anais da história

OS OITO ESQUECIDOS

Em 1824, um motim de imigrantes alemães rumo ao Brasil expôs os limites da liberdade
DIário de bordo do Germania - Arquivo pessoal
DIário de bordo do Germania - Arquivo pessoal

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A morte pode ocorrer de repente, encerrar uma espera interminável, ser reverenciada pela memória ou dissolver-se no esquecimento. Sobre o 4 de julho de 1824, uma conspiração de silêncio se impôs. Na noite daquele domingo, o veleiro Germania avançava com dificuldade pelo Atlântico, enfrentando uma terrível tempestade. O vento chicoteava as velas, os mastros envergavam, o casco da embarcação gemia, atingido pelas ondas fortes. A tripulação, aflita, corria de um lado para o outro, tentando manter o controle do navio. O que muitos não sabiam (ou fingiam não saber) era que havia outra tormenta à vista, além da atmosférica. Aproveitando o caos na embarcação, oito homens planejavam fazer algo que vinham cogitando desde os primeiros dias da viagem: um motim.

O Germania, comandado por Hans Voss, partira em maio do Porto de Hamburgo, um dos mais importantes do Norte da Europa. Depois, passara semanas retido em Glückstadt, justamente por causa do mau tempo. Só zarpou rumo ao Brasil em junho. Levava mais de quatrocentas pessoas. Destas, 124 provinham de famílias pobres (artesãos e colonos, com seus filhos), e quase trezentos eram homens provenientes dos territórios alemães e que se tornariam soldados no Brasil. À época, a Alemanha ainda não tinha os contornos nacionais de hoje: era um mosaico político de cidades-Estados, grão-ducados, ducados e reinos.

A maioria dos viajantes (tanto civis quanto militares) havia sido aliciada por Georg Anton von Schaeffer, um oportunista agente diplomático a serviço do Brasil. Médico e aventureiro bávaro, nem sempre movido por intenções nobres, ele prometera àquelas pessoas terras e prosperidade no outro lado do Atlântico. O veleiro também transportava 24 indivíduos oriundos de prisões e casas de correção nos territórios alemães. Para se livrar das penas que lhes haviam sido impostas e com a promessa de nunca mais voltar, eles haviam aceitado embarcar rumo ao Brasil. Nenhum deles conhecia o seu destino: as colônias agrícolas-militares a serem fundadas no Sul do novo império, recém-independente, onde deveriam cultivar a terra e, se preciso, empunhar armas em nome de dom Pedro I. Grosso modo, o Germania era um exemplo do objetivo da missão diplomática brasileira: recrutar soldados na Europa, parte deles provenientes de prisões e casas de correção, levando a reboque colonos que seriam destinados ao trabalho na agricultura.

Foi naquela noite de tempestade que um grupo de passageiros, incluindo ex-presidiários, resolveu agir. Seu líder, Johann Carl R.*, era um ex-policial, conhecido pela teimosia e condenado por calúnia e deserção. Juntaram-se a ele o desertor Carl Wilhelm Eduard F. e os operários Johann Friedrich L. e Friedrich Daniel Gerhard R., que, com Johann Christian S., Johann Christian Ludwig T., Christian H. e Hermann Wilhelm M., haviam sido presos na Spinnhaus, uma casa de trabalho e correção em Hamburgo.[1] O plano do grupo consistia em dominar o navio, matar ou se livrar dos oficiais, e mudar a rota do Germania para um porto europeu, em vez de seguir viagem até o Rio de Janeiro.

