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O NINHO DA SERPENTE

O sistema de comunicação que levou Bolsonaro a vencer as eleições de 2018
Imagem O ninho da serpente

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O WhatsApp de Alex Melo, um pequeno fabricante cearense de painéis de sinalização, exibiu uma notificação de mensagem. Por alguns instantes, ele desconfiou da autenticidade do remetente, mas ainda assim resolveu abrir o áudio. Ao ouvir a voz, a dúvida desapareceu, e ele sentiu o coração acelerar:

Ô, Alex, tudo bom? Aqui é Jair Bolsonaro. Eu tô te acompanhando aqui nos grupos. Peguei três áudios teus aqui. Estou vendo que você tá com o coração aberto para o Brasil. É o meu caso. Desculpe a modéstia, mas eu tenho quinze anos de Exército, dois mandatos de vereador, 25 anos de deputado federal. É isso, Alex. Tamo construindo. Estou vendo aí a possibilidade de mudar em 2018. Quero vir pra presidente. Eu não posso dizer mais do que isso aqui, porque a multa da esquerda é pesada. Eu tenho vários processos. Não é brincadeira não, cara. Mas vamos lá lutar. Vou continuar te ouvindo aqui. Um dia a gente pode se conhecer.

Era julho de 2015. Superado o espanto, Melo entrou em êxtase. Ouviu o áudio repetidas vezes, encantado com o fato de que o deputado Jair Bolsonaro havia se dirigido diretamente a ele. Católico, viu no recado algo maior: no seu entendimento, “aquilo era mão do Divino, mesmo”. Bolsonaro participava dos quatrocentos grupos de direita nos quais Melo também atuava – um universo de cerca de 40 mil pessoas, considerando que, à época, cada grupo no WhatsApp podia ter até cem participantes. Ao ouvir a voz do deputado, o empresário teve certeza de que estava “predestinado pelos céus a ajudar Bolsonaro a mudar o Brasil”.

Alex Melo, então com 43 anos, nunca se interessara por política. Sua vida era dedicada a tocar a empresa, cuidar da família e sair com os amigos. Nas manifestações de 2013, contudo, começou a achar que não podia mais ignorar o que estava acontecendo no Brasil. Embora os primeiros protestos tivessem sido organizados por movimentos de esquerda, dos quais sempre estivera apartado, Melo se deu conta de que “milhares de pessoas estavam desgostosas com alguma coisa, por algum motivo”. Mesmo sem enxergar o cenário político com muita clareza, ele também foi para a rua protestar e, de cara, estranhou a ausência de lideranças guiando a multidão. Deu-se conta de que a maioria das pessoas, como ele, estava ali apenas por causa da sensação de que “tinha algo errado no Brasil”, e percebeu que aquela onda ganhava cada vez mais força.

O que no início parecia um bando de insatisfeitos sem comando logo se organizou em grupos de WhatsApp, que em pouco tempo se desdobrariam no movimento Brasil Indignado, com milhares de cearenses culpando os governos do PT e a esquerda por todo o seu descontentamento. Essa turma, ao lado de outros movimentos de direita surgidos da mesma forma país afora, não deixaria as ruas até o impeachment de Dilma Rousseff. E esse seria o principal combustível para a campanha de Jair Bolsonaro à Presidência.

Antes de participar das conversas nos grupos, Melo não tinha ideia de que, no espectro ideológico, seria carimbado como um sujeito de direita. Assim como seus companheiros do Brasil Indignado, ele era conservador, religioso, defensor dos chamados “valores da família”, contrário ao comunismo e a favor da ordem, dos militares e da propriedade privada. Se pensar assim era ser de direita, então ele se orgulhava de seu posicionamento político – e mais ainda de não estar sozinho, pois, afinal, lá fora havia uma multidão que enxergava o mundo da mesma forma que ele. Trocar ideias nas redes sociais o fez começar “a conectar as coisas”. Pelas informações que recebia nos grupos, entendeu que “o problema no Brasil era a esquerda, que ridicularizava tudo o que eles mais prezavam”. E a esquerda não era só o PT: havia também o PCdoB, o Psol, o PSB. Até o centro-direitista PSDB integrava o rol dos “comunistas”.

Nessas conversas, ele era alertado de que a esquerda queria transformar o Brasil numa grande Cuba ou numa Venezuela. Também acabou convencido de que a ditadura militar tinha sido uma coisa boa para o país e de que os relatos de tortura de presos políticos, de censura e de cassação de parlamentares depois de 1964 eram uma “invenção da esquerda para desmoralizar o Exército”.

Aos poucos, Melo se sentiu seguro para opinar, e nessas trocas de mensagens nos grupos descobriu o deputado Jair Bolsonaro, que verbalizava da forma “mais simples e clara possível” tudo o que ele acreditava. Sua admiração pelo parlamentar “autêntico” aumentava a cada dia. O que ele não sabia era que Bolsonaro também prestava atenção aos debates dessas redes – e foi assim que o deputado chegou até o empresário. O que se seguiu àquele primeiro contato Alex jamais poderia imaginar: uma ideia sua acabaria por revolucionar a campanha presidencial do candidato.

Numa tarde de sábado, menos de um mês depois da primeira troca de mensagens, Melo assistia à tevê quando seu celular começou a vibrar. Ao olhar para a tela, quase foi ao chão. Era Bolsonaro:

– Ô Alex, tudo tranquilo, cara? Estou na estrada. Meu carro quebrou e eu resolvi te ligar pra gente falar de política.

– Pois não, deputado, é um prazer.

A conversa ganhou corpo, e Alex comentou sobre a ida de Bolsonaro ao Ceará, porque tinha visto uns vídeos em que ele anunciava: “Pessoal de Fortaleza, estou indo praí.” O deputado fora convidado para dar uma palestra sobre porte de arma em uma cidade do interior. Desde que vira os vídeos, Alex matutava sobre uma ideia que considerava “uma iluminação”:

– Bolsonaro, é o seguinte: o senhor tá com uma energia enorme, mas não tá sabendo usar essa energia. Eu soube que o senhor tá vindo para cá, e eu tô com uma ideia que vai amplificar o seu discurso pelo Brasil.

