diário da presidência
Fernando Henrique Cardoso Set 2015 22h00
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Entre 1995 e 2002, FERNANDO HENRIQUE CARDOSO registrou de forma metódica as experiências que viveu como presidente da República. Munido de um pequeno gravador, relatava a si mesmo, em voz alta, o que lhe parecia significativo ou curioso no cotidiano do poder. FHC reconstitui encontros e conversas com amigos e aliados, diz o que pensa de uns e de outros, faz críticas (mais do que elogios), comenta notícias a respeito do governo, reclama da imprensa, manifesta inquietações, identifica interesses e aponta intrigas a seu redor.
Do extenso documento gravado resultarão cerca de 4 mil páginas, que estão sendo transcritas pela antropóloga Danielle Ardaillon, curadora do acervo do Instituto Fernando Henrique Cardoso. Parte desse material, compreendendo os anos de 1995 e 1996, vem agora a público no primeiro volume dos Diários da Presidência, a ser lançado no final deste mês pela Companhia das Letras. O livro reúne quase noventa horas de gravação decupadas de 44 fitas cassete. Os outros três volumes devem ser publicados pela mesma editora até meados de 2017.
Os trechos que piauí adianta com exclusividade vão do final de novembro de 1995 ao final de abril de 1996. Os escândalos do Sivam e da Pasta Rosa, a CPI dos Bancos e o massacre de Eldorado dos Carajás foram casos rumorosos que marcaram o período, sobre os quais o diário se debruça. Há, ainda, espaço para trivialidades, de um lado, e reflexões abrangentes, de alcance histórico, de outro. Elas permeiam o testemunho de uma preocupação constante com a sustentação do governo no Congresso e o preço que isso cobra, tanto do Executivo quanto dele, pessoalmente.
TERÇA-FEIRA, 28 DE NOVEMBRO DE 1995_Hoje as coisas parecem ter acalmado um pouco. Pelo menos as fofocas. Naturalmente, nos jornais ainda continua a repercussão da demissão do Xico.[1] Ele mandou mais uma nota, pouco feliz, porque no final diz que estava lutando contra a corrupção, no fundo falava do episódio do Júlio,[2] mas, claro, cai lama no governo. Cada um está pensando em si por despreparo para o exercício de funções públicas com responsabilidade. Mas isso não é a questão principal a ser relatada aqui.
Agora à noite saíram daqui Luís Eduardo, Luiz Carlos Santos e Sérgio.[3] O Serjão jantou comigo, mas foi embora antes. Discutimos a pauta do Congresso e como levaremos adiante as reivindicações – sempre as mesmas – dos deputados.
Hoje veio a bancada do PFL de Minas tomar café da manhã comigo. Todos dizem que têm questões menores, que não querem conversar comigo, que eu designe quem tratará do assunto, e eles só querem umas nomeaçõezinhas, uns contratinhos, essas coisas, o beabá dessa política empobrecida.
Mas discutimos os grandes temas. Levantaram as dúvidas gerais, dei uma quase aula sobre a situação do Brasil, foi agradável. Não vai mudar nada enquanto não se fizerem as nomeações que estão desejosos de ter.
Malan aflito em relação à questão do endividamento dos estados,[4] duas vezes eu disse a ele que podia fazer, mas parece que tem receio de que o Serra não esteja de acordo e vão discutir amanhã no Conselho Monetário Nacional. É uma coisa muito lenta, porque um fica paralisando o outro.[5]
Fora isso, repercussão da reunião que tivemos aqui na noite de ontem. O Eduardo Jorge[6] considera que o Sérgio reinterpretou tudo e vai continuar na mesma, o que é, na prática, verdade. Acho que é preciso ir levando adiante esses relacionamentos de um modo mais forte, mesmo porque estou cansado de ser, digamos, atacado por força da briga dos meus amigos do círculo íntimo. Esse círculo íntimo tem que ser quebrado, tenho que nomear alguém no Palácio que não pertença a ele para que as coisas entrem em certa normalidade.
Do ponto de vista geral, houve maior tranquilidade. Falei com os líderes, que disseram que iam segurar um pouco as coisas no Congresso. Jobim foi ao Congresso, fez uma exposição sobre os últimos acontecimentos,[7] parece que se saiu bem. E me deu conta da sindicância que está fazendo. A Polícia insiste na versão inicial e disso parece que não se vai afastar. O Jobim terá que punir algumas pessoas dentro da Polícia, mas é problema interno dele.
Quanto a mim, tive que abrir uma sindicância em cima do Júlio, porque, uma vez tendo havido denúncia, tem que haver sindicância.[8]
[…]
Hoje fui também ao lançamento do programa de telecomunicações do Serjão,[9] tudo bem, fiz um discurso, aplaudidíssimo, falei com força sobre as questões brasileiras. Claro que a imprensa deverá diminuir isso, porque estamos em maré baixa.
Depois almocei com Ricupero[10] e várias pessoas do Itamaraty, o Ricupero se aposenta. Muita homenagem, ele ajudou bastante na consolidação do Real. Um grupo de deputados e donos de hospitais veio me dizer que realmente a questão do SUS não pode continuar assim.[11] Não sei.
E houve também um fato desagradável, grave. O Euler Ribeiro, relator da comissão de reforma da Previdência, tinha combinado com Marco Maciel[12] que discutiria conosco o relatório e não fez isso. Foi lá, apresentou o relatório do jeito que queria, mantendo uma porção de privilégios que são inaceitáveis. Isso mostra as imensas dificuldades que se tem para mudar as coisas no Brasil. Mas disso nós todos já sabíamos. Vamos em frente.
QUINTA-FEIRA, 30 DE NOVEMBRO_Estou em Belo Horizonte.
Ontem aconteceu o seguinte: cheguei ao Planalto, chamei o Lôbo, o Sardenberg,[13] e mostrei a denúncia bombástica do senador Gilberto Miranda.[14] Nem levei muito a sério, porque são coisas antigas. Respondi em carta ao Miranda porque ele faz uma insinuação de que, em dezembro de 94, quando esteve comigo em minha casa no Lago Sul, tivemos uma conversa de que só nós dois sabíamos. A conversa era simplesmente uma transmissão do pedido do governo Itamar para que ele relatasse o projeto do Sivam que estava segurando. Comuniquei ainda ao Sarney[15] essa questão, conversei várias vezes por telefone com ele, com Luís Eduardo, e avisei o Antônio Carlos,[16] a quem também mandei cópias. O Lôbo vai responder. O Lôbo é frio, calcula, é até mais estrategista do que eu, porque, ontem, me irritei um tanto.
Jader Barbalho[17] veio me procurar e desdisse o que dissera no Alvorada. Acha agora que é preciso anular o Projeto Sivam, acha que eu deveria anular. Eu disse que tinha alguns problemas, estava considerando, mas, enfim, que tinha que ver, porque dizia respeito à Aeronáutica e eu teria que chamar o Conselho de Defesa Nacional. Isso partiu dele, ele queria que eu anulasse hoje para esvaziar a comissão do Antônio Carlos. Aí é briga do PMDB com o PFL. Mais tarde, foi à Câmara, falou de novo comigo, passou o telefone para Michel Temer.[18] Este repetiu [a proposta], aí me exaltei um tanto, e disse: “Michel, você também entrou nisso, então é o PMDB todo que quer a anulação?”
Posteriormente soube que declararam isso à imprensa, e mais, declararam que queriam que eu convocasse o Conselho de Defesa, quando era o contrário, eu é que tinha dito que o convocaria. Fica no ar essa confusão do Sivam.
[…]
Agora, estou em Pirassununga, na Academia da Força Aérea. Passamos o dia lá em Belo Horizonte num clima muito bom o tempo todo.
Inaugurei o Encontro das Donas de Casa, fiz discurso sobre o papel da mulher na democratização. Almocei no Palácio da Liberdade com os ex-governadores do estado, menos o Hélio,[19] que estivera comigo na véspera. Muito interessante, toda a bancada, um clima muito bom. O Eduardo Azeredo[20] é jeitoso, simpático, está fazendo modificações em Minas, para melhor. Sussurrei-lhe que é mais provável que a Mercedes-Benz venha para Juiz de Fora, pelo que deduzi da conversa que tive com o presidente da Mercedes na Feira Alemã. Não é uma coisa decidida, mas há uma forte possibilidade. Ele ficou eufórico.
Estivemos em vários lugares. Havia muita gente, o povo na rua bastante simpático, salvo naturalmente os grupos da CUT e sei lá do quê, grupos pequenos de trinta pessoas, com cartazes, vai sair no jornal e na televisão, todos esses grupinhos. O povo não, o povo muito aberto, na Telemig, por exemplo, onde se deu a reunião sobre as donas de casa, todos os funcionários, muita alegria, muita fotografia, também no Palácio da Liberdade, parece que continuamos em maré boa quanto à popularidade.
Evitei a imprensa por causa do Projeto Sivam, perguntaram o dia inteiro.
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SÁBADO, 2 DE DEZEMBRO_Como já disse aqui, passei a manhã de ontem na solenidade de formatura da Academia de Pirassununga e, durante a sessão, conversei longamente com o Lélio sobre o caso Sivam. Ele me contou que Jader Barbalho e Temer o procuraram, conversaram por duas horas. Do ponto de vista técnico, segundo eles, nada a opor da parte dos dois, mas o brigadeiro disse que não entraria na parte política; provavelmente eles terão dito que o problema agora é político, ou seja, PMDB contra PFL. Isso, no fundo, é o que resta de toda essa confusão.
