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RASTROS DE CHUMBO

Uma saga familiar mineira desenhada por um francês
Imagem Rastros de chumbo

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O francês Matthias Lehmann, apesar de viver em Paris, identifica bem muitos dos prédios, fachadas e letreiros de casas de comércio em Belo Horizonte. Na Praça Sete, no Centro da cidade, durante a conversa com a piauí, ele depara com as retas modernistas do Edifício Dona Júlia Nunes Guerra e diz: “Desenhei um pedaço dele. Aparece de relance em uma cena de protesto.” O prédio e outros cenários da capital mineira foram incorporados pelo quadrinista de 46 anos ao seu novo romance gráfico, Chumbo.

A praça e suas redondezas são velhas conhecidas de Lehmann. Belo Horizonte era seu destino certo quando começavam as férias escolares na Europa. Nesses períodos em que visitava a família materna, residente na região central, ele gostava de perambular pela vizinhança, impressionado com a verticalidade da capital: “Paris parecia antiga para mim. Eu tinha a sensação de que era aqui o futuro.”

As lembranças da infância e da adolescência viraram material de investigação para o desenhista. Ele juntou essas memórias a fotos de acervos pessoais e imagens de arquivos públicos ao longo dos três anos que levou para pesquisar e criar Chumbo, que conta a história dos Wallace, um clã livremente inspirado na família brasileira de sua mãe.

Publicado em 2023 pela Casterman, editora francesa de quadrinhos, o livro acompanha diferentes gerações dos Wallace, com seus dramas, perdas, contradições e ressentimentos (em particular, entre os irmãos Severino e Ramires), enquanto o Brasil enfrenta graves tensões políticas. A narrativa começa no final da década de 1930 e segue até 2003 – do Estado Novo até a chegada de Lula à Presidência.

Criados durante o governo de Jair Bolsonaro, os quadrinhos buscam apresentar aos leitores franceses um lado sombrio do Brasil, “diferente daquele que eles têm na cabeça”, como diz o autor. O título refere-se aos “anos de chumbo” da ditadura militar. Uma das motivações de Lehmann foi contestar o revisionismo desse período pela extrema direita brasileira, que insiste em negar a tortura e os crimes da repressão.

Ao mesmo tempo, o romance gráfico serviu para que Lehmann renovasse seus laços com o país de sua mãe. “Eu sentia que todo mundo que me ligava ao Brasil estava sumindo. Se eu queria continuar a ter uma relação forte com o país, tinha que ser proativo com isso. Para mim, isso significava fazer uma história em quadrinhos”, conta, em português, com leve sotaque. “Já fazia uns quinze anos que eu tinha essa ideia de dois irmãos inimigos, mas como sabia que ia dar muito trabalho, sempre adiava.”

A principal fonte da pesquisa histórica de Chumbo foi Brasil: uma biografia, de Heloísa Starling e Lilia Moritz Schwarcz, que atraiu outros livros para a pilha de leituras do quadrinista. Lehmann passou pela série sobre a ditadura militar de Elio Gaspari, por documentos da Comissão da Verdade e até por um livro admirado por Bolsonaro: as memórias do coronel torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. “Para cada sequência, teve certa pesquisa. Eu conhecia algumas coisas, mas precisei pesquisar mais para ter certeza de não falar besteira”, diz.

Para guiar a composição de cada um dos nove capítulos de Chumbo, Lehmann criou duas linhas do tempo: uma traz os acontecimentos centrais da história brasileira; outra narra os momentos importantes da história dos Wallace, desde a morte do patriarca da família até a consagração literária de um de seus filhos – inspirado em um tio do quadrinista, o escritor Roberto Drummond (1933-2002), autor de A morte de d. j. em Paris.

A composição gráfica das cenas também exigiu uma pesquisa extensa sobre a moda, a arquitetura e o mobiliário brasileiros. “Se eu desenhava um personagem nos anos 1970, precisava ver como ele se vestia”, diz Lehmann. Linha do tempo do design gráfico no Brasil, publicação organizada por Chico Homem de Melo e Elaine Ramos, foi um livro de referência para ele: “Me ajudou a compor as páginas pensando no design gráfico brasileiro, que é muito único.”

Assim, os quadrinhos de Chumbo passam por várias camadas da vida brasileira, da literatura de cordel até as experiências mais triviais, como pegar bicho de pé e apostar no jogo do bicho. Lehmann ambicionava fazer uma síntese do país. “Eu queria pôr o Brasil em uma caixinha, mas era impossível.” Queria, também, fugir dos clichês mais lembrados na Europa. Conseguiu evitar o Carnaval, mas teve que incluir o futebol: a paixão pelo Atlético Mineiro era um dos poucos assuntos em que seus familiares estavam de acordo.

Em maio, o autor esteve em várias cidades brasileiras, em uma turnê para divulgar Chumbo, lançado aqui com o mesmo nome que na França, pela Editora Nemo, do Grupo Editorial Autêntica. Em Minas Gerais, pôde revisitar, pela primeira vez depois de publicar os quadrinhos, o cenário da história criada em Paris e em duas cidades onde fez residências artísticas, Roma e Angoulême, na França. “De certo modo, eu estava sempre em Belo Horizonte”, diz.

Na capital mineira, Lehmann passeou pelo Viaduto Santa Tereza – onde colocou, no livro, uma famosa travesti que viveu na cidade, Cintura Fina, confrontando a polícia – e visitou o antigo Dops para ver de perto detalhes do prédio onde seus personagens são torturados. Comeu o tradicional Kaol, PF de arroz, ovo frito e linguiça do Café Palhares, citado em Hilda Furacão, romance do “tio Roberto” (e agora também no livro que o sobrinho do escritor desenhou em nanquim).

Lehmann gosta de imaginar que Belo Horizonte é a ligação entre seus quadrinhos e a literatura de Roberto Drummond. “Qualquer pessoa poderia fazer uma história que acontece aqui. O fato de eu ter construído meu inconsciente com todas essas coisas me leva a algo totalmente diferente”, diz. O desejo do quadrinista era que as páginas de Chumbo carregassem até o cheiro e os sons da capital mineira. “Eu sei que aqui, em tal ou tal lugar, sempre vai ter um bem-te-vi cantando”, diz.


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Jornalista e escritora, publicou o livro de poemas Em Obras (Urutau) e a coletânea de contos Papéis (edição da autora)