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Thallys Braga Mar 2023 11h04
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Assim que a noite caiu em Los Angeles, ela surgiu no tapete vermelho do Grammy com um vestido longo da grife italiana Versace. Estava acompanhada de um empresário, que a orientava na multidão de jornalistas e flashes. No topo das listas de apostas para vencer o prêmio de Artista Revelação, Anitta foi cercada pela imprensa. Enquanto ela conversava com um repórter da Telemundo, emissora norte-americana em espanhol, três homens se aproximaram e aguardaram pacientemente o fim da entrevista. Então, ajeitaram a gravata dos smokings e a cutucaram pelo ombro. “Hola! Nós também somos brasileiros. E acabamos de ganhar um Grammy.”
Anitta não conhecia os homens nem sabia que o Brasil já havia garantido um prêmio naquela noite. Desorientado, o jornalista mexicano perguntou quem era o trio. David Tygel, de 73 anos, Lourenço Baeta, de 70, e Zé Renato, de 66, do grupo vocal Boca Livre, haviam acabado de ganhar o Grammy de Melhor Álbum de Pop Latino com Pasieros, gravado em parceria com o cantor panamenho Rubén Blades. Sem assessores, eles zanzavam para cá e para lá no tapete vermelho, aos risos, abordando repórteres para exibir a estatueta em formato de gramofone.
Os três amigos viajaram do Rio de Janeiro a Los Angeles para participar do Grammy sem contar com a vitória. “Nosso disco não é badalado, não causou grande repercussão nem no Brasil. Estávamos disputando com gente pesada, tipo a Christina Aguilera”, diz Zé Renato. “Éramos os azarões da corrida.”
Em teoria, o Boca Livre nem existe mais. O grupo começou a se formar na década de 1960, quando quatro estudantes do Colégio de Aplicação, uma escola ligada à Faculdade Nacional de Filosofia da UFRJ, combinaram o desejo de fazer música. “Com 13, 14 anos, a gente tinha uma ligação muito grande com os instrumentos. E, claro, usava isso para ganhar namoradas”, diz Tygel. Zé Renato segura o riso e o interrompe: “Me tira dessa, senão minha mulher vai me esculhambar.”
Os estudantes formaram o quarteto Momentoquatro, que durou pouco. Em 1968, os militares aumentaram a repressão sobre o movimento estudantil, e Ricardo Vilas, um dos músicos, foi preso. Só dez anos mais tarde, Tygel e Maurício Maestro, outro ex-integrante do Momentoquatro, se juntariam a Zé Renato e Claudio Nucci, um pouco mais jovens, para formar o Boca Livre. O primeiro disco do grupo foi recusado pelas grandes gravadoras e acabou sendo lançado de forma independente em 1979. Vendeu 100 mil cópias. Com esse feito inédito, o Boca Livre cravou sua bandeira na MPB.
Em 43 anos de carreira, o grupo teve várias formações, até que o Boca Livre virou a marca de um homem só. Em 2018, Maestro deixou os amigos perplexos ao aderir à campanha de Jair Bolsonaro. Quando veio a pandemia, seguiu e incentivou o comportamento negacionista do presidente. Em 2021, surgiu a possibilidade de o quarteto se reunir para a primeira gravação em estúdio depois do isolamento, e Zé Renato impôs uma condição: só participaria se todos estivessem vacinados. Maestro recusou a imunização, e seus três amigos decidiram encerrar a parceria.
O Grammy premiou um trabalho concebido muito antes da divisão dos músicos. Numa tarde de 2009, no México, Maestro se encontrou com Rubén Blades. O panamenho confessou um desejo antigo: que o Boca Livre fizesse um disco com regravações de músicas dele. O quarteto topou e entregou o material pronto um ano depois. Os registros ficaram guardados, sem motivo claro, por treze anos. Até que, em 2022, Blades procurou os músicos brasileiros, decidido a lançar o disco, que batizou de Pasieros. Maestro se juntou aos ex-colegas para procurar o material entre as gravações antigas. Depois disso, eles não se reuniram mais.
Quando o álbum foi indicado ao Grammy, os amigos empenharam-se para que o integrante desgarrado fosse à festa em Los Angeles, mas não tiveram êxito. “Eu estava com muitas coisas para fazer no Brasil. E sabia que os três representariam muito bem o Boca Livre lá fora”, justifica Maestro. “Eu nunca fui embora, continuo no grupo. Estou aberto a tudo. Nunca deixei de estar.”
O vencedor da categoria Melhor Álbum de Pop Latino foi anunciado no final da tarde de domingo. Lourenço Baeta era o único integrante do Boca Livre presente no auditório porque Zé Renato e David Tygel estavam presos no trânsito congestionado de Los Angeles. Os dois receberam pelo telefone a notícia da vitória. Coube a Baeta receber o prêmio.
No fim do dia, chegou a notícia de que Anitta perdera o Grammy de Artista Revelação para a cantora norte-americana Samara Joy. A carioca Flora Purim, que concorria pelo Melhor Álbum de Jazz Latino, também perdeu o prêmio. “E olha que ninguém apostava em nós”, diz Baeta, que acabou sendo o único brasileiro a subir ao palco da premiação. “A imprensa nem citava o Boca Livre. Na internet, só se falava da Anitta.”
O trio participou de uma festa organizada pelo Grammy, na véspera da cerimônia, onde foram condecorados com uma medalha por estarem no seleto grupo de músicos indicados ao prêmio. Havia música boa, gente interessante e canapés regados a champanhe. “Veja só”, diz Zé Renato, com as sobrancelhas para cima. “Eles colocaram o sarrafo lá no alto.”
O padrão não foi mantido na festa em seguida à premiação de domingo. As grandes estrelas se dispersaram para as after parties organizadas pelas gravadoras, e o salão do Grammy ficou esvaziado. A comida não era grande coisa, fazia frio em Los Angeles e a adrenalina dos amigos logo baixou. “Aí nos demos conta de que não é fácil conseguir táxi em Los Angeles”, diz Tygel, o mais velho do trio. “E a bateria do celular acabou. Por sorte, encontramos um cara que estava indo para a nossa região. Morremos numa grana para pagar a viagem.”
Na manhã de segunda-feira, o septuagenário foi a uma loja da Apple e na primeira oportunidade anunciou: “Vocês estão falando com um vencedor do Grammy.” Segundo ele, a loja inteira parou. “Meu irmão, não teve um que não me pediu foto”, conta, explodindo numa gargalhada.