve uma declaração de amor. Ele a rejeita – e três anos depois a reencontra, em São Petersburgo, agora como a esposa cheia de pompa de um grande general. Era uma reviravolta que eu, uma adolescente provinciana obcecada por romances, achei estranhamente atrativa.
Na época de minha viagem à Ucrânia, eu já estava fazendo um acerto de contas com esses livros, por motivos que – assim eu pensava – nada tinham a ver com geopolítica. Em 2017, quando completei 40 anos, comecei a me identificar como queer, publiquei A Idiota e fiz uma turnê de lançamento em meio ao turbilhão de revelações do #MeToo. Como muitas mulheres, passei boa parte de 2017 repensando a história de minha própria formação romântica e sexual. Enquanto tentava mapear diversas premissas sobre a universalidade do amor heterossexual e do sofrimento emocional, eu me deparei com o ensaio Heterossexualidade Compulsória e Existência Lésbica, que Adrienne Rich escreveu em 1980. Nele, Rich identifica uma tendência na literatura ocidental sugerindo “que as mulheres são inevitavelmente, ainda que de maneira precipitada e trágica, atraídas por homens; que, mesmo quando essa atração é suicida, […] ela continua sendo um imperativo orgânico”.
Pensei outra vez em Anna Kariênina e Eugênio Oneguin. Tolstói e Púchkin haviam mostrado claramente que Anna e Tatiana, ao se apaixonarem por homens, excluíram suas opções de vida já terrivelmente limitadas. E, no entanto, esse amor ruinoso e mutilante era descrito de modo a parecer inescapável e glamoroso. Anna morre, mas parece fantástica e, até o último momento de sua vida, tem pensamentos perspicazes. A carta de amor que Tatiana escreve para Eugênio Oneguin não provoca nada além de um coração partido – mas que carta extraordinária! Será que esses romances me incentivaram a ver o sofrimento feminino em relação aos homens como uma parte insuperável e até desejável da experiência humana – como algo que deve ser encarado de modo imparcial, em vez de ser contestado?
Na Ucrânia, em 2019, ao ouvir uma crítica a Dostoiévski com a qual eu não estava familiarizada, instintivamente voltei à ideia de que era preciso ler romances de maneira objetiva. Mas o que constituía uma atitude objetiva em relação a Dostoiévski? “O inimigo é Putin, não Púchkin”: será que isso era objetivo? Há muito esse tipo de pensamento fazia parte dos meus mecanismos mentais. Putin chegou ao poder no ano em que comecei meu doutorado em literatura (russa, basicamente) comparada, o que coincidiu mais ou menos com o começo da segunda guerra na Chechênia. Quando finalmente apresentei minha tese, oito anos depois, essa guerra continuava sendo travada. Não me lembro de ter feito qualquer associação clara entre meus estudos e a guerra. Certamente, teria me parecido simplista usar a literatura russa para explicar as ações de Putin. Fosse assim, qual seria o próximo passo? Buscar no escritor James Fenimore Cooper insights sobre Donald Rumsfeld, o ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos? (Mas como seria ler O Último dos Moicanos, de Cooper, na Bagdá de 2003?)
A ideia de que os grandes romances revelam verdades humanas universais ou que contêm um sentido puramente literário que transcende a política nacional não foi distribuída em todos os lugares do mundo de modo uniforme. Não vi sinais dessa ideia em Kiev. Depois da invasão da Ucrânia em 2022, ela foi defendida tanto por grupos ocidentais, como o PEN Alemanha, quanto por veículos de imprensa russos. “Escritores não querem guerra, não querem se meter em política”, diz uma carta aberta pró-invasão assinada, em fevereiro do ano passado, por centenas de autointitulados “escritores” e publicada na Literaturnaya Gazeta, um jornal russo que traz o retrato de Púchkin no cabeçalho.
Isso me fez pensar: se os livros que eu amava com tamanha objetividade eram na verdade veículos da ideologia patriarcal, por que também não poderiam conter a ideologia expansionista? Será que eu conseguiria ver essa questão com mais nitidez indo para Tbilisi?
Foi em Tíflis – o nome de Tbilisi na época – que o jovem Tolstói, aos 23 anos, começou a escrever seu primeiro romance, depois de gastar grande parte de sua juventude no jogo e com aquilo que por vezes chamamos de “mulheres”. Ele tinha ido até lá para se alistar no Exército e acabou servindo na atual Chechênia e na Crimeia. Em um de seus últimos trabalhos, Hadji Murat, Tolstói volta à Tíflis de 1851. Ali, o caminho dele se cruzou com o do Hadji Murat real, um comandante rebelde que entrou em desacordo com o imã Shamil e ofereceu seus serviços à Rússia, mas acabou decapitado. Sua cabeça foi enviada para o museu Kunstkamera, em São Petersburgo (os descendentes de Hadji Murat e políticos do Daguestão há muito pedem o retorno da cabeça). No romance, Tolstói liga a cabeça decepada de Murat a um belo cardo tártaro – um tipo de flor – que ele arrancou certo dia de uma vala.
Meu fascínio pela literatura russa do Cáucaso na época da faculdade não durou. Os livros de que eu mais gostava eram os que tinham como cenário o centro, não as periferias. Mas, certa vez, escrevi um artigo comparando a cabeça de Hadji no final de Hadji Murat com a cabeça de Anna perto do fim de Anna Kariênina. Depois de perceber, num fluxo de consciência durante um revelador trajeto de carruagem, a futilidade das relações humanas e de seu amor por Vronsky, Anna salta diante de um trem, e seu corpo é mutilado, mas “a cabeça intacta com suas pesadas tranças e as mechas cacheadas nas têmporas” continua a exercer seu magnetismo, “o lindo rosto com seus lábios vermelhos entreabertos”, numa expressão terrível. Em ambos os livros, a cabeça humana, separada de sua função e seu ambiente costumeiros, é representada, não como um símbolo de um incidente humano que talvez pudesse ter sido evitado, mas como uma imagem estática para contemplação.