Os documentos que encontramos no Arquivo Público de Hamburgo (atas oficiais, confissões forçadas, relatórios diplomáticos, correspondências), espalhados em diversos conjuntos (e que talvez por esse motivo até hoje não receberam atenção suficiente por parte dos historiadores), descrevem esse momento como a eclosão de uma conspiração. Mas também é possível entendê-lo como uma abertura de horizontes. Os oito homens aparentemente sabiam que, ao chegarem no Brasil, dificilmente teriam a vida que lhes fora prometida. O mais provável é que fossem incorporados como soldados estrangeiros no nascente Exército brasileiro, enviados para lutar em guerras na fronteira, ou que se vissem obrigados a encarar regimes de trabalho extenuantes em colônias agrícolas. Eles buscavam a liberdade, mas não a que lhes fora prometida. Os rebeldes parecem ter sido contagiados por ideias radicais de liberdade que circulavam pelo mundo atlântico. O historiador Niklas Frykman, por exemplo, revela que, naquela época, amotinados em navios ingleses, holandeses e franceses compartilhavam uma “ideologia política comum”, prenhe de aspirações insurgentes e com um vocabulário que girava em torno de ideais de liberdade que haviam se difundido na época das revoluções americana, francesa e haitiana – tal como os oito esquecidos do Germania.

O motim liderado por Carl R. foi rapidamente contido. A tripulação e um grupo de passageiros – que, depois, se autoproclamaram “mui respeitáveis” – conseguiram dominar os amotinados naquela noite mesmo, apesar do temporal. Amarrados e presos, Carl R. e seus comparsas tiveram de aguardar a formação de uma comissão, liderada pelo capitão Hans Voss. Ficou decidido que a disciplina teria que ser mantida no navio a todo custo, e que a revolta, mesmo fracassada, precisava de uma resposta exemplar.

No dia seguinte, improvisou-se um tribunal. O júri foi composto por oficiais da tripulação e alguns passageiros que mais tarde se tornariam colonos no Rio Grande do Sul. Estavam presentes o tenente Ferdinand Von Kiesewetter, o primeiro imediato Franz Helmholtz, o médico Johann Daniel Hillebrand, o delegado de polícia Johann Heinrici e o colono Johann Christian Weimann. O procedimento seguiu uma coreografia burocrática: os acusados foram interrogados, respondendo sob pressão e confessando o crime, tudo registrado por Heinrici em uma ata, que depois foi lida em voz alta.

Os autos da devassa preservados em Hamburgo, que sobreviveram a duas travessias oceânicas, não apenas registram minuciosamente o episódio, como suas próprias contradições. Ao mesmo tempo em que revelam, ocultam; ao mesmo tempo em que detalham, exageram. Ao lermos esses documentos, penetramos num labirinto de versões, onde cada pista abre novas perguntas, em lugar de respostas definitivas.

Ao final dos interrogatórios, a comissão reuniu-se para a deliberação. O capitão Voss invocou o parágrafo 9 das instruções que recebera do agente Von Schaeffer ainda em Hamburgo. Segundo ele, “quem se torna culpado de revolta ou ataca outrem com a mão armada [durante a viagem ao Brasil], é culpado de morte”. A sentença estava dada: os oito amotinados deveriam ser fuzilados.

Na manhã de 5 de julho, em mar aberto, ao largo da África Ocidental, entre Cabo Verde e a faixa equatorial, a ordem foi cumprida. Um a um, os rebeldes foram executados por tiros disparados por seus parceiros de viagem. Alguns resistiram até o fim. Johann Christian S., já diante da morte, chegou a zombar de seu executor, chamando-o de traidor. Os corpos foram lançados ao mar. Quando o último amotinado foi jogado do convés, a tripulação e os passageiros se reuniram para rezar e cantar Agora, agradecemos todos ao Senhor, um dos hinos luteranos de ação de graças mais difundidos na Europa de então, escrito por Martin Rinkart durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-48). O canto religioso ritualizava a punição e purificava aquele ato.

Podemos imaginar que a maioria dos passageiros do veleiro desejava aportar no Brasil e buscar uma vida nova nas colônias alemãs que estavam sendo criadas no Sul do país. Para eles, uma situação econômica mais estável e a promessa de prosperidade e cidadania pode ter, de fato, significado mais autonomia. Mas, conforme um dos membros da tripulação do Germania, “os cabeças souberam conquistar a simpatia” de “60 a 80” parceiros de viagem, e nem todos eles eram ex-encarcerados.

