ficção

O LIMPADOR DE OUVIDOS

Desde que meti a chave na fechadura tudo começou a fazer sentido
Imagem O limpador de ouvidos

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PRIMEIRA SESSÃO

Já tinha até começado a me medicar, depois de consultar um psiquiatra, quando ouvi falar do Centro Espírita Brasileiro de Campanhã. Vim por indicação de um conhecido brasileiro que me pediu discrição e sigilo. Imagine se descobrem que em Portugal ele consulta centros espíritas depois de todo o materialismo que andou pregando no Brasil. Ultraliberal como eu, também não pode voltar. Também já não pode ter nada no próprio nome, graças a leis que criminalizam a iniciativa privada com impostos exorbitantes e representam mais uma ingerência abusiva do Estado na vida do cidadão, mas que em breve serão abolidas, com a benção de Deus. Não se comprometeria comigo se não tivesse percebido o meu estado e se solidarizado, porque no fundo também é humano e, ao contrário de pretos, lg não sei o quê e feministas de última hora, com essa compulsão por identidade isto e aquilo, alardeando o tal do “lugar de fala” e outras muletas, sabe o que é ter o nome emporcalhado injustamente e é capaz de se identificar com o sofrimento alheio. Vai que um dia desses lhe acontece de também começar a ouvir vozes. Desde que abri a porta do edifício pela primeira vez, como feliz proprietário de um imóvel tombado, na Baixa, nunca mais deixei de ouvir a voz. Bastou meter a chave na porta. “Tente a outra”, ela disse. Quer dizer, ele disse. Porque é voz de homem. Na verdade, deduzi o que sugeriu (experimentar a outra chave), já que não entendo nada do que ele diz. E não sei de onde vem essa voz! Ela me persegue, não para de falar. Todo mundo a quem pergunto, gente daqui mesmo, que não tem por que ter problema de entendimento com a pronúncia local, me garante que pode haver de tudo no Porto, menos fantasmas. Fantasmas, só em Lisboa. Então, que é que devo pensar? Que estou louco? Que esta é a minha punição? Que estou pagando pelo que fiz? Não me faltam motivos, com todo este calor, 40 graus à sombra, esperando, na estufa em que se converteu o imóvel tombado, na Baixa, os técnicos que deveriam levantar a planta mas saíram de férias, e a Paula, que agora também resolveu que não vem. Paula é minha mulher. Comprei o imóvel no nome dela e mesmo assim ela diz que não vem. Nem ela, nem as crianças nem os jack russells. Me fez alugar um apartamento na Boavista, para a família inteira, para poder acompanhar a obra, e agora diz que só vem quando a obra acabar. Mas se ainda não tenho nem a planta quanto mais o alvará! Não adianta eu dizer isso a ela. Como se não bastasse o que passei nas mãos do Estado brasileiro, agora, quando compro um imóvel, de boa-fé, achando que ela vai ficar contente, fica uma arara. Queria um apartamento em Cascais, ser vizinha das amigas e da Madonna. Não quer morar no fim do mundo, onde só chove e é sempre noite (nunca veio aqui, mas diz que viu no filme de um diretor português conhecido). Chegou a dizer que, se era para comprar no Porto, que fosse na Foz, como fizeram o Claudinho e a Cecília, que saíram antes de começarem os escândalos. Mas na Baixa? Digo que a tendência é a gentrificação. No meio de armazéns, de gente pobre e de turistas brasileiros?, ela rebate. Pra quê? Pra ser reconhecido e apontado na rua? O Claudinho e a Cecília saíram na hora certa. Antes de os filhos verem a foto e o nome do pai estampado nos jornais. Aproveitaram as oportunidades. Mandaram os filhos estudar em Londres e ficaram com o endereço fiscal aqui mesmo, na Foz, que ninguém é estúpido de pagar imposto em libras. A Paula diz que só um estúpido compraria um prédio industrial, tombado, na Baixa, para começar a reforma em agosto, mês de férias e de calor, e além do mais na dependência do alvará da Câmara e da Direção Geral do Patrimônio. Quem mandou? Diz que só aparece aqui quando a casa ficar pronta. Acha que não vai ficar pronta nunca. E no dia em que ficar pronta, arruma outra desculpa. Diz que a minha inteligência está