Peguei meu velho exemplar de Hadji Murat e reli as páginas que falam de um teatro recém-inaugurado em Tíflis, onde Hadji suporta estoicamente o primeiro ato de uma ópera italiana. A descrição dele mancando ao entrar no teatro, com seu turbante, lembra a cena em que Anna Kariênina, usando um belo enfeite de renda na cabeça, desafia as normas sociais ao aparecer na ópera em São Petersburgo. Será que o vice-rei da Rússia vai proteger a família de Hadji Murat? Será que Kariênin dará o divórcio a Anna? Consideradas lado a lado, as óperas de Tíflis e São Petersburgo parecem mais do que a soma de suas partes – são como duas fotos que, tiradas de ângulos diferentes e vistas em um estereoscópio, criam uma imagem tridimensional que salta da página. Os mecanismos ocultos do patriarcado e do expansionismo repentinamente entram em foco, como duas faces do mesmo imenso aparato. Quais outros aspectos do “universal” romance russo poderiam se tornar visíveis a partir de minha viagem às antigas periferias do império?
Meu voo saindo de Istambul deu overbooking e atrasou. Fui direto do aeroporto de Tbilisi para a sessão de orientação do programa de língua russa de Benjamin Meredith, em um pátio na parte histórica da cidade. Cheguei bem a tempo de ouvir as instruções que estavam sendo dadas para uma plateia de mais ou menos trinta pessoas, a maioria formada por universitários britânicos, sobre como praticar seu russo sem que isso parecesse uma provocação à população local. Distribuíram uma lista de bares receptivos aos russos (pois havia histórias sobre falantes de russo sendo expulsos de bares). Fui apresentada aos estudantes como palestrante convidada. As palestras, fiquei sabendo, seriam acompanhadas por algo chamado “_(ref)_palestras”.
Esse nome “é horrível, é muito ruim”, disse Meredith, com bom humor, referindo-se ao nome que ele próprio inventara. O educador também tinha batizado o programa, apesar das objeções da coordenadora de palestras, Katya Korableva, de “É Preciso Acreditar na Primavera”. Quando perguntei a Korableva sobre o título, ela sacudiu a cabeça, olhou para baixo e disse que achava aquilo um excesso de otimismo. (Ao encontrar, mais tarde, outros russos contrários à guerra, deparei com uma falta de otimismo que parecia visceral. Certa vez, em um pátio rústico em Tel Aviv, ouvi um podcaster moscovita expatriado murmurar: “Isso é demais para mim”, enquanto dava as costas para uma pitoresca veneziana de madeira. As tábuas da veneziana casualmente formavam uma letra Z, símbolo da guerra de Putin.)
No dia seguinte, no café da manhã, fiquei com receio de falar em russo, o que limitou minha capacidade de dizer algo gentil às pessoas que faziam panquecas na cozinha. Estressada, comi várias panquecas, enquanto tentava descobrir o que deveria priorizar: a releitura de romances russos, a leitura de romances georgianos e ucranianos, o encontro com moradores da Geórgia, o encontro com russos ou a visita a lugares históricos? Qual era o jeito certo de desembaralhar as relações entre o imperialismo russo – sem dúvida um precursor do expansionismo soviético e pós-soviético – e os romances que eu amava ler desde a juventude?
Eu estava hospedada na Casa dos Escritores da Geórgia, uma mansão art nouveau que diziam ser assombrada pelo fantasma do poeta Paolo Iashvili, um integrante do grupo simbolista georgiano Tsisperi Qantsebi (Chifres azuis) que se matou ali com um tiro em 1937. Na época, Lavrenti Beria – que orquestrou os expurgos stalinistas na Geórgia – vinha fazendo com que os escritores testemunhassem uns contra os outros. O monumento a Púchkin de Tbilisi ficava ali perto, e decidi visitá-lo. Sou o tipo de pessoa capaz de se perder em qualquer lugar, por isso passei um bom tempo dando voltas dentro da Casa dos Escritores, tentando encontrar a saída. Num corredor, deparei com uma porta de madeira com uma placa onde se lia “Museu dos Escritores Vítimas da Repressão”. Girei a maçaneta. Estava trancada.
Depois que consegui escapar do prédio, virei à direita, numa rua chamada Mikhail Lermontov. Em 1837, o russo Lermontov foi mandado para o exílio nos arredores de Tíflis, como oficial do Exército, por ter escrito um poema que implicava caluniadores da corte na morte de Púchkin, ocorrida em um duelo. Mais tarde ele serviu no Cáucaso, uma experiência que lhe forneceu matéria-prima para seu romance ironicamente intitulado O Herói do Nosso Tempo (a frase de abertura é: “Eu estava partindo às pressas de Tíflis…”). Púchkin também foi pela primeira vez ao Cáucaso como exilado político, em 1820. Inspirado pela região escreveu O Prisioneiro do Cáucaso, um poema narrativo em que uma garota da Circássia (no Norte do Cáucaso) se apaixona por um prisioneiro de guerra russo, que é melancólico e byroniano demais para corresponder aos sentimentos dela – até que a jovem arrisca a própria vida para libertá-lo, momento em que ele implora para que ela o acompanhe no retorno à Rússia. Incapaz de ser feliz a partir daí, ela prefere se afogar. O poema é tido como a primeira obra-prima da literatura russa do Cáucaso e eu o tinha relido às vésperas da viagem.
