anais da história
Mário Magalhães piauí_239 06 Ago 2026
18 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
O comício oposicionista em Belo Horizonte começou às nove da noite de um sábado, 17 de março de 1945, no cruzamento da Avenida Amazonas com a Rua dos Tupinambás e a Rua Espírito Santo. Com a censura defunta e o Estado Novo extenuado, ressurgiam os protestos em praça pública contra a ditadura, proibidos desde 1937. Carlos Lacerda discursou “com o vigor já conhecido no Rio de Janeiro”, noticiou a sucursal mineira da Agência Meridional: “Referindo-se ao golpe de 1937, disse que ‘naquela ocasião o vencedor não foi o sr. Getúlio Vargas e nem o sr. Benedito Valadares [interventor de Minas Gerais] – foi Adolf Hitler.’” Apelou pela anistia aos presos políticos e reverenciou o mais célebre deles:
“Queremos entre o povo o filho e amigo do povo Luiz Carlos Prestes!” Nada de inusitado havia na evocação do Cavaleiro da Esperança por Lacerda. “Expulso” seis anos antes pelo Partido Comunista (PCB), ele não pronunciara desde então uma só sílaba crítica ao partido. Calou sobre o pacto Hitler-Stálin (1939); os comunistas trabalhando no pasquim nazista Meio-Dia (1939-40); e o assassinato de Elvira Cupello Colônio, a Garota, por quadros do PCB instados por Prestes – eles assacaram à noiva do então secretário-geral Miranda[1] a suspeita infundada de delação (1936).
Lacerda assinara recentemente a mensagem de parabéns ao poeta vermelho Pablo Neruda pela eleição ao Senado do Chile. Seus filhos Sérgio e Sebastião permaneciam sem o sacramento do batismo, como ocorria com a prole de camaradas. Em 1945, “Carlos continuava preso à ideologia comunista”, recordou Samuel Wainer. O Boletim Reservado da polícia política carioca de 2 de agosto de 1944 classificou-o como um dos “comunistas intelectuais que exercem profissões liberais”. Um colunista do Correio Paulistano citou em 1945 “o marxismo do sr. Carlos Lacerda”.
Esses e outros fatos semelhantes não o impediriam de, no porvir, tentar reescrever sua história. Lacerda mencionaria “a grande decepção da adolescência com o comunismo” – mas tinha 21 anos quando inflamava os palanques da Aliança Nacional Libertadora. “Não me dou com o Jorge [Amado] desde o tempo do pacto teuto-soviético”, fantasiou em carta a Gilberto Freyre – cinco anos após o tratado da Alemanha hitlerista com a União Soviética stalinista, Jorge Amado e Carlos Lacerda almoçavam fraternalmente em Salvador. Em 1947, Lacerda publicou no Correio da Manhã: “Fui convidado em 1945 para ingressar no Partido Comunista não uma, mas várias vezes, e por vários membros desse partido” – ninguém o desmentiu. Ele aludia ao primeiro quadrimestre daquele ano. Se hostilizasse o PCB, por que o convidariam?
Lacerda e os comunistas batalharam juntos em 1945 depois de a ditadura legar mais um cadáver. Duas semanas antes do comício em Belo Horizonte, um aluno da Faculdade de Direito do Recife, Demócrito de Souza Filho, saiu de casa vestido de branco rumo a um ato pró-democracia. Getúlio acabara de executar um troca-troca: o interventor de Pernambuco, Agamenon Magalhães, virou ministro da Justiça, e Etelvino Lins o substituiu. Na tarde de 3 de março, estudantes irromperam em bloco na Praça da Independência, tremulando a bandeira do Brasil e entoando o Hino Nacional. Demócrito subiu até uma varanda do prédio do Diário de Pernambuco, onde se debruçou para ver Gilberto Freyre, noutra sacada, arengar à multidão. Mal o sociólogo ergueu a voz, tropas do governo estadual abriram fogo em várias direções. Mataram Demócrito, de 23 anos, com uma bala na testa.