ligada ao Brasil e que tudo o que ganhei lá vou perder aqui. Não está disposta a assistir ao espetáculo da minha derrocada. É o que ela diz, coberta com as joias que recebi em troca da minha inteligência e do meu sentido de oportunidade. Usufruiu de tudo o que lhe dei no Brasil, agora se recusa a fazer um pequeno esforço. As pessoas se revelam quando achamos que as conhecemos a fundo. Consegui residência em Portugal na melhor das condições, por uma pechincha, um imóvel tombado, 1 milhão de euros investidos na Baixa. Obra de arquiteto célebre dos anos 30, em zona de tendência à gentrificação. Para ela tanto faz. Tanto faz o nome do arquiteto. Mendes, Teixeira, Silva. Diz que nome de português é tudo igual. O arquiteto construiu um punhado de edifícios antes de fugir do Estado Novo, que é o que vai acontecer em breve com todos os esquerdistas do Brasil, pode escrever aí. Me puseram pra correr, agora vão ver o que é bom, vão sentir o que é não poder voltar, se conseguirem sair de lá, é claro. A Paula sabe que, se eu voltar, sou preso no aeroporto. Vou ter que esperar até darem um jeito na Justiça. Estou confiante nas eleições, mas a Paula desferiu um golpe baixo, sabe que estou imobilizado. Fiz uma ou outra coisa errada, mas quem não faz? E ela, que foi uma das principais beneficiárias, que é que queria que eu fizesse diante da oferta de um investimento excelente, um imóvel que posso reformar do jeito que quiser, com a única condição de não mexer na fachada? Estou acostumado a fazer excelentes negócios no Brasil. O materialismo é a chave de tudo. Como é que podia desconfiar de uma coisa assim, imaterial? O edifício foi construído com materiais sólidos da melhor qualidade, ferro, granito e mármore, para servir de armazém. É uma joia, mesmo se por dentro nem parece obra de arquiteto famoso, é um emaranhado irracional de salas e corredores inconclusos. Uma ruína facho-déco autêntica, mas ainda assim uma ruína, ela ironiza. Tente imaginar o preço disso no Centro de Paris ou de Londres, Paula! Não se recusa uma oferta dessas. E ainda mais num país de mão de obra barata, baratíssima, para dizer a verdade. Quando há mão de obra, é claro, porque agora os que não saíram de férias estão ocupados com as casas de outros brasileiros. Contratei uma firma de arquitetura justamente para não me aborrecer, para que levantassem a planta com a Câmara, e por precaução propus acertar adiantado, mas bastou pagar a primeira parcela para a equipe evaporar. Estão na praia. Ou foram pras suas aldeias. É esse o último bastião da esquerda no mundo ocidental, as férias do operariado. Quem mandou?, a Paula diz. Se era pra ficar na mão de gente que larga o serviço no meio e ainda finge que não entende a língua quando você começa a gritar, não precisava sair do Brasil. A Paula não grita, é uma mulher discreta e bem-vestida, mas desta vez exagerou. Está agindo por vingança. Não se conforma que eu tenha comprado um imóvel no Porto, sem consultá-la, enquanto a Betina, a Lurdinha e a Sílvia estão refesteladas na Quinta da Marinha Golf, com as babás e os filhos, assistindo às tacadas dos maridos. Não viajam sem as babás. Ela queria mesmo era um condomínio novo, com vista pro mar. Que é que eu posso dizer? O imóvel da Baixa está cercado de gaivotas. É uma alusão marinha. Agora, como é que vou explicar que, além das gaivotas, os fundos do prédio dão para a cozinha de um restaurante da moda, sempre lotado de brasileiros? Fico observando as labaredas na cozinha, pensando em como é que vou explicar os vestidos dela empesteados de fumaça de sardinha, prego e bacalhau. E enquanto observo as labaredas, a voz segue me dizendo, com a mesma urgência de sempre, coisas que não compreendo. Quando é que eu, materialista ultraliberal, podia imaginar um fantasma num prédio da Baixa? Um fantasma falastrão, numa língua incompreensível. Peço que fale devagar, que articule as palavras. Mas está aflito, come as sílabas, parece que tem algo a dizer. Deve ter pressa, ou não falava desse jeito, me deixava em paz. É por isso que estou aqui.