O cônsul da Prússia residente no Rio de Janeiro, ao investigar a questão junto aos recém-chegados e às autoridades brasileiras, concluiu que os amotinados e seus aliados reclamavam “da alimentação que lhes era provida [e] da dureza do tratamento [que receberam] por parte dos oficiais do navio”. A cena da execução, ainda mais, chocou sobremaneira alguns dos viajantes. Um deles escreveu à família em Hamburgo: “Agora, queridos irmãos, vocês podem imaginar como foi o resguardo de minha esposa [grávida] em meio a tais acontecimentos terríveis; mesmo para mim, como homem, foi horrível de presenciar.”

Com um fuzilamento sumário, foi encerrado o primeiro motim documentado de colonos alemães rumo ao Brasil. Para muitos, um ato de justiça; para outros, um massacre legitimado por uma comissão improvisada. Teriam sido aqueles homens conspiradores perigosos ou indivíduos tentando escapar de um destino de sujeição e coerção? A execução dos oito do Germania levanta perguntas sobre os próprios limites da liberdade: o que significava escapar de uma vida de punição na Europa apenas para cair em um regime de submissão na América do Sul? De que forma Estados em consolidação, como o Brasil da época, usaram os imigrantes como laboratório de projetos imperiais? E, finalmente, como os próprios amotinados, ao planejarem a fuga para um porto europeu, teriam articulado concepções insurgentes de liberdade que evocavam, por exemplo, menor controle estatal sobre suas vidas?


Para melhor compreender por que os oito homens foram sumariamente fuzilados em pleno Atlântico e o que isso tem a ver com a história do Brasil, é preciso retornar a Hamburgo, ponto de partida do Germania. No início da década de 1820, a cidade portuária vivia um enorme problema: enquanto o comércio no porto estava no auge, ela atravessava uma forte crise social, com aguda pobreza e superpopulação carcerária. A historiadora Mary Lindemann, em seu livro Patriots and paupers: Hamburg, 1712-1830, cita que alguns administradores locais viam Hamburgo como uma verdadeira “metrópole de mendigos”. O vai e vem das docas se dava próximo a becos escuros, que serviam de morada de mendigos, desertores e pessoas vistas como indesejáveis.

Para lidar com os problemas sociais de Hamburgo, o Senado da cidade decidiu reformar uma série de instituições de controle e punição já existentes, incluindo a Spinnhaus, uma espécie de prisão e casa de trabalho destinada a transformar condenados em trabalhadores úteis, ensinando-lhes tarefas ligadas à indústria têxtil. Ali cumpriam pena jovens envolvidos em furtos, soldados desertores, delinquentes ocasionais, menores infratores. O regime de punição combinava também trabalhos forçados, castigos físicos e vigilância constante. Na realidade, a Spinnhaus operava como um depósito de “excedentes humanos”, as pessoas que a cidade não queria ver circulando em suas ruas e que, privadas de um lar, eram alvo do projeto de reintegração social, poucas vezes bem-sucedido.

Com o passar do tempo, surgiram pressões para reduzir os investimentos públicos em instituições carcerárias e diminuir a superpopulação das prisões. O Senado de Hamburgo encontrou uma saída que vinha sendo discutida por diversas potências europeias: a exportação de indivíduos encarcerados para outras regiões do mundo, como faziam os ingleses, que enviavam pessoas indesejáveis para a Austrália e o Cabo, no Sul da África. Seguindo esses modelos, o chefe de polícia e também senador Amandus Augustus Abendroth decidiu, em acordo com o governo brasileiro, oferecer a certos presos a chance de serem libertados, caso aceitassem emigrar para o Brasil e nunca mais retornassem à Europa. Só então seria possível deixar a cadeia e trocar a cela por um navio transatlântico.

