questões cinematográficas
Mar 2011 11h14
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Há uns dois ou três anos, não lembro bem, um amigo me entregou uma caixa contendo seis DVDs, e disse apenas: “Acho que isto vai interessar a você.” Previsão certeira, a tal ponto que até hoje não devolvi a caixa. Revejo regularmente “Diário 1973-1983” e, sempre que posso, invento pretexto para exibir e comentar com alunos trechos dos diários de David Perlov.
Casos assim não são comuns – é difícil descobrir um cineasta de envergadura já falecido sobre o qual nunca se ouviu falar. Foi o que aconteceu comigo ao ver “Diário 1973-1983”. Tempos depois, Ilana Feldman, curadora da mostra “David Perlov – Epifanias do cotidiano”, mencionou o artigo do Paulo Emílio sobre o primeiro filme de Perlov, e me emprestou outros filmes dele. Foram sendo fortalecidos, dessa maneira, inesperados laços e afinidades.
A mostra “David Perlov – Epifanias do cotidiano” terá lugar a partir de hoje, 11 de março, no Instituto Moreira Salles, no Rio, e a partir do dia 18, na Cinemateca Brasileira e no CINUSP “Paulo Emílio”, em São Paulo. É uma ocasião excepcional para ver a obra de David Perlov, cineasta que buscou o anonimato, mas acabou conhecido dada a originalidade e qualidade dos filmes que realizou.
Entre os diretores que puseram o próprio ofício em questão a partir da década de 1960 – Jean-Luc Godard, Alain Cavalier, Krzysztof Kieslowski, sendo os mais notórios –, David Perlov talvez seja o que fez a opção mais drástica – partir do zero. Tendo perdido atração pelo cinema “profissional”, comprou uma câmera, e passou a filmar ele mesmo – sozinho e para si mesmo, de início –, além de ter se tornado professor. Ensinar representou para ele “[re]começar do começo.” Sentia que “todos deveriam começar de novo, do início.”
Em maio de 1973, Perlov filma, primeiro, o que vê pela janela do seu apartamento. Um impulso o leva a virar a câmera para dentro e filmar Mira, sua mulher, e as gêmeas, Yael e Naomi, filhas do casal. Lida, em seguida, com o dilema de viver ou observar, expresso na necessidade singela de escolher entre tomar sopa e filmar a sopa. Passados cinco meses, na véspera de Yom Kippur, testa a câmera filmando o pôr do sol. Na manhã seguinte, começa a guerra entre Israel e a coalizão liderada pelo Síria e pelo Egito, que ele acompanha e filma por outra janela – a televisão.
Em menos de 3 minutos, Perlov sintetiza o percurso do documentarista contemporâneo – observar, inserir-se na observação, interagir e reconstruir registros filmados através da montagem. A aparente espontaneidade dos seus filmes é enganosa – resultam simples, embora sejam fruto de meticuloso trabalho de elaboração.
Nos três documentários que compõem o “Diário revisitado”, realizados na década de 1990, Perlov passa da crônica pessoal, familiar e política do “Diário 1973-1983” para ensaios temáticos, em que através das crianças, da política e do Brasil, trata do futuro, do presente e do passado. Não é seu último filme, mas em retrospecto parece ter algo de premonitório de um fim que se aproxima.
Transgressivo, Perlov desobedeceu sistematicamente, a partir de 1973, a recomendação de Dona Guiomar, sua madrasta negra. Ela dizia que ele nunca deveria retraçar seus próprios passos, por que poderia queimar os pés e não poderia mais andar. Tanto em “Diário 1973-1983”, quanto em “De volta ao Brasil”, terceiro capítulo do “Diário revisitado”, é a isso que David Perlov se dedica – retraçar seus próprios passos.