A morte no Nordeste foi o estopim da retomada dos logradouros cariocas como espaço de contestação à ditadura. Nos anos recentes, as ruas do Rio de Janeiro tinham sido varridas por demonstrações massivas contra o nazifascismo e de apoio à entrada do Brasil na guerra. Mas no fim da tarde de 7 de março as escadarias do Theatro Municipal serviram de palco ao “primeiro meeting político realizado nesta capital” em muito tempo, no relato de O Jornal. A União Nacional dos Estudantes o convocou. A chuva castigou, um enxame de guarda-chuvas cobriu a Cinelândia, e ninguém arredou pé. A aglomeração não somava “mais de 10 mil” pessoas, contradizendo o chute da imprensa, mas havia muita gente.
O público exultou quando anunciaram Lacerda. Em letra de fôrma, ele denunciava o crime do Recife. Avacalhava Agamenon Magalhães como “Sinistro da Justiça” e Etelvino Lins como “Extermínio Lins”. O tribuno abriu com uma sentença de sonoro positivismo, para condenar o ditador positivista:
“A ordem é o povo. A desordem é Getúlio.”
Lacerda disparou “como verdadeira rajada de metralhadora, estigmatizando a ditadura”, ilustrou um repórter:
“Acuso Getúlio Vargas e Agamenon Magalhães pela morte fria e premeditada de Demócrito de Souza Filho!”
Na conclusão, cultuou o estudante caído e pregou a deposição do ditador:
“Há uma estrela que brilha no céu. [...] Esta estrela marcha para derrubar Getúlio Vargas!”
Lacerda viajou para Pernambuco, onde participou em 4 de abril de um protesto na Praça Treze de Maio, em frente à Faculdade de Direito do Recife. Como na breve existência da Aliança Nacional Libertadora (ANL) em 1935,[2] seu nome ganhava projeção nacional. Um jornal informou que “o maior sucesso do grande comício foi obtido pelo jornalista Carlos Lacerda, constantemente aclamado pela massa popular, e cuja presença na tribuna foi reclamada com grande insistência”. Ele voltou para o Rio a tempo de mergulhar na Semana Nacional Pró- Anistia, de 8 a 15 de abril.
Para animá-la, dias antes os periódicos Correio da Manhã, Diário Carioca e O Jornal publicaram o Poema de março de 45, de Carlos Drummond de Andrade:
Mal foi amanhecendo no subúrbio,
As paredes gritaram: anistia.[...]
Anistia nos becos, nos quartéis,
nas mesas burocráticas, nos fornos,
na luz, na solidão: só anistia.
João Cabral de Melo Neto, amigo de Drummond, não conteve a boutade: “Onde está ‘anistia’, ficaria bem ‘melhoral’ ou ‘aspirina’.”
Em escadarias, calçadas, muros, púlpitos e banquinhos, Lacerda perorou como representante da recémcriada União dos Trabalhadores Intelectuais e da “mocidade”, embora beirasse os 31 anos. No palanque montado no Largo da Carioca, no encerramento da campanha, estenderam uma faixa enorme com a inscrição “Anistia”. O jornalista Alceu Marinho Rego falou pela Sociedade Amigos da América. Maria Barata, “pela mulher brasileira” – seu marido, o capitão comunista Agildo Barata, penava na cadeia desde 1935. A menina Kolontai Semola recitou um poema em homenagem a Prestes.
Naquele fim de tarde de 14 de abril de 1945, sob a chuva de papel picado jogado dos edifícios, Lacerda incensou pela última vez o ídolo de sua devoção juvenil. O Correio da Manhã narrou:
O sr. Carlos Lacerda disse que a ditadura brasileira, ao reduzir o Brasil a um campo de concentração, deixou dentro dele o grande líder Luiz Carlos Prestes. Para transformar esse campo de concentração em pátria livre, é preciso tirar Prestes da solitária, porque o povo tem necessidade da palavra desse líder para orientá-lo na campanha eleitoral.