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Ontem, quando cheguei, fiquei indignado com o artigo do Clóvis Rossi, e depois soube de outro, do Josias [de Souza], sobre o Nacional, dizendo que eu tinha ajudado o banco,[21] e o do Clóvis Rossi dava a impressão de que eu permitiria roubo, qualquer coisa assim, no governo. Fiquei muito irritado, telefonei de imediato para o Frias.[22] Disse que não poderia mais ir à inauguração da Folha,[23] que será no dia 4. Frias ficou desesperado, disse que ia fazer os dois engolirem, e fez. Hoje, domingo, ambos escrevem no jornal desdizendo-se. Vou à Folha, mas, nesse caso, fico sempre com um pé atrás. Encontrei o Frias ontem na solenidade do Itaú,[24] ele meio desenxabido, agradou muito à Ruth e disse ao Sérgio que imagina o quanto eu seguro a barra, mas de qualquer maneira houve muito desrespeito pessoal. Ele concordou, mas não sei se tem eficácia de alguma forma, já estou cansado, é demais!, por mais que eu seja tolerante.
Me impressionou o que disse dom Paulo,[25] achava que eu estava um pouco mais nervoso nos últimos tempos, que era bom aparecer na televisão mais calmo, mais confiante. Talvez eu, sem me dar conta, com o cansaço de quase um ano de governo, tenha ficado um pouco mais intolerante nas apresentações públicas. Vamos ver. Se for assim, vou corrigir isso.
DOMINGO, 3 DE DEZEMBRO_De manhã fomos à casa do Giannotti,[26] almoçamos lá, com Jabor, a mulher dele, Luiz e Regina.[27] Também conversa amena, churrasco, tudo tranquilo. Giannotti tinha estado com o Serra na véspera e com Vilmar.[28] Serra deu uma visão um pouco pessimista de que a economia não vai crescer, um pouco na linha de que é a taxa de juro que provoca a recessão. Eu tentei repor um pouco para evitar que o Giannotti tenha uma visão divergente e comece a disparar, mas a gente nota que persiste essa profunda fratura entre Serra e Malan na visão das coisas.
Voltamos para casa e à noite fui ver o Tom Jobim, numa homenagem feita a ele pela Bolsa de Mercadorias e Futuros.[29] Todo mundo lá. Fui aplaudido generosamente, em pé, pelo teatro, mostrando que existe ainda muito prestígio aqui. A Folha publicou uma pesquisa que mostra a mesma coisa, até subi um pouquinho em vez de cair, com todos esses episódios mais recentes.
Serra me disse hoje que soube que a IstoÉ está com a lista dos políticos que foram ajudados pelo Banco Econômico.[30] Agora começa essa chantagem. Ao dizer que tem dinheiro de campanha, acho que o Gilberto Miranda se referia a isso. É essa vergonheira. Chantagem para cá, chantagem para lá.
Neste domingo os editoriais dos jornais são ruins, cobram, parece que fiz um grande erro, não sei qual, queriam que eu fizesse o quê? Que fuzilasse o Júlio? Que o trucidasse antes da hora? É uma sanha curiosa, aparece uma brechinha e vem todo mundo em cima para ver se fura o dique, mas eles se iludem, o dique é forte. Inclusive, vem aí análise de que estou abatido, pessoalmente, psicologicamente, tudo uma coisa um tanto superficial.
É claro que tenho que me encolher um pouco para ver os danos, as consequências, e retomar o ataque em seguida. Não há dúvida quanto a isso. Já falei com o Serra sobre o relatório do Euler, e o Serra deve ter falado com o Michel Temer para corrigir as coisas do Euler [na Câmara]. Vamos ver o que a gente consegue.
Relatei aqui que liguei indignado para o Frias, disso resultou que tanto o Rossi quanto o Josias de Souza, mais o Josias até, como disse o próprio Frias, engoliram o que tinham escrito. É bom porque assim eles veem que têm que dar uma parada, no fundo é tentativa de me flechar, porque acham que já estou pronto para ser abatido. É uma nostalgia de impeachment, como se houvesse uma imprensa capaz de derrubar pessoas. O Elio Gaspari não teve outra ideia a não ser a de me comparar com Nixon nas fotos, não li o texto. Então, veja você, querem fazer um Watergate a partir dessa história! É extraordinário, como se houvesse alguma relação entre uma coisa e outra.
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TERÇA-FEIRA, 5 DE DEZEMBRO_Ontem fui ao almoço da Folha. Tudo correu bem. O Frias fez um discurso dizendo que eu era honrado, grifando a voz, como querendo se penitenciar; eu fiz um discurso simpático relatando em que condições comecei a colaborar com a Folha no tempo da ditadura militar. Disse que fui convidado por ele através do Carlos Lemos,[31] que me levou para tomar um café, junto com o Cláudio Abramo. Logo depois, o general [Sílvio] Frota ameaçou um golpe, o Frias soube pelo próprio Frota, ficou assustado, mudou a direção do jornal, botou o Boris Casoy, mas o Cláudio me avisou que aquilo era só pro forma. Eu não contei tudo isso. Contei apenas que, no dia que o Frias me convidou, ele não dormiu à noite. Porque naquele tempo não era tão fácil aceitar a colaboração de gente que estava sem todos os direitos políticos. Fiz um elogio dele pessoalmente, e mais nada.
Depois vim para cá, reunião com os líderes para discutir a Previdência. Discussão terrível, estavam todos, sobretudo Inocêncio[32] e Michel Temer, já mais ou menos de acordo com a tese do Euler Ribeiro. Eu disse que não podia e tal, fiz um apelo, explicamos um por um, e eles voltaram a discutir, nesta manhã de terça-feira, com Euler, que acabou cedendo quase tudo. Ficou assustado porque Amazonino[33] o apertou, começou a tirar coisas dele lá [no Amazonas] e me pediu que falasse com Amazonino, coisa que vou ter que fazer. Parece que vamos ganhar essa batalha. É uma semivitória, porque a reforma é realmente mínima. Mas em todo caso avança um pouco na parte da Previdência e dá, mais uma vez, sinal de vitória no Congresso. Parece que isso é importante.
Só hoje tomei conhecimento do editorial da IstoÉ, que é lamentável. No final diz que só falta um motorista para eu ser igual ao Collor. E ainda faz insinuações no sentido de que eu teria tido conversas por telefone com o Júlio sobre senhoritas e senhoras de Brasília, o que é uma infâmia absoluta. Aí começam a circular os rumores de que eu estaria na mão da Polícia Federal, que teria gravações minhas com o Júlio, comprometedoras. Tudo imaginário. Mas a política vive de intriga e de infâmia imaginária. Então, levando ou não a sério, que é o que eu faço em geral – não levar a sério –, às vezes a gente tem que atalhar. A coisa da IstoÉ é uma infâmia. Pior ainda do que a Veja. É incrível, é briga entre as duas revistas.
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Eu tenho uma hipótese. Com relação ao fundamental, acho que, quando o governo Itamar resolveu que o Sivam devia passar para o controle da Raytheon, o que aconteceu foi que desarticulou o que havia sido montado ao redor da Thomson, deixando todo mundo tonto. A Raytheon não deu dinheiro nenhum, ganhou porque o financiamento era melhor e porque o governo americano se empenhou politicamente no assunto. Isso desarticulou todo mundo. Eu acho que é o pano de fundo a partir do qual se montou tanta coisa que me parece difícil de entender, tanta confusão ao redor de quase nada.
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QUINTA-FEIRA, 7 DE DEZEMBRO_Hoje estou voltando de Montevidéu.
Vim para casa, almocei, Ruth não estava aqui, foi para o Rio, e na hora de ir para Montevidéu com Malan e com Serra, às quatro, tive um encontro com Malan, que veio com Gustavo Loyola.[34] Disse que os dois tinham muito que falar comigo. Eu devia sair daqui às quatro e meia, atrasamos um pouco, porque ele me trouxe a hoje chamada pela imprensa Pasta Rosa, ou seja, uma série de documentos que o Banco Central encontrou no Banco Econômico da Bahia. Uma parte deles, de alguma maneira, saiu na IstoÉ, acusando Antônio Carlos, Luís Eduardo, Serra, Krause[35] e Sarney de terem recebido dinheiro pela eleição de 1990.
O fato é que no dia seguinte, ontem, apareceu um artigo do Elio Gaspari, e o Serra já me havia alertado de que o Gaspari viu a tal pasta. A suposição imediata de muitos, inclusive do Serra, é que foi um dos diretores do Banco Central que vazou. Eu disse ao Gustavo Loyola: “Como é possível que isso tenha saído?”, ele disse que não sabe, que vai fazer sindicância urgente. O mais provável, a meu ver, é que tenha sido o interventor na Bahia, porque ele foi colega de colégio do Elio Gaspari. Segundo, soube hoje pelo Mario Sergio Conti, da Veja, que a repórter que publicou a matéria da IstoÉ é filha de um amigo desse tal interventor. Acho que é o mais provável. Não obstante, grande escândalo. A pasta contém várias anotações sobre muitos políticos, esses mencionados e outros mais. Serra e Luís Eduardo só aparecem de passagem numa classificação, não se fala nem em dinheiro, mas diversos políticos aparecem, inclusive Antônio Carlos, naturalmente, Sarney, Marco Maciel. Enfim, a cúpula da República, ligada de uma maneira ou de outra à Bahia, é que teria recebido dinheiro na campanha de 1990.