No epílogo, Púchkin insinua uma ligação entre o destino da garota circassiana e o dos povos do Norte do Cáucaso. O verso mais sinistro – “Submeta-se, Cáucaso, Ermolov está a caminho!” – fora citado recentemente para mim pelo chatbot ucraniano do Telegram. O general Alexei Ermolov (1777-1861), um comandante russo cujas táticas brutais contribuíram para a eliminação de cerca de 90% da população da Circássia Superior, certa vez disse o seguinte: “Desejo que o terror causado pelo meu nome seja mais poderoso na proteção de nossas fronteiras do que correntes ou fortalezas” – uma ambição na qual ele teve, sem dúvida, o auxílio de Púchkin.
Virei na Rua Púchkin, que levava ao Parque Púchkin, e lá estava Púchkin, ou pelo menos o busto dele, empoleirado sobre um pedestal de mármore róseo. De certa forma senti alívio ao vê-lo ali. Depois, senti vergonha por estar aliviada. Fiquei imaginando o que Púchkin sentiu – se havia nele algum sentimento de vergonha – depois de ser banido por um czar, aos 20 anos de idade, em razão de um poema escrito na adolescência. “Voltando a São Petersburgo depois do exílio, Púchkin parou de criticar o trono russo e passou a escrever odes poderosas, glorificando atos imperiais agressivos do czarismo contra povos vizinhos”: eis a interpretação cronologicamente redutora, mas não totalmente equivocada, oferecida pelo chatbot ucraniano. Pelo resto da vida, o Púchkin que defendia a liberdade individual sempre se revezou com o Púchkin que celebrava o Império Russo.
Pense no prefácio do poema de Púchkin intitulado O Cavaleiro de Bronze (1837), que mostra Pedro, o Grande, contemplando o pântano, crivado de casebres enegrecidos dos “miseráveis finlandeses”, onde ele planeja fundar São Petersburgo (foi ao estabelecer, em 1703, uma capital voltada para o Ocidente, com acesso ao Mar Báltico, e ocidentalizar de modo radical as instituições militares e cívicas, que Pedro transformou a Rússia numa grande potência europeia). “Daqui ameaçamos os suecos”, Pedro reflete. Não seria impossível encontrar no poema algo que lembrasse Putin. Ao mesmo tempo, O Cavaleiro de Bronze – uma fantasia com ares de pesadelo em que a mais famosa estátua de São Petersburgo, um Pedro equestre, salta do pedestal e mata de susto um funcionário público – certamente é, dentre outras coisas, uma prova da ambivalência de Púchkin em relação a monumentos. A seu modo, é um poema sobre um monumento que se desfaz. O que ele teria pensado do movimento Pushkinopad na Ucrânia? A resposta seria diferente, dependendo de qual Púchkin fosse interrogado.
Voltei para a Casa dos Escritores por uma rua batizada em homenagem a outro poeta do grupo Chifres Azuis, Galaktion Tabidze. Depois de perder a mulher e um primo nos expurgos, Tabidze se suicidou, saltando da janela de um hospital psiquiátrico. Fiquei me perguntando se eu já estaria dentro do Museu dos Escritores Vítimas da Repressão. Talvez aquela porta trancada não nos impedisse de entrar, mas sim de sair.
Um lugar que eu realmente queria ver em Tbilisi era o Teatro Imperial de Tíflis, inaugurado em 1851 para promover a cultura russa e desviar a atenção popular da guerra do Norte do Cáucaso (1817-64). O jovem Tolstói assistiu a espetáculos ali. E eu tinha certeza de que foi naquele mesmo teatro que ele imaginou a cena de Hadji Murat na ópera. Infelizmente, o prédio foi incendiado em 1874. Não podendo visitá-lo, fui ao local onde ficava originalmente, na Praça da Liberdade, no ponto em que a Rua Púchkin encontra a Avenida Rustaveli, a principal via de Tbilisi. De pé no meio da praça movimentada, passeando os olhos entre o prédio da Câmara Municipal, construído no século XIX em estilo neomourisco, e um hotel Courtyard by Marriott, reformado no estilo Courtyard by Marriott de princípios dos anos 2000, eu senti que as palavras “centro” e “periferia” lentamente perdiam sentido. Na carreira de Tolstói, Tbilisi foi uma cidade periférica ou central? O seu primeiro romance, Infância, foi escrito em Tíflis, mas era ambientado na Rússia. Cinquenta anos depois, ele escreveu Hadji Murat na Rússia, porém o situou parcialmente em Tíflis.
É comum que se diga que fenômenos históricos – revolução, modernidade – começam no centro e depois se espalham para as periferias. Mas essa hierarquia ou cronologia – o centro primeiro, a periferia depois – pode ser enganosa. Tecnicamente, o capitalismo não nasceu em uma Europa Ocidental autossuficiente e foi depois transmitido para o restante do mundo. Ele se tornou possível, desde o início, graças ao fluxo de riqueza que ia das colônias para a Europa. As periferias sempre desempenharam um papel central.
Pensei em Cultura e Imperialismo (1993), de Edward Said – um texto clássico que só li depois de minha viagem à Ucrânia –, que defende algo parecido no caso dos romances. Como Said aponta, os romances se tornaram uma forma literária dominante na Grã-Bretanha e na França do século XVIII, exatamente no período em que a Grã-Bretanha se tornava o maior império da história mundial e a França era sua rival. Romances e impérios cresceram de forma simbiótica, cada um definindo e sustentando o outro. Robinson Crusoé, um dos primeiros romances britânicos, trata de um náufrago que aprende a explorar os recursos naturais e humanos de uma ilha distante da Europa. Em sua influente leitura de Mansfield Park, Said se concentra nas poucas referências feitas no livro a uma segunda propriedade em Antígua, no Caribe – implicitamente, um engenho de açúcar –, pertencente ao mesmo proprietário de Mansfield. Não se trata de mostrar apenas que a vida rural inglesa é mantida pelo trabalho escravo, mas que a própria trama do romance espelha o empreendimento colonial. Fanny Price, uma forasteira em Mansfield, passa por uma série de terríveis provações sociais e se casa com o filho do baronete. Uma pessoa sensata chega a um lugar novo e assustador – já ocupado por outras pessoas, insensatas – e se torna sua ocupante legítima. O que uma história como essa nos diz sobre o funcionamento do mundo?