No dia seguinte, Drummond visitou Prestes na Casa de Detenção e ouviu-o divergir de Lacerda, de cuja “expulsão” não tomara parte. O poeta resumiu em seu diário: o dirigente comunista “confia na união das esquerdas e não faz críticas a qualquer corrente. Limita-se a verberar atitudes pessoais golpistas, como, a seu ver, a de Carlos Lacerda, em artigos de jornal e num comício do Catumbi”.
A candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes à Presidência nasceu antes da União Democrática Nacional. Não foi a UDN que escolheu seu postulante; formaram-na para ser a plataforma legal do candidato preexistente. Um partido para um candidato, e não o oposto. Mas nem a palavra “partido” tinha em seu nome, com P na sigla, em contraste com as demais agremiações paridas em 1945 no ocaso da ditadura. Brotou como um “movimento de opinião”, diria Carlos Lacerda, ou apenas “movimento”, para seu primeiro presidente, Otávio Mangabeira. “Um estado de espírito”, interpretou o secretário-geral, Virgílio de Mello Franco. Era um “saco de gatos”, na franqueza de Lacerda, ou uma “colcha de retalhos”, na de Juracy Magalhães.
A oposição desfraldou cedo o estandarte do “Brigadeiro”, como chamavam Eduardo Gomes, com o posto convertido em nome próprio. Getúlio baixou em 28 de maio o decreto-lei fixando 2 de dezembro como data da eleição para a Presidência e o Legislativo. As regras autorizavam sua permanência no governo durante a campanha e não o impossibilitavam de concorrer. Nas hostes da ditadura, o interventor Benedito Valadares lançou em março o ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, cujo credo no Terceiro Reich se transmutava em fervor pelos Estados Unidos.
O general Dutra tinha como trunfo a imagem associada à Força Expedicionária Brasileira (FEB), mas era um aspirante pesado. Não pela proverbial feiura ou pela deficiência que o fazia trocar o “s” e o “c” pelo “x”, falando “xacode” e “xapataria”. Exibia carisma anêmico e “incapaxidade” de enunciar ideias. Na aparência, com pinta de galã de Hollywood, o rival da Força Aérea Brasileira (FAB) era o seu antípoda. Consagrou-se o slogan “Vote no Brigadeiro, que é bonito e é solteiro” – pela primeira vez as mulheres votariam para presidente. Mas, como o adversário do Exército, ele só se sentia à vontade entre os seus, instruindo a ordem-unida. Era um “homem retraído e taciturno”, perfilou Paulo Pinheiro Chagas em O brigadeiro da libertação, livro de 1945 a favor do protagonista, e não contra ele. “Não é um orador, não é um homem capaz de ter um contato humano”, afirmaria Lacerda.
Ao contrário de Dutra, condecorado por Hitler, o Brigadeiro atravessara a meia-noite do século sem ceder ao nazifascismo. Não se deu a licenciosidades com o Estado Novo, ocupando-se com afazeres funcionais – só se exonerou da Diretoria de Rotas Aéreas em 1o de abril. Carregava nos ombros as insígnias de major-brigadeiro, o general de três estrelas da Aeronáutica. Provara sua bravura em 1922, jorrando sangue na Praia de Copacabana, e em 1935, ferido pelos comunistas no Campo dos Afonsos.
Bom piloto de caça, parecia mesmo herói de filme. Mas era um barbeiro ao volante de automóvel. Não bebia, não fumava e não dançava. Aos 49 anos, com o cabelo embranquecido nas têmporas, acordava cedo para praticar ginástica sueca. Morava com a mãe e a irmã. Noivas? Namoradas? Flertes? Ninguém nunca ouvira falar.