Naquele momento, Melo não contou a Bolsonaro que sua intenção era fazer uma recepção para ele no aeroporto de Fortaleza. Por conta própria, ligou para o gabinete do parlamentar em Brasília e descobriu o dia e a hora do desembarque na capital cearense: 13 de agosto de 2015, quinta-feira, às onze da noite. “A energia em torno de Bolsonaro já existia. Ele precisava de um mecanismo para explodir, para acender essa bomba. E a recepção nos aeroportos foi esse mecanismo”, explicou Melo.

Definida a estratégia, Melo começou a convidar apoiadores pelas redes sociais. No dia da chegada, tirou a tarde para confeccionar bandeiras com o nome do deputado. Perto das 17 horas, ligou para Bolsonaro e foi só então que revelou seu plano:

– Estou juntando umas pessoas para receber o senhor no aeroporto.

A reação de Bolsonaro o deixou comovido:

– Rapaz, será que vai ter pelo menos umas cem pessoas lá? Porque você sabe, eu sou muito odiado.

Melo se compadeceu e, depois de desligar o celular, chorou. “Fiquei com muita pena dele na hora que ele me disse aquilo”, contou, tempos depois.

Por volta das oito da noite, foi para o aeroporto com as bandeiras, acompanhado de uma prima. Como não viu ninguém no saguão, ficou preocupado. Duas horas antes da chegada do voo havia apenas cinco pessoas. Ele subiu até o primeiro andar para comer um sanduíche e, enquanto fazia o pedido, alguém bateu a mão em suas costas. Era Carlos Bolsonaro, que o vira com as bandeiras e quis saber do que se tratava aquilo. O empresário contou o que estava planejando, e os dois se abraçaram.

Quando Melo voltou ao saguão, já havia quinze pessoas, vestidas com camisetas verde-amarelas. Ficou animado. Faltando uma hora para o avião pousar, mais gente começou a chegar. Por volta das dez e meia, havia cerca de 150 pessoas. No momento em que Bolsonaro apareceu no portão de desembarque, foi recebido com festa. “A turma gritava ‘Bolsonaro, Bolsonaro!’, ‘Mito, mito!’. Tocavam corneta, batiam palmas”, contou o empresário.

Melo registrou o momento com o celular, filmando a si mesmo e ao grupo. Os presentes não chegavam a encher o saguão do aeroporto, mas o ângulo do vídeo dava a impressão de haver ali um público muito maior. Durante a filmagem, ele alternou entre a câmera frontal e a traseira, e capturou Bolsonaro cumprimentando os apoiadores. Depois, editou as imagens e as colocou nas redes sociais.

A gravação viralizou imediatamente. Melo, porém, só se daria conta do impacto causado pelo evento no dia seguinte, ao ler os jornais locais e assistir aos noticiários cearenses. “Deputado carioca é ovacionado no aeroporto de Fortaleza”, anunciou a manchete de um deles. Dali, a notícia saltou para a imprensa nacional. Eufórico com a visibilidade que ganhou, Bolsonaro fez um agradecimento público a Melo e passou a se referir a ele nas redes como “Alex Ceará”.

Um mês depois, alguns seguidores de Bolsonaro pediram a ajuda de Melo para organizar uma recepção semelhante no aeroporto Val-de-Cans, em Belém (PA). O empresário topou no ato. No dia acertado, faltando uma hora para a chegada de Bolsonaro, havia apenas trinta pessoas para recepcionar o deputado. Melo, mais uma vez, ficou tenso. Olhava para os organizadores de Belém e se perguntava se o ato seria um fracasso. Perto da hora da chegada, contudo, os apoiadores começaram a aparecer. Quando Bolsonaro desembarcou, o saguão estava intransitável: mais de oitocentas pessoas o receberam aos gritos de “Mito, mito!”.

A partir de então, não houve aeroporto em que o deputado chegasse que não estivesse lotado de seguidores.

Balões verdes e brancos enfeitavam o salão e o palco do Bangu Atlético Clube num sábado do final de julho de 2016. Eram as cores do Partido Social Cristão (PSC) que fazia ali sua convenção para referendar a indicação de Flávio Bolsonaro à Prefeitura do Rio de Janeiro e de alguns candidatos a vereador, nas eleições daquele ano. Os candidatos se revezavam no palco, evocando Deus quase o tempo todo e fazendo apelos em nome da família e da segurança pública.

Quando Bolsonaro chegou ao clube, a plateia ficou extasiada e o recebeu aos gritos de “mito” e “Bolsomito”. Enquanto caminhava até o palco, era agarrado pelas pessoas. O candidato a vereador Anderson Bourner, um rapaz sorridente, estava atento aos movimentos do deputado. Como a maioria das pessoas no local, ele se considerava de direita e reclamava do “autoritarismo” de seus rivais políticos. “A esquerda quer dividir as pessoas entre pobres e ricos, brancos e negros, gays e héteros”, me disse Bourner, na época, em uma entrevista para a piauí. E completou: “Eu tenho amigos gays de direita que apoiam Bolsonaro. Essa história de homofobia é invenção para desmoralizá-lo.”

A cabeleireira Charlo Ferreson também estava impactada pela presença de Bolsonaro. Uma das líderes do movimento Revoltados On Line no Rio, ela se dizia anti-PT e contou ter ajudado na convocação de apoiadores do impeachment de Dilma. Durante as manifestações de 2013, Ferreson participou do movimento Ocupa Cabral, que acampou em frente ao prédio onde morava o então governador do Rio, Sérgio Cabral Filho, para protestar contra a sua gestão.

Em 2016, ela e seu grupo passaram a divulgar as viagens de Bolsonaro pelo Brasil, ajudando a encher de apoiadores o saguão dos aeroportos. Ferreson considerava o deputado a voz da direita, alguém que defendia os valores do trabalho e do empreendedorismo, tudo que, na sua visão, a esquerda renegava. “A esquerda nos olha com preconceito. Nos rotula de conservadores e despreza os nossos valores, como se só eles tivessem razão em tudo”, reclamou. Além disso, assim como Bolsonaro, Ferreson acusava o Bolsa Família de sustentar “vagabundos”. Eleito presidente, ele não apenas manteve o programa (que depois trocou de nome) como aumentou o valor do benefício, num movimento para atrair a simpatia dos mais pobres.