Os maços e maços de documentos guardados no arquivo de Hamburgo revelam a refinada burocracia da cidade. Em março e abril de 1824, delegados da polícia foram à Spinnhaus perguntar para as pessoas ali detidas, uma a uma, quem preferia migrar para o Brasil. A cena repetiu-se em visitas sucessivas: os apenados eram chamados e confirmavam (ou não) seu desejo. Depois, assinavam ou davam sua palavra, incluindo a de que não mais voltariam à Alemanha. Tudo era acompanhado por um amanuense, que fazia as atas e as lia em voz alta. Muitos aceitaram a oferta de imediato, vendo na emigração uma saída, ainda que para um lugar então quase desconhecido.

As listas nominativas nos aproximam do perfil dos encarcerados. Entre os que declararam querer partir, estavam Johann Carl R., o líder do motim no Germania, ex-policial acusado de má conduta; Carl Wilhelm F., soldado desertor condenado a dois anos de prisão; Johann Friedrich L. e Friedrich Daniel R., presos sob a acusação de furtos e homicídio culposo. Havia ainda alguns adolescentes, como Heinrich Q., de apenas 14 anos, que vivia na Spinnhaus por ser pobre demais. Em suma, a iniciativa não visava apenas criminosos violentos, mas também jovens vulneráveis, que não encontravam seu lugar naquela sociedade.

Para os administradores públicos e senadores de Hamburgo, a solução pelo transporte para o Brasil possuía uma tripla vantagem. Além de livrar a cidade de elementos tidos como perigosos e de reduzir a pressão sobre as instituições carcerárias, fortalecia o vínculo com o Brasil recém-independente, que buscava colonos e soldados para suas fronteiras e novos mercados para seus produtos. Nessa lógica, aqueles indivíduos encarcerados não eram apenas pessoas indesejadas, mas também recursos humanos passíveis de exportação, instrumentos de política externa. Como Hamburgo não tinha colônias próprias para onde enviar seus delinquentes, precisava conectar-se a outros países, como o novo império brasileiro, que aceitava de bom grado mão de obra barata, ou mesmo gratuita, a fim de povoar regiões estratégicas e reforçar o Exército.

Os apenados Eduard L. e Johann M. pediram insistentemente para serem incluídos na lista, alegando que preferiam arriscar-se no Brasil a permanecer na Spinnhaus. Mas nem todos os presos confirmaram seu interesse em emigrar. Ao ouvirem que a partida para o Brasil implicava a renúncia definitiva ao retorno, alguns voltaram atrás, pois isso equivalia a cortar vínculos familiares e comunitários. Um protocolo de 30 de abril de 1824 registrou seis nomes que retiraram seu consentimento quando confrontados com essa condição. O contraste entre os que imploravam por uma vaga e os que recuavam diante da necessidade de deixar Hamburgo para sempre revela a tensão que rondava as decisões das pessoas afetadas pelo sistema criado pela cidade alemã e pelo império tropical. Algumas famílias pobres viram a travessia como uma chance real de vida nova e de liberdade. No Brasil, poderiam ter acesso a um lote de terras para cultivarem e chamarem de seu – o que, em um contexto de empobrecimento e difícil acesso à propriedade em seus territórios de origem, animou a muitos. Mas outros, como os rebelados do Germania e seus simpatizantes, encararam essa situação como outra forma de coerção. Como um experimento de iliberdade, que restringia não apenas movimentos e formas de apropriação do espaço vivido e habitado, mas também as relações sociais e de trabalho (com contratos, regras não escritas, ou controle paralegal), justamente em uma época em que o tráfico de africanos já era amplamente questionado e a abolição da escravatura entrava em pauta.