Na faculdade, estudei Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente, a obra mais famosa de Said, publicada antes (em 1978) e normalmente abordada em conjunto com a literatura russa do Cáucaso. Esse livro trata do modo como as descrições ocidentais do Oriente, sejam científicas, sejam artísticas, acabam reforçando os modos de dominação ocidental. Mas eu nunca tinha lido Cultura e Imperialismo nem pensado no papel desempenhado pelo imperialismo em romances como Anna Kariênina. A crítica pós-colonial, que Said ajudou a criar, originalmente se concentrava no legado do colonialismo britânico e francês, o que significa que lugares como Rússia, Turquia e a antiga União Soviética tendiam a ficar de fora. O próprio Said omitiu a Rússia em seu livro, alegando que o assunto era muito extenso e que, como o Império Russo cresceu de forma contígua, e não por conquista ultramarina, as projeções imaginativas não desempenharam o mesmo papel que na Grã-Bretanha ou na França. (Os currículos de literatura russa já estão mudando após a guerra na Ucrânia. A Associação para Estudos Eslavos, do Leste Europeu e da Eurásia, uma importante organização profissional, dedicou sua conferência de 2023 ao tema da decolonização.)
Em Tbilisi, pareceu claro que a construção e manutenção do Império Russo exigiram vastos recursos imaginativos – e que meus romances favoritos podem ter desempenhado um papel importante. Em Eugênio Oneguin, eu me vi voltando repetidas vezes ao marido de Tatiana, um herói de guerra “mutilado no campo de batalha”. Embora seja mencionado apenas brevemente, ele é o catalisador da transformação de Tatiana – a reviravolta que leva Oneguin a se apaixonar por ela. Nunca ficamos sabendo quem são as pessoas que o próprio general pode ter mutilado. A mutilação que vemos: Tatiana olhando para Oneguin sem emoção; Oneguin cadavérico e rastejante, enquanto as esporas do general tilintam no corredor. Tatiana me fazia lembrar agora a garota circassiana de O Prisioneiro do Cáucaso, que também ama em vão, até se alinhar de forma autodestrutiva aos interesses do Império Russo. E não era esse também o arco narrativo de Púchkin? Tatiana escreveu uma arrebatada declaração para Oneguin; Púchkin escreveu uma arrebatada ode à liberdade. Tatiana tornou-se a rainha social de São Petersburgo, Púchkin seu principal poeta.
Quanto a Anna Kariênina, o livro de fato começa onde Oneguin termina: com uma heroína impecavelmente vestida e casada com um imperialista de grande influência. A tensão entre centro e periferia está presente na trama. O personagem de Kariênin, um servidor público de alto escalão envolvido com a realocação das “raças subalternas”, é parcialmente baseado em Pyotr Valuev, ministro do Interior entre 1861 e 1868. Valuev coordenou a apropriação de terras basquires em torno dos Montes Urais e também editou um célebre decreto restringindo a publicação de textos educacionais e religiosos em língua ucraniana em todo o império. Em um trecho, ele diz: “Uma língua à parte para a Pequena Rússia (como era chamada a Ucrânia) jamais existiu, não existe e não deverá existir.”
Ao contrário de Tatiana, Anna não permanece fiel a seu marido edificador do império. Ela deixa Kariênin por Vronsky, que recusa um posto militar de prestígio em Tashkent para viajar com ela para a Itália. Mas o Exército imperial acaba tendo Vronsky de volta no final. Aquela derradeira imagem da cabeça sem vida de Anna é na verdade um flashback que passa pela mente de Vronsky, enquanto ele segue como integrante de um batalhão pan-eslávico de voluntários para combater os otomanos na Sérvia. Com Anna morta e a trama romântica do livro encerrada, o único desejo dele é pôr fim à própria vida e matar a maior quantidade possível de turcos. Cito uma frase de um recente artigo intitulado Decolonizing the Mysterious Soul of the Great Russian Novel (Decolonizando a alma misteriosa do grande romance russo), escrito por Liubov Terekhova – uma crítica ucraniana que estava reavaliando Anna Kariênina, nos Emirados Árabes Unidos, quando a Rússia bombardeou sua cidade natal, Kiev –, “A Rússia está sempre travando uma guerra lá onde um homem pode fugir à procura da morte.”
A literatura, em resumo, parecerá diferente dependendo do lugar em que se lê: um tema que me peguei debatendo, durante um almoço em um jardim com vista para Tbilisi, com Anna Kats, uma estudiosa da arquitetura socialista nascida na Geórgia e falante de russo que migrou para Los Angeles quando menina. Falamos sobre o ensaio Can the Post-Soviet Think? (Pode o pós-soviético pensar?), de Madina Tlostanova, uma uzbeque-circassiana que propõe a “decolonialidade”, uma teoria surgida na América Latina mais ou menos na virada do milênio. Um princípio básico afirma que “pensar” jamais é algo desconectado de um lugar ou de uma pessoa. O primeiro princípio do pensamento não é “Penso, logo existo”, como disse Descartes, mas sim “Existo onde penso”.