Todo mundo sabe que todo mundo recebeu. Eu tenho a sorte de só ter sido candidato em 1994, quando isso tudo já era legal. Na verdade, tudo isso é uma farsa, mas aparece como se fosse um grande escândalo. Mais um. E, de fato, houve esse vazamento, que é grave, no Banco Central.
[…]
Mal chegamos, recebi um telefonema de Antônio Carlos. Ele veio para cá com Luís Eduardo, ambos muito furiosos com o Banco Central, com o Gustavo Loyola. Eu minimizei, não a responsabilidade, mas ponderei que, acho, o vazamento foi na Bahia. Antônio Carlos acha que não, e já queria derrubar o Banco Central, tem que ter gente de confiança… Claro que estão aflitos, mais ele. Eu o acalmei um pouco. Falei sobre uma coisa grave, que o Jader Barbalho assumiu a relatoria do Fundo Social de Emergência na Comissão de Constituição e Justiça, isso pode criar dificuldades para o governo.
Antônio Carlos estava contente porque, na sua comissão, o brigadeiro Oliveira[36] teria espremido, e muito, o Gilberto Miranda. Parece que o Gilberto Miranda está mal. Ele telefonou para o Sérgio Motta ameaçando, disse que vai contar tudo que já disse a mim, eu não sei o que ele disse a mim, a não ser insinuações de que a Aeronáutica utilizaria a Camargo Corrêa e a Odebrecht, por isso é que estava contra, e também insinuou, num outro momento, que o Hargreaves[37] talvez tivesse algo a ver com a Thomson. Umas coisas vagas, sem a menor importância, nem sei se é verdade, mas ele está num desespero, ameaçando e não sei mais o quê, porque está mal, foi pego com a boca na botija. Acho que tudo isso vai enfurecer mais ainda o Jader.
[…]
SEXTA-FEIRA, 8 DE DEZEMBRO_É quase meia-noite.
O dia foi tomado com outras questões. Relatei ontem a presença do Antônio Carlos aqui por causa da famosa Pasta Rosa. A história da Pasta Rosa continua. O Serra na [TV] Manchete diz que quer que se revele o conteúdo dela. Parece que hoje pediu ao procurador para mostrar a sua parte, que não é nada. Isso tudo gera ruído.
O Antônio Carlos disparou contra o Loyola pela televisão, diz também que tem documentos que comprovam que Loyola recebeu dinheiro de consultorias [antes de ser presidente do BC], como se o Loyola fosse culpado. A Ana[38] acabou de falar por telefone comigo e disse que o Elio Gaspari manuseou realmente o material e estão todos querendo saber se eu sabia. Há quatro meses, quando da intervenção no Econômico, o Loyola me contou que havia uns documentos, eu disse: “Olha, toma cuidado com isso, vamos ver o que é”, depois ninguém me informou mais nada, e não tinham por que informar. Ontem ou na véspera de eu ir para Montevidéu é que efetivamente vieram para saber o que fazer com a pasta, mandei dar ao Brindeiro.[39] E ainda bem: Brindeiro deu uma declaração boa, esvaziando a dramaticidade da questão.
Claro, as revistas desse fim de semana voltarão ao assunto, não sei quanto tempo isso dura, mas é mais um espetáculo lamentável, só que dessa vez a tragédia da CPI da corrupção do Senado volta como farsa, não tem nada.
SÁBADO, 9 DE DEZEMBRO_É quase meia-noite. Fui de manhã ao Planalto para despachar muita coisa com Eduardo Jorge e Clóvis,[40] voltamos a comentar os episódios mais recentes. Fora isso, muito nervosismo a respeito de boatos de que Loyola se demitiria, posteriormente que viria uma nota em relação a Antônio Carlos, tudo, por enquanto, onda.
Antônio Carlos deu uma entrevista violentíssima no Globo chamando de marginais os diretores do Banco Central.
Voltei para casa e passei a receber as pessoas.
Eduardo Jorge diz que achava que o melhor que eu faria era tirá-lo, porque assim a pressão sobre o Palácio diminui. Também tem medo de que haja repercussões nessa caça às bruxas, porque, como esteve metido na coisa lá dos seguros, na companhia nos Estados Unidos,[41] poderia haver ilações, que não são verdadeiras, mas são sempre desagradáveis. Conversa calma, admiti essa possibilidade. Tanto que começo a formar na cabeça a hipótese de uma reformulação real de governo.
Depois disso, junto com Eduardo recebi o Marco Maciel, repassamos tudo e discutimos ainda a questão relativa à convocação do Congresso. Está tudo acertado. Com Sarney, mais com Luís Eduardo do que com Sarney, mas sem problemas. Maciel, calmo, apesar de toda a boataria que menciona o seu nome. Quanto à pasta do Econômico, quem sabe o vazamento não partiu do próprio Ângelo Calmon de Sá. Isso me veio à cabeça agora porque o Antônio Carlos foi tão violento na conversa comigo ontem sobre a questão do Ângelo que não entendi bem por quê, exceto que o homem deixou as marcas lá, será que não é o Ângelo?
Mais tarde tive uma longa conversa com Serra. Aí sim, fomos mais a fundo a respeito da nossa relação. Ele voltou a dizer que eu acho que foi contra o Plano Real, que não foi contra o Real, que ele não acreditava [na possibilidade política de o pôr em prática], eu sei que é isso. Voltei a explicar a ele o porquê de o Malan ser o ministro da Fazenda, Serra concorda comigo que é porque dá a sensação de estabilização. Disse-lhe o que esperava de cada um e que não adianta tentar resolver questões que não têm solução, não posso mexer agora com o Banco Central… Ele deu uma sugestão, quem sabe botar o Jobim como chefe da Casa Civil, o Clóvis como ministro do governo e alguém do PMDB no Ministério da Justiça. Essa ideia não é tão má assim, Jobim tem o physique du rôle, é duro, competente, lê todos os processos, quem sabe, vamos pensar.
Começo a formar algumas imagens sobre o que pode ser essa nova etapa do governo. Vamos a ver.
Conversei com Serra também sobre o futuro. Tem que ficar bem claro que teremos que segurar um pouco o Sérgio. Ele está falando demais. Comprou novamente a briga do Serra na questão dos documentos, falou com a imprensa, disse que o governo não tem nada a temer, nem pasta marrom, enfim, está se expondo além do que acho conveniente para um ministro, assim como os do Banco Central estão se expondo. Telefonei para o Sérgio depois de ter falado com o Serra, a quem pedi que dissesse ao Sérgio pessoalmente que acho que ele vai acabar como uma vidraça muito exposta e que deve se recolher. Pelas informações que tenho, haverá bala contra ele na imprensa. Isso pode complicar de novo e recair em mim.
Também disse ao Gustavo Loyola que, por favor, transmitisse aos diretores do Banco Central que estavam suspensas quaisquer entrevistas ou declarações deles, porque isso está gerando muita confusão.
QUARTA-FEIRA, 13 DE DEZEMBRO_Viajamos para a China. Nas conversas no avião, vimos com muitos detalhes o último conjunto de pesquisas feitas pelo Lavareda.[42] Vence solidamente a posição do governo. É importante, porque aqui e ali pode haver um pontinho de alteração, mas tanto a minha posição pessoal quanto a do governo aparecem bastante tranquilas nas pesquisas. Isso não nos deixa despreocupados, porque, com as últimas sacudidas que tem havido na opinião pública, sabe Deus o que pode acontecer.
[…]
Cheguei à China. No primeiro dia, a China me pareceu, como disse a Ruth no avião, um pouco o Chile, a cor da terra. Mas só isso. A cidade [Pequim] também tem alguma coisa de triste, talvez por causa do inverno. O primeiro inverno que passei em Santiago, junho e julho de 1964, foi terrível, porque triste, parecia muito triste. Tive essa mesma impressão com o inverno daqui.
[…]
Ontem pela manhã, terça-feira [12 de dezembro], telefonei para Eduardo Jorge, que tinha recebido o meu recado, e depois para Marco Maciel.
Eduardo Jorge, aflito, me informou que o Banco Central parece ter um relatório que vai culpar basicamente Ângelo Calmon de Sá e Antônio Carlos Magalhães pela questão do Econômico. Perguntei como era a questão do Antônio Carlos. Uma empresa que se formara fora do Brasil e fez muita tramoia.[43] Eu disse: “O Antônio Carlos é sócio mesmo ou é sócio menor?” A informação que me deu Eduardo Jorge é de que é sócio mesmo. É preciso verificar isso, porque tenho medo de que seja uma vingança do pessoal do Banco Central. Mas, se ele for sócio mesmo, isso explicaria a onda que está fazendo. Está atacando o Banco Central, chamando os diretores de marginais. Como sempre, vai para a ofensiva para evitar uma situação de embaraços. Isso será um grande fator de desestabilização do quadro brasileiro.
[…]
Leio o Globo, cheio de intrigas. Heráclito Fortes[44] procurou o Eduardo Jorge como que o ameaçando de que haveria pressão contra ele, sem base. De qualquer maneira, isso não é gratuito, ou seja, um nucleozinho ligado aos baianos começa a se agitar, provavelmente por causa da questão do Banco Central. Eu precisaria ter uma conversa com o Luís Eduardo. Pelo Globo, ele está zangado, o Sarney também, diz que eu penso que sou mais inteligente que todos, que eles não são bobos e que, além do mais, apareceu a questão da emenda da reeleição. O que eu disse ao Marco Maciel foi simplesmente que o Maluf[45] estava pressionando com essa questão da reeleição dos prefeitos, tínhamos que ver como fazer isso, que era necessária uma fórmula para o Maluf não se sentir desde já agredido e lesado, o que o faria ficar contra as reformas.