Durante o reinado de dom Pedro I, cerca de 7 mil indivíduos migraram dos territórios alemães para o Brasil, em transporte patrocinado pelo Estado brasileiro. Pelo menos quatrocentos deles eram oriundos de instituições penais das cidades de Hamburgo, Rostock, Schwerin, Bützow, Güstrow e Dömitz. Esse episódio acabou se tornando “a página negra na história dos alemães no Brasil”, de acordo com o historiador Carlos Henrique Hunsche, no livro O biênio 1824/25 da imigração e colonização alemã no Rio Grande do Sul (Província de São Pedro). Como afirmaram os também historiadores Martin N. Dreher e Caroline von Mühlen, em suas obras Degredados de Mecklenburg-Schwerin e os primórdios da imigração alemã no Brasil e Degredados e imigrantes, essas pessoas acabaram invisibilizadas na história brasileira, pois não se adequavam à imagem do colono branco, pacífico e trabalhador idealizado pelas elites e pela historiografia até pouco tempo. Tratava-se de uma expedição de colonização, mas também de uma operação de deportação. Em resumo, a globalização da punição.


No centro da engrenagem que conectava as prisões de Hamburgo às fronteiras do Brasil estava uma figura singular: Georg Anton von Schaeffer. Para uns, tratava-se de um visionário e “fazedor de impérios” (nas palavras do historiador Richard Pierce). Para outros, um oportunista e desonesto “mercador de almas” (assim ele foi designado por oficiais militares que recrutou, incluindo Eduard Theodor Bösche e J. F. von Lienau, cujos relatos de viagem foram mais tarde publicados na Europa). Fato é que é impossível negar seu papel como intermediário entre os dois mundos.

Nascido na Baviera, formado em medicina pela prestigiosa Universidade de Göttingen, Schaeffer passou pela primeira vez no Brasil em 1814, quando seguia para as Ilhas Sandwich, hoje Havaí, a bordo de um navio russo. Em uma nova visita ao Rio de Janeiro, em 1818 conseguiu adentrar os círculos da corte luso-brasileira e, ao finalmente retornar ao Brasil em 1821, acabou se aproximando de dom Pedro de Alcântara, de sua mulher, a austríaca Maria Leopoldina, e de um dos mais fiéis escudeiros do futuro imperador, José Bonifácio de Andrada e Silva. Os conhecimentos científicos e políticos de Schaeffer lhe abriram portas, e ele passou a ser visto como um agente hábil em navegar entre impérios.

Em 1822, com a Independência do Brasil, Schaeffer se reinventou. Ganhou um emprego como agente diplomático brasileiro na corte de Viena, bem como em Frankfurt e nas cidades hanseáticas. Sua missão era dupla: atrair famílias dispostas a cultivar a terra nas fronteiras meridionais e, ao mesmo tempo, fazer migrar combatentes para reforçar os batalhões do Exército. A missão, como era sabido tanto pelas autoridades brasileiras quanto pelos senadores hamburgueses, era ilegal. E, para contornar essa restrição, Schaeffer enfatizou a necessidade de misturar soldados e ex-presidiários com o que ele chamou de “colonos puros”, famílias de camponeses que ajudariam a proteger o projeto do escrutínio público.

Em suas cartas às autoridades brasileiras, Schaeffer se apresentava como um servidor zeloso da “causa brasileira”. Aos futuros imigrantes, oferecia terras férteis, assistência pública, liberdade religiosa e cidadania plena – mesmo que à época o Brasil sequer tivesse uma Constituição (a primeira seria outorgada em 1824). Relatos nos jornais alemães falam de recrutamento forçado e aliciamento de jovens enganados com falsas promessas e de uma rede de pessoas de caráter duvidoso auxiliando Schaeffer na empreitada.

O agente tomava para si decisões das mais diversas, ancorando-se na “carta branca” que teria recebido de José Bonifácio antes de partir. Nomeava auxiliares, apresentava-se como diplomata, negociava acordos em nome do Brasil. As instruções entregues aos capitães de navios são exemplos da latitude que considerava ter, como aquela que condenava à morte quem se revoltasse no navio. Foi graças a isso que o capitão Hans Voss, do Germania, e sua comissão puderam justificar às autoridades brasileiras e hamburguesas a punição com a pena capital para os amotinados. A assinatura do diplomata estava gravada em cada disparo.