Mas falavam outras coisas. Para uns, não conhecera os prazeres da carne, aos quais Prestes, contemporâneo de Escola Militar, tinha sido apresentado aos 37 anos. Para outros, conhecera, com homens. Havia quem supusesse que, conhecendo-os, teria limitações adquiridas no campo de batalha. Em 1922, sofrera fratura exposta no fêmur esquerdo, e o submeteram a duas cirurgias. O Jornal do Commercio noticiou que restavam “poucas esperanças de salvá-lo”. O tenente rebelde se safou, mas jamais se soube se pagou algum preço. Apesar de ele não apresentar sequelas, futriqueiros galhofavam: o doce de chocolate e leite condensado servido por senhoras simpatizantes do garboso militar fora batizado de “brigadeiro” porque sua receita, como o inspirador, carecia de ovos. Ao menos em casa, Lacerda não comentava essas intimidades.
A UDN seria eternamente lembrada como “o partido do Brigadeiro”. Muitos anos depois, ecoaria como ruído insólito Virgílio de Mello Franco idealizando-a como “de centro inclinada para a esquerda”. O programa udenista no nascedouro prescreveu “direito de greve”, “igualdade de oportunidades e salários entre os trabalhadores de um e outro sexo”, “abolição de preconceitos raciais, a começar pelos serviços do Estado” e “gratuidade do ensino público de todas as modalidades”.
Em vez de privatizações, propôs um “plano de nacionalização e socialização dos serviços públicos e sociais que, por sua natureza, e a exemplo do que ocorre em outros países, devem ser dirigidos diretamente pelo Estado”. Pretendeu atenuar a concentração da posse rural: “Para o aproveitamento das terras cultiváveis e não cultivadas deve o Estado: promover a extinção dos latifúndios desde a adoção do imposto progressivo sobre os mesmos quando situados em torno das cidades e servidos por transportes, até a desapropriação, com indenização, visando ao desenvolvimento da pequena propriedade.”
Não era a receita de uma revolução agrária, nem a agenda sincera do conjunto partidário – em 1946, Lacerda vociferou contra “o reacionarismo empedernido de vários setores da UDN”. Mas se fincava à esquerda do Partido Social Democrático (PSD), uma das duas agremiações fomentadas pelo ditador em 1945. O PSD agrupou os interventores estaduais e foi a sigla adotada pela maioria dos latifundiários, a quem sobravam motivos: Getúlio não efetuara reforma agrária nem num campinho de futebol. Ele era o presidente de honra do PSD. O Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), cuja formação também incentivara, nomeara-o presidente honorário. A máquina do Ministério do Trabalho gerou o PTB. Getúlio concebeu-o como um dique para evitar que, com o colapso da barragem da ditadura, os trabalhadores desaguassem no PCB.
Na contramão, a UDN “foi o escoadouro de todos os descontentamentos contra Vargas”, disse Juracy Magalhães. Juntaram-se velhos tenentistas, como ele e Juarez Távora. “Carcomidos” da Primeira República, feito o ex-presidente Artur Bernardes, que botara Maurício de Lacerda[3] na cadeia, o próprio Tribuno do Povo, com outros socialistas. Getulistas de ontem, a exemplo de Oswaldo Aranha, e anteontem, como Flores da Cunha, interventor gaúcho cuja polícia enlouquecera Paulo de Lacerda[4] na tortura. Liberais conservadores ou sensíveis às mazelas sociais, herdeiros do Manifesto dos Mineiros[5] – os oradores mais estridentes entre eles receberiam a pecha de “bacharéis da UDN”. Antagonistas de 1937, a eleição gorada: o escritor José Américo de Almeida e o ex-governador paulista Armando de Salles Oliveira, morto ao regressar do exílio. A Esquerda Democrática, embrião do Partido Socialista Brasileiro (PSB), que na tradição marxista lutava “pela socialização dos meios de produção” – os udenistas endinheirados não a levavam a sério. Lacerda não foi um dos fundadores da UDN, mas abraçou a candidatura do Brigadeiro desde a primeira hora.