Eu me lembrei da primeira vez que li o diário de Púchkin, Viagem a Arzrum, quando completei 20 anos – durante minha própria incursão inicial pela literatura de viagem, para um guia estudantil. Eu tinha pedido para ser enviada à Rússia, mas meu russo não era bom o suficiente e, por isso, fui para a Turquia. Para melhorar meu russo, eu lia Púchkin nos ônibus noturnos e me empolgava toda vez que via, no painel de horários nas estações rodoviárias, o nome da cidade turca de Erzurum (que na obra de Púchkin aparece como Arzrum).
A Turquia também não foi o destino escolhido inicialmente por Púchkin. Ele queria ir para Paris, mas, como a permissão oficial foi negada, resolveu deixar a Rússia da única maneira que podia imaginar: acompanhando os militares na Guerra Russo-Turca de 1828-29. O tom do diário de viagem que resultou dessa experiência flutua de modo inquietante entre a verborragia e o horror desapaixonado. “Os circassianos nos odeiam”, escreveu Púchkin a certa altura. “Nós os forçamos a sair de suas pastagens abertas; suas auls (aldeias) foram devastadas, tribos inteiras foram exterminadas.” Nove anos após sua primeira visita ao Cáucaso, Púchkin parece ter começado a ver com alguma clareza a situação dos circassianos. (Em 2011, o Parlamento georgiano decidiu caracterizar as ações da Rússia na região como genocídio.) Ainda assim, na frase seguinte, ele observa, de modo implausível, que os bebês circassianos empunham sabres antes de começarem a falar. Mais adiante em seu relato, Púchkin descreve um almoço com soldados durante o qual eles veem, numa encosta de montanha, o Exército otomano recuando diante dos cossacos russos, deixando para trás um cadáver cossaco “decapitado e mutilado”. Púchkin passa rapidamente para o clima de fraternidade da vida no acampamento: “No jantar, regamos shashlik[2] asiático com cerveja inglesa e champanhe gelado nas neves de Táurida.”
O que podemos perceber, como escritores e como leitores? Púchkin teria condições de perceber que se beneficiou da “realocação” dos circassianos? Com que clareza ele poderia ver isso? Por quanto tempo? Depois do almoço, Kats e eu pegamos um funicular até o topo do Monte Mtatsminda, onde, segundo ela, havia os melhores donuts recheados com creme de Tbilisi. Elevando-me acima das copas das árvores, pensando em meu próprio privilégio, nacional e global, cuja extensão ficou mais clara para mim com o passar dos anos, concluí que não era difícil entender a capacidade e a incapacidade simultâneas de Púchkin para perceber a verdade.
A relação entre mérito literário e poder militar não é um assunto agradável de contemplar. Prefiro pensar que eu amaria Púchkin mesmo que Pedro, o Grande, e Catarina, a Grande, não tivessem travado grandes guerras internas e com outros países, colocando a Rússia como parte do equilíbrio de poder na Europa. Mas será que mesmo assim a obra de Púchkin teria sido traduzida para o inglês e colocada nas prateleiras da Barnes & Noble da Route 22, rodovia no Norte de Nova Jersey, na costa Leste dos Estados Unidos – lá na superpotência mundial para onde meus pais se mudaram na década de 1970, em busca de melhores equipamentos científicos? Ainda que houvesse a tradução e eu tivesse lido os livros, talvez não reconhecesse seu valor. Teria sido bom?
Em Tbilisi, eu me lembrei de uma frase do clássico romance de 1996 de Oksana Zabuzhko, Field Work in Ukrainian Sex (Pesquisa de campo sobre o sexo ucraniano), que li em minha viagem a Kiev em 2019. Falando sobre o idioma ucraniano, Zabuzhko escreve: “Ainda que, por algum milagre, você conseguisse produzir algo nesta língua ‘botando o Fausto de Goethe no chinelo’, o livro ficaria nas bibliotecas sem que ninguém lesse”. A narradora, uma poeta anônima de língua ucraniana em visita a Harvard, sofre incontáveis ofensas. Ela está falida e seu trabalho raramente é traduzido. Porém, ela se recusa a escrever em inglês ou em russo. Autoidentificada como “nacionalista-masoquista”, ela segue fiel a seus antepassados: poetas que “lançaram a si mesmos como lenha sobre as brasas moribundas da língua ucraniana sem porra nenhuma para mostrar exceto seus destinos destroçados e livros que ninguém lê”.
Será que ninguém lia esses livros por que eles não eram tão bons quanto os de Púchkin – ou seria o contrário? Se ninguém lê um livro e ele não influencia outros livros, terá menos significado e ressonância junto aos futuros leitores? Por outro lado, será possível escrever um “bom livro” sem que haja instituições literárias robustas? Eugênio Oneguin é claramente um produto do constante diálogo entre Púchkin e seus editores, amigos, rivais, críticos e leitores, cujas palavras estavam à sua volta, mesmo no exílio. O ucraniano Nikolai Gógol, nascido em 1809 com talento comparável ao de Púchkin, só se tornou um escritor famoso ao se mudar para São Petersburgo.
Gógol, hoje uma figura central no discurso pós-2022 sobre a literatura russa, teve seu primeiro êxito de crítica na capital ao escrever, em russo, sobre temas ucranianos. Mas os mesmos críticos que o elogiavam também o incitavam a escrever sobre temas mais universais – ou seja, mais russos. Gógol de fato produziu os Contos de São Petersburgo e a parte 1 de Almas Mortas. Certa vez, uma festejada anfitriã de escritores perguntou a Gógol se, no fundo da alma, ele era russo ou ucraniano. Ele respondeu com uma pergunta: “Me diga, eu sou santo: será que consigo ver realmente todas as minhas falhas odiosas?”, e deu início a um discurso inflamado sobre seus defeitos e os de outras pessoas. Acabou sofrendo um colapso espiritual. Passou a acreditar que suas obras eram pecaminosas, queimou parte de seus manuscritos (entre eles, possivelmente, a parte 2 de Almas Mortas), parou de comer e morreu com fortes dores, aos 42 anos de idade.