Schaeffer não era apenas um recrutador de agricultores, como entrou para os anais da história. Era também um gestor de populações vistas como descartáveis pelas autoridades alemãs. Em uma correspondência de meados de 1827, ele escreveu que “o Brasil, [ao ser] povoado de alemães industriosos, será o mais poderoso estado do universo”. Antes ainda, em 1822, também revelou sua fonte de inspiração: “A exemplo das colônias rurais da Europa, [o projeto] rapidamente trará um grau de civilização às tribos selvagens do interior” do território nacional. A ideia era transformar os povos indígenas “de selvagens e canibais em cidadãos pacíficos e trabalhadores [...] sujeitos úteis e leais ao império brasileiro”. Assim, a imigração alemã tomava a branquitude como um motor da civilização.

Apesar de Schaeffer operar na ilegalidade, os senadores hamburgueses viam nele um vetor para a solução de problemas populacionais locais. Para dom Pedro I, Leopoldina e José Bonifácio, o projeto levado a cabo pelo agente diplomático representava a consolidação de fronteiras frágeis. No extremo Sul do país, na região de São Leopoldo – hoje considerada o berço da imigração alemã no Brasil –, surgiram colônias agrícolas-militares nas quais os imigrantes eram ao mesmo tempo lavradores e soldados. Ali, a promessa de terras gratuitas vinha acompanhada da obrigação de defender o território contra inimigos externos ou rebeldes locais.

Na prática, o plano brasileiro liderado por Schaeffer operava nas zonas cinzentas entre diplomacia, comércio internacional e recrutamento militar, preenchendo um vácuo em que interesses políticos confluíam dos dois lados do Atlântico. A tragédia a bordo do Germania revela até onde podiam chegar os efeitos dessa iniciativa. A norma que legitimou os oito tiros em plena travessia atlântica tinha sido redigida apenas alguns meses antes: era a tradução paralegal de um projeto político que fazia do oceano não apenas um espaço de trânsito de pessoas, mas também de ideias e práticas de punição. Os oito do Germania foram punidos de forma sumária para restaurar a disciplina a bordo. Mas o episódio revela como, no Atlântico, a fronteira entre o que os imigrantes consideravam justiça e injustiça se fez difusa, demonstrando os limites da própria liberdade.


Inicialmente, os oito amotinados do Germania receberam chibatadas e foram trancafiados, à espera do desembarque no Rio de Janeiro, onde deveriam ser entregues às autoridades imperiais. Mas, segundo o relatório oficial, a insistência deles em se libertar fez com que a comissão deliberasse pela pena de morte. Nos registros, lê-se que a decisão foi tomada para garantir segurança à tripulação. Não havia advogado, não havia instância judicial superior: apenas a comissão liderada por Voss aplicando justiça sumária em alto-mar.

Os próprios oficiais e marinheiros assumiram o papel de algozes: Heinrici atirou em Carl R. e Edouard F., Helmholtz executou Daniel R., Petersen disparou contra Wilhelm M. e Christian H. A hora de cada execução foi registrada nos autos, bem como a latitude e a longitude em que se encontrava o navio. A precisão cartográfica e temporal conferia regularidade ao ato.

A narrativa produzida a bordo e arquivada em Hamburgo, contudo, não foi a única. Conforme a historiadora Sonja Sawitzki, em seu artigo Die Erschießung von acht “Meuterern” an Bord des Auswandererseglers Germania (O fuzilamento de oito “amotinados” a bordo do veleiro de emigrantes Germania), o passageiro Johann Diedrich Holtermann escreveu um relato bem diferente mais de um ano depois. Segundo ele, Carl R. havia se tornado muito popular entre os colonos e entrara em atrito com o tenente Von Kiesewetter e o delegado de polícia Heinrici. A tensão dividiu o navio em dois grupos. Quando o motim estourou, seguiu-se uma repressão brutal. Holtermann descreve os amotinados sendo espancados a coronhadas, privados de água e pão e depois executados sob a ordem do capitão.