Essa é a questão central. Não é que eu tenha pessoalmente querido votar agora nenhuma reforma eleitoral de reeleição, eu sempre soube que isso ia dar confusão, digo, eu sei, mas como é que se segura o Maluf? Essa é a verdadeira questão, e o Marco sabe disso. Está tentando manobrar. O Sarney também sabe, mas quer achar que sou eu que estou querendo colocar a questão da reeleição.
Vê-se que há muitos focos de desagregação. O Congresso começou de novo a querer ocupar um espaço maior do que pode. Imaginando que o governo esteja acuado, começa a pôr as manguinhas de fora, ou seja, se preparar para não votar as reformas já, para barganhar mais.
[…]
TERÇA-FEIRA, 19 DE MARÇO DE 1996_Mais ou menos meia-noite.
Ontem pela manhã, Marco Maciel, Jorge Bornhausen,[46] Luís Eduardo Magalhães e Eduardo Jorge, para discutir o de sempre. O que se faz aqui e ali, como está a situação. Eles me relataram as conversas que tiveram e também disseram que houve certa combinação com Sarney. O Marco conversou com ele e, até segunda prova, Sarney estaria disposto a certa cooperação para pôr um ponto final na CPI.[47]
Fora isso, avaliação sobre o que aconteceu na Câmara, a Previdência, o trabalho do Temer.[48] O Temer, que tinha estado comigo, declarou que eu teria concordado com o texto dele. Eu, na verdade, não tinha lido enquanto ele esteve aqui, só li à noite antes de dormir, de domingo para segunda, e assim mesmo não entendi, pois ele faz referência a outros textos que eu não tinha à mão. De qualquer maneira discutimos que seria necessária uma blitz, que isso só andaria dessa forma.
Depois da reunião com o Marco Maciel, redigi de tarde uma nota para ler hoje, terça-feira, na televisão, como de fato fiz e já vou contar. Para deixar mais claro o que é o Proer,[49] o que está em jogo no Brasil sobre as questões da reforma, minha posição.
[…]
Tive um breve encontro com Paulo Renato,[50] no qual pedi que falasse com o Frias da Folha a respeito dos desatinos que o jornal vem publicando, me pondo um pouco como se eu fosse o Fujimori, numa atitude muito negativa, a partir especialmente do artigo do Otavinho Frias,[51] que eu não li e não quero ler. De qualquer maneira tem havido muita distorção nas coisas do governo através da Folha, que está numa sistemática que não é de oposição, mas de desmoralização. Eles me chamam de autoritário, imagina você, achar que por aí pega. Só faltava essa.
Depois disso voltamos aos temas de sempre, dessa vez a respeito do apoio do PPB [às reformas]. Chamei o Amin, o Odelmo Leão e também o Cafeteira.[52] E pedi que viessem testemunhar o senador Artur da Távola, pelo PSDB, e o Jorge Bornhausen. Expus a eles que eu queria realmente a cooperação do PPB, que essa questão de ministério eu só poderia considerar no momento adequado e que não via razão para essa atitude de rebeldia que parecia estar lavrando entre eles. Amin disse que absolutamente não pede ministério e que Odelmo está marginalizado nas negociações. Odelmo se queixou. Depois se viu que não era verdade, ele participou da única reunião havida sobre a questão da Previdência, quinta-feira da semana passada, depois foi para Minas, os outros também, ele imaginou que tivesse havido reuniões que não houve.
Na verdade, Odelmo disse ao Marco Maciel que eles queriam um ministério, agora cada hora é uma questão. O que eles querem mesmo são questões menores: obter uma vantagem para um, para outro, algumas inaceitáveis, outras não.
[…]
Hoje é dia 19 de março. Levantei cedo para receber as credenciais dos embaixadores da China, Bahamas e Irã. Num dia em que eu estava para tudo menos para isso, porque preocupado com o desenvolvimento das questões e também porque tinha escrito um texto para gravar para a televisão. Hoje tive que refazer o texto no Palácio do Planalto, um pouco atropeladamente.
Depois recebi um grupo de pessoas, inclusive Michel Temer, os líderes, para discutirmos com alguns técnicos a reforma da Previdência. O texto de Michel Temer tinha uma série de imperfeições. Está muito aquém do que nós gostaríamos. Além disso, havia alguns problemas bem mais difíceis de serem aceitos. Discutimos muito, finalmente Michel, que foi cooperativo, alterou os pontos de uma maneira mais aceitável.
Agora à noite, o Serra me telefonou achando que há um ponto inaceitável, que é a questão do “salário perseguidor”, isto é, tudo que seja aumentado do pessoal da ativa vai para o pessoal inativo. O Temer fez uma redação um pouco mais capciosa que dá margem, segundo ele, a que não seja assim. Sabe Deus quem tem razão.
Continuamos essa história até que eu tive que ir almoçar com o presidente da Lituânia no Itamaraty. Longa conversa, difícil porque com intérprete, ele não fala nenhuma outra língua, não obstante é um homem interessante, simpático. Não há muito que fazer com a Lituânia, falei mais sobre a Rússia, que ele conhece bem, um pouco sobre a presença da Lituânia no Brasil, mas eu estava aflito para voltar. Voltei.
Refiz de novo o texto com o Sérgio Amaral,[53] o Clóvis, o Eduardo Jorge e a Ana Tavares, e incluí algumas coisas que estavam faltando que ouvi na discussão da manhã, sobretudo uns dados que o Ministério do Planejamento me havia dado, enfim, muita tensão, porque [estávamos] em cima da hora e eu tinha que fazer muita coisa. Recebi gente com muita insistência, pois nesses momentos o telefone não para, as discussões sobre como as coisas avançam no Congresso, falei com o Jader, e no fim do dia acabei gravando antes da hora acertada, ou seja, depois das cinco da tarde. A gravação sempre demora um pouco, saiu razoável, feita no Planalto sem diretor técnico, sem coisa nenhuma, o texto era denso, grande, pelo que ouvi parece que a repercussão não foi má, nunca se sabe muito bem essas questões.[54]
Depois recebi o senador Jader Barbalho. Ao Jader eu disse com clareza que me parecia que essa CPI era uma afronta a mim, porque tinha sido limitada ao período de um ano, que isso era inaceitável e que eu me consideraria pessoalmente ofendido. Que eu, naturalmente, não ajo em função de ofensas pessoais, mas queria (ele não assinou, mas sabe quem assinou) que ele considerasse que para mim isso era uma provocação política e que eu era contra mesmo.
Ele disse: “Ah mas fica muito mal, porque vamos ter que vencer no plenário do Senado, o governo vai sofrer um desgaste, tem que vencer o Sarney.” Eu disse: “Olha aqui, Jader, eu não estou preocupado com o desgaste, porque estou convencido de que essa CPI é ruim. Não para mim, eu mal tenho conta em banco, tenho pouco dinheiro, nunca me meti com bancos, mas vai haver retaliação. O [Luiz Antônio] Fleury[55] me telefonou (o que é verdade) ainda hoje, para dizer que já mandou uma carta ao Sarney pedindo que a CPI vá até 1974, sobre o Banespa, que ele também quer ir à forra do Banespa, naturalmente haverá os dossiês que existem no Banco Central sobre deputados e senadores, eles vão aparecer, haverá uma lavagem de roupa suja, isso vai pôr fogo no circo.”
Além disso, a CPI põe em instabilidade o sistema financeiro e põe em risco o Real. Eu já estou com o problema do Banco do Brasil. Hoje de manhã avisei ao Sarney e ao Luís Eduardo que haveríamos de suspender a venda das ações do Banco do Brasil. Sarney me disse que eu podia contar com ele para tudo que fosse de interesse patriótico… Eu disse que estava ótimo, mas voltaria a falar com ele mais tarde.
Disse ao Jader que não tinha conversa, que eu não iria aceitar. Ele respondeu: “Bom, então só há duas alternativas. Ou se faz a Comissão e se faz um roteiro prefixado, se limita, se põe o presidente e o relator com gente de confiança, ou então tem que esmagar a oposição, a minoria. Você, que já foi da oposição, sabe o preço disso.” Eu disse: “Mas, Jader, a CPI das empreiteiras nunca foi montada, a dos sindicatos também não, porque não indicaram os representantes. Por que agora vocês indicaram? Vocês é que levaram para esse caminho.”
Eu realmente não estou preocupado com isso, não. Não quero vencer o Sarney, não é o meu objetivo, não sei por que ele está brigando, eu não estou brigando com ele, demos tudo que ele pediu: nomeações, assistência ao Maranhão, dentro dos nossos limites, que são poucos, escassos. Ele mesmo me elogiou de público no discurso de posse no Congresso, eu também o tenho elogiado, não tenho queixa do Sarney, não vejo razão para essa briga.
Aí o Jader me disse: “Pois é, o Sarney disse que se perder no plenário ele renuncia.” Eu disse: “Eu não quero isso, não quero, evidentemente, uma crise entre o Executivo e o Legislativo, entre o presidente da República e o do Senado, é muito desagradável. Agora, por que não buscamos um caminho de entendimento, como o Sarney tinha combinado (eu não disse isso a ele) com o Marco?”