QUARTA SESSÃO

Estou me esforçando, mas já se passaram duas semanas, esta é a quarta sessão, e até agora não saímos do lugar.

Não é bem assim, estamos progredindo lentamente. Primeiro tivemos de identificar a língua e depois chamar um especialista para traduzi-la. Tudo isso consome tempo e trabalho.

Não é português?

Não, é bengali.

Bengali?

Exato. Bengali.

Onde é que se fala bengali?

Em Bangladesh. Tivemos alguma dificuldade para localizar um tradutor no Porto, que também fosse médium, é claro. Porque, para traduzir, precisava antes ouvir a voz. Aquele senhor calado, sentado a sua frente na última sessão…

O de barba e casaquinho preto?

Exato. Ninguém dá nada por ele, mas é excelente tradutor. Recebemos as melhores recomendações.

Que é que um fantasma de Bangladesh estaria fazendo num imóvel tombado da Baixa? E por que anda atrás de mim quando volto para o apartamento alugado na Boavista ou quando venho a Campanhã?

É da natureza das almas. Apegam-se como os cães aos donos. Melhor assim, pelo menos podemos ouvi-lo. Se não, teríamos que ir ao edifício da Baixa.

Não sou dono dessa alma.

Veio com o imóvel. E em alguma coisa avançamos. Já sabemos que se trata do espírito de um limpador de ouvidos.

Limpador de quê?

De ouvidos. O silêncio abandonou o universo com o nascimento dos seres que ouvem, entre eles o homem. E desde que há ouvidos é preciso limpá-los. Quem dera fôssemos todos surdos.

Desculpe?

Não se preocupe. Também levamos algum tempo para entender o que ele diz; fala por provérbios e adivinhas. Estamos diante de uma língua de difícil entendimento.

Tem certeza de que não é português?

Absoluta.

Então, tenho razão para não entender nada.

Certamente. A maneira como ele descreveu a profissão, por exemplo, quando lhe perguntamos o que fazia, permite uma interpretação alargada.

Alargada…

A maneira como descreveu a técnica de introdução dos cotonetes.

Perdão?

Não seria bem esse o termo, claro. Em Daca, nos anos 30, não havia cotonetes. É apenas um atalho, uma tradução aproximativa, para que entenda do que estou falando. Ou devo me ater à tradução literal?

Por favor.

A profissão de limpador de ouvidos prosperou em Bengala a partir do século XVIII, durante o reinado do nababo Murshid Quli Khan. Para entender a fama do nosso limpador de ouvidos, que em seu tempo se espalhava por todo o subcontinente indiano, a ponto de altos funcionários da administração britânica afluírem desde Colombo para lhe confiar os ouvidos, é preciso levar em conta o zelo dos materiais, o melhor algodão indiano, nunca o chinês, e hastes da melhor madeira, selecionada por suas propriedades não só flexíveis, mas também não alergênicas. Nenhum esforço era demasiado na produção do bem-estar auricular dos clientes. Houve quem definisse as sessões de limpeza com o limpador de ouvidos como música física, mais do que sensorial, embora nada ouvissem, nem mesmo a voz do limpador de ouvidos, que nunca falava e, apesar de uma compreensão mais que funcional do idioma, era (e é) incapaz de pronunciar sequer uma palavra em inglês. Trabalhava calado, que é o que se pede de um limpador de ouvidos, a técnica e a proficiência falam por si, o que talvez explique a incontinência verbal depois da morte, para compensar o silêncio em vida. Madeiras comuns na região, como o bambu, a mangueira ou o sicômoro, podiam irritar o ouvido hipersensível, mesmo quando encimadas pelo algodão mais sedoso, e por isso eram evitadas. Penetrava os ouvidos com hastes feitas da medula flexível do chorão branco alimentado pela água do rio Brahmaputra próximo à nascente. Jamais utilizava a casca dessa mesma árvore, nociva à pele. Aplicava a pressão exata do bastão às circunvoluções auriculares externas, para, só depois de o cliente exprimir os sinais que antecedem o torpor, quando fechava os olhos e emitia algum gemido, enfim adentrar o canal, com a impudência invasiva do sussurro, mas sem nunca cometer a grosseria de tocar ou mesmo aproximar-se demasiado das paredes e ainda menos do tímpano, é claro, e depois de se desvencilhar do cerúmen, avançar com a competência e a precisão do movimento capaz de enviar ao ouvido médio, ao martelo, à bigorna, ao estribo, ao labirinto, à tuba e finalmente à cóclea e ao nervo auditivo, por simples estímulo aéreo, por deslocamento de ar, as vibrações infinitesimais necessárias à conversão da audição em arte.