Também no Arquivo Público de Hamburgo, enquanto buscávamos documentos sobre a migração de habitantes dos territórios alemães para o Brasil, encontramos uma carta de outro viajante do Germania, Johann Friedrich J., que se estabeleceu no Rio de Janeiro (na Rua do Catete, nº 153). Ao escrever para a família em Leipzig no início de 1825, ele conta que ocorreu uma conspiração a bordo do navio, sugerindo ter havido um pânico coletivo. Também descreve a brutalidade prévia às execuções, em uma narrativa muito mais crua e vívida quando comparada a dos relatórios oficiais:

[Os amotinados] formaram uma fila. Quando o líder tentou falar, o comandante no navio golpeou seu braço direito com um sabre, abrindo-o em três dedos de largura. O olho de outro homem foi perfurado, um terceiro teve parte do cotovelo cortado, e um quarto recebeu um golpe na panturrilha que quase lhe decepou o pé. Todos ficaram feridos, embora já estivessem amarrados. Em seguida, foram deitados sobre uma viga e receberam sessenta chibatadas nas nádegas. [No dia seguinte] foram os amotinados então trazidos e imediatamente colocados na borda do navio; alguém teve de segurá-los; então receberam balas na cabeça, de modo que sangue e massa encefálica jorraram para fora. Queridos irmãos, durante essas execuções eu fiquei de sentinela com o sabre desembainhado, de forma que o sangue e a massa encefálica respingaram em minhas roupas. Em seguida, [seus corpos] foram lançados de costas para fora do navio, onde os tubarões logo os aguardavam e devoraram. Após essa cena horrível, entoou-se o hino Nun danket alle Gott...

A notícia do motim não passou despercebida na Europa. As autoridades da Prússia, informadas de que dois dos mortos eram súditos seus, exigiram explicações de Hamburgo e do Brasil. Para o governo em Berlim, a capital prussiana, não cabia às autoridades brasileiras ou ainda a uma comissão improvisada decidir sobre a vida de seus cidadãos. O conde de Grote, embaixador da Prússia em Hamburgo, pressionou o Senado daquela cidade para investigar e processar o capitão Voss assim que ele retornasse de viagem. Afinal de contas, o julgamento dos oito do Germania por uma comissão instituída a bordo, apesar de seguir as instruções (extralegais, diga-se de passagem) preparadas pelo agente diplomático brasileiro, não encontrava amparo em normais legais e práticas vigentes.

No lado brasileiro, foi apenas com o Código Criminal de 1830 que se regulamentou a pena máxima (de seis meses de prisão) para o crime de motim ou revolta. Na Europa, sentenciar rebeldes com a pena de morte vinha caindo em desuso, ainda mais através de júris instituídos no decorrer da viagem: os conspiradores que viajavam a bordo de navios ingleses rumo à Austrália, por exemplo, normalmente eram sentenciados à prisão quando chegavam às colônias; a instituição de tribunais em terra para julgá-los era coisa rara. As leis civis de Hamburgo e da Prússia não previam julgamentos a bordo.

Ato contínuo, multiplicaram-se os interrogatórios, as comissões e os ofícios diplomáticos em Hamburgo. Todos queriam saber se a execução poderia ser justificada como medida necessária, e o que eram as tais instruções de Schaeffer. Mas as autoridades também procuravam proteger a reputação da cidade, afinal o Germania navegava carregando uma bandeira hamburguesa, e a ideia de que Hamburgo enviava colonos que estariam sujeitos a execuções sumárias era por demais perigosa e poderia comprometer futuros negócios.

