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UM ATEU NO CÍRIO

Crônica de uma celebração católica em Belém
Imagem Um ateu no Círio

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O grupo de quatro romeiros deixou Bujaru, município no interior do Pará, por volta das quatro da tarde do dia 5 de outubro. Percorreu a pé estradas ermas, parando à noite para descansar e rezar. Foram mais de 77 km até a Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém, onde chegou ao fim da tarde de 6 de outubro. Vinha para o Círio de Nazaré, uma das maiores celebrações católicas do Brasil.

Maria José Oliveira, de 44 anos, trouxe de Bujaru uma fitinha para amarrar na grade da basílica. Queria agradecer uma graça alcançada. “Minha filha Rosinária tinha o sonho de entrar para a universidade”, diz Oliveira, que trabalha no cultivo de mandioca e açaí. “Queria um emprego melhor, uma vida melhor. Mas minha família não tem dinheiro para pagar.”

A mãe devota mandou a filha fazer o vestibular e pediu a intercessão de Nossa Senhora de Nazaré. Rosinária passou em ciências contábeis na Universidade Federal Rural da Amazônia. Oliveira tem dez filhos, e Rosinária é a primeira da família a entrar em uma universidade. A mãe também pediu forças para que a filha permaneça no curso. “Ela trabalha como secretária de dia e estuda à noite”, diz. “É puxado. O pai a leva num trecho de moto, depois ela ainda pega uma van.”

Nos dias do Círio, Belém se prepara para acolher os romeiros. Há postos de atendimento no entorno da basílica. Na Casa de Plácido, católicos recebem os romeiros para um lava-pés. São filas de voluntários diante de bacias com água corrente, sabonete líquido, esponja e hidratante. Os romeiros retiram seus calçados. Quando não têm feridas, os pés doloridos são lavados, secos, massageados e hidratados. Os pés com bolhas e feridas graves são encaminhados para um ambulatório. A liturgia do lava-pés remete ao episódio do Evangelho segundo São João em que Jesus lava os pés de seus discípulos na última ceia.

No salão paroquial, voluntários também servem aos romeiros. Aferem a pressão, fazem massagens nas costas e oferecem uma refeição de macarrão com frango e suco. Uma banda anima os viajantes cansados com uma canção que anuncia a chegada de Nossa Senhora de Nazaré, a Rainha da Amazônia.

Com o calor do Pará e as longas caminhadas, os pés ficam feridos e com bolhas. Foi o que aconteceu com os de Tabata Samanta do Rosário, do grupo de Bujaru. Ela recebeu curativos e um pouco de hidratante no corpo queimado de sol. Veio pedir pela saúde da mãe idosa e da filha.

Também na fila do lava-pés, a dona de casa Elba Ferreira, de Santa Izabel do Pará, agradecia pela recuperação do filho que caiu da moto e quebrou o fêmur. A ciclista Renata Brito, de Bragança, no Pará, pedalou 245 km para agradecer pela filha bebê que se curou de uma enfermidade nos olhos. E a freira Suzana Maria da Silva, de Fortaleza, viajou um dia inteiro de ônibus. Professora na periferia, pediu paz: “É um momento de muita violência. Vejo muitos jovens morrerem. Vim pedir também por mais vocações sacerdotais.”

O Círio mobiliza toda a cidade. Nas casas mais simples, há cartazes com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Nos prédios ricos, réplicas da santa dentro da berlinda e varandas enfeitadas com balões brancos e amarelos. Nos elevadores, os porteiros solicitam contribuições para a caixinha do almoço do Círio. Na sorveteria Cairu, nas Docas, a mais chique e cara da cidade, um rapazote tenta impressionar as moças: “Se vocês quiserem, eu boto vocês na varanda da Fafá, vai estar cheio de globais. Até a Rafa Kalimann vem este ano.” Num trecho estreito da Rua Gaspar Viana, onde se reuniam alguns usuários de crack, uma mulher pedia a quem passava algum trocado para garantir seu prato de maniçoba.

As ruas ficam cheias, o trânsito dá um nó. Os ônibus chegam lotados da periferia. A cidade vive entre festas e sacrifícios. Na noite do dia 7, um grupo de idosas caminhava com terços grossos de madeira e velas nas mãos. Cantarolava uma música do Padre Zezinho: O povo de Deus era rico de nada/Só tinha a esperança e o pó da estrada/Também sou Teu povo, Senhor.

Naquela noite, recebi uma ligação de minha mãe: “Consegui um emprego. Agradeça no Círio por mim.” Fazia um ano que ela estava desempregada no Rio de Janeiro. Comprei cinco fitinhas de cetim por 6 reais, para amarrar na grade da basílica, como fez Maria José Oliveira. Mas estaria um ateu autorizado a agradecer por terceiros? “Claro que sim”, disse Roberta, a motorista de Uber umbandista e devota de Nossa Senhora de Nazaré. “Nazinha reconhece qualquer sacrifício.” Amarrar uma fitinha, no entanto, não é um sacrifício.

Às sete da manhã de 8 de outubro, domingo, a praça da Catedral da Sé já estava cheia. Era de lá que sairia a imagem da santa, carregada na berlinda por meio de grossas cordas até a Basílica de Nazaré. Um profissional da Cruz Vermelha advertiu: “Sair na corda é um sacrifício enorme. É só para quem aguenta.” O silêncio na praça foi rompido por um murmúrio coletivo quando a imagem de Nossa Senhora de Nazaré despontou em meio à multidão.

Uma mulher indígena pegou seu filho vestido de anjinho e o ergueu diante da berlinda, a uns 10 metros de distância. Quando a santa passou, ela aninhou o filho no colo e seguiu a procissão. O marido se ofereceu para carregar o menino. A mãe recusou, como se aquele momento fosse um pacto de sacrifício que só dissesse respeito a mãe e filho. O Círio emana uma força muito feminina e maternal. Mães carregam cabecinhas, perninhas, bracinhos, pulmõezinhos feitos de parafina – a parte do corpo dos filhos que foi curada. Uma delas estendia pedaços de papelão para que a filha atravessasse a procissão de joelhos sobre o asfalto.

No meio do caminho, na Igreja de Nossa Senhora das Mercês, um recado conservador do clero católico: “Nossa Senhora de Nazaré, livrai-nos do mal do aborto.” A cada trecho da procissão, havia um palco com cantores animando os romeiros. A música preferida dos paraenses é uma canção animada que diz: Naza, Nazarezinha, Nazaré Rainha/Mãe da terra, Mãezinha/Me ajuda a cuidar.

Foram 3,7 km de procissão, com mais de 2 milhões de fiéis. A festividade só terminou ao meio-dia com uma missa dentro da basílica. O padre jogava água benta sobre os peregrinos. Muitos deles seguravam carteiras de trabalho. Segundo o Censo de 2010 (o ibge ainda não divulgou dados sobre religião do Censo de 2022), há 123 milhões de católicos no Brasil. E 8,6 milhões de desempregados. Alguns romeiros descansavam à sombra da catedral.

Na grade da basílica, amarrei uma fitinha amarela que dizia: “Fui ao Círio e lembrei de você.”


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Repórter da piauí e roteirista de cinema