Assim fizeram numerosos comunistas, como Astrojildo Pereira. O artista plástico Tito Batini, socialista, diria que foi Caio Prado Júnior quem sugeriu o nome UDN, entendida como frente, não partido. O jornalista Moacir Werneck de Castro assinou o manifesto dos jornalistas a favor do Brigadeiro. Nessa linha estavam veteranos do levante de 1935, como o tenente Silo Meireles e o capitão José Leite Brasil.
Os ventos mudaram de direção na noite de 18 de abril de 1945, quando Prestes deixou a prisão, horas após Getúlio assinar o decreto da anistia. Finalmente “o povo” ouviria a “palavra desse líder para orientá-lo na campanha eleitoral”, como discursara Lacerda quatro dias antes. Ele esperava que o recém-libertado aderisse à coalizão ao redor do Brigadeiro para derrotar a ditadura.
Mas “é claro que o partido apoiou Getúlio”, recordaria Luiz Carlos Prestes.
Mais de uma vez o advogado Dario de Almeida Magalhães disse a Lacerda que faltava astúcia política ao amigo seis anos mais moço. Fora ingenuidade esperar de Prestes decisão diferente. Desde 1937, o PCB poupava Getúlio, descarregando a artilharia no flanco mais à direita do governo. Para se reconciliar com os comunistas, o próprio Lacerda aconselhara “patriótica união” em 1942. O comando do partido, esfacelado pela repressão, foi reconstituído em 1943 na Conferência da Mantiqueira.[6] Sancionou a “união nacional na guerra e na paz”, com respaldo ao ditador. Muitos militantes não reconheceram o novo Comitê Central, conservaram-se nas casamatas oposicionistas e aguardaram a lanterna de Prestes para iluminar seus caminhos.
Ela já luzia na cadeia. Prestes se congratulou com Getúlio em 3 de abril pelo estabelecimento de relações com a União Soviética, mas o gesto não deu muitas pistas, pois no dia 7 a assembleia inaugural da UDN tomou idêntica iniciativa. Definidora foi sua instrução a Astrojildo Pereira, fundador do PCB que retornava ao partido catorze anos depois de ser expulso. O escritor pregara em março: “A luta é entre o fascismo, representado por Getúlio, e a democracia, representada por Eduardo Gomes. Estou com a democracia.” Assim que visitou o camarada no xadrez, Astrojildo Pereira retirou seu nome do abaixo-assinado de intelectuais pró-Brigadeiro. Passados oito dias de sua libertação, Prestes deu a primeira entrevista, e as ilusões de Lacerda ruíram.
Só dali a semanas o secretário-geral do PCB teria certeza da morte de Olga Benario num campo de extermínio, mas ele não ignorava o provável destino de sua mulher. O fato de Getúlio ter presenteado os nazistas com ela não influenciou os passos do viúvo em 1945. Ao felicitar o ditador pela anistia, conquistada graças a mobilizações que vararam anos, Prestes afirmou na coletiva: “O sr. Getúlio Vargas tem estado ao lado do povo nos momentos decisivos.” O entrevistado igualou os candidatos da ditadura e da oposição: “Nunca houve duas candidaturas tão parecidas.” Antecipou: “Se pudessem influir no pleito, os comunistas tratariam de defender a candidatura de um civil, de um homem que conhecesse os problemas brasileiros, com capacidade de administrador, um técnico, um engenheiro.”
“Tremenda decepção”, “o desalento é geral”, registrou em seu diário o comunista Caio Prado Júnior. O poeta Carlos Drummond de Andrade, que aceitara o convite para ser um dos cinco membros da direção do jornal carioca Tribuna Popular, do PCB, observou: “Eneida [de Moraes], ativista corajosa que suportou cadeia e maus-tratos da polícia, vive afastada da direção comunista, porque, como outros companheiros, achava inadmissível moralmente a aproximação com Getúlio.”