O que levou milhões de brasileiros a se identificarem com a direita e com a extrema direita, e dar sustentação ao discurso raivoso de Bolsonaro contra a esquerda? Como um país que durante catorze anos apoiou governos de esquerda deu tamanha guinada ideológica? Como foi possível a criação desse batalhão de seguidores que levaram Bolsonaro à vitória em 2018?

Dois anos antes do pleito de 2018, o historiador Daniel Aarão Reis Filho explicou assim o crescimento da direita no país: “A sociedade brasileira foi sempre muito conservadora, embora o pensamento da direita estivesse relativamente oculto”, me disse em uma entrevista publicada na piauí_120 (Direita volver, setembro 2016). A razão desse ocultamento era, em parte, a associação que se faz no Brasil da direita com a ditadura. “As direitas, por aqui, sempre recusaram esse rótulo. Essa negação distorcia a realidade e gerou, em muita gente, uma espécie de autossatisfação, a ideia de que a democracia no Brasil estava consolidada e de que a direitização da sociedade era coisa do passado.”

Outra razão para esses grupos se manifestarem, conforme Reis Filho, tinha a ver com o fracasso de algumas políticas de esquerda. “Ao abandonar as perspectivas reformistas, em particular a ideia de reforma política, ao longo de catorze anos de poder, o PT e as esquerdas não ganharam a respeitabilidade almejada junto às elites sociais e políticas.” Ao mesmo tempo, disse ele, as esquerdas não implementaram mudanças profundas em áreas centrais, como saúde e educação. Na visão do historiador, o PT perdeu a perspectiva reformista e se acomodou ao velho padrão da política corrupta.

Bolsonaro se aproveitou desse sentimento de desencanto para vender a imagem de outsider em relação ao mundo da política, embora estivesse na vida pública desde 1988 e praticasse havia décadas uma modalidade da mesma política corrupta, depois adotada por dois de seus filhos. Mas o seu eleitor não via as coisas dessa maneira. No discurso que fez em 2016 no Bangu Atlético Clube, o então deputado gritou ao microfone: “A esquerda pode me acusar de tudo, menos de…” E a plateia respondeu: “Corrupto!”

O escândalo das “rachadinhas” viria à tona somente em 2018, após a eleição. Antes disso, porém, foram ignoradas pela Justiça e por parte da sociedade as evidências de que o patrimônio imobiliário da família era incompatível com os seus ganhos, conforme denunciou a Folha de S.Paulo em 2018. O que ocorreu porque, até 2016, Bolsonaro era tratado com indiferença pela grande imprensa e visto como uma figura caricata que atraía apenas um bando de fanáticos.

Já naquela época o economista e ensaísta Eduardo Giannetti da Fonseca, autor do livro Trópicos Utópicos, chamou a atenção para o discurso do medo encampado por políticos de direita em todo o mundo. Ao incutir nas pessoas a sensação de que os valores familiares andam por um fio, que a segurança está ameaçada e a propriedade sofre risco, esses políticos se apresentam como os líderes salvadores que evitarão o esfacelamento do mundo. Era o caso de Donald Trump, nos Estados Unidos, e de Bolsonaro, no Brasil. “Quanto mais ameaçador o candidato pinta o futuro, mais fácil fica vender a ideia da ordem, da rigidez, da segurança, da polícia”, avaliou Gianetti em entrevista concedida a mim em 2016.

As redes sociais se mostraram um terreno fértil para a propagação do medo, em posts que pintavam a realidade com cores muito sombrias. Os problemas econômicos – como a inflação e o desemprego –, as invasões de terra pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a criminalidade e os escândalos de corrupção eram amplificados incessantemente na internet, dando a impressão de que o país estava mergulhado na desordem, na violência e na miséria. O temor de que o Brasil pudesse entrar em convulsão fez embarcar grande parte da sociedade no discurso salvacionista de Bolsonaro.

O mais difícil de entender, contudo, era a adesão à sua fala agressiva. Afirmações como “Vagabundo tem que ser morto” e “É preciso armar a população” chamavam a atenção em suas redes sociais. Entusiasmavam sobretudo os mais jovens, que “de um modo geral, desacreditam mais dos canais tradicionais de participação política”, disse Alessandro Janoni em 2016, quando era diretor do instituto Datafolha. Ao mesmo tempo, explicou ele, os jovens são os mais vulneráveis a temas como direito à posse de arma e ações intempestivas contra a criminalidade, como Bolsonaro defende. “Eles acabam se agregando por meio de afinidades temáticas, e as redes sociais potencializam isso”, concluiu Janoni. Não à toa, uma das imagens mais repetidas pelos jovens naquela época foi o gesto de Bolsonaro que simulava a empunhadura de uma arma.

Mas o público bolsonarista não via problema em certos comportamentos do deputado, considerados por eles “brincadeiras inocentes”, molecagem sem consequência. Acusavam a esquerda de não ter senso de humor, ser professoral e copiar valores de fora para impô-los aos brasileiros. As redes sociais viraram um termômetro da polarização dos brasileiros e um desaguadouro de ódio que transformou a comunicação virtual em guerra. Em função disso, a fúria e o ressentimento entre direita e esquerda – ou “coxinhas” e “mortadelas”, como passaram a se atacar os dois espectros políticos – atingiram níveis impensáveis.

Em maio de 2016, quando a discussão sobre o impeachment de Dilma mobilizava o Senado, Bolsonaro viajou para Israel com três filhos – Flávio, Eduardo e Carlos –, além do pastor Everaldo Pereira, presidente do PSC, legenda à qual estava ligado. Era uma viagem com o intuito de atrair apoio dos evangélicos para a sua campanha presidencial. Os Bolsonaro levaram com eles uma equipe de jornalistas e cinegrafistas para registrar toda a agenda e postar nas redes sociais. O deputado e os filhos foram batizados pelo pastor no Rio Jordão, em Yardenit (Israel), onde os cristãos acreditam que Jesus tenha sido batizado (o batismo, na verdade, se deu em uma região situada na Cisjordânia). No dia 12 de maio, Bolsonaro – que é católico –, vestido de camisolão branco, se deitou nos braços do pastor e mergulhou nas águas do Jordão. O evento, claro, viralizou na internet. Foi depois dessa viagem que alguns jornalistas se deram conta da organização da família Bolsonaro nas redes – movimentação que se agigantaria em 2018. “Ninguém no Brasil percebeu o que eles estavam fazendo”, me disse um ex-assessor do deputado.