Me pareceu que havia certo jogo, um pouco arriscado. O Jader disse: “Bom, só uma conversa sua direta com Sarney, e eu queria estar presente.” Pedi que fosse [marcada] para amanhã às nove e meia.
De qualquer forma, foi um longuíssimo dia. Recebi de novo os líderes do Senado, o Hugo Napoleão,[56] o Marco Maciel, o Sérgio Machado[57] e o Élcio Álvares.[58] O Élcio, afinal, foi designado, por sugestão do Sarney, para ser o relator dessa medida dos bancos. Eu não sei o que o Sarney está querendo com isso, provavelmente que o governo ponha a cara. Eu digo: “Olha, Élcio, vamos pôr a cara, não temos nada a esconder, não queremos [a CPI] por razões patrióticas, porque isso vai prejudicar o Brasil.” O Élcio topou.
No fim disso tudo, um jantar na Granja do Torto com a bancada do PPB. Estavam muitos lá, os três governadores, o Siqueira Campos,[59] o Amazonino Mendes e o Neudo Campos[60] mais o Roberto Campos,[61] Amin, Cafeteira, isso na minha mesa e mais uns quarenta deputados e senadores. Ambiente descontraído, muito bom, fiz um discurso de agradecimento e não toquei em assuntos delicados, me aplaudiram muito, parece que gostaram. Conversei com Odelmo, ele não sabe ainda como vai ser o comportamento da bancada, falei com Eduardo Graeff,[62] que está com dúvidas sobre se o PPB vai apoiar ou não, gostaram do que eu falei na televisão, mas continua essa lenga-lenga.
No meio do jantar me telefonou o Jader para dizer que precisa falar comigo para relatar a conversa que teve com Sarney. Ao invés de vir com Sarney, vem sozinho amanhã às nove e meia da manhã.
Veja quanta dificuldade. Por trás, o Sarney disse ao Jorge Bornhausen que a Receita está em cima do Jader, eu não sabia, e do Gilberto Miranda, que isso está pondo muito mal todo mundo e que ele próprio, quando [eu] era ministro da Fazenda, teve que pagar 800 mil reais à Receita. Eu não sabia. Não tinha a menor ideia. Eles estão habituados a mandar parar a fiscalização. Hoje não existe mais isso, não tem como mandar parar a fiscalização, nem se deve. É isso que está por trás. O Gilberto Miranda falou com o Eduardo Jorge que, ou se manda parar a fiscalização em cima dele, ou ele põe fogo no circo, vai dizer tudo que sabe etc. etc.
Na conversa que tive agora à noite no Torto com o Amin e com o Cafeteira, eles me disseram que o Antônio Carlos, que aliás falou comigo hoje, confirmando o que eles disseram, estava dizendo que na quinta-feira ele derrubaria o Sarney, muito irritado com Sarney. Eles fizeram um comentário maldoso: não sabem em que Constituição Antônio Carlos foi buscar esse poder para derrubar o Sarney, e que isso é porque o Ângelo Calmon de Sá teria dito que na CPI diria tudo que sabe sobre o PFL do Nordeste, veja o clima que se está criando. Esta gente está brincando com fogo.
Pessoalmente não tenho nada a ver com isso, mas institucionalmente vai levar a uma situação de crise, a crise derruba o Plano Real e, derrubando o Plano Real, lá se vão as perspectivas do Brasil. Essa é a minha preocupação, quase obsessão, e, não obstante isso, ela não pode sequer aparecer em público.
QUARTA-FEIRA, 20 DE MARÇO_Meia-noite.
Um dos dias mais agitados e duros desde que iniciei o governo. Não pela manhã. Nadei, como faço de hábito às segundas, quartas e sextas, e recebi o Jader Barbalho.
Quando eu estava falando com o Jader aqui no Alvorada, recebo um fax do presidente do Senado, José Sarney, no qual ele reproduziu uma nota que soltou para a imprensa desmentindo uma entrevista que havia dado ao jornal O Globo, onde, segundo O Globo, ele teria me criticado e rompido comigo. Ele disse que não era nada disso, que tinha grande apreço pessoal e intelectual por mim, que estava apenas defendendo as prerrogativas do Congresso, depois mandou um abraço.
Eu disse ao Jader: “Olha aqui a carta, leia!” Eu não tinha lido O Globo, vi só a manchete. Eu disse: “Vou telefonar para o Sarney.” Telefonei e disse: “Olha, Sarney, recebi o seu fax, obrigado, agora veja como os jornais estão fazendo. Se você não falou nada disso, é porque quando sai alguma coisa sobre você, você imagina que tenha sido dito por mim ou por alguém ligado a mim. Nós temos que parar com isso. Vai dar uma confusão grande. É preciso acabar logo com essa história de CPI e depois dar uma demonstração pública de congraçamento, por causa das nossas posições institucionais.” Ele aí me disse que foi traído pelo [Jorge Bastos] Moreno, o autor da reportagem, que estava com uma máquina de gravar no bolso. Ele [Sarney] tinha feito umas brincadeiras, o Moreno transformou as brincadeiras em entrevistas, não sei o quê, enfim, desculpou-se.
Volto ao Jader e digo: “Olha, Jader, não sei a que atribuir tanta desconfiança do Sarney. Ele está criando dificuldades sem parar, eu não vejo o propósito. O que está errado? O que se fez de perseguição? Não tem nada. Ele não alega nada.” Jader concordou, disse que Sarney nunca dá nada concreto, não há nada de mais grave e, entretanto, está um clima… É porque tem gente envenenando.
“Sim, mas nós somos macacos velhos, adultos, não podemos nos deixar envenenar à toa. Deve haver algum propósito político, porque não há outra razão, não consigo entender.” “Não! Nós precisamos acabar com isso.”
Combinei com Jader que eu chamaria os líderes para uma discussão na qual pediria que pusessem fim à questão da CPI pelas razões que já aleguei, que são verdadeiras, de que ela causa problemas no país.
Depois fui para o Planalto, manhã relativamente tranquila de preparativos das votações sobre a Previdência, que devem se travar amanhã, quinta-feira.
Volto para casa, almoço com Luciano Martins,[63] depois do almoço tive uma reunião com todos os líderes: Cafeteira, Jader, Sérgio Machado, Élcio Álvares, Hugo Napoleão, Romeu Tuma[64] e o líder Valmir Campelo.[65]
Faço o apelo, dou meus argumentos solenemente, assumo a responsabilidade, como eles gostam, digo que não tenho nada a temer nem a esconder, repito o que já disse ao público, mas que a ideia [da CPI dos Bancos] é inconveniente e que vou dizer por quê. Porque vai começar um tiroteio etc. Todos apoiam, o Cafeteira pede para não falar logo, dou a palavra ao Jader, ele repete de público o que havia dito a mim, que havia dois caminhos: ou bem se aceitava a CPI, far-se-ia um roteiro e uma Comissão de gente responsável, ou então que meu apelo seria levado em conta. Mas ele queria ponderar que era uma coisa histórica e que estaríamos assumindo, eu na frente, a responsabilidade de calar a minoria, porque é um terço, a oposição e tal.
Argumentei que não, que eu estava fazendo um apelo à maioria, apelo aos partidos que me apoiam, que, como a CPI era política, eu estava querendo uma definição política a meu favor, e sem pedir nada ao PT nem ao PDT. Estou simplesmente pedindo à maioria que me apoia. Muito bem. Além do mais, trata-se de uma objeção tecnicamente perfeita, dizendo que não é constitucional. A Comissão de Justiça vai saber se é constitucional ou não. Se for inconstitucional porque está mal redigida, se um terço de novo quiser fazer uma CPI e redigir direitinho, o que eu vou fazer? Vai ser instalada a CPI. Eu apenas estou dizendo que peço aos que me apoiam que não assinem, uma vez que esse governo não está escondendo nada e que essa CPI é uma mera agressão política ao governo.
Ao fim de muitas horas – só o PMDB ficou reunido três horas –, o PMDB decidiu por 10 a 10 manter as indicações para a CPI e Sarney deu o voto de desempate a favor dessa posição, ou seja, contra mim, ou contra o governo, e a favor de manter a CPI. Deixou de ser magistrado para ser parte, e parte ativa, de sua bancada, e pôs o cargo à disposição porque se sentiu desprestigiado pela bancada e a bancada unanimemente o apoiou, aquela cena normal.
Eu soube desse assunto mais tarde, pelo próprio Jader. Perguntei a ele: “Isso significa que o PMDB rompeu com o governo?”
“Não, presidente, não entenda dessa forma, o senhor tem que ter calma.”
“Eu estou calmo. Só quero saber se essa posição é de ruptura com o governo.”
“Não, quase todos que votaram lá reafirmaram ser favoráveis ao governo e ao senhor.”
Eu digo: “Está bem, isso significa, portanto, que na votação no plenário da CCJ cada um vai votar como quer.”
“É isso mesmo.”
Eu digo: “Bom, então tivemos dez votos do PMDB, rachamos o PMDB, e provavelmente venceremos no plenário com mais facilidade.”
Amanhã, quinta-feira, se reúne a Comissão de Constituição e Justiça. Pelos cálculos, vamos ter pelo menos doze votos e eles no máximo dez; ganharemos se não houver traição. É verdade que o presidente é o Iris,[66] e no desempate o Iris vota conosco, porque já votou conosco no partido. E no plenário a folga deve ser maior. Ainda há uma manobra do Sarney que é possível, a de não colocar [a votação] na ordem do dia. Aí a crise se estende por mais tempo.