Foi cálculo político, e não simpatia, o que levou o PCB a se curvar a Getúlio. Stálin liquidara o Komintern em 1943, mas a orientação de Moscou ainda prevalecia no comportamento dos partidos comunistas do mundo inteiro. Devastada pela guerra em que era a força determinante contra o Eixo, a União Soviética arrefeceu o combate dos comunistas contra governos aos quais se aliara. No contexto local, o PCB receava que a queda de Getúlio desencadeasse novo furor repressivo contra o partido.
Lacerda reagiu em maio com o artigo O fim e os meios, no Correio da Manhã:
É preciso ser contra a ditadura e o ditador, quaisquer que sejam as concessões que este faça à democracia triunfante. Pois só assim o povo compreenderá que existe uma coisa chamada fascismo com a qual é irreconciliável tudo o que se pode chamar progresso e civilização.
Uma década depois de pegar em armas, o PCB, enfim legalizado, perfilhou o lema positivista e sedante “Ordem e tranquilidade”. Endossou o queremismo – de “queremos Getúlio” –, movimento favorável à eleição de uma Constituinte preservando o ditador no poder. De fagulha, o partido virou bombeiro. Prestes, no Recife, esconjurou a luta social: “É preferível, companheiros, apertar a barriga, passar fome, do que fazer greve e criar agitações, porque agitações e desordens na etapa histórica que estamos atravessando só interessam ao fascismo.”
Foram essas as circunstâncias em que Carlos Lacerda, de fato, rompeu com os comunistas. Ele devotara a vida a confrontar Getúlio Vargas e o nazifascismo. Pela primeira vez, votaria para presidente. Seu adeus saiu no Correio da Manhã de 27 de maio de 1945, no artigo A mão estendida e a liquidação moral. Queixou-se da “entrega de uma vitória que é de todos os antifascistas nas mãos do oportunismo getuliano”. Reprochou Prestes por transformar “a ditadura em fascismo bonzinho”. Buliu no episódio traumático: “O crime da entrega de Olga Benario Prestes à Gestapo não pode ser perdoado por Prestes porque ele não tem poder para perdoá-lo.” E sentenciou: “A ordem democrática não é a paz com a ditadura.”
Quanto mais o PCB preservava o ditador, mais Lacerda gastava munição. Ele escreveu em junho:
O que me afasta da ortodoxia comunista, tal como ainda se apresenta, é precisamente essa absurda submissão a modelos internacionais feitos como os costumes de meia-confecção, prontos a servir, com alguns ligeiros retoques, a todos os países do mundo.
Apontou o que julgava contradição:
Não se pode combater contra o nazismo na Alemanha nem celebrar a vitória da democracia no exterior tolerando que, dentro do país, uma ditadura pretenda sobreviver por meio de concessões e escamoteações sucessivas, com um ditador mergulhado em sono cataléptico à espera da ressurreição na sua própria pessoa ou, se não houver outro jeito, na do seu sucessor. [...] O Partido Comunista [...] ameaça converter-se [...] num apêndice amalucado da ditadura, uma espécie de enfant gâté ao qual se permitem certas liberdades contanto que não atrapalhe as tropelias do papai.
Em julho, perguntou:
Que diferença faz ser preso por um delegado do Estado Novo ou da união nacional com o getulismo? Talvez seja até o mesmo delegado. [...] Os comunistas jamais conseguirão funcionar como banco de sangue da ditadura, injetando-lhe nas veias esclerosadas o plasma doado precisamente pelas vítimas da ditadura.
Cúmplice desde guri das aventuras do primo, confidente das primeiras paixões, colega de faculdade e companheiro de redações, cavalgadas, comícios, boemia e prisão, Moacir Werneck de Castro certo dia recusou o cumprimento a Carlos Lacerda, que lhe dedicara em 1935 o livro O Quilombo de Manuel Congo. Disciplinado militante comunista – não à toa abandonara a candidatura do Brigadeiro –, Werneck de Castro cumpriu exemplarmente o dever estipulado no artigo 13 do novo estatuto do PCB: “Nenhum membro do partido pode manter relações pessoais, familiares ou políticas com trotskistas ou com outros inimigos reconhecidos do partido, da classe operária e do povo.”