O Kremlin hoje usa a obra de Gógol como prova de que a Ucrânia e a Rússia compartilham uma única cultura (um ensaio sobre o caráter russo de Gógol aparece no site da Fundação Russkiy Mir, fundada por Putin em 2007). Segundo um artigo assinado pelo próprio Putin em 2021, os livros de Gógol “são escritos em russo, recheados de ditos populares e temas malo-russos” (da Pequena Rússia). Ele continua: “Como essa herança pode ser dividida entre Rússia e Ucrânia?”
Em Tbilisi, o conto de Gógol ao qual eu sempre voltava era O Nariz: aquele em que o major Kovalyov, um servidor público de nível intermediário, acorda certa manhã sem nariz. Temendo por seu emprego e sua perspectiva de casamento, ele sai às ruas de São Petersburgo à procura de seu apêndice nasal desaparecido. Uma carruagem para perto. Um personagem sai de dentro dela, vestindo uniforme e um chapéu emplumado que denotam uma patente mais alta do que a de Kovalyov. É o nariz do major. “Ponha-se no seu lugar”, diz Kovalyov. “Você não percebe que é o meu nariz?” O nariz responde friamente: “Caríssimo, você está equivocado. Sou uma pessoa como qualquer outra.”
Lendo-se os discursos de Putin começa a soar familiar a postura de Kovalyov diante de seu nariz. Como ousa um mero apêndice fingir ser uma entidade independente? Que crueldade, separar o nariz da Pequena Rússia do rosto da Grande Rússia! Em O Nariz, assim como em grande parte da literatura russa que revisitei, os interesses do império prevalecem. A polícia apreende o órgão fugitivo de Kovalyov “bem no momento em que ele estava subindo na diligência com destino a Riga”. Não à toa, o nariz rumava para Oeste.
Na manhã de minha palestra, saí para uma caminhada na Avenida Rustaveli. As largas calçadas arborizadas eram ladeadas por sebos que ofereciam, ao lado de livros georgianos que eu não saberia ler, solitários volumes de Tolstói e Turguêniev. Em uma das lojas, uma série de mapas escolares da era soviética – um dos quais mostrava as fronteiras mutantes entre os impérios russo e otomano – estava apoiada em um livro de receitas letão e uma coletânea de livros de Dostoiévski.
Dostoiévski: finalmente nos encontramos. Comecei com Crime e Castigo, a história de Raskólnikov, um estudante pobre que, para financiar sua educação, decide assassinar uma velha agiota. Folheando as páginas amareladas, percebi diversas menções a Napoleão. Isso me fez lembrar da teoria de Raskólnikov segundo a qual indivíduos “extraordinários” teriam o direito de assassinar outras pessoas em nome da “realização de uma ideia”. Se Napoleão, que matou milhares de egípcios e roubou seus tesouros arqueológicos, é louvado como fundador da egiptologia, por que um estudante não poderia matar alguém em nome do progresso de seus estudos? Eu me dei conta de que a lógica do crime de Raskólnikov era a lógica do imperialismo.
“A ofensiva de Putin em 24 de fevereiro deveu muito ao dostoievskismo”, escreveu Oksana Zabuzhko em um ensaio de abril do ano passado, depois do massacre em Bucha. Ela chamava a invasão de “uma explosão de maldade pura e destilada, e de ódio e inveja há muito reprimidos”. E acrescentou: “Soldados russos vêm dizendo a ucranianos: ‘Por que vocês deveriam viver melhor do que nós?’” Era fácil ver essa mensagem em Crime e Castigo. Por que uma “velha bruxa ridícula” deveria ter dinheiro, quando Raskólnikov é pobre?
Dostoiévski, evidente, não apoiava os pontos de vista de Raskólnikov (a pista está no título: a história termina em uma prisão siberiana). Ainda assim, ele achava as ideias dele interessantes o suficiente para serem tema de um livro. Deveríamos continuar a ler esse livro? Em Cultura e Imperialismo, Edward Said levanta uma questão semelhante sobre Jane Austen. Ele conclui que “descartar” Mansfield Park é uma oportunidade perdida: toma-se a literatura como experiências isoladas de vítimas e agressores, quando, na verdade, a literatura é uma rede dinâmica – mas Said diz que a solução não é continuar lendo os romances de Austen em um vácuo geopolítico. Em vez disso, precisamos encontrar modos novos, “contrapontuais”, de ler. Isso significa ver Mansfield Park como um livro com duas geografias: uma, a Inglaterra, elaborada ricamente; outra, Antígua, à qual se resiste tenazmente no livro, mas ainda assim é revelada.
Uma leitura contrapontual, ou estereoscópica, parecia uma abordagem empolgante para o cânone russo, no qual categorias como vítimas e agressores – ou centro e periferia – são particularmente fluidas. Madina Tlostanova, a crítica decolonial, descreveu a Rússia imperial, assim como o sultanato otomano, como um tipo especial de império “secundário”, formado às margens da Europa, e que, para compensar o complexo de inferioridade em decorrência disso, “modernizava” seus próprios súditos. A ocidentalização da Rússia por Pedro, o Grande, pode ser vista como um trauma não reconhecido. Nas palavras do crítico Boris Groys, essa “inoculação cruel” protegeu a Rússia contra a “verdadeira colonização por um Ocidente que lhe era superior, tanto do ponto de vista técnico quanto militar”.