Eu já não entendo o que o Sarney vai fazer. Não sei se ele está apenas olhando para a história como defensor da democracia e do Congresso contra um presidente que eles querem fazer crer que é autoritário ou se ele realmente mudou de rumo. Na entrevista chegou a dizer que eu não sou intelectual, que sou apenas um professor.
Por trás disso continua a história do Gilberto Miranda, incomodado porque a Receita o está investigando, e a situação dele é muito grave. Esse é o fulcro da questão que começou a minar tudo. Também há coisas relativas ao Jader. Jader foi elegante, jamais tocou nesse assunto comigo, mas parece que uma empresa dele foi multada e sua mulher, a atual, ele mesmo me disse isso, recebeu uma multa de 70 mil reais.
O problema é que eles não estão entendendo que o Brasil mudou mesmo e que, ainda que eu quisesse abafar esses casos, não conseguiria. E não quero. Não quero perseguir, mas também não quero encobrir, pois se não fiz isso com o Banco Nacional, meu Deus do céu, vou fazer com o Gilberto Miranda? É o que faltava. Essa é a questão.
Recebi esta tarde Paulo Maluf. Depois do jantar de ontem, o clima do PPB ficou melhor. Paulo Maluf reclamou muito, porque o Gustavo Loyola o chamou de ladrão. Loyola disse que não, que foi o Maluf quem o chamou, disse que na cadeia quem deve estar é ele. Enfim, vejam o nível em que estamos antes da CPI. Coisa impressionante.
Expliquei ao Maluf minha posição sobre reeleição, ele é candidato a presidente da República. Me tratou com gentileza e cordialidade e, no fim, disse que não ia atrapalhar, mas que não podia me ajudar na questão da Previdência, porque foi chamado de ladrão.
Naturalmente há toda uma pesada rotina, mas os principais fatos políticos são esses que estou registrando. É provável que amanhã ganhemos a reforma tributária no plenário da Câmara. Só que, vale a pena registrar, na última hora o Michel Temer mudou coisas muito importantes que havia combinado conosco, tornando a reforma previdenciária muito pouco eficaz para o combate de uma porção de abusos.
O Congresso não quer mesmo mudar. Ouvi o Abi-Ackel[67] – o Abi-Ackel! –, que vota sempre contra nós, ouvi o Dornelles,[68] o que eles querem? Preservar tudo como está o máximo possível, e não querem saber de uma reforma previdenciária real no setor do funcionalismo público. Vamos ter, digamos, 30% do que queríamos. É pouquíssimo. Vai haver uma vitória mais política do que substantiva, mas dá para perceber que realmente o Congresso não quer mudar nada no que diz respeito às corporações e aos privilégios.
Esse pouquíssimo que está mudando é com um esforço sobre-humano meu, de um pequeno grupo do governo, do Luís Eduardo, de um pequeno grupo do PSDB, do Zé Aníbal,[69] que tem se empenhado muito, e de um pequeno grupo de parlamentares. A imprensa praticamente já se desinteressou das reformas, só está interessada mesmo em demonstrar que está tudo errado. Este é o Brasil de hoje, onde a modernização se faz com a podridão, com a velharia, com o tradicionalismo, o qual na verdade ainda pesa muitíssimo. As pessoas não entendem, não ligam uma coisa com a outra.
[…]
QUINTA-FEIRA, 21 DE MARÇO_Mais ou menos meia-noite.
Foi o dia da virada. Ganhamos tudo. Ganhamos na Câmara, uma vitória de Pirro, ou seja, 352 votos contra 134, mas para ganhar o quê? A proposta Michel Temer. Muito pouco avanço. Trinta por cento do necessário, um passo adiante, sem dúvida. Vamos tentar lutar fazendo DVS [destaques para votação em separado] e melhorar o texto. Politicamente vitória estupenda. Todo mundo comemorou. Chamei os líderes, fiz elogios em público. Elogiei, aí sim, com justiça. Luís Eduardo Magalhães, que foi um bravo, lutou, trabalhou bem, ajudou a ganhar.
Depois passei o dia por conta do Senado. Ganhamos na Comissão de Justiça a votação sobre a questão da constitucionalidade da decisão da CPI dos Bancos por 13 a 9, e o Iris, que é o presidente, se necessário votaria também conosco. Não digo uma vitória esmagadora, mas foi uma votação boa. E o pior, para o PMDB, para o Sarney, é que na bancada do PMDB foi 10 a 10,[70] ele teve que sair da presidência para ir votar pelo desempate. A favor de quê? Porque a pergunta era esta: “O presidente Sarney agiu ou não constitucionalmente aceitando a CPI?” Pois bem, metade do partido dele respondeu que não. Jader telefonou para dar o resultado. Eu perguntei: “Isso quer dizer o quê? Que estão rompendo com o governo?” Ele respondeu: “Não! Todos disseram que estão muito felizes com o governo, não tem nada a ver, não tem nenhuma relação.”
Enfim, a embromação de sempre!
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Depois falei com o Serra, passamos em revista as coisas de sempre, mudança de governo, o que fazer com o Banco Central. Serra está muito empenhado em que eu também mude a Casa Civil. Ele gosta muito do Clóvis, mas acha que o coordenador político tem que ser o chefe da Casa Civil, porque aí os outros ministros vão respeitar. Não tenho muita certeza sobre essas coisas, e o Clóvis é um colaborador leal e excepcional. Mas é preciso dar algum jeito, porque estou extenuado. Numa semana como esta acabei ganhando tudo, mas fiz quase tudo sozinho. Está difícil, e assim não dá. Estou assumindo funções que não são do presidente. Está demais.
SÁBADO, 23 DE MARÇO_O dia de ontem foi mais tranquilo, como todas as sextas-feiras. Nadei, como faço às segundas, quartas e sextas para me sentir um pouco melhor.
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Fui a uma solenidade sobre o Dia Mundial da Água. Tomando de empréstimo uma frase de Krause, aproveitei para dizer que amanheci naquele dia com a alma lavada, em alusão às vitórias no Congresso. Fiz um discurso sobre o sentido da democracia no mundo contemporâneo, os desafios da globalização e também sobre a questão do meio ambiente, do desenvolvimento sustentável. Fiz um pouco de teoria política, citei Hobbes, Montesquieu, Rousseau.
De tarde, recebi o governador Eduardo Azeredo e o prefeito Patrus,[71] brinquei com eles que o Patrus me convidou para ir a Belo Horizonte e eu disse: “Uai, só se for em dia que não tenha greve; na última vez era só onda de greve.” Ele é do PT e o pessoal do PT está tornando sua vida insuportável.
Recebi os deputados do Rio de Janeiro, o Dornelles à frente, com o [Odenir] Laprovita Vieira,[72] chefe da igreja do bispo [Edir] Macedo, mais uns dois que não sei quem são, um muito ligado ao esporte.
Na verdade o que eles querem é nomear o Eduardo Cunha diretor comercial da Petrobras! Imagina! O Eduardo Cunha foi presidente da Telerj, nós o tiramos de lá no tempo de Itamar porque ele tinha trapalhadas, ele veio da época do Collor. Eu fiz sentir que conhecia a pessoa e que sabia que havia resistência, que eles estavam atribuindo ao Eduardo Jorge; eu disse que não era ele e que há, sim, problemas com esse nome. Enfim, não cedemos à nomeação.
[…]
Estive com o Richa,[73] passei para vê-lo na casa do Zé Lírio,[74] depois o Richa veio aqui, pedi que viesse. Richa não quer sair do Paraná. Propôs uma coisa que me é simpática, de que discutíssemos a questão do parlamentarismo outra vez. Eu pretendo, em 1997, abrir a questão política e institucional. A mim não me vai nada mal que não se discuta reeleição agora. O que eu queria em 97 é fazer uma reforma política e, francamente, já tenho pensado em repor a questão do parlamentarismo com uma Presidência forte. É muita tarefa, como eu tenho registrado aqui, a de ser ao mesmo tempo chefe de governo e chefe de Estado.
Estou maturando essa ideia porque tenho receio, conheço o Congresso, sei das dificuldades, é preciso uma lei partidária mais rígida para permitir o parlamentarismo. Mas também é verdade que uma fórmula à la França me parece que seria possível, porque é muita tarefa nas costas de uma só pessoa, e isso permitiria outro enfoque de todas essas questões de reeleição e tudo mais. Não direi nada a ninguém, mas achei boa a sugestão dada pelo Richa – aliás, ela já estava na minha cabeça.
[…]
DOMINGO, 24 DE MARÇO_Queria registrar que na quinta-feira, 21 de março, tive uma longa conversa com Zé Eduardo de Andrade Vieira.[75] Ele acha que vai conseguir botar adiante o banco dele vendendo a Inpacel.[76] Estou preocupado. Porque se o banco tiver algum problema, vamos ter que fazer intervenção, e intervenção, Raet,[77] com um banco de um ministro, como fica isso? Zé Eduardo não tem a sensibilidade para perceber que ele está me colocando numa posição difícil. Ele não utilizou nada de governo para defesa do banco, mas de qualquer forma é a mulher de César.
[…]
Agora no fim da noite, encontrei a Dorothea.[78] Estava aflita pelas notícias de que o ministério dela podia ser barganhado com o PPB. Expliquei que não era assim, isso cria um ânimo ruim, desmoraliza as pessoas que estão trabalhando no ministério. É uma coisa lamentável, a gente tem que fazer frente a essas fofocas que saem na imprensa e que levam a situações desagradáveis, de que eu não gosto, de incerteza.
