anais da história

OS INVESTIGADORES DE NAVIOS NEGREIROS

Como arqueólogos brasileiros estão encontrando provas do crime da escravidão no fundo do mar
O cinegrafista Yuri Sanada fotografa os restos do Camargo: para fazer as imagens, ele pôs a câmera num saco plástico transparente com água doce, o que dispersou a lama sobre a superfície dos despojos do navio, permitindo registrá-los - CRÉDITO: YURI SANADA_2024
O cinegrafista Yuri Sanada fotografa os restos do Camargo: para fazer as imagens, ele pôs a câmera num saco plástico transparente com água doce, o que dispersou a lama sobre a superfície dos despojos do navio, permitindo registrá-los - CRÉDITO: YURI SANADA_2024

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No primeiro dia da expedição, os mergulhadores localizaram no fundo do mar, a pouca distância da Costa de Salvador, na Bahia, dois canhões despedaçados, alguns destroços de madeira e fragmentos de uma louçaria chinesa. Eram restos do navio Nossa Senhora do Rosário e Santo André, guardados no leito marinho desde 1737, quando a embarcação foi a pique. “Esses despojos são a prova de um crime que não prescreveu”, disse o arqueólogo sergipano Luis Felipe Freire Dantas Santos. A piauí acompanhou a expedição.

O crime é a escravidão. O Nossa Senhora do Rosário e Santo André era um galeão português usado na chamada Carreira da Índia, a rota de mercadorias entre Portugal e o Oriente. Na volta para Lisboa, o navio aportou em Salvador. Antes que pudesse continuar viagem, foi destruído por um incêndio talvez acidental, bem perto da Praia de Boa Viagem. Oficialmente, o galeão transportava apenas as mercadorias orientais, mas Santos reuniu elementos para afirmar que ele também servia ao tráfico de africanos para o Brasil.

Arqueólogos dedicados à pesquisa de sítios em ambientes aquáticos são raridade no Brasil. Mais raros ainda são aqueles que investigam embarcações escravagistas no fundo das águas. Santos, de 36 anos, é um desses poucos pesquisadores. Professor-assistente de arqueologia na Universidade Federal da Bahia (UFBA), ele também preside o Instituto AfrOrigens, uma entidade criada em 2023 para fazer pesquisas arqueológicas sobre o tráfico negreiro. Foi naquele mesmo ano que o arqueólogo iniciou os trabalhos sobre o Santo André – como é mais conhecido o galeão – e encontrou as primeiras provas do crime: entre os despojos no fundo do oceano, havia dezenas de cauris, ou búzios.

Os cauris são pequenas conchas de moluscos do gênero Cypraea. Devido à sua raridade na África Ocidental, eles foram usados no século xviii como moeda, servindo inclusive para a compra de homens, mulheres e crianças. Dentre os cauris, os mais valorizados eram os do gênero Cypraea moneta, encontrados sobretudo nas Maldivas, no Oceano Índico. Em meados do século xvii, na região do Benim, uma pessoa escravizada podia custar cerca de 40 mil cauris, de acordo com o historiador Robin Law, em The slave coast of West Africa 1550-1750 (A costa escravagista da África Ocidental 1550-1750).

Em 22 de janeiro deste ano, Santos voltou ao litoral de Salvador para novas pesquisas sobre o galeão. Estava acompanhado de três outros arqueólogos subaquáticos – dois brasileiros e um canadense – e um instrutor de mergulho e cinegrafista. A piauí acompanhou em Salvador o trabalho em terra e mar feito pelos especialistas, que orientavam uma turma de vinte estudantes de história e arqueologia, entre outros interessados em arqueologia subaquática e memória afrodiaspórica. Para Santos, trata-se de uma iniciativa que visa transformar a arqueologia em “ferramenta revolucionária”, criando uma geração de arqueólogos capacitados a reinterpretar discursos históricos oficiais.

Antes do mergulho, os alunos – com idades na faixa dos 20 aos 30 anos, a maior parte composta por mulheres negras – fizeram um curso de cerca de duas semanas oferecido pelo AfrOrigens na UFBA. Nas aulas foram ensinadas técnicas de medição de materiais encontrados no fundo do mar, o uso das ferramentas necessárias para a atividade e noções de arquitetura e cultura navais. Aqueles que já tinham experiência em mergulho poderiam visitar nos dias seguintes a área mais profunda onde foram localizados os despojos do Santo André, a 4 metros de profundidade. Os outros passariam por treinos para só dali a uma semana alcançar o navio naufragado.

Antes de vestir sua roupa de mergulho, no primeiro dia das pesquisas no mar, a arqueóloga Luciana Bozzo Alves, de 54 anos, doutora pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora de projetos arqueológicos do AfrOrigens, colocou uma guia de umbanda para empenhar-se na missão. Em seu antebraço, estava tatuado Patacori Ogum, saudação ao deus guerreiro africano. Um dos alunos, o babalorixá e quilombola Emerson Mec (Emerson Luiz Ramos), de 28 anos, colocou um fio de contas de Iemanjá no pescoço antes de mergulhar. Outros alunos portavam colares feitos com búzios – como aquelas conchas que há duzentos anos serviram de moeda na África. Todos os participantes da empreitada, cada um à sua maneira, fizeram questão de empunhar algo da memória afrodiaspórica antes de mergulharem nas águas da Baía de Todos-os-Santos.