Quando o Germania atracou no Rio de Janeiro (então o principal porto escravista do Sul do mundo), algumas semanas depois das execuções, o veleiro trazia não apenas futuros colonos e soldados exaustos da viagem, mas também o peso de uma decisão irreversível. O que estava realmente em jogo não era apenas a disciplina a bordo de um transatlântico. Era a definição de quem poderia ser considerado livre em um império recém-nascido. No mesmo convés de pessoas tidas como plenamente livres viajavam ex-presidiários da Spinnhaus de Hamburgo. Para muitos, sua incorporação compulsória aos batalhões de estrangeiros, sob disciplina rígida, ou seu estabelecimento no Brasil sem a chance de retorno, revelava-se como uma extensão de suas penas.

O episódio adquire novo sentido quando colocado ao lado da experiência em terra firme nas colônias alemãs do Sul do Brasil. No Atlântico, a promessa de liberdade terminou em tiros e execuções sumárias; já em São Leopoldo os contratos que asseguravam cidadania imediata e autonomia profissional foram reinterpretados como compromissos de servidão. Em ambos os casos, a linguagem da liberdade convivia com práticas que limitavam movimentos, impunham disciplina e subordinavam imigrantes ao poder estatal. Essa contradição revela como o Império do Brasil testava formas alternativas de coerção em um mundo que já caminhava para o fim do tráfico transatlântico de africanos.

Oito homens morreram no convés do Germania por desafiar a autoridade e buscar escapar do destino de soldados-colonos. Centenas de outros, em São Leopoldo, descobriram que a liberdade prometida nos contratos era condicionada à obediência, ao trabalho disciplinado e ao policiamento cotidiano. Como destacam o historiador Joël Glasman e o sociólogo Loïc Wacquant, em Les corps habillés au Togo (Corpos vestidos no Togo: a gênese colonial das profissões policiais) e Punish to rule: colonial penality and the urban badlands (Punir para governar: pena colonial e os sertões urbanos), foi justamente naquele período que o Estado foi sendo consolidado a partir de baixo, através de práticas improvisadas e informais de violência.

O Germania retornou a Hamburgo em 1825 e desapareceu dos registros pouco tempo depois. Von Schaeffer seguiu recrutando colonos até o fim da década, acumulando aliados e detratores, até sua morte em 1836, no Sul da Bahia. O Brasil consolidou suas colônias alemãs no Sul, que viriam a ser lugares economicamente prósperos, a despeito da violência, desigualdade e coerção que marcaram sua fundação.As oito mortes em pleno Atlântico representam um episódio esquecido nos projetos coloniais do século XIX. Para os oito do Germania, foi o desfecho trágico que transformou a busca por liberdade em sentença de morte. E, para a compreensão da história do Brasil, seu destino permanece como lembrança de quão tênue podia ser a linha entre a liberdade e a iliberdade.



* Para proteger a privacidade e a dignidade dos indivíduos encarcerados que aqui citamos, optamos por não revelar os seus sobrenomes. A identificação, além de expor essas pessoas que não poderiam saber que suas histórias seriam posteriormente contadas, também expõe seus descendentes a uma atenção indesejada. O historiador Joseph Spillane, em um artigo sobre arquivos de prisões nos Estados Unidos (Prisoners of the archives: privacy, identity and the history of incarceration, 2024) afirma que não se deve “infligir novos danos às vítimas passadas da custódia estatal [...] para uma prática ética da pesquisa histórica moderna”. Ainda assim, “a proteção da privacidade e a prevenção de danos não devem resultar no apagamento da experiência histórica”.

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Historiador e pesquisador no Brazil LAB, da Universidade Princeton, Estados Unidos. É doutor em história social pela UFRJ.

Historiadora e pesquisadora no Fox Center for Humanistic Inquiry da Universidade Emory, Estados Unidos. É doutora em história pela Universidade Princeton.