[…]
Acabei de falar agora pelo telefone com o Britto,[79] o governador do Rio Grande do Sul, que me informou que a convenção do PMDB, convocada para discutir reeleição, para discutir a questão da Vale do Rio Doce – eles estão contra a privatização e eu também tenho minhas dúvidas – e para [que o partido se posicione] contra a reforma da Previdência, foi um fracasso total. Dos 600 e tanto convencionais que têm direito a 700 votos, apareceram cerca de 100. Não conseguiram abrir a Convenção. Sarney passou lá de raspão e foi embora. E o Iris também. Ficou o Jader, esbravejando contra os governadores, mas não foram apenas os nove governadores que não compareceram; o partido não compareceu, quer dizer, esse caminho suicida do Paes de Andrade,[80] endossado agora pelo Sarney e pelo Jader, levou o PMDB ao isolamento absoluto.
Está visível que o PMDB deseja estar com o governo, deseja estar numa posição mais moderna e não se perder nesses descaminhos antiquados e de interesses mais rasteiros de alguns deles, que estão aparecendo para minar o caminho de entendimento claro com o governo para o progresso do Brasil. Foi fantástico isso! Eu não fiz nada. Falei só com o Britto por telefone, que foi me informando das coisas. Mas não foi isso, não foi nem articulação do Britto. Foi realmente o voto claro de que o PMDB não confia nem em Paes, nem em Sarney, nem em Jader, nem em Quércia,[81] em nenhum desses líderes que querem, imagina você, comemorar 30 anos de PMDB.
Talvez quem possa comemorar sejam o Jader e o Quércia, que, bem ou mal, participaram da luta contra a ditadura. Agora, Sarney e os outros! Meu Deus do céu. Comemorar o quê? Sobre a tumba do Ulysses? Meu Deus! Só faltava essa, e acho que foi uma lição que a base do PMDB deu a essa gente.
QUINTA-FEIRA, 25 DE ABRIL_Ontem também foi um dia muito difícil. Por quê?
Hoje está claro o que aconteceu no Pará: foi um massacre.[82] Houve um incidente com um grupo de pessoas que ocupou uma estrada, o governador do Pará mandou a polícia local desobstruir essa estrada, e ela cometeu o massacre. Nada a ver diretamente com a reforma agrária. Não obstante, fica parecendo que tudo isso é consequência da falta de reforma agrária. Tudo bem, é normal que assim seja, mas essa também é uma nova política do PT e associados, de acabar jogando a culpa no governo federal, pois a reforma agrária está no plano federal. O que, aliás, é outro erro.
Ontem passei a manhã no Palácio da Alvorada. Serra me interrompeu a natação, preocupado com a crise no Amazonas: o Amazonino não aceitou a indicação do general [Romildo] Canhim [para a Suframa],[83] porque não passou por ele, então foi [nomeado] um técnico, muito bem.
Depois recebi o Luiz Carlos Santos, com quem conversei sobre os termos em que ele seria indicado líder do governo. Eu disse: “Olha Luiz Carlos, a minha ideia é essa, então você agora atue junto ao PPB.” Ele conversou com o pessoal do PPB, mas só me trouxe a resposta ontem de manhã. O PPB está com o seguinte plano. Maluf, diz o Luiz Carlos, e eventualmente também o Amin são contrários à participação no governo; Maluf quer passar para a oposição. Um [segundo] grupo, grande, organizado ao redor do Vadão [Gomes],[84] quer o Ministério da Agricultura para fins que só Deus sabe quais, e o Dornelles é a opção mais aceitável.
Parece que o PPB não aceita o Ministério da Reforma Agrária sem o Incra. Luiz Carlos sugeriu que ampliássemos a oferta e incluíssemos o Ministério da Indústria, do Comércio e do Turismo. Isso para mim é dolorido, por causa da Dorothea, que é uma ministra de quem eu gosto, e ela tinha que ser avisada dessa manobra.
Depois de uma reunião com Maurice Strong[85] e as ONGS sobre meio ambiente, recebi o Vicentinho[86] e quatro ou cinco dirigentes da CUT. Conversamos sobre tudo, eu gosto do Vicentinho. [Em seguida] ele até me pediu para fazer a reunião deles na biblioteca, depois que eu fosse embora. Deixei, é coisa só do Brasil! Os dirigentes máximos da CUT se reúnem na biblioteca do Palácio da Alvorada. Eles vieram trazer reivindicações dos grevistas de Brasília, a questão dos sem-terra, e havia uma manifestação, dessa vez parece que grande, aqui em Brasília, porque o momento é tenso por causa dos sem-terra. E tentam aproveitar para ver se fazem algo semelhante a impeachment, sempre a mesma história.
Depois disso, recebi para almoço o Luís Eduardo, o Serra, o Sérgio Motta e o Luiz Carlos Santos. Havia uma resistência do Serra, e minha também, a essa coisa do MICT.[87] Ainda aleguei que o MICT está com negociações importantes de investimentos, é um mau sinal, mas os políticos não pensam dessa maneira, eles pensam no número de votos no Congresso. E eu tenho que fazer as reformas. Essa é a armadilha na qual caímos. Eu, desde o início, alertei todo mundo, não vamos ficar presos só às reformas, senão vamos ficar reféns do Congresso. Não adiantou, a sociedade queria reformas. Agora estão mudando de ideia, já se fala pouco das reformas, mas estamos presos nessa armadilha do Congresso.
Então eu disse: “Está bem, de acordo, desde que primeiro se fale com a Dorothea.”
Fui para o Palácio do Planalto, diretamente para o gabinete do Clóvis, chamei o Eduardo, contei a ele, chamei o Paulo Renato e pedi que falasse com a Dorothea, porque os dois são muito amigos. Paulo Renato telefonou em seguida tentando vê-la, falou com [Enrique] Iglesias[88] para saber se havia uma vaga na Cepal.[89] Existe, de diretor-assistente. Paulo Renato falou com ela, perguntou se estava interessada em ir para o Chile. Ela estava viajando, já a caminho, e ficou de conversar num telefone mais tranquilo com o Paulo Renato. Isso foi feito.
Reunião com os governadores na casa do Cristovam,[90] para forçar as reformas e também para renegociar as dívidas. Fiz um longo discurso, dizendo que o governo vai renegociar, mas que era “mais corda para vocês se enforcarem”. Ou se vai à raiz das coisas e realmente se modifica a estrutura administrativa, ou não tem solução, vão ficar o tempo todo chorando e usando o governo federal. Eles sabem disso, mas choram do mesmo jeito. Até brinquei com Cristovam, que era o muro das lamentações o que eles estavam fazendo lá, e que quem gosta de muro é tucano; perguntei se ele era tucano, para amenizar um pouco o ambiente. Depois eu disse que a indústria paulista cresceu 8,1% no trimestre, e todo mundo fala em crise. Nunca vi crise e um crescimento de 8%. E disse que tínhamos que mudar o mote.
Quando termino essa reunião, vem a imprensa toda sabendo das nomeações.
A [tv] Globo entrou em linha direta, em plantão, e anunciou cinco ministérios. Eu neguei. Na verdade, quando fomos ver depois, ela deu direitinho tudo que tinha acontecido no almoço, e isso me aborreceu muito. Me parece que foi o Luiz Carlos Santos, o que é um mau começo para quem vai ser coordenador político: utilizar a Globo. Resultado: chamei o Amin correndo, ele já estava irritado, porque isso abriu o jogo, o PPB ficou assustado porque o pessoal quer Agricultura, e não Indústria e Comércio, e querem realmente para os fins conhecidos. Amin foi cooperativo e ficou de falar de novo à noite com o pessoal. Eu disse a ele que era o Dornelles e nessas condições.
Depois de pensar bastante, mandei anunciar que o Raul Jungmann[91] seria o ministro da Reforma Agrária e confirmei o Luiz Carlos Santos [como coordenador político] no que ele mesmo botou no ar despropositadamente.
À noite, o Amin me disse que a reunião dele com o pessoal não tinha sido fácil, que ele queria falar comigo hoje de manhã, dia 25. Ele me telefonou às nove da manhã, está chegando para conversarmos. O que vai resultar disso? Ele vai fazer pressão sobre mim para mais concessões ao PPB. Tenho certeza disso. Ninguém nasceu ontem, e o anúncio deu esse resultado caótico, que me enfraquece na negociação.
Ontem à noite fui à casa do Sarney porque era o aniversário dele. Estava todo mundo lá, o Luiz Carlos, o ambiente bastante descontraído, um vinho Château Lafite 82, toda a imprensa lá dentro, é assim que eles fazem política aqui, todos me receberam muito bem e também tratei todos muito bem. Sem novidades, voltei para casa.
Todo mundo telefonando. Irritação no PSDB; alguns líderes, claro. Com um coordenador político diminui a força dos líderes, eles pensam que perdem o contato direto comigo. Na verdade, é isso mesmo. Não dá para eu ficar o tempo todo na linha de frente. Os jornais hoje já estampam o negócio do Raul Jungmann e também sobre Luiz Carlos Santos, não sei qual será a recepção, se vai ser má, desses dois. E agora temos que resolver a questão da Agricultura e, eventualmente, da Indústria e Comércio. Se o PPB não aceitar, o que é possível, fica como está e nomeio para a Agricultura o João Elísio,[92] que foi vice do Richa, é amigo do Zé Eduardo e é do PTB. Já está nos jornais! Eu só falei isso com Eduardo Jorge e com o Clóvis, imagino que o Zé Eduardo tenha lançado como uma maneira de se prestigiar. Mas é assim, não tem solução. Mal se pensou, está no jornal e nem sempre de maneira correta. As interpretações vêm e a intriga cresce.