Quer dizer que ainda em vida ele já se comunicava por ectoplasma?

Sua arte era conhecida por produzir uma audição cristalina sem ter de recorrer aos sons e ainda menos às palavras.

Não é bem o que ele está fazendo comigo.

Os limpadores de ouvido compunham uma classe profissional muito antiga e procurada em todo o subcontinente indiano. Desapareceram, como tantas outras profissões, vítimas da obsolescência, da volubilidade das recomendações médicas e do clamor do mundo contemporâneo – como os jornalistas e os poetas.

Sim. E os operários!

SÉTIMA SESSÃO

Entendo que já não quisesse voltar ao nosso centro depois da frustração das últimas sessões. Mas, veja, o trabalho espírita pode ser mesmo muito lento e custoso. É preciso tenacidade e paciência, ainda mais para um materialista ultraliberal. No final, sempre vale a pena. Se o chamei de volta é porque acho que enfim temos uma boa notícia. Melhor sentar. Afinal, parece que deciframos o que o limpador de ouvidos quer dizer. O imóvel tombado que adquiriu na Baixa…

Sim?

Ao que parece, o prédio guarda o segredo do universo.

Como?

O que o limpador de ouvidos lhe dizia já à porta, quando a abriu pela primeira vez, sobre “a outra”, o que na época compreendeu como “a outra chave”, na verdade tinha a ver com isso, com a chave para o mistério do universo.

Desculpe, mas o materialismo é a chave do universo.

Compreendo que esteja cansado e que sua paciência tenha limites, mas já que concordou em voltar ao nosso centro, proponho que faça só mais um esforço. Afinal, esta é uma explicação que não deixa de lado o aspecto material das coisas: o segredo do universo está escondido nas paredes do edifício.

Nas paredes?

É preciso derrubá-las.

Antes de levantar a planta? Como é que vou demolir um imóvel sem planta? E sem o alvará do Patrimônio? Vou contra a lei?

Não será a primeira vez. E agora, pelo menos, tem a justificativa de uma causa justa, ou melhor, científica.

Os operários estão de férias.

É o momento! O segredo universal é a verdadeira oferta, maior do que todas as ofertas jamais imaginadas pela economia ultraliberal. Nenhum obstáculo deve se interpor à sua busca.

Vou ter que achar outros operários?

Ou convencê-los a encurtar as férias.

OITAVA SESSÃO

Aos poucos, com a ajuda inestimável do tradutor de bengali, vamos entendendo mais coisas que o limpador de ouvido diz. Nos poucos prédios que construiu na cidade, o arquiteto deixou a marca inequívoca de sua assinatura. Ainda hoje é possível reconhecê-la no mármore rajado de Ourique, no ferro forjado de Wuppertal, nos ladrilhos transversos de Colmar, nos motivos artidísios e mandívios, além das curvas inconfundíveis dos corrimões e luminárias.

Motivos artidísios e mandívios?