Uma abordagem contrapontual significaria pensar os clássicos russos ao lado das obras de Zabuzhko e de Tlostanova – e de Dato Turashvili, Nana Ekvtimishvili, Nino Haratischwili, Taras Shevchenko, Andrey Kurkov, Yevgenia Belorusets e Serhiy Zhadan, para citar alguns poucos escritores importantes da Geórgia e da Ucrânia cujas obras existem em inglês. Significa não marginalizar as visões políticas de romancistas, como eu de início tentei fazer com Dostoiévski. Um editorial da revista britânica The Spectator, em resposta à ideia de suspender uma série de palestras sobre Dostoiévski em Milão, chamou de ironia “cancelar” um escritor que foi “enviado para um campo de trabalhos forçados na Sibéria por ler livros proibidos que atacavam o regime czarista”. Na verdade, ser uma vítima da repressão imperial não torna ninguém incapaz de perpetuar ideias repressivas. Um dos companheiros do escritor na prisão siberiana, um nacionalista polonês, escreveu em suas memórias sobre a insistência de Dostoiévski de que a Ucrânia, a Lituânia e a Polônia “eram propriedade da Rússia desde sempre” e que, sem a Rússia, estariam atoladas “num sombrio analfabetismo, na barbárie e na pobreza abjeta”.
Em 1880, perto do fim da vida, Dostoiévski fez um famoso discurso na inauguração de um monumento a Púchkin em Moscou, no local onde é hoje a Praça Púchkin, exaltando o autor de Eugênio Oneguin como o mais russo e o mais universal dos escritores. Ele associou as realizações de Púchkin às reformas do czar Pedro, por meio das quais a Rússia não apenas adotou “trajes, costumes, invenções e a ciência da Europa”, mas realmente incorporou à sua alma “o gênio das nações estrangeiras”. A Rússia, assim como Púchkin, sabia transcender os limites nacionais e estava a caminho de “reconciliar as contradições da Europa”, desse modo transformando em realidade a palavra de Cristo. O discurso foi recebido com histeria, choro, gritos e brados de “Você encontrou a solução!”, em referência ao eterno mistério de Púchkin. O “Discurso sobre Púchkin” de Dostoiévski é citado no site da Fundação Russkiy Mir.
O objetivo de fazer uma conexão entre Dostoiévski e Púchkin não é “censurar” Dostoiévski, e sim compreender a mecânica do trauma e da repressão. Em meio às memórias do período de formação do escritor há um incidente que ele observou aos 15 anos de idade, em um posto dos correios na estrada para São Petersburgo. Ele viu um funcionário uniformizado sair correndo do posto, saltar em uma troica parada e imediatamente começar a socar o pescoço do condutor, que, por sua vez, chicoteou os cavalos freneticamente. A troica disparou em velocidade vertiginosa. Dostoiévski imaginou o cocheiro voltando naquela noite para seu vilarejo e espancando a esposa.
Dostoiévski acabaria adaptando essa lembrança para criar o pesadelo de Raskólnikov em Crime e Castigo. Na cena, Raskólnikov sonha ser um menino que é obrigado a ver um cavalo ser espancado até a morte por um camponês. Quando acorda, ele claramente associa o sonho a seu plano de matar alguém com um machado. Em seguida, levanta-se e mata uma pessoa com um machado. Em outras palavras, o fato de alguém ser um elo em uma longa cadeia de violência – mesmo sabendo ser um elo numa longa cadeia de violência – não faz com que saia magicamente dessa cadeia. Em sua própria vida, Dostoiévski nem sempre parece fazer uso desse insight, mas, como todo bom romancista, permitiu a seus leitores enxergar mais longe do que ele próprio era capaz de fazê-lo na época.
Minha palestra dizendo que não precisamos parar de ler a literatura russa foi bem recebida pela plateia de alunos de pós-graduação e professores. Mencionando a Pushkinopad, um estudante perguntou se, no meu mundo ideal, as estátuas de Púchkin seriam derrubadas. Eu me perguntei em voz alta se, em um mundo ideal, deveríamos ser capazes de prestigiar realizações literárias de um outro jeito, sem precisar erigir gigantes de bronze que se elevam acima de nós.
Mais tarde, soube que uma pessoa que assistiu à transmissão ao vivo escreveu protestando contra a decisão de exibir uma palestra sobre literatura russa. Ao voltar a pé para a Casa dos Escritores, passei por um bar onde estava escrito a giz “VINHO GRÁTIS no dia em que PUTIN MORRER” e pensei na diferença tremenda entre uma visão ideal do mundo e o mundo em que vivemos. Tomada por uma onda de pessimismo, voltei a pensar no ensaio em que Zabuzhko, citando a frase de Tolstói – “não existem pessoas culpadas no mundo” –, caracteriza a literatura russa como um festival de dois séculos de simpatias equivocadas por criminosos, e não por suas vítimas, o que ajuda na continuidade da existência dos crimes, incluídos aí os crimes de guerra.
Algo no argumento dela me sensibilizou. Será que não havia um modo de celebrar a capacidade de sentir compaixão, de “ver todos os lados”, de compreender “objetivamente” a situação como um todo, que terminasse levando a encarar os resultados dolorosos como complicados, interessantes e imutáveis? Era como se “bons romances” precisassem fazer com que os problemas humanos fossem insolúveis ou ambíguos. Se um problema em um romance parecia ter uma solução muito clara – se o culpado era óbvio demais –, dizíamos que aquilo era arte ruim. Eu vinha pensando havia algum tempo sobre esse assunto, questionando minha própria decisão de escrever romances. Existem indícios de que Tolstói tinha preocupações semelhantes. Depois de publicar Anna Kariênina, ele passou por uma “crise espiritual” ou “conversão”, chegou à conclusão de que seus próprios romances eram imorais e passou a escrever obras religiosas. Mais tarde, porém, voltou a escrever romances, entre eles Hadji Murat.