As manifestações de Junho de 2013 haviam alertado o clã Bolsonaro sobre a força da comunicação virtual. Foi Carlos Bolsonaro, então com 30 anos, quem primeiro vislumbrou o potencial da rede para a difusão de ideias que não circulavam na mídia tradicional. As pessoas já haviam organizado comunidades na internet para compartilhar sua insatisfação com a ordem social e política quando Jair Bolsonaro se apresentou como porta-voz daquelas bandeiras.

O pernambucano Mateus Henrique tinha 17 anos quando fundou com alguns amigos o Direita Pernambuco, o primeiro movimento do estado a abraçar bandeiras conservadoras – e por vezes de extrema direita, inspiradas nas ideias do polemista Olavo de Carvalho. “Bolsonaro representa a nossa voz”, explicou o rapaz, que mesmo antes de conhecer a atuação intempestiva do deputado em Brasília já planejava comemorar numa praça central do Recife o dia do golpe militar. Para Henrique, os militares haviam tomado o poder em 1964 a fim de salvar o Brasil de uma iminente ameaça comunista.

A célula-mãe do Direita Pernambuco foi uma comunidade do Facebook chamada “Panelinha da Direita”, que em dezembro de 2014 se viu inundada por memes do bate-boca entre Bolsonaro e a deputada Maria do Rosário (PT-RS) – o ex-capitão decidira repetir, no plenário da Câmara dos Deputados, os insultos que havia disparado contra ela em 2003. Nessa época, Bolsonaro passou a vender nas redes sociais a ideia de que, enquanto a esquerda defendia bandidos, ele estava ao lado das vítimas dos criminosos. Foi a partir daí que os movimentos de direita abraçaram de vez o slogan “Direitos humanos para humanos direitos” – que em 2018 se tornou um dos alicerces do programa de governo de Bolsonaro: segurança pública com mão de ferro.

Em 2016, os Bolsonaro passaram a agir com método e habilidade, tirando o máximo proveito do Facebook e do Instagram, as principais redes sociais na época. Em breve se valeriam com muita força do WhatsApp, que, em razão do aumento da venda de celulares com acesso à internet, começou a despontar como a maior plataforma de comunicação, além de ter a vantagem de dispor da mensagem de voz, que facilitava a comunicação com um público pouco instruído, com baixa capacidade de leitura e escrita.

Foram vendidos em 2013, no Brasil, 35,6 milhões de smartphones, uma alta de 123% em relação ao ano anterior, segundo um estudo da consultoria IDC Brasil, especializada em telecomunicação. Em 2014, a venda subiu 55%, chegando a 54,5 milhões de aparelhos – e a densidade de telefones (fixos, móveis sem acesso à internet e smartphones) no Brasil ultrapassou a dos Estados Unidos. Os dados da IDC Brasil mostravam que, aqui, havia mais de três telefones para cada dois habitantes. Em 2015, o mercado de celulares retraiu, acompanhando a economia brasileira como um todo. Mas àquela altura os smartphones já representavam mais de 90% das vendas de novos celulares no país e passariam a ser o principal meio de conexão à internet.

Três anos antes das eleições presidenciais, Carlos Bolsonaro já usava o WhatsApp para distribuir missões aos apoiadores do pai. Verdadeiros soldados digitais, os seguidores de Bolsonaro se espalhavam pela rede em grupos autodeclarados de direita. Carlos e outras forças próximas a Bolsonaro eram os responsáveis por direcionar as missões, fosse o ataque a um opositor, fosse a reação a um projeto progressista em tramitação no Congresso. As mensagens ganhavam vida própria tão logo caíam no fértil terreno virtual bolsonarista. Não havia controle centralizado nem limites, apenas foco total no objetivo que unia os integrantes do circuito, em seus diversos escalões: destruir o PT.

Antes da campanha declarada no WhatsApp, durante anos Bolsonaro se limitou a se relacionar com apoiadores nas redes sem pedir voto. Nenhum outro candidato havia usado esse recurso com tanta habilidade para se comunicar com os eleitores. Depois que o Direita Pernambuco surgiu, Bolsonaro não demorou a ser incluído no grupo do WhatsApp dos rapazes, no qual postava áudios, dava opinião, conversava com o pessoal. Eduardo Bolsonaro também fazia suas aparições por lá – uma amiga de Mateus Henrique guarda até hoje um áudio do deputado federal chamando-a pelo no-me: “Boa noite, Dai, eu te amo.” Amigos deles fazem o mesmo com mensagens de voz enviadas por Bolsonaro. “Esse é o estopim dele: quando Bolsonaro chega aos grupos de direita dos estados”, me disse Henrique.

Pernambuco foi o primeiro estado em que os conservadores se organizaram em um grupo fechado. Com o tempo, passaram a ganhar subgrupos conforme a profissão, o gênero, o bairro e os interesses mais específicos dos participantes. Mesmo quando a demanda cresceu, Bolsonaro dedicou tempo na agenda para interagir com os seguidores. Todos os dias, por volta da meia-noite, Henrique e os colegas conservadores percebiam, pelos dados das mensagens que o WhatsApp permite acessar, que Bolsonaro tinha visualizado as conversas. De quando em quando, eles usavam outro recurso do aplicativo para chamar a atenção do parlamentar: marcavam diretamente o contato de Bolsonaro nas mensagens e o saudavam. “Boa noite, deputado”, diziam repetidas vezes, e ele aparecia para cumprimentar os integrantes do grupo, que passaram a considerá-lo um amigo.

O próximo passo dos Bolsonaro foi integrar o WhatsApp a todas as plataformas disponíveis, multiplicando o alcance das mensagens. No Facebook, que já era um terreno dominado pelos conservadores, Carlos Bolsonaro e companhia haviam criado as páginas Bolsonaro Opressor e Bolsonaro Opressor 2.0, em 29 de junho de 2015 e 20 de julho de 2016, respectivamente.

Nesse processo, o núcleo Bolsonaro passou a contar com a ajuda de seguidores dispostos a trabalhar para a causa, inclusive de maneira voluntária. Um deles era Allan dos Santos, criador do site Terça Livre, que defendia ideias conservadoras já em 2014 no YouTube e no Twitter. Anos depois, ele se tornaria um dos soldados mais célebres do bolsonarismo. O conteúdo gerado por canais como o de Santos era distribuído nas redes sociais por outros apoiadores e compartilhado por milhões de pessoas.