Remetem às mais antigas raízes lusitanas, a experiências não cantadas dos lusíadas nas Índias. Os projetos do arquiteto adequavam-se perfeitamente às diretrizes do fascismo, de modo que sua partida, aos 38 anos, para Goa, de onde seguiu viagem, embrenhando-se pelo subcontinente indiano sem deixar traços nem dar notícia de seu paradeiro aos amigos, aos pais e às irmãs, muito pesou para que se propagasse o rumor de que enlouquecera. Em oito meses estava em Daca, onde se submeteu à arte do limpador de ouvidos, a quem terminou por confidenciar sua aventura. Socialmente, sustentava que havia fugido do regime ilegítimo que se instaurara em seu país, mas a verdade, revelada ao limpador de ouvidos, provavelmente em retribuição aos seus préstimos impagáveis, é que fugia do demônio. É o próprio espírito do limpador de ouvidos quem diz. Introduzido pelo tio nas questões místicas e esotéricas, o arquiteto se ligou com pouco mais de 20 anos a uma sociedade secreta na qual também participavam poetas, médicos e militares. Com o Estado Novo, os que entre eles já nutriam simpatias pelo fascismo ganharam mais confiança e projeção. A sociedade secreta mudou com os ventos. Encorajado por um major entusiasta do salazarismo, durante uma sessão de magia negra, o arquiteto concordou em vender a alma ao demônio em troca do segredo do universo, que o demônio se comprometera a lhe soprar ao ouvido, em sonho, naquela mesma noite. Sua fuga para a Índia indica um aspecto singelo de sua compreensão do mundo, talvez já comprometida pelo nacionalismo ambiente, como se os contratos com o diabo não tivessem validade em outros continentes, fora do âmbito da lusofonia. Morreu de morte medonha, esmagado entre dois blocos de pedra maciça, durante a construção de uma ponte nos arredores de Lahore, no atual Paquistão. Se agora você ouve a voz do limpador de ouvidos e não a do arquiteto, é porque a alma dele está emparedada para sempre entre dois blocos imensos de uma ponte inacabada sobre o Estige, como o segredo do universo que emparedou na Baixa. Foi a punição que lhe coube por trair o pacto, escondendo, no último prédio que construiu antes de fugir do Porto, o segredo do universo. É o que diz o limpador de ouvidos, cujo fantasma se instalou aí, atraído pelo maior de todos os segredos, justamente no imóvel classificado que você comprou. Bingo! Não era raro que ouvisse de seus clientes, balbuciantes entre a vigília e o sono, as peripécias mais intrépidas, quando adentrava seus orifícios auriculares, provocando aí estímulos extáticos com o auxílio de delicados instrumentos de fabrico artesanal, como se boca e ouvido estivessem ligados por um efeito reflexo. De todas as histórias, entretanto, nenhuma se igualava à que lhe contou o arquiteto. Tanto que a alma do limpador de ouvidos não hesitou entre subir aos céus pelo bem que propiciara aos homens ou migrar por humana curiosidade ali para a Baixa.

NONA SESSÃO

Começamos a demolição. Devolvi o apartamento da Boavista e me mudei para a Baixa, para acompanhar a obra de perto. Improvisei um cantinho para mim em meio aos escombros. Não preciso de luxos, sou um homem simples. Consegue me imaginar ajoelhado em meio ao entulho, à procura do segredo universal? Examinamos cada pedaço de parede antes de ser retirado por um grupo de polacos muito competentes. Estavam buscando trabalho. Todos os dias, vêm com uma caminhonete e levam tudo embora na maior discrição. E até agora nenhum sinal do segredo do universo. É claro que os polacos não sabem com o que estão lidando. Me ajudaram a alugar uma britadeira e penduraram na fachada uma placa falsa do alvará, para afastar os bisbilhoteiros. Trabalhamos a toque de caixa, enquanto os fiscais estão na praia. É verdade que o trabalho está aquém das minhas expectativas. Também, com apenas dois operários! Consegui trazê-los de Freixo de Espada à Cinta, onde estavam pescando. São primos. Consegui convencer o primeiro com um contrato de participação nos lucros, depois de ser obrigado a lhe confidenciar do que se tratava. No início, resistiu, não queria interromper a pescaria, mas pedi que tentasse conceber o valor da descoberta e fizesse as contas. Creio que consultou o primo, tanto que vieram os dois. Têm experiência em demolição de interiores com preservação das fachadas. Em menos de uma semana estavam de volta ao Porto, estraçalhando a última obra do arquiteto e, pelo que acabei compreendendo, a mais característica do seu “misticismo material”, porque a maioria das soluções arquitetônicas ali não serve para nada. As paredes caem sob os gritos estridentes do limpador de ouvidos, que os operários, por sorte, não ouvem. Se fazemos uma pausa, os gritos cessam, mas só até retomarmos o trabalho. Entretanto, sigo com uma dúvida sobre a qual paira o silêncio.