25 DE ABRIL, MEIA-NOITE_Eu disse que ontem foi um dos dias mais difíceis, e anteontem também, desde que assumi o governo. Hoje foi talvez não o mais difícil, mas o mais duro para mim. Por quê?
Pela manhã recebi o senador Amin, que me veio dizer o resultado da reunião de ontem do PPB. Eles provavelmente vão aceitar, claro, eles queriam um pouco mais de espaço no futuro, um desdobramento, com a Educação, mas enfim. Pediu que eu telefonasse para o Maluf, coisa que fiz. Maluf disse que o partido se sentia honrado de poder colaborar com o governo, grande presidente, não sei o quê, embora ele tenha, ao que consta, na véspera, pedido ao Amin que votassem contra a participação no governo. Até aí tudo bem, tudo normal. Em seguida fui para o Palácio do Planalto.
Despachos usuais de manhã. Recebi uma porção de parlamentares. Tive um almoço com o pessoal do Estado de S. Paulo, o [Aluizio] Maranhão[93] e eu conversamos sobre assuntos gerais, sobre política social, contei um pouco, mas muito pouco, a respeito do ministério, eu não podia dar furo nessa matéria, e depois do almoço voltei ao Planalto. Pela manhã eu tinha assistido a uma solenidade com o Jatene[94] sobre o tema oftalmologia e depois do almoço voltei com toda a tranquilidade para o Planalto, porque imaginei que fosse ser um dia relativamente calmo, como até uma certa hora foi.
Bom, o que aconteceu?
Cheguei ao Planalto, recebi Malan, Clóvis, Pedro Parente,[95] discutimos um pouco sobre salário mínimo, os índices, coisa que vamos discutir com mais profundidade amanhã, sexta-feira. O Malan veio com aquela de que não quer saber do Dornelles, eu expliquei as circunstâncias e tal, e ele disse que a Dorothea estava magoada. Claro, eu sei que ela está magoada, a Ana me contou que foi recebê-la no aeroporto, ela estava muito chocada com o que aconteceu, isso foi na madrugada de ontem.
Continuamos a rotina normal do governo, muita pressão do PSDB, porque não estão conformados com a nomeação do Luiz Carlos Santos. Pedi que viessem ao Alvorada, veio o Zé Aníbal, tive uma conversa longa com ele sozinho, ele tem sido bastante valioso em todo esse processo, e realmente talvez ele [devesse ter] sido mais bem informado das coisas, e foi elegante.
Depois recebi o Teotônio [Vilela Filho],[96] o Sérgio Machado, o Arthur Virgílio.[97] Recebi também o Almir Gabriel, tensíssimo com a questão do Pará, que me deixou uma documentação farta para mostrar que o MST não é de brincadeira. Ele tem lá várias experiências, e, coitado, caiu na mão dele essa bomba do massacre; ele naturalmente está extremamente perturbado. Pelo que me contaram à noite o Teotônio e o Arthur, a imprensa foi impiedosa para com ele.
Recebi de novo deputados, parlamentares. Falamos sobre as questões agrárias, rotina. Decidi que ia visitar a Dorothea. Nesse meio-tempo já tinha recebido o Raul Jungmann, marquei uma conversa com ele no próximo fim de semana. Ele está animado. Hoje não falei pessoalmente com o Luiz Carlos Santos, só por telefone, de manhã, nem com o Luís Eduardo, que aliás passou mal, está muito preocupado.
Fui à casa da Dorothea. Eu tinha que ir.
Havia muita imprensa na porta, muitas crianças, entrei, estavam ela e uma irmã, eu me emocionei, ela chorou, eu também. Na verdade ela está sendo vítima de uma armadilha da história e eu também. Conversei quase três horas com a Dorothea. Deixei que ela desabafasse, me disse coisas preocupantes. Ela acha que estamos fazendo um pacto com o diabo, que o PPB não vai funcionar, que o [Francisco] Dornelles vai arrebentar o trabalho todo do Ministério de Indústria e Comércio, tem medo da corrupção. Ela tem horror ao Dornelles, já tinha manifestado isso antes, valorizou o trabalho que fez, e fez muita coisa mesmo, é uma pessoa séria, trabalhadora e animada, tem uma boa equipe. Me diz ela que o Caito [Caio Carvalho] da Embratur[98] vai embora, que os principais dirigentes do ministério vão embora, que não suportam o Dornelles. Ela é cooperativa, ao mesmo tempo que dizia isso, dava dicas e anotava.
Dorothea é uma pessoa admirável e fui ficando com raiva de mim mesmo. Porque na verdade eu fiz a escolha de Sofia, não tinha jeito, eu sei que não tem jeito, porque ou tem o PPB, ou não passam as reformas, mas justamente em cima da Dorothea é uma coisa muito pesada para ela e para mim.
Além disso, a dúvida é a seguinte: as reformas vão sair? Compensa tanto esforço para fazer as reformas? Esses malditos três quintos. Acabamos caindo na armadilha para a qual tanto alertei no começo do governo. Eu não queria ser prisioneiro do Congresso, porque o Congresso é isso, é negociação incessante. Dorothea me disse coisas duras, que foi obrigada a engolir indicações na Embratur, mostrando esse aspecto de que eu não gosto, nem ela, mas que é da prática brasileira e talvez de todo o mundo.
A avaliação dela é que é um preço muito alto, que era melhor parar as reformas e fazer a regulamentação das leis ordinárias, só que ninguém me disse isso antes, nem ela, e todos dizem o contrário. Eu disse: “Bom, nós somos vítimas de uma proposta que é nossa, a área econômica vive afirmando que sem as reformas o Plano Real não se mantém em pé, como é que nós fazemos?” Ela sabe disso tudo, claro. Vai fazer uma nota dura de despedida, mostrando o que fez, está irritada, com toda a razão, com a baixaria de notinhas na imprensa de hoje, uma coisa nojenta, aparentemente dita pelo Delfim,[99] o Maluf teria criticado pela televisão o comportamento dela como ministra, enfim, uma coisa inaceitável. Eu vou reagir, no momento da posse do Dornelles, em algum momento, se é que se vai chegar até lá, vou reagir pela dignidade da Dorothea e, no fundo, pela minha própria.
Enfim, começo a sentir o travo amargo do poder, no seu aspecto mais podre de toma lá, dá cá, porque é isto: se eu não der algum ministério, o PPB não vota; se eu não puser o Luiz Carlos Santos, o PMDB não cimenta, e muitas vezes – o que Dorothea diz tem razão – fazemos tudo isso e eles não entregam o que prometeram.
Eu tenho que ser mais duro. Temos que exigir votações de muitas coisas já e depois também é preciso demitir, é preciso fazer uma escolha. Eu sei disso. Toda a minha estratégia era fazer as reformas primeiro e, depois, a mudança do ministério. Não funcionou, porque eu queria estar livre dos partidos, tive que fazer uma minirreforma do ministério antes do fim das reformas.
Agora estou na ilusão de que vou conseguir fazer as reformas até as eleições.[100]As eleições vão estraçalhar os partidos, as alianças vão se desfazer em larga medida. Depois das eleições, tenho que fortalecer o PSDB e governar somente com o PFL. É incrível isso. O PFL tem se mostrado mais apto a governar e menos exigente do que outros partidos que aí estão. Temos que pegar para o PSDB a parte do PMDB que vale a pena, e talvez um sistema de dois partidos para poder garantir a continuidade do governo. É isso que estou vendo neste momento.
[1] Francisco Graziano, ex-chefe do Gabinete Pessoal de FHC no Planalto, presidia o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) desde outubro de 1995. Pediu demissão em 27 de novembro de 1995. Mais tarde, foi secretário estadual de Agricultura no governo Mário Covas (1996–98), deputado federal por duas legislaturas, secretário do Meio Ambiente no governo José Serra (2007–10) e voltou a trabalhar como assessor de FHC.
[2] Júlio César Gomes dos Santos, embaixador e chefe do cerimonial da Presidência da República. Em 18 de novembro de 1995, a revista IstoÉ publicou trechos de conversas de Santos grampeadas pela Polícia Federal e a denúncia de que ele atuava como lobista da Raytheon – empresa norte-americana vencedora da licitação do Sistema de Vigilância da Amazônia, o Sivam. Xico Graziano, desafeto de Santos, foi apontado como fonte da revista e mentor do grampo.
[3] Luís Eduardo Magalhães, deputado federal (PFL-BA) e presidente da Câmara, morreu em 1998; Luiz Carlos Santos, deputado federal (PMDB-SP), morreu em 2013; Sérgio Motta, ministro das Comunicações e operador político do governo, morreu em 1998.
[4] Alguns estados enfrentavam graves dificuldades financeiras, em parte como consequência da situação de seus bancos públicos. Em São Paulo, o extinto Banespa (adquirido em 2000 pelo Santander) operava sob intervenção federal desde dezembro de 1994.
[5] Pedro Malan era ministro da Fazenda, José Serra, ministro do Planejamento.
[6] Eduardo