O Terça Livre ganhou notoriedade por ser um dos primeiros canais a atacar a exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, montada em 2017 em Porto Alegre. Em 9 de setembro, o canal publicou um vídeo intitulado “Exposição criminosa no Santander Cultural”, cuja legenda dizia: “DENÚNCIA: pedofilia, zoofilia, pornografia e profanação sendo promovidos pelo Ministério da Cultura aos olhos de crianças! Avaliem o Santander Cultural com 1 estrela, compartilhem o vídeo e ajudem a denunciar esses crimes. ABSURDO!” O vídeo estourou nas redes, contabilizando cerca de 1,6 milhão de visualizações e milhares de comentários, até ser removido. Potencializada por robôs projetados para aumentar a visibilidade nas redes sociais (cerca de 13% das contas foram identificadas como automáticas), a publicação teve grande repercussão, chegando a prejudicar a página do Santander Cultural no Facebook. Depois de receber avaliações e comentários negativos durante quatro dias, o centro cultural decidiu encerrar a exposição.

Especialistas em redes sociais dizem que quem primeiro utilizou o esquema de comunicação virtual segmentada foi o PT, em 2006, na campanha de Lula à reeleição. A prática de colocar blogueiros trabalhando indiretamente para políticos foi utilizada por apoiadores do presidente e do PT, chegando a ser financiada pelo governo. Compromissados não com os fatos, mas com a ideologia dos seus divulgadores, esses blogueiros faziam a defesa de Lula e alardeavam seus feitos, atacando com virulência os opositores, motivo pelo qual suas páginas ficaram conhecidas como “blogs sujos”.

Com os apoiadores de Bolsonaro, a história não era muito diferente: eles também atuavam em defesa do candidato e de suas ideias conservadoras, sempre atacando aqueles que os criticavam. Mas a infantaria virtual bolsonarista ia muito além do que faziam os blogs petistas. A estratégia escolhida por Carlos Bolsonaro consistia em dar formatos diferentes a uma mesma mensagem, a depender da rede em que era compartilhada. Assim, de acordo com um ex-assessor da família, enquanto a página Bolsonaro Opressor, no Facebook, tratava de um assunto de certo jeito, a página Bolsonaro 2.0, na mesma plataforma, o abordava por outro viés, deixando para o Terça Livre, no YouTube, uma terceira visão do mesmo tópico. A crítica à Queermuseu, por exemplo, foi redigida de várias formas, replicadas ao mesmo tempo, com o objetivo de atingir públicos diferentes. Foi com esse modus operandi que, entre 2015 e 2018, as redes criadas ou ampliadas com a supervisão de Carlos Bolsonaro fidelizaram um batalhão de seguidores simpáticos aos militares, à defesa da família e à ampliação do porte de armas.

Outra particularidade das redes sociais explorada pelo clã era a facilidade com que destruíam reputações dos que atrapalhavam os planos de Bolsonaro. Não havia pudor em postar notícias falsas ou, no mínimo, distorcidas. Quando o PSC se coligou a algumas prefeituras do PCdoB do Maranhão, começaram a ser difundidas fotos em que o pastor Everaldo Pereira, presidente do partido, e o governador do estado, Flávio Dino, apareciam juntos, acompanhadas de um texto afirmando que os dois haviam se aproximado e, por essa razão, o PSC estava virando comunista. Era uma foto tirada ao acaso, meses antes das eleições, numa feira de gado, não num evento político, mas foi usada para enfraquecer a imagem do pastor e justificar a saída de Bolsonaro do PSC – em 2018, ele se aliou ao Partido Social Liberal (PSL), pelo qual concorreu à Presidência.

A estratégia, muito bem calculada, foi posta em prática por blogueiros que se aglutinavam em torno de Carlos Bolsonaro, como José Matheus Sales Gomes, Mateus Matos Diniz e Tércio Arnaud Tomaz – este último um dos administradores das páginas Bolsonaro Opressor 2.0 (suspensa pelo Facebook em abril de 2018 por divulgar fake news) e Bolsonaro Opressor.

Depois da vitória de Bolsonaro, o trio passou a cuidar da comunicação digital do presidente, atuando no que foi chamado de “gabinete do ódio”, de onde saíam ataques aos adversários. Desde que se instalou no Palácio do Planalto, o “gabinete” já se envolveu em várias polêmicas, inclusive com figurões do governo que acabaram deixando seus postos depois de sofrerem agressões nas redes. Um que acabou limado pelo grupo foi o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo, que deixou o posto apenas seis meses após assumi-lo. E saiu de lá atirando: denunciou a existência de um grupo de extremistas fanáticos dentro do governo que plantava notícias falsas com o objetivo de destruir reputações. Gomes, Diniz e Tomaz foram investigados na CPI das Fake News, instalada em 2019. Já Allan dos Santos, depois de ter a prisão decretada em 2021 por seus ataques à democracia, fugiu para os Estados Unidos. Um levantamento informal feito pelo PSC em 2016, quando Carlos Bolsonaro ainda era filiado à legenda (hoje ele está no Republicanos), apurou que o financiamento de blogs e redes bolsonaristas vinha da verba de cerca de 6 milhões de reais por mês do próprio gabinete do vereador na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

O primeiro grande teste eleitoral da infantaria digital da família Bolsonaro foi feito durante a campanha de Flávio Bolsonaro à Prefeitura do Rio, em 2016. O pai era contra a candidatura e se engajou muito discretamente na campanha do Zero Um. Temia que o filho viesse a ser um mau prefeito, o que atrapalharia a sua campanha à Presidência. Os dois acabaram se desentendendo, e Carlos e Eduardo, que ficaram do lado do pai, quase romperam com o irmão. Para evitar que Flávio crescesse entre o eleitorado, a família confiscou suas redes duas semanas após o início da campanha, negando o acesso às senhas, que estavam em poder de Carlos. Mesmo impossibilitado de fazer postagens, Flávio terminou a eleição com 14% dos votos – um resultado surpreendente.

Encerrado o pleito municipal, a família continuou desunida. Mas, a partir de 2017, por determinação do pai, Flávio passou a cuidar da campanha à Presidência, enquanto Carlos continuou à frente das redes. Até o segundo turno, os irmãos não trocaram palavra.

