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PELO TELEFONE

Uma atriz baiana e seu Teatro de Ouvido
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O celular toca no horário combinado. A pessoa do outro lado se apresenta como Maria Júlia. Você nunca falou com ela antes, mas Maria Júlia compartilha suas reflexões mais íntimas como se fosse uma velha amiga. Você até responde a uma ou outra pergunta, porém o que importa mesmo é o que ela está contando. Foi para ouvir a história dela que você atendeu à chamada.

Maria Júlia é a protagonista de Mar doce, monólogo escrito e interpretado por Carolina Barbosa de Lira, atriz, dançarina, escritora e criadora do Teatro de Ouvido, formato dramatúrgico em que a atuação é feita pelo telefone, ao vivo, para um único ouvinte. Mar doce é a segunda peça de Lira nesse molde. A primeira, Águas que rolam e quenturas, também com a personagem Maria Júlia, foi ouvida por mais de mil pessoas entre 2020 e 2024.

Baiana de Salvador, Lira, de 37 anos, fez sua formação como atriz na Universidade Livre do Teatro Vila Velha e como cantora na Escola Baiana de Canto Popular. Trabalhou nos bastidores como assistente de direção e mediadora cultural. Durante o isolamento imposto pela pandemia, ela conheceu o trabalho do Grupo Magiluth, do Recife, que enviava peças em texto, áudio e vídeo para seus espectadores. Foi a inspiração para o Teatro de Ouvido.

Águas que rolam e quenturas induzia o ouvinte a manter uma conversa íntima com Maria Júlia, enquanto a protagonista contava sobre a relação conturbada com a mãe, o sonho frustrado de ser dançarina, os seus dois grandes amores e o nascimento da primeira filha. Havia quem interrompesse a peça para fazer comentários e dar conselhos à personagem. Lira chegou a manter uma caixa postal em São Paulo, onde morou por um tempo, para que as pessoas mandassem mensagens para Maria Júlia. “Os ouvintes adoraram a chance de escrever cartas novamente”, conta a atriz.

A procura pelas apresentações telefônicas de Lira seguiu crescendo mesmo depois do fim da pandemia e a reabertura dos teatros. Em novembro de 2024, ela estreou Mar doce, que trata da maternidade, do envelhecimento e do peso das decisões que tomamos na vida. Ao final, a personagem convida o ouvinte a trocar cartões-postais com ela. Desse modo, a peça não se encerra quando a ligação termina, desafiando a fugacidade das relações atuais.

As primeiras apresentações eram em sessões noturnas. Mas a atriz logo passou a fazer matinês, pois parte do seu público é composto por mães que à noite precisam dar atenção aos  filhos. “Eu falo sobre maternidade na peça a partir da minha vivência com outras mulheres”, diz Lira, que não tem filhos. Uma frase de Maria Júlia em Mar doce sintetiza bem os dilemas de muitas mães hoje: “Eu aprendi a cuidar dos outros e esqueci de cuidar de mim.”

Embora haja elementos comuns entre a autora e a personagem, a atriz faz questão de deixar claro que as peças não são sobre ela mesma. “Existem alguns pontos de encontro, alguns recortes que se misturam, porém não sou eu falando”, diz. “Mas não gosto de categorizar. Deixo isso para os críticos.”

A personagem Maria Júlia também está presente em Teoria blue, livro que Lira lançou na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2024. A obra traz os dois contos que serviram de base para Águas que rolam e quenturas. Por exigências contratuais da editora Caravana, que publicou a estreia literária de Lira, as apresentações desta peça foram encerradas, para evitar a reprodução de trechos do livro.

A atriz decidiu então escrever Mar doce, que até o momento já foi ouvida por 150 pessoas. “Eu queria conseguir algum tipo de financiamento para chegar mais longe, mas ainda não aconteceu”, diz Lira, que faz todo o trabalho: escreve, atua, organiza a agenda de apresentações e divulga a peça. “Na nossa rotina, os modos de produção se sobrepõem aos de criação”, lamenta.

O agendamento das audições individuais de Mar doce é feito pelo Instagram (@caroladelira). Cada apresentação custa 35 reais, ou “35 ondinhas do mar”, como a autora gosta de dizer. O valor é pago por Pix, ou “picles”, no vocabulário simpático da atriz.

Mestre em estudos interdisciplinares sobre mulheres, gênero e feminismos pela Universidade Federal da Bahia, Carolina de Lira pesquisou em sua dissertação o envelhecimento das bailarinas e o impacto da idade no trabalho da dança. Para um possível doutorado, cogita tomar o próprio Teatro de Ouvido como objeto de estudo.

Novas peças telefônicas também estão nos planos. Lira quer seguir o estilo atual: monólogos sem maiores recursos técnicos – nada de sonoplastia ou trilha sonora. “Eu imaginei um teatro íntimo, do um para um. Algo que capture a atenção”, diz. Hoje, depois de várias apresentações, ela avalia os limites e as possibilidades desse formato: “Você perde o olho no olho, mas ganha outras coisas, como uma resposta imediata.”

Depois da apresentação por telefone, os ouvintes têm a oportunidade de fazer comentários sobre a peça. É o que Lira chama de “momento camarim”. Ainda durante a pandemia, um depoimento em especial marcou a atriz e autora. Foi a frase agradecida de uma mãe: “Depois que minha filha nasceu, eu nunca mais tinha ido ao teatro.”


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