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UM TRONO DISTANTE

Em Brasília, o aniversário de Charles III foi mais cedo
Imagem Um trono distante

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Às 20h09, o som de duas gaitas de fole se espalhou pela Embaixada do Reino Unido em Brasília. Foi a deixa para a embaixadora britânica Stephanie Al-Qaq e o diplomata Graeme Cummings subirem a um palco armado no jardim do casarão para saudar os cerca de novecentos convidados do evento da noite de 5 de junho, quarta-feira. “Muito boa noite”, disse a embaixadora, com sotaque inglês. “Sejam bem-vindos, nossos amigos e parceiros brasileiros, que se juntam a nós para o aniversário oficial de Sua Majestade, o rei Charles III, em Brasília.”

Enquanto os diplomatas davam início à parte cerimonial, os convidados bebiam Chapel Down Brut, um espumante de Tenterden, no sudeste da Inglaterra. Garçons circulavam com bandejas que ostentavam quitutes brasileiros – como empadinhas de alho-poró – e iguarias não tão comuns no país, como um espetinho de frango mergulhado em molho de amendoim.

“Gostaria de saudar especialmente nosso convidado de honra, o cacique Raoni”, acrescentou a embaixadora, indicando o líder indígena, sentado a poucos metros do palco. A presença do cacique aludia ao Dia Mundial do Meio Ambiente, que desde 1972 é celebrado em 5 de junho. Anos antes de subir ao trono, Charles encontrou-se com Raoni. Em 2023, já coroado, enviou a ele uma carta sobre a preservação do meio ambiente.

O cacique disse algumas palavras de agradecimento ao público em seu idioma nativo, o kayapó (mebêngôkre), traduzidas para o português por seu neto Beptuk Metuktire. Em seguida, a Banda do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha brasileira se posicionou para tocar os hinos do Reino Unido e do Brasil. Depois dos hinos, Al-Qaq levantou a taça para um brinde: “Um, dois, três: God save the king.” Os convidados repetiram, em coro: God save the king!

Àquela hora, Charles III, que trata de um câncer, provavelmente estaria dormindo, pois já passava da meia-noite em Londres. Tanto mais que 5 de junho não é de fato a data de seu aniversário. Ele só completará 76 anos em 14 de novembro.

Como sabe qualquer consultor da série The crown, as celebrações oficiais do aniversário do soberano não se dão necessariamente em seu mês de nascimento. E não têm um dia exato: ocupam toda uma temporada, entre fim de maio e meados de junho. Nesse período, os países da Commonwealth e as representações diplomáticas daquele que já foi o império onde o Sol nunca se punha fazem suas cerimônias.

O grande evento, com a presença suntuosa do monarca e da família real, é a parada militar conhecida como Trooping the Colour, em Londres, que neste ano aconteceu em 15 de junho, dez dias depois da festa em Brasília. A cerimônia teve a presença da princesa de Gales, Kate Middleton. Foi a sua primeira aparição pública, desde que, em março, ela anunciou que está com câncer.

Com mais de 260 anos de tradição, o Trooping the Colour, hoje um evento do calendário turístico londrino, tinha, na origem, uma função militar. No campo de batalha, cada tropa (troop) agrupava-se em torno de uma bandeira de cor diferente. Em meados do século XVIII, o desfile do Trooping the Colour em Londres passou a celebrar o aniversário do monarca, embora isso ainda não ocorresse todos os anos.

Foi só no reinado de Eduardo VII (1841-1910), bisavô de Charles III, que se definiu junho como o mês da parada de aniversário, por uma razão meteorológica: é um raro período ensolarado na Inglaterra. Tropas enlameadas não projetam uma imagem digna da realeza.

Em Brasília, o aniversário sem aniversariante fez as esperadas reverências à tradição monárquica. Mas, como qualquer celebração contemporânea, também se ajustou ao império sem nobreza de Mark Zuckerberg: objetos, situações e ambientes instagramáveis espalhavam-se pela embaixada.

Do lado de fora, reluzia um Jaguar SUV branco, um dos símbolos automotivos da Inglaterra. No salão de entrada, a embaixadora recebia os convidados junto a uma foto em grandes dimensões de Charles III e da rainha, Camilla. Em seguida, posava ao lado deles em frente a um mural branco no qual se lia “Aniversário do Rei 2024”.

No jardim, perto da estação onde era servido chope (gelado), montaram-se cenários para selfies: um banner com a imagem do Palácio de Buckingham, dois homens com a clássica roupa da Guarda Real britânica e a indefectível cabine telefônica vermelha. Ao longo da festa, os convidados não se inibiram de formar filas nesses cenários para tirar fotos.

O público era formado em grande parte por militares fardados e representantes diplomáticos, todos identificados com a bandeirinha do seu país no paletó ou entre as lantejoulas do vestido. Estavam lá também o ministro Gilmar Mendes, do STF, e alguns parlamentares brasileiros, como os senadores Soraya Thronicke (Podemos-MS) e Carlos Portinho (PL-RJ). Não foram avistados políticos da esquerda.

Nos cantos do jardim, quatro barraquinhas brancas de festa junina brasileira serviam comidas típicas inglesas: roast lamb (cordeiro assado), roast beef (carne bovina assada), Baileys ice cream e fish and chips – o prato mais requisitado da noite, servido num cone largo de papel. Uma simpática bandinha tocava canções amenas dos Beatles, Elton John e Amy Winehouse, entre outros clássicos britânicos. No palco onde falou a embaixadora, foi colocado sobre uma mesa um tentador bolo de três camadas com um desenho da coroa real em cima. Mas era apenas simbólico – e os convidados não tiveram a chance de experimentá-lo.

Quase no final da festa, todos foram conduzidos para o interior da embaixada. Estava na hora das sobremesas e, naturalmente, do chá. Muitos então aproveitaram para tirar fotos ao lado do piano de cauda e do retrato do rei com sua mãe, a rainha Elizabeth II (1926-2022). Pouca gente deu atenção ao retrato, ali perto, do diplomata George Canning, que teve papel importante no reconhecimento internacional da Independência do Brasil.

Quando a festa já se esvaziava, lá pelas dez da noite, a piauí ouviu as impressões dos garçons. Francisco já estava em seu terceiro Trooping the Colour da embaixada, o segundo com o rei Charles III, que assumiu o trono em maio de 2023. Ainda assim, ficou surpreso em saber que o aniversário do rei na verdade é em novembro: “Eles comemoram antes? Esses caras lá de fora são meio malucos.” Jorge, experiente em eventos da embaixada, manifestou nostalgia pelo longevo reinado da mãe de Charles III: “Rapaz, esta festa não foi muito animada, não. Você tinha que ver como era a da Elizabeth, tinha até banda de rock.”


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Repórter da piauí