A aproximação entre o marqueteiro Marcos Aurélio Carvalho e Flávio Bolsonaro no Campo Olímpico de Golfe, um clube no Rio de Janeiro, se deu em 2017, quando fez as primeiras reuniões com o núcleo duro da campanha de Jair Bolsonaro, ainda sem Gustavo Bebianno, futuro presidente do PSL. Carvalho já percebera que havia muita força do ex-capitão nas redes sociais. “Era o único pré-candidato à Presidência que tinha torcida”, disse. Dentro e fora das plataformas, as pessoas buscavam Bolsonaro e seus assessores espontaneamente, perguntando como poderiam ajudar a pavimentar o caminho do então deputado federal até o Planalto.

Foi a partir dessa devoção espontânea, combinada ao fato de que Bolsonaro teria míseros oito segundos de propaganda eleitoral na tevê e no rádio, que surgiu a ideia de fazer a campanha online em esquema de voluntariado. Os ávidos seguidores bolsonaristas receberiam já pronto o conteúdo que deveriam (e desejavam) distribuir.

A experiência de Carvalho na política era quase nula. No entanto, a engrenagem oculta que ele enxergava entre os apoiadores do “mito” era perfeitamente compatível com uma técnica publicitária moderna que dominava: personalizar o conteúdo de acordo com o rastro digital deixado pelos usuários de redes sociais. Com uma base de seguidores tão apaixonados e dispostos a participar da campanha, a ideia era criar caminhos para que os entusiastas de Bolsonaro fornecessem, de bom grado, mais dados sobre seu comportamento e suas preferências. Seria possível montar, assim, perfis psicológicos e sociais complexos e completos, e entregar, a cada um desses eleitores, conteúdo personalizado.

Apesar do projeto ambicioso, a relação entre Carvalho e o núcleo duro da campanha quase azedou três meses após ele ter se juntado ao grupo. Era um sábado ensolarado de agosto no Rio de Janeiro quando Carvalho chegou à conclusão de que estava de “saco cheio” da “zona” que era a organização da campanha, até então liderada por Flávio Bolsonaro. A engrenagem não girava, e o marqueteiro, acostumado a assumir projetos de grandes empresas privadas, estava perdendo a paciência. Durante mais uma reunião improdutiva, ele comunicou a Flávio e ao presidente do Campo Olímpico de Golfe, Carlos Ruffato Favoreto, apoiador de Bolsonaro, sua desistência de emplacar o projeto de voluntariado que sua agência, a AM4, havia pensado para aproveitar o potencial das redes bolsonaristas.

A situação foi revertida duas semanas depois, quando Bebianno entrou no circuito e telefonou para Carvalho. “Agora é comigo”, disse o recém-chegado homem forte de Bolsonaro. “Já combinei com o capitão, e sou eu que vou coordenar. Vou organizar essa bagunça.” Para Bebianno, eleger Bolsonaro como presidente da República era uma missão. Ele se tornara um híbrido de segurança, leão de chácara, enfermeiro, psicólogo, orientador de campanha, anjo da guarda e o que mais fosse necessário para trazer tranquilidade a Bolsonaro. Com tanta influência sobre o candidato, Bebianno tratou de jogar para escanteio todas as pessoas que considerava nocivas à campanha, como o ex-policial Fabrício Queiroz, amigo da família Bolsonaro e assessor no gabinete de Flávio; Waldir Ferraz, conhecido como “Jacaré”, funcionário aposentado da Marinha Mercante e assessor informal do presidenciável, bem como Favoreto e o próprio Flávio Bolsonaro.

Bebianno montou um pequeno time de sua confiança, com Marcos Carvalho, Julian Lemos, sócio de uma empresa de segurança em João Pessoa, e Luiz Medeiros, sócio de Favoreto, além do empresário Paulo Marinho, que emprestou sua casa para servir de quartel-general da campanha. A turma era inseparável, e Bolsonaro gostava de tê-la por perto. Para economizar com hotel, costumava levar os camaradas para dormir no seu apartamento em Brasília. Às cinco e meia da manhã, Bolsonaro gostava de despertar aqueles que dormiam nos colchonetes ao som de uma corneta de quartel gravado em seu celular. Outra de suas manias era passar laquê no cabelo, muito fino e liso, para evitar que caísse no rosto. “Ele tinha tubos de laquê espalhados pelo apartamento e pelo gabinete para manter o cabelo arrumado”, contou um ex-assessor.

Essa era a parte divertida da campanha. A peculiaridade nada alegre eram os acessos de pânico noturnos de Bolsonaro, que obrigavam Bebianno a dormir no mesmo quarto que ele nas viagens. Mais do que isso, o advogado, segundo os assessores que os acompanhavam, tinha poder total sobre o candidato: decidia desde a roupa que Bolsonaro vestiria até a que horas acordaria e com quem conversaria. À noite, agia como enfermeiro e lhe dava os remédios. Por questão de segurança, passou a carregar Bolsonaro nos ombros nas recepções, nos aeroportos e chegou a ponto de provar a comida do candidato antes que ele a comesse, a fim de se certificar de que não estava envenenada. Também interferia nos vídeos para as redes sociais, gravados na casa de Marinho. Como Bolsonaro tinha dificuldade de memorizar os textos, era comum ter crises de pânico durante as gravações. Nesses momentos, Bebianno saía com ele do estúdio, o levava para o jardim e o acalmava.

Apesar de toda a lealdade, Bolsonaro dava mostras constantes de que não confiava inteiramente em Bebianno. Certa vez, no apartamento de Brasília, perguntou ao advogado e a Julian Lemos se confiavam no presidente do PSL. Os dois, de pronto, responderam que sim. Bolsonaro retrucou: “Pois não deveriam. Confiar só se confia em Deus.”

Em abril de 2018, somando seguidores do Instagram, Facebook, Twitter e YouTube, Jair Bolsonaro falava com quase 8 milhões de usuários desses aplicativos, de acordo com um relatório da agência de Marcos Carvalho, que passara a monitorar as redes do presidenciável. Mas esse número não mostrava quem de fato estava sendo alcançado pelas publicações, compartilhadas a perder de vista. Era necessário decupar os dados.