Lacerda agora era isto: um inimigo do povo.
Desde 1939 as acusações de traição que embasaram sua “expulsão” tinham hibernado. Seria embaraçoso para o PCB justificar a ação comum com o herege, como na campanha pelo envio da FEB para a guerra e no congresso dos escritores. Elas foram despertadas quando o apoio ao ditador foi repelido pelo porta-voz de Prestes nos comícios da finada ANL. Em agosto de 1945, Lacerda escreveu com ironia sobre si, empregando a terceira pessoa:
Por culpa desse bandido [Lacerda], haviam sido presos e trucidados pela polícia antiga cinco marítimos. Depois já não eram cinco, eram noventa [sic]. [...] Posta em circulação, a calúnia fez uma carreira relativamente feliz, e tanto mais feliz quanto mais clandestina. [...] Ah!, o artigo 13 vale bem uma infâmia...
“Todos os meus velhos amigos, intimidados, se afastaram”, ele percebera em maio. Em julho, analisou: a ordem do PCB “representa uma anacrônica ressurreição da intolerância”. Lacerda mantinha a leitura marxista basilar: “Existe uma divisão que vem de longe; esta é a divisão em classes, em torno da qual se desenvolve a luta social.” Desonrado, padecia:
O amigo tímido que parecia o sobrinho de todo mundo desapareceu; e uma noite reapareceu para negar-lhe o cumprimento num restaurante. [...] Então começaram a circular rumores sobre a sua [de Lacerda] conduta passada. Como insistisse em dizer a verdade, foi preciso poluir o seu nome, para evitar que ouvissem a sua advertência. Toda infâmia é lícita quando se trata de destruir um argumento perigoso, eis o princípio que os novos inquisidores aplicaram furiosamente.
“Muitos amigos deixaram de falar comigo por causa disso”, o artigo 13, contou Rubem Braga, pioneiro do Partido Socialista Brasileiro. Darcy Ribeiro, militante do PCB, desviou de um encontro ao ver que a pessoa com quem marcara conversava com Paulo Emílio Sales Gomes – Darcy o tinha na conta de trotskista. “O artigo 13 do estatuto do Partido Comunista proibia qualquer convivência com os troskos”, rememorou o antropólogo.
Poucos dias antes de se despedir da vida, Lacerda ainda se lembraria daquela época de tormento e desencanto: “Essa fase foi particularmente dolorosa, porque você se sente assim leproso, um réprobo.”
Capítulo do livro Lacerda: Coração de tempestade – Vol. 1 (1914-1955), a ser lançado neste mês pela Companhia das Letras.
[1] Miranda era o codinome do jornalista e professor baiano Antônio Maciel Bonfim (1905-47), secretário-geral do PCB entre 1934 e 1936. (Todas as notas são da Redação.)
[2] A Aliança Nacional Libertadora (ANL) foi uma frente de oposição ao governo de Getúlio Vargas (1930-45), liderada por Luiz Carlos Prestes, reunindo socialistas, comunistas e outros grupos políticos. Foi criada em 1935 e proibida no mesmo ano por Getúlio.
[3] Maurício Paiva de Lacerda (1888-1959), pai de Carlos Lacerda, foi deputado federal pelo Rio de Janeiro e prefeito de Vassouras, no interior fluminense.
[4] Paulo Paiva de Lacerda (1893-1967), um dos principais dirigentes do PCB na época, era tio de Carlos Lacerda.
[5] O Manifesto dos Mineiros, publicado em 24 de outubro de 1943, foi um protesto de políticos, empresários e outras personalidades de Minas Gerais contra o Estado Novo e em favor da redemocratização do Brasil.
[6] A Conferência da Mantiqueira, realizada em agosto de 1943, em Engenheiro Passos, distrito do município fluminense de Resende, foi um encontro secreto que recompôs o PCB, depois da repressão desencadeada no Estado Novo.