Qual?

Que foi que ele disse, se é que disse alguma coisa, sobre as letras na fachada do prédio?

Que letras?

A sequência de letras sem sentido, incrustadas na fachada do imóvel: AAACa.DDE&GHIIJMNOT. Não posso tirá-las de lá, não se mexe em fachada de imóvel tombado. Mas sempre que entro no edifício, tenho a impressão sinistra de estar diante de um enigma ou de uma maldição. Provavelmente não querem dizer nada…

Não se podem combinar caracteres cujo sentido terrível não esteja previsto em alguma língua secreta. Falar é incorrer em tautologias.

Também é bengali?

Improvável.

Mas e se forem um código – ou o próprio segredo universal?

Improvável.

Mas por que a voz continua gritando a cada golpe de picareta, como se, a exemplo de quando meti a chave na porta e a ouvi pela primeira vez, seguisse dizendo: a outra, como se estivéssemos nos afastando da solução?

São gritos de encorajamento.

Foi o que disse o tradutor?

O tradutor acredita que a voz diga sempre a mesma coisa, como nós, que vivemos com a ilusão sobranceira de dizer coisas novas, diversas e interessantes todos os dias.

E o que é que ela diz?

Repete: o segredo do universo, o segredo do universo, para você entender que ainda não chegou lá, para não esmorecer, para que siga procurando.

A Paula me disse que tenho de ouvir esse homem, o tradutor de bengali, falando bengali. Até agora não o ouvi dizer uma palavra sequer.

É muito calado, mas exímio tradutor.

Como é que posso saber se ele está realmente traduzindo o que você me diz? A Paula disse que não adianta eu ouvir, tenho que encontrar outro tradutor de bengali para comprovar o que vocês estão dizendo. Eu sei, a Paula é muito desconfiada. E é claro que pode ser só mais um pretexto para não vir, para adiar a sua vinda e a minha compreensão das coisas. Eu só quero acreditar em alguém. Ela diz que todo mundo me engana, que desde que saí do Brasil deixei de ser esperto, que a minha inteligência está ligada à geografia. Você acha que a Paula está me enganando com outro? Sabe que não posso voltar. E se estiver aproveitando as oportunidades?

DÉCIMA PRIMEIRA SESSÃO

(NA VERDADE, UMA CONSULTA TELEFÔNICA)

Mesmo abafado pelos golpes de picaretas e martelos, não para de gritar, como se fossem as paredes gritando de dor. Posso não entender bengali, mas parece que está pedindo para pararmos.

Talvez tenha se arrependido e agora queira preservar para si o segredo do universo. Ou talvez, ao contrário do que interpretamos, já estivesse instalado aí para impedir que se descobrisse o segredo do universo. Mais uma razão para você continuar. Falta pouco.

Sim, já não há quase nenhuma parede em pé. Examinamos cada tijolo, cada pedaço de pedra. E continuamos sem nenhum sinal, nenhuma pista para o segredo do universo.

Não vá desistir na reta final. A tradução é clara: as paredes escondem o mistério universal.

Faltam poucas.

Estará numa delas.

DÉCIMA TERCEIRA SESSÃO

Desculpe ter ligado tão cedo, mas eu precisava vir. Ontem caiu a última parede e seguimos sem nenhuma chave para o segredo universal. Passei a noite em claro. Não sei o que deu nas gaivotas.

O que têm as gaivotas?

Gritaram a noite inteira, sem trégua, como se estivessem em guerra.

Não é sempre assim?