Assim, a agência detectou que, naquele mês, 90% das menções a Bolsonaro nas redes vinham de homens. Isso apontava para a necessidade de, no mundo real, fazê-lo crescer entre o eleitorado feminino. Organizando as interações pela natureza do conteúdo – isto é, menções negativas, positivas ou neutras – e ao mesmo tempo por rede social, região e estado, foi possível visualizar os tipos de “sentimentos” que o candidato despertava e definir estratégias para cada grupo e universo digital.

Num ambiente eleitoral tão polarizado, as citações neutras eram vistas como vantajosas. Além disso, como ainda faltavam quatro meses até o início oficial da campanha, a agência queria apresentar aos eleitores, sobretudo aos neutros, um Bolsonaro diferente do conhecido pela maioria. Em pouco tempo, recorrendo a uma série de peças virtuais intitulada Desmitificando o Mito, acreditavam que o candidato se desvencilharia da impressão caricata que tinham dele. Na época, Carvalho negou à imprensa que sua empresa fazia segmentação de usuários ou ajuste de conteúdos.

Em julho daquele ano, marqueteiro e equipe lançaram as redes sociais do PSL. Àquela altura, Bolsonaro tinha ultrapassado a soma de 8,6 milhões de seguidores nas quatro redes sociais mais importantes, mas a agência acreditava que o conteúdo do candidato vinha sendo penalizado pelo algoritmo das plataformas. A página de Bolsonaro no Facebook, por exemplo, existia desde junho de 2013 e oferecera conteúdo irregular ao longo dos anos. Com 5,4 milhões de seguidores em julho de 2018, o marqueteiro não estava satisfeito com a “taxa de entrega” dos posts realizada pela plataforma. O frenesi em torno do candidato indicava que ele poderia ter muito mais engajamento. Era necessário higienizar as redes de Bolsonaro, oferecendo conteúdo mais regular e assertivo a seu público.

Bolsonaro não entendia bem as necessidades que Carvalho e sua equipe colocavam à mesa. Como um cadete entusiasmado, achava o máximo a ideia de que, apenas com um celular na mão, conseguia se comunicar com seus milhões de seguidores Brasil afora. O marqueteiro explicava ao presidenciável que não bastava “ter um grande número de apoiadores, um discurso na cabeça e fazer uma live”. Isso podia ser suficiente para eleger um deputado ou um senador, mas não um presidente da República.

Carvalho pretendia levar a base consistente de seguidores bolsonaristas para um novo ambiente, livre do vício dos algoritmos. A intenção era construir do zero as redes do PSL, entregando conteúdo que se adequasse às necessidades de cada tipo de eleitor: os simpatizantes de Bolsonaro; os neutros, propensos a pelo menos discutir algumas ideias bolsonaristas; e os opositores, que expressavam nas redes sentimentos negativos em relação ao candidato. Entre meados de agosto e o fim do primeiro turno, em outubro, o Facebook do PSL alcançou em média 45 milhões de pessoas por semana, de acordo com relatórios da plataforma.

Mas entregar conteúdo, pura e simplesmente, ainda não bastava. Na concepção da campanha, a palavra-chave era colaboração, e a equipe de Carvalho focou em desenvolver projetos que contassem com a participação ativa dos apoiadores. De abril a outubro de 2018, foram criadas doze plataformas. Uma das primeiras, a Mais que Voto, concentrou todas as doações para a campanha e automatizou a prestação de contas ao Tribunal Superior Eleitoral. Enquanto era deputado, Bolsonaro tinha votado contra o novo Fundo Especial de Financiamento de Campanha, apelidado de “fundão eleitoral”, durante a tramitação da reforma política aprovada pelo Congresso em 2017. Para se manter coerente, o candidato dispensou a verba de cerca de 3 milhões de reais a que tinha direito.

A Mais que Voto foi pensada para ir além da vaquinha virtual. Não bastasse a ferramenta embutida que enviava recibos automáticos à Justiça Eleitoral, economizando carga de trabalho à equipe da agência, a plataforma era integrada a outros serviços que chamavam os apoiadores para a campanha – por exemplo, um serviço de e-mail que enviava instruções a cada 48 horas, como se fosse um dever de casa bolsonarista. Carvalho partia do seguinte conceito: “No momento em que damos uma tarefa de participação ao apoiador, ele passa a ter outro tipo de comportamento frente ao projeto.” Ao final de seis meses, a plataforma arrecadou cerca de 3,5 milhões de reais de 25 mil doadores. A contribuição média foi de 140 reais por doador.

A equipe do marqueteiro explorava a disposição dos seguidores bolsonaristas para produzir conteúdo digital, identificada por Carvalho desde muito antes de assumir a campanha. A partir dessas colaborações, a equipe fazia um trabalho extenso de curadoria, não só do material gerado pelos apoiadores, mas também dos desejos intrínsecos ao conteúdo que produziam.

Outra plataforma, batizada de Marqueteiros do Jair, surgiu depois que a agência foi surpreendida com uma denúncia publicada pela Folha de S.Paulo às vésperas do segundo turno. A matéria contava como empresários, entre eles Luciano Hang, da Havan, compravam pacotes de mensagens disparadas em massa pelo WhatsApp. Se comprovada, a prática seria considerada ilegal, porque configuraria doação de campanha por empresas, proibida pelas leis eleitorais. O bolsonarismo reagiu nas redes: um movimento espontâneo dos apoiadores deu à luz a hashtag #EuSouMarqueteiroDoJair.

As publicações inscritas sob a hashtag debochavam da denúncia de impulsionamento. “Sou Marqueteiro do Bolsonaro e não cobro nada para fazer isso”, diziam os tuítes. Para o eleitorado, era óbvio que o candidato jamais precisaria recorrer a mensagens automáticas para falsear apoio. A equipe de Carvalho surfou na onda, transformando o movimento espontâneo em ação oficial da campanha do PSL. Na conta do partido, tuitou: “Os #MarketeirosDoJair não se cansam. São milhões, espalhados pelos quatro cantos do país, demonstrando a nossa força, provando que o Capitão não está sozinho e que juntos vamos mudar o futuro do Brasil. O nosso muito obrigado! Vocês são demais!”

