esquina

TIJUCA COM MARESIA

Um cronista do bairro muda-se para Copacabana
Imagem Tijuca com maresia

5 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

O escritor e advogado Eduardo Goldenberg surpreendeu seus leitores ao anunciar, no começo de janeiro, que estava de mudança para Copacabana. Afinal, a Tijuca, na Zona Norte do Rio de Janeiro, é o centro de sua vida e a protagonista de suas crônicas. No Buteco do Edu – blog iniciado em 2004 e convertido em newsletter no fim de 2020 – e em seus livros, Goldenberg narra causos do bairro, seus moradores e lugares, especialmente bares. “Se quer ser universal, escreva sobre a sua aldeia”, diz o cronista, parafraseando Liev Tolstói.

Depois que seus bisavós trocaram a Gávea pela Tijuca, a família nunca mais deixou o bairro. Goldenberg nasceu e viveu lá por 49 dos seus 54 anos. Na década de 1990, houve um interregno em que morou na Lagoa, acompanhando sua primeira mulher. “Foram os cinco anos mais tristes da minha vida”, diz. O malogro do casamento mistura-se, em sua memória afetiva, às características do lugar: “A Lagoa é linda, mas não se faz nada a pé. Não tem padaria, não tem botequim, não tem jornaleiro. É o horror absoluto.”

Mas o que mais pesou foi a saudade da aldeia. Goldenberg era recém-formado e tinha acabado de abrir um escritório de advocacia – hoje ele é assessor de gabinete do prefeito Eduardo Paes. Como não tinha muitos clientes, saía cedo do batente e ia para a casa de amigos ou bares, sempre na Tijuca. Logo estava passando mais tempo no bairro natal do que naquele em que morava, o que fatalmente contribuiu para a separação.

Durante a pandemia, a atual mulher de Goldenberg, a também advogada Flávia Piana, sugeriu que a família se mudasse para Copacabana. Paranaense, ela sempre quis morar na Zona Sul. O plano ganhou tração com a quarentena, que impulsionou o desejo de ficar a céu aberto e acentuou a falta de luz solar direta no apartamento do casal na tijucana Praça Afonso Pena – onde foram enterrados o cordão umbilical e a placenta do filho Leonel. Também pesou o fato de o garoto adorar a praia. O escritor reconhece que, por vontade própria, teria continuado na Tijuca. Mas comprou a ideia e deixou o seu amado bairro.

Região da Zona Norte mais colada ao Centro, a Tijuca é o quinto bairro mais populoso do Rio – no Censo de 2010, tinha 163 805 habitantes. Na crônica O Tijucano, o compositor e escritor Aldir Blanc afirma que o morador do bairro é “considerado semi-­ipanemense pelos suburbanos e tido como meio suburbano pelos ipanemenses”: “Ele fala mal dos bares da Tijuca, mas não sai deles. Detesta os cinemas do bairro, mas raramente vai a outros. Elogia o comércio da Zona Sul, mas não abandona as lojas da Tijuca. Venera as tangas, desde que não seja na mulher dele. É progressista, desde que o progresso não o afete. Esmera-se em sua descontração. Vigia sua esportividade. Obstina-se em sua espontaneidade. Por trás da indiferença com que trata o bairro, esconde-se o orgulho. O maldito orgulho de ser tijucano.”

Ao ouvir a definição de Aldir, Eduardo Goldenberg fica com os olhos marejados. “É perfeitíssima”, diz. Ele é um homem corpulento, de gestos suaves e fala mansa. O compositor, com quem falava diariamente até sua morte por Covid, em 2020, é uma de suas maiores inspirações. Outra é o escritor Nelson Rodrigues, o “bardo dos subúrbios” cariocas.

A Tijuca é conhecida por ter alguns dos melhores botecos da cidade. A pedido de Goldenberg, a entrevista à piauí foi feita no Bar Madrid, cujo interior é adornado por bandeiras dos times Real Madrid e América e por quadros de figuras como Julio Iglesias e Getúlio Vargas. Bebericando gim tônica e petiscando jamón, o escritor explica por que os bares ocupam um lugar de destaque em suas crônicas: “O botequim é a síntese da vida.”

Como é de praxe entre os tijucanos, Goldenberg sempre conviveu intensamente com familiares e amigos. Essa característica do bairro, ele admite, tem um ponto negativo: a intromissão das pessoas na vida dos outros e uma preocupação excessiva em manter as aparências. Mas há um lado positivo, de companheirismo e disposição a ajudar o vizinho. Um exemplo disso, relatado na coletânea de crônicas Tijucanismos, ocorreu quando o Bar e Mercearia Guanabara, mais conhecido como CTI das Almas, foi assaltado. Flávia Piana teve a ideia de o casal chamar os amigos para “beber o assalto” no boteco, ajudando o dono a recuperar o prejuízo. Foi um sucesso: o CTI das Almas vendeu dez vezes o valor roubado. Isso é “Tijuca em estado bruto”, diz Goldenberg, empregando o bordão com que se refere a situações que só seriam possíveis por lá.

Apesar da saudade da Tijuca, Goldenberg está feliz em Copacabana. Durante a reforma do novo apartamento, mapeou os arredores. Adotou um pé-sujo na esquina, descobriu um ponto para fazer sua jogatina, escolheu uma barraca na praia.

Logo fez amizade com o flanelinha da rua. Explicou que gostava de receber amigos e que precisava que eles tivessem onde estacionar. O guardador disse que era só avisar quando houvesse necessidade, e o escritor anotou o celular e o Pix dele. Surpreso, o sujeito perguntou: “Você não é daqui, né?” Para Goldenberg, há certa frieza e arrogância na forma como os moradores da Zona Sul tratam os outros.

O escritor, no entanto, vê mais semelhanças que diferenças entre os dois bairros. Ele até chama Copacabana de “Tijuca com maresia”. Entre os pontos em comum, estariam a grande proporção de aposentados e de conservadores, os incontáveis botequins e a importância das fofocas.

A mudança tem permitido que Goldenberg adote hábitos inéditos: vai à praia cedo, para ver o Sol nascer, e está praticando remo. O contato mais próximo com as belezas naturais fez com que o escritor cunhasse um novo bordão: “O Rio humilha.” Um de seus melhores amigos e ex-­vizinho de prédio, o historiador e escritor Luiz Antonio Simas acredita que Eduardo Goldenberg irá se adaptar bem ao novo bairro. “Edu é sensacional em construir os seus mitos, que lhe dão certo conforto. Ele vai se aconchegar na ideia de que Copacabana é uma Tijuca com praia. Mas ele leva a Tijuca consigo. Ele sai da Tijuca, mas a Tijuca não sai dele.”


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.