O prédio está cercado de gaivotas de todas as idades, adultas e recém-nascidas, que piam, grasnam, gritam, guincham e ganem como cães, o tempo todo, mas agora, como já não há paredes, também não há refúgio, o que é frente também é fundos, o imóvel inteiro é uma coisa só, aberta para o mundo das gaivotas desesperadas. O que antes era um labirinto ilógico de inutilidades e disfunções se converteu numa única caixa de ressonância para tudo o que acontece e se ouve do lado de fora, para o desespero das gaivotas comendo o lixo do restaurante de turistas brasileiros. Afinal, o que as gaivotas estão fazendo na cidade? Pela insistência dos gritos e já que não há mais paredes para derrubar, cheguei a pensar que também tivessem algo a me dizer. Como se, desde que meti a chave na fechadura do imóvel tombado tudo tivesse que fazer sentido. Como se não pudesse parar de ouvir um fluxo contínuo de sentidos possíveis. Por causa dos gritos das gaivotas, cheguei a pensar que talvez, quem sabe, alguma coisa pudesse ter acontecido aqui, sim, que houvesse uma novidade, que o tradutor, por exemplo, tivesse chegado a alguma solução, que uma coisa estivesse ligada à outra, sei lá. Vejo sinais em tudo. Mas o mais incrível e o mais terrível é que, quando hoje pela manhã afinal desapareceram os gritos e os ganidos das gaivotas, também a voz sumiu. Pela primeira vez. Sim, desapareceu. Já não ouço o limpador de ouvidos!

Foi bom mesmo você ter vindo. De fato, há uma novidade.

Eu sabia!

Creio que nos enganamos. Temo que tenhamos cometido, como é que eu posso dizer?, um deslize de interpretação.

Um deslize?

Fizemos um realinhamento. O tradutor de bengali reexaminou os dados e chegou a uma nova conclusão.

Uma nova conclusão?

Mais apurada. Mais precisa. O bengali é uma língua capciosa e a tradução é um trabalho ininterrupto, exaustivo. A entrega de uma vida. Eu diria que os tradutores e os intérpretes são, de modo geral, a classe relativamente mais vilipendiada e mais mal paga de todas, a mais explorada. Nesse sentido, seriam por assim dizer o novo proletariado. Você nunca pensou nisso?

Nunca.

Agora, imagine o trabalho de um tradutor de bengali. Pelo que ele pôde entender, o segredo do universo estava de fato nas paredes.

Derrubamos todas. Não sobrou pedra sobre pedra. Vou perder a residência, ser processado pela Câmara e pela Direção Geral do Patrimônio, vou ser mandado de volta para o Brasil. Examinamos cada escombro. Não há segredo nenhum!

E já não pode mesmo haver. O segredo universal estava nas paredes.

Desculpe?

O segredo universal estava NAS paredes; não DENTRO delas.

Será que podíamos voltar a falar a mesma língua?

No desenho das paredes. O interior do imóvel era a representação do universo.

Mas não sobrou nada! Nem a planta! Não há planta nem na Câmara, nem na Direção Geral do Patrimônio, nem em lugar nenhum!

Justamente. Ali estava o desenho irreproduzível do universo, nas paredes que você derrubou. O segredo eram as paredes. Todas elas, em conjunto. Por isso a voz gritava tanto quando eram derrubadas, pela sua – quer dizer, nossa – incompreensão. Agora, veja o lado positivo. O bengali é uma língua complexa, dá margem a muita interpretação. Nesse sentido, tanto o segredo do universo poderia estar no desenho das paredes derrubadas (o que significa que se perdeu para sempre) como sua revelação, no ato de derrubá-las (o que significa que o conhecimento só pode nascer da destruição e é em si mesmo uma impossibilidade). Neste caso, como decorrência natural do paradoxo, o segredo estaria no entendimento sempre parcial de que uma parede externa, intransponível (penso na fachada), nos separa (e a nossa destruição, o nosso caos interior) do que imaginamos ser o infinito, mas que é apenas inconcebível. O bengali é uma língua cheia de significados, mas não há razão para estarrecimento. Quem precisa do segredo do universo quando já não há voz que o atormente? E, afinal, não foi para isso que você veio? Para calar de uma vez por todas essa voz? É verdade que o custo terá sido alto, altíssimo, mas não era para menos. Agora só falta procedermos ao acerto de contas e ao pagamento. Levei o caso aos colegas na reunião trimestral dos kardecistas do Porto e de Penafiel e, depois de muito deliberarmos, concluímos que, por ser materialista e ultraliberal, vai compreender que até num centro espírita tudo tem seu preço.


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É escritor, autor de Simpatia pelo Demônio, publicado pela Companhia das Letras