Publicado postumamente, Hadji Murat é considerado único na obra de Tolstói e no próprio cânone russo do século XIX, pelo modo como entra de cabeça na perspectiva do súdito imperial. Em capítulos consecutivos, Tolstói retrata a destruição de um vilarejo checheno, primeiro do ponto de vista de um jovem oficial russo, que mal acredita na sorte que teve de estar “nessa gloriosa região em meio a esses bravos caucasianos”, e não em um salão enfumaçado de São Petersburgo. Depois, do ponto de vista dos moradores do vilarejo, cujas vidas foram “destruídas com tamanha despreocupação e de modo tão irracional”. A justaposição lembra a Viagem a Arzrum, de Púchkin: o vilarejo destruído, o champanhe gelado. Mas Tolstói, cuja vida foi muitas décadas mais longa do que a de Púchkin, expõe o cálculo terrível que se apresenta aos moradores locais, que precisam abandonar seus valores e entrar ou para o Império Russo ou para a resistência comandada pelo imã Shamil. A brutalidade do imã espelha a do czar Nicolau. Como na imagem da troica de Dostoiévski, é fácil ver a cadeia de violência – e talvez vislumbrar um modo de interrompê-la.
A multiplicidade é inerente ao texto: Tolstói escreveu dez versões, nenhuma conclusiva. Ele continuou com o rascunho em mãos até sua morte, em 1910. Em uma entrada de seu diário em 1898, menciona um “brinquedo inglês” – o que soa estereoscópico – que “mostra, debaixo de um vidro, uma certa coisa e, logo em seguida, uma outra coisa”. Hadji Murat, escreve ele, deve ser representado dessa forma: como “um marido, um fanático etc.”. Me ocorreu pensar nesse “brinquedo inglês” como sendo o próprio romance – uma tecnologia que Tolstói herdou de Jane Austen e Daniel Defoe, capaz de revelar diferentes verdades a partir de diferentes pontos do espaço e do tempo, desestabilizando até mesmo, talvez, as estruturas que em momentos anteriores ajudou a reforçar.
A maior parte de Hadji Murat se passa fora da Rússia, no Norte do Cáucaso e na Geórgia, lugares onde a Rússia não é vista como unilateralmente certa. Foi ali que Tolstói, depois de escapar dos salões enfumaçados de São Petersburgo, se tornou escritor. Pensando em Hadji Murat a partir de Tbilisi, vi sua natureza estereoscópica se estender até Anna Kariênina, que também se tornou menos fixo, mais provisório em minha mente – quase como se o destino de Anna, assim como o significado do romance em si, pudesse continuar mudando, e fosse, de fato, fazer isso.
Numa tarde em Tbilisi, em um restaurante perto de onde Tolstói morou, encontrei a diretora de cinema Salomé Jashi. Domando o Jardim, o filme dela de 2021, me cativou. Fala de um projeto orquestrado pelo bilionário Bidzina Ivanishvili, ex-primeiro-ministro da Geórgia, de tirar de seus lugares originais centenas de árvores de várias partes do país e realocá-las em um “parque dendrológico” perto do Mar Negro e mantido por financiamento privado.
Jashi não aparece no filme, que não tem narração. Em vez disso, a câmera segue silenciosamente os trabalhadores que levam a cabo a extração das árvores usando um maquinário gigantesco. Os moradores dos diferentes locais, depois de trocar seu direito às árvores por quantias inauditas de dinheiro, contemplam a terra devastada, os tocos de troncos e os galhos de outras árvores que foram serrados para permitir a passagem dos caminhões. Eles choram, fazem o sinal da cruz, riem, fazem vídeos com seus celulares. Alguns parecem testar diferentes emoções, para ver qual se encaixa melhor na situação.
Jashi me contou que, na infância, durante a guerra de 1992-93 na Abkházia – um Estado reconhecido por algumas nações, entre eles a Rússia, que o apoia, mas que a Geórgia vê como parte histórica de seu território –, ela escrevia poemas patrióticos e sonhava em dedicar a vida ao país. Ela fala russo, mas na adolescência parou de ler livros russos. Até hoje, jamais leu um romance de Dostoiévski, segundo ela, não por princípio, mas porque não quer ler livros em russo – e por que ler Dostoiévski traduzido?
Enquanto terminávamos nosso vinho – estávamos dividindo uma garrafa –, me peguei recordando as imagens inesquecíveis das árvores imensas em deslocamento no filme de Jashi. Uma delas chacoalha calmamente numa estrada do interior do país na caçamba de um caminhão; outra desliza sobre o Mar Negro numa balsa. A imagem da árvore navegando, suas folhas se movendo com a brisa, era um tanto estranha demais para acreditar nela, parecia mais uma metáfora do que algo que de fato existisse no mundo. Nessa imagem, tive a sensação de estar vendo a presença espectral de Ivanishvili, que, segundo a suspeita de muitos, ainda comanda a Abkházia nos bastidores. Vi a ilha de Robinson Crusoé, de âncoras levantadas, flutuando no horizonte. Vi o cardo que Tolstói arrancou da terra, agora maior do que ele. E vi os grandes romances russos, com suas raízes finalmente visíveis, com seus galhos se estendendo na direção do céu.
Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_201 com o título “O grande rosto e o nariz”.
[1] A Revolta Dezembrista, ocorrida em dezembro de 1825, reuniu milhares de militares contra a coroação do czar Nicolau I. Os rebeldes, que pregavam a monarquia constitucional e a abolição da servidão, foram vencidos pelas forças do czar. Seguiu-se uma dura repressão, com o enforcamento de alguns líderes e o exílio de outros na Sibéria.
[2] Um tipo de espetinho de carne.