poesia

NA GLÓRIA

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NOSSA SENHORA DA GLÓRIA DO OUTEIRO

Te vejo do avião

Te vislumbro do Aterro

Pela janela do táxi

Do morro de Santa Teresa

Do quarto dos fundos do hotel

De uma rua qualquer no Catete

Te rodeio

Fixa na noite

Te revejo no Ermitão da Glória

Nas páginas de Quincas Borba

Irmandade do tempo

Limite da memória

Tuas ladeiras

Teus recados

Teus recessos

Leve, leve, leve,

Me leve de volta

Talismã da história.

NOTURNO DA GLÓRIA

Às quatro horas da manhã

caminho

entre as árvores do Aterro.

Mar agitado de mim mesmo.

Eu,

(a quem a memória não traiu)

cão teimoso,

farejando fúria,

combustão, saudade.

Noite adentro,

em meio à hemorragia de nuvens,

abismos de abril.

Caminho

contra a ventania

varrendo ruas,

espalhando pessoas.

Cruzo,

em alta velocidade,

o túnel de uns olhos

rumo à antiga noite.

Sobre escombros,

transitivo,

avesso a tudo,

(quase fora do alcance)

longe,

lá longe,

caminho.

Às quatro horas da manhã,

entre as árvores do Aterro,

luto

contra um mundo esquivo,

contra tua ausência,

incompreensível,

latejando dentro da noite.

HOTEL GLÓRIA

Precipitando tua presença,

dezembro insinua-se pelo tato:

cotovelo de rua, entrada da baía,

nudez mergulhada no quarto.

A janela aberta sobre a marina

modula linhas de fuga no corpo

(passam olhos pelas tuas costas),

num fraseado bem bossa nova.

A tarde tomba vertiginosa,

recorta morros pelo ombro,

desce por encostas barrocas,

contorna tua cintura carioca.

O verão se alastra selvagem,

radioso, lateja, sangra, vaza,

desorbita, arremete: vem!

Disjecta membra da ressaca.

Ex-voto na capelinha da Glória,

lavrado no outeiro do teu corpo.

Lá fora, o sol é mera dedicatória.

11 dezembro 1998

RELÓGIO DA GLÓRIA

Quando o galo das trevas

disparou contra as têmporas da noite

maio soletrou suas primeiras sílabas de pólvora.

Ao lado do pé de fícus,

sob o relógio da Glória,

a morte cravou suas esporas.

O mundo bateu em retirada.

Pedro Nava foi embora.

URCA

Vento persuasivo da tarde,

sintaxe límpida do outeiro.

No primitivo quebra-mar:

onda maleável do desejo.

Prosa ensolarada dos seios,

Urca seduzindo o Aterro.

HOTEL NOVO MUNDO

Na cerração do quarto

um corpo descobre

outro

Na arrebentação da cama

um corpo cobre

outro

Na cabeceira da noite

um corpo

outrora


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Augusto Massi é professor de literatura brasileira na USP, ensaísta e poeta. Publicou Negativopela Companhia das Letras eVida Errada pela 7Letras.