Ao retornarem do mergulho, os pesquisadores comentaram a maneira como os restos da embarcação estavam dispostos entre uma grande fenda de rochas encrustadas de corais. Também redesenharam os rascunhos que haviam feito no fundo do mar com uma espécie de minilousa e lápis, próprios para uso subaquático. É tudo muito minucioso, com o intuito de não intervir na “cena do crime”, eles me explicam.

As pesquisas arqueológicas do AfrOrigens estão sendo realizadas com o apoio do Slave Wrecks Project (SWP), um braço do Instituto Smithsonian criado em 2008, que desembolsou 100 mil reais para a empreitada brasileira. O SWP, que também tem a participação da Universidade George Washington, é um projeto de abrangência mundial. Seus participantes já encontraram embarcações escravagistas naufragadas nos Estados Unidos, na África do Sul e em Moçambique.

O galeão Nossa Senhora do Rosário e Santo André, que afundou na Costa de Salvador, era um navio de propulsão a vela que transportava cargas valiosas do Oriente, como especiarias, chás, marfim e porcelanas. Pesquisas recentes desenvolvidas pelo AfrOrigens mostram que a embarcação, apesar de, oficialmente, só poder transportar esses produtos orientais, transportava também escravizados como “bens pessoais” da tripulação. “A questão é que o comandante podia trazer duas pessoas e ele trazia quinze”, explica Santos.

Quando o Santo André pegou fogo na Baía de Todos-os-Santos, em 10 de maio de 1737, foram resgatadas do incêndio 134 pessoas escravizadas, e não apenas africanos. Havia também indianos. Por isso, Gilson Rambelli, de 61 anos, professor de arqueologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e coordenador científico do AfrOrigens, defende que, na prática, não havia distinção entre navios escravagistas e outras embarcações, como as comerciais. Para o arqueólogo, a história da navegação por quase quatrocentos anos esteve relacionada ao transporte de pessoas escravizadas. E uma forma de provar isso é investigando os naufrágios de navios da época colonial na costa do país. “O Brasil não conhece o Brasil debaixo d’água”, diz ele. Até hoje, por exemplo, não se sabe o número certo de embarcações escravagistas naufragadas no litoral brasileiro.

No Brasil, os arqueólogos subaquáticos fizeram uma descoberta de grande impacto em 2023: encontraram no fundo do mar de Angra dos Reis, no litoral fluminense, os despojos do Camargo, o último navio a traficar africanos para o Brasil. Como o tráfico negreiro já estava proibido, o Camargo era uma embarcação fora da lei, mas que tinha por trás dois dos homens mais ricos do país, agindo contra os ditames da Justiça.

Em 7 de dezembro daquele ano, depois de várias tentativas no mar de Angra, a equipe do AfrOrigens já se preparava para retornar à terra firme quando cruzou com dois pescadores em uma canoa. Um deles, cujo apelido era Luís Tenente, contou que sabia onde estava o Camargo. “Se vocês me pagarem uma cerveja, levo todo mundo até lá”, disse. Ele conhecia bem o local: nos anos 1960 e 1970, seu pai conduzira caçadores de tesouro de navios afundados até a Ponta do Cunhambebe, um promontório na região do mesmo nome. 

Os pesquisadores seguiram a pista, sem muita esperança. A visibilidade era nula no local. Lançaram-se ao mar e desapareceram na névoa produzida pela lama. Até que um deles afundou a mão no lodo e tocou um pedaço de madeira carbonizada. Era o navio.

O Camargo era um brigue, nave de dois mastros e velas quadradas, muito ligeira, apropriada para manobras rápidas. Seu capitão era o americano Nathaniel Gordon (1826-62), um traficante de negros, conhecido de ponta a ponta nas Américas. Ele planejou com minúcia a chegada da embarcação ao Brasil. Antes de alcançar o destino, Gordon fez uma parada em Ilha Grande, também no litoral fluminense, para verificar se havia algum patrulhamento da Marinha brasileira. Depois, como o navio poderia atolar caso se aproximasse muito da terra em Angra dos Reis, ele parou a razoável distância.

Não se sabe o dia exato nem a hora em que o Camargo afundou. Estima-se que foi em uma noite de dezembro de 1852. As autoridades tiveram notícia de que uma embarcação que passara pelo Porto de Quelimane, em Moçambique, atracara na região da Fazenda Santa Rita do Bracuhy, em Angra dos Reis, carregada de negros, e que depois foi incendiada para não deixar rastros do comércio ilegal que estava fazendo.

O naufrágio do Camargo leva a um mergulho fundo em questões cruciais da formação brasileira, como a escravidão, a economia extrativista, a condição subalterna e dependente do país, e a arrogância das elites locais, que pretendem se colocar acima da lei. Mas essa está longe de ser a única descoberta dos arqueólogos do AfrOrigens, como mostra uma reportagem da piauí


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