Anos mais tarde, um ex-assessor de Bolsonaro, especialista em redes sociais e rompido com a família, diria:

A esquerda se ilude achando que os seguidores eram robôs. Não eram, pelo menos não naquela época. Os robôs até existiam, mas era para simular número de seguidores. O que muitos críticos dos Bolsonaro não entendiam é que robô não gera ativismo digital. O robô só manda a informação. O que gera ativismo é o compartilhamento e, para isso, é preciso que os seguidores interajam com as redes. E não se interage com robôs. Não adianta você ter 300 mil seguidores se não há interação. Se fosse assim, ganhava a eleição quem tivesse mais robôs. Por mais que seja difícil aceitar, a verdade é que eles tinham milhões de seguidores que os apoiavam apaixonadamente. Ele criou uma máquina de comunicação que não precisava de nada. Por que iria para debate? Não precisava. Criou a máquina dele. O “Sistema de Comunicação de Bolsonaro”, como eu chamo.

O que movimentava as redes bolsonaristas não eram só as curtidas e o compartilhamento. Aqueles seguidores significavam votos. “Não estavam lá só como audiência. Eles eram de fato um exército digital de eleitores”, continuou o ex-assessor. “Bolsonaro teve 57,8 milhões de votos. Se as redes atingiam 45 milhões de pessoas, isso significa que, nesse universo de eleitores, tinha a galera dele e mais os que acabaram votando nele sem serem seguidores.”

A rede bolsonarista teve tanta força que acabou elegendo em 2018 o desconhecido juiz Wilson Witzel para o governo do Rio de Janeiro. “Quem elegeu o Witzel foi o Flávio Bolsonaro, que concorria ao Senado e deixou Witzel colar nas redes dele”, disse o ex-assessor. Só nesse estado, com 17 milhões de habitantes, a rede alcançava 2 milhões de pessoas. “O Flávio colocou a rede para funcionar para o Witzel. Enquanto era só o Witzel, a mensagem chegava por meio de disparos de robôs, mas ninguém reagia, porque o que faz a mensagem ser compartilhada é o ativismo. Ele entrou na corrente sanguínea do Flávio quando começou a ser postado ao lado dele.”

Em 2018, os “robôs”, na verdade, eram chips, incinerados depois de serem usados. Por esse motivo, é quase impossível rastreá-los. Ex-assessores estimam que na campanha de Bolsonaro tenham usados pelo menos 200 mil deles.

Chip da Ucrânia, de não sei onde, de tudo que era país, porque com o chip eles conseguiam fazer chegar as informações a um número grande de pessoas. Mas isso importava pouco. Porque para fazer replicar as mensagens dele, para conquistar aqueles 45 milhões de pessoas, era necessária a força da ideia. E eles trabalhavam a ideia desde 2013, mas o pessoal não quer reconhecer isso. É burrice. “Ah, o Carlos Bolsonaro é burro.” Burro onde? Ele trabalhou desde 2013 com essa comunicação.

Bolsonaro ganhou as redes porque havia um campo fértil para as suas ideias. As pessoas acreditavam no que ele dizia.

Os esquemas e as estruturas tradicionais dos partidos políticos foram atropelados pelo domínio que os apoiadores de Bolsonaro mostraram ter das redes sociais. Entre maio e novembro de 2018, Bolsonaro fez quase 3 mil publicações nas suas diferentes redes. Com elas, atingiu 300 milhões de interações, que incluem cliques, curtidas, comentários e compartilhamentos. No mesmo período, o candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad, teve apenas 76 milhões de interações. A internet já tinha se estabelecido como espaço formador de opiniões, e a máquina bolsonarista conseguiu dar escala à onda anti-PT. Foi nesse ambiente que Bolsonaro encontrou os conservadores brasileiros e os reuniu em torno de ideias que, até pouco tempo antes, eram inconfessáveis. Para os especialistas em análise política das redes sociais, ficou claro que as forças tradicionais haviam menosprezado a internet e os desejos do eleitorado conservador.

Em 2018, Bolsonaro surfou sozinho a onda da internet. Os outros partidos ainda estavam preocupados com o tempo de televisão, demonstrando um total descolamento da realidade. O PSDB, por exemplo, fez uma coligação com oito partidos para garantir 12 minutos e 30 segundos de televisão, contra os 8 segundos de Bolsonaro. Em 6 de abril de 2018, dia em que renunciou ao cargo de governador de São Paulo para concorrer à Presidência da República, Geraldo Alckmin, enquanto encaixotava seus pertences no Palácio dos Bandeirantes, debruçou-se sobre um mapa do Brasil e apontou para um ponto ao acaso. Era a cidade de Cruzeiro do Sul, no Acre. Bateu repetidamente o dedo sobre o local e, como um guardador de relíquias, parado no passado, comentou: “Precisa ter alguém aqui que vai votar em você, distribuindo santinho.” Naquela época, Bolsonaro já tinha uma extensa rede de apoio na internet, inclusive no Acre, bem mais eficaz do que os ultrapassados panfleteiros. Alckmin teve na eleição presidencial apenas 5 milhões de votos, ou 4,8% do total.

A avaliação de Marcos Carvalho é que, fora do bolsonarismo, os candidatos até tentaram penetrar nas redes sociais, mas pensavam as ferramentas com uma mentalidade ultrapassada. Essa também foi a autocrítica feita por Bruno Monteiro, que nas eleições de 2018 cuidou das redes locais de Fernando Haddad na Bahia. Não só o PT, mas as esquerdas como um todo, não entenderam a tática de mobilização que fez o bolsonarismo prosperar na internet. “A minha avó foi impactada por essas coisas a partir de um grupo criado no posto de saúde em que ela era atendida. O grande erro da esquerda, além de não avaliar os riscos de Bolsonaro, foi ser ingênua. Porque focou a comunicação nos grupos de política”, disse Monteiro. “A galera bolsonarista não estava fazendo isso. Eles estavam fazendo campanha em grupos de academia, de escola, de igreja, de condomínio, de saúde. Foi por aí que a coisa se deu. Um negócio completamente fora do controle mesmo. Aí, quando a gente percebeu, já era tarde.”


Trecho adaptado do livro O Ovo da Serpente – Nova Direita e Bolsonarismo: Seus Bastidores, Personagens e a Chegada ao Poder, a ser lançado neste mês pela Companhia das Letras.


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Repórter da piauí, é autora de O Ovo da Serpente – Nova Direita e Bolsonarismo: Seus Bastidores, Personagens e a Chegada ao Poder (Companhia das Letras)