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Pedro Tavares Jan 2024 09h58
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Ao percorrer as estradas que cortam a Chapada Diamantina, o viajante mergulha em uma paisagem inóspita, de plantas rasteiras que espalham seu tom verde-amarelado até o horizonte, emoldurado por grandes montanhas rochosas. No passado, essas terras do interior baiano foram marcadas pela mineração dos diamantes que lhe deram o nome. Hoje, atraem sobretudo aventureiros dispostos a se embrenhar por trilhas labirínticas com o objetivo de alcançar grutas pouco acessíveis e bonitas quedas d’água. Recentemente, outro grupo de pessoas tem viajado até a Chapada Diamantina, porém interessadas mais nas aventuras do paladar do que nas do ecoturismo: são os enófilos, que chegam muito curiosos para experimentar os vinhos que estão sendo produzidos ali.
O Sul é ainda a região brasileira com mais tradição na viticultura. Mas o Nordeste tem se firmado há algum tempo como referência na produção tanto de uvas de mesa (para o consumo in natura) quanto de uvas viníferas (destinadas aos vinhos). O Vale do São Francisco conta com vinícolas importantes, como a Rio Sol, em Pernambuco, e uma filial da gaúcha Miolo, na Bahia.
A ideia de desenvolver um terroir na Chapada Diamantina foi do engenheiro agrônomo Jairo Vaz, que em 2008 plantou as primeiras videiras. Satisfeito com o resultado, ele abriu oito anos depois a Vinícola Vaz, na cidade de Morro do Chapéu. A iniciativa estimulou produtores, que inauguraram duas outras vinícolas no município: a Santa Maria, criada por parceiros de Vaz no plantio pioneiro, e a Reconvexo, cujo nome brinca com o antagonismo geográfico da Chapada com o Recôncavo Baiano, região em torno da Baía de Todos-os-Santos, onde fica Salvador.
Com três vinícolas instaladas em Morro do Chapéu, a Assembleia Legislativa da Bahia achou por bem dar ao município o título de Capital do Vinho da Chapada Diamantina.
A quarta e mais recente vinícola a se instalar na região fica na cidade de Mucugê, distante cerca de 243 km de Morro do Chapéu. Chama-se Uvva e tem a ambição de produzir vinhos finos, de maior complexidade aromática.
Na sede da empresa, o visitante que chega para o passeio de degustação é recebido em uma grande sala envidraçada, decorada com móveis de madeira feitos por artesãos baianos. Uma pequena varanda oferece um bom ponto para selfies, tendo como cenário os 52 hectares do vinhedo e a imponente Serra do Sincorá. “Quando você entra pela porta, vê que na verdade o grande personagem que brilha é a paisagem da Chapada Diamantina”, diz Fabiano Borré, sócio e diretor-executivo da Fazenda Progresso, à qual a vinícola pertence.
A Uvva foi inaugurada em 2022, mas projetada dez anos antes, quando as primeiras videiras para o plantio chegaram à propriedade da família Borré. Em 2015, elas já davam frutos, mas em pequena quantidade. Somente em 2018 a Uvva lançou a primeira safra, um Cabernet Sauvignon com produção de oitocentas garrafas, que não foram comercializadas. “Elas estão lá, guardadas. Estamos pensando se vale a pena botar para vender. Está um vinho muito especial”, diz Borré. Hoje, a vinícola oferece doze rótulos diferentes, feitos com nove castas, duas brancas e sete tintas, todas provenientes da França. No site da Uvva, os brancos custam em média 150 reais e os tintos estão em torno de 200 reais.
Em 2020, durante a pandemia, o consumo médio de vinho no Brasil chegou a 2,8 litros por pessoa. Dois anos depois, caiu para 2 litros por pessoa, de acordo com a Associação Brasileira de Sommeliers. Borré avalia que os brasileiros têm resistência ao vinho nacional e que ainda vai demorar até que os tintos e brancos do país conquistem o prestígio dos argentinos e chilenos. É possível que os vinhos brasileiros não sejam tão admirados porque é difícil encontrar os melhores rótulos em lojas e supermercados. O preço cobrado também desanima os compradores.
Fabiano Borré administra a vinícola em parceria com outros membros da família. A propriedade é herança de seu avô, Pedro Borré, que em 1984 deixou São Paulo das Missões, no Rio Grande do Sul, para adquirir terras na Bahia. Foi o início da Fazenda Progresso, que se tornou referência primeiro por sua produção de batatas e depois pelo café premium, comercializado no Brasil e no exterior.
Para visitar a Uvva, é preciso agendar com antecedência no site da vinícola. No início de novembro passado, a enóloga Erika Samantha, que ingressou na empresa em 2021, acompanhou durante uma hora e meia um grupo de oito pessoas no passeio pela fazenda. Com o cuidado de quem acolhe um recém-nascido, Samantha acariciava os pequenos cachos de Syrah, ainda sem as frutas, mas já florindo, enquanto explicava o sistema da colheita, que acontece no inverno.
Depois de andar pelos vinhedos, o grupo desceu ao subsolo da vinícola, onde barricas de carvalho francês cheias de vinho dividem espaço com a instalação O tempo espelhado, do artista baiano Marcos Zacariades, que, entre outros temas, aborda a geologia e a história da Chapada Diamantina.
Um dos visitantes perguntou por que o nome da vinícola é grafado com dois “vês”. Samantha apontou para o logotipo da Uvva em uma das barricas e explicou: “O primeiro V faz referência à base de um cacho de uva; o segundo V simboliza os diamantes da Chapada.” As vogais têm a forma sintética de semicírculos: o U virado para cima e o A para baixo. “Se as duas vogais fossem unidas pela base”, disse Samantha, “formariam uma forma ovalada que lembra a bateia dos garimpeiros que extraíam diamantes na Chapada no século XIX”.
A explicação exige bastante da imaginação, mas serviu para a enóloga chegar a uma conclusão triunfante: “Hoje, a uva é o novo diamante da Chapada Diamantina.”