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Teresa Garcia Jul 2025 13h11
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Ela aparece nos cartões-postais mais conhecidos do Rio de Janeiro. Está sob os pés dos sambistas no Centro da cidade, sustenta as garras dos alpinistas nas escaladas urbanas, emoldura prédios históricos, ergue colunas e ornamenta fachadas. É também a matéria de que são feitos o Corcovado, o Pão de Açúcar, o Morro da Urca, a Pedra do Sal, o Arpoador. Com ela, foram construídos muitos marcos arquitetônicos da cidade: Museu da República, Palácio Capanema, Arquivo Nacional, Museu Nacional de Belas Artes, Centro Cultural Banco do Brasil, Igreja da Candelária.
Quantos cariocas conseguiriam nomear esse elemento tão presente em seus cotidianos? Não muitos, certamente. Mas os geólogos sabem: a mais carioca das rochas é o gnaisse facoidal.
Existem inúmeras rochas gnaisse pelo mundo, mas a facoidal é específica dos solos do Rio e de Niterói. A rocha surgiu há cerca de 570 milhões de anos da colisão de terras que formou o supercontinente Gondwana, cujo posterior rompimento levou à criação dos continentes africano e sul-americano. O nome “facoidal” vem de uma palavra grega que significa “lenticular”, ou seja, que parece uma lentilha ou uma lente – no caso da rocha, as estruturas que a compõem, mais finas nas bordas e grossas no meio.
Essa pedra fundamental do Rio é agora reconhecida como patrimônio mundial. O título foi concedido no ano passado pela União Internacional das Ciências Geológicas (Iugs, na sigla em inglês), órgão reconhecido pela Unesco que reúne os cientistas que estudam a Terra. Em 2022, a Iugs publicou The first 55 Iugs heritage stones (As primeiras 55 pedras de patrimônio), livro no qual a pedra carioquíssima passou a figurar ao lado de rochas famosas, como o mármore de Carrara italiano, o lioz português e o mármore Makrana, que emoldura o Taj Mahal, na Índia.
Não foi fácil entrar nessa lista, explica Nuria Fernández Castro, engenheira de minas e pesquisadora do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), que defendeu em 2024 um doutorado sobre as pedras do patrimônio da cidade do Rio de Janeiro. Foi ela que encaminhou à Iugs a proposta de incluir o gnaisse facoidal na relação das rochas mais reconhecidas do mundo.
Castro listou mais de quinhentas edificações e implementos urbanos (monumento, fonte, chafariz, quebra-mar) construídos com a rocha. Demonstrou que seu uso começou há mais de quatrocentos anos e que ela já foi exportada para a Austrália e o Reino Unido. Apontou o valor das rochas como símbolos turísticos, com os exemplos do Corcovado e do Pão de Açúcar. O gnaisse facoidal se incorporou à paisagem do Rio e afetou os hábitos culturais da população, afirmou a pesquisadora em sua argumentação.
Antes de Castro, coube à pesquisadora Kátia Leite Mansur, professora do departamento de geologia da UFRJ, estabelecer a primeira conexão entre essa rocha, as artes e o comportamento do carioca. Em 2008, ela publicou um artigo no Anuário do Instituto de Geociências da UFRJ demonstrando que o gnaisse facoidal deslumbrou os artistas que desembarcaram no Rio de Janeiro nos séculos XVIII e XIX. Foi o caso dos franceses Nicolas-Antoine Taunay, que ilustrou com tons fortes o poente nas montanhas do Rio, e de Jean-Baptiste Debret, que eternizou o Morro do Pão de Açúcar em suas gravuras.
“Fico pensando se o carioca seria o mesmo sem a existência dessa rocha”, diz Kátia Mansur, logo acrescentando a resposta: “Não seria!” De fato, é difícil imaginar os cariocas desprovidos do prazer de admirar o pôr do sol no gigantesco gnaisse facoidal que avança sobre o mar no Arpoador, colocando nosso olhar onde o Sol mergulha no horizonte. Também é impossível privá-los da roda de samba da Pedra do Sal, no bairro da Saúde, onde as pessoas acompanham a festa em uma escadaria esculpida no gnaisse facoidal. “O carioca já absorveu essa rocha. Ela está no nosso sangue, só falta ter consciência de como foi utilizada e querer preservá-la”, diz Mansur.
O uso da pedra foi intensificado na construção com a chegada da família real em 1808. O grande número de portugueses que se instalou no Rio junto com a corte forçou a expansão imobiliária. Não havia mármore na cidade, observa Mansur, mas havia gnaisse facoidal em abundância. Embora seja uma rocha mais difícil de lapidar, ela foi muito utilizada não apenas nas fundações dos prédios, mas também em ornamentos delicados, como na fachada do Museu de Ciências da Terra, na Urca. E tem a vantagem de ser resistente às intempéries. O aproveitamento foi tão intenso que o gnaisse facoidal acabou alcançando um significado imaterial. Não é só mais uma rocha, é também um “símbolo cultural”, afirma Mansur.
O carnavalesco Joãosinho Trinta compreendeu isso. No Carnaval de 1985, quando estava montando o enredo A Lapa de Adão e Eva para a Beija-Flor de Nilópolis, ele se deu conta de que o Pão de Açúcar e o Corcovado eram compostos da mesma rocha. Decidiu decorar as laterais dos carros alegóricos com imagens da pedra que, acreditava ele, era tão antiga quanto os primeiros habitantes do planeta (na verdade, é bem anterior).
A intenção de eternizar essa rocha também foi manifestada pelos modernistas que participaram do projeto de construção do Palácio Capanema, inaugurado em 1943 e uma das últimas obras a utilizar o gnaisse facoidal no Rio de Janeiro. “Foi uma maneira de reforçar a identidade brasileira na arquitetura”, diz Mansur.
Servindo como piso, palco, palanque e mirante, o gnaisse facoidal se infiltrou na vida da cidade. Só falta se integrar ao vocabulário popular. Castro e Mansur brincam entre si imaginando os termos técnicos da geologia se convertendo em gíria. Um carioca descolado poderia, por exemplo, ser chamado de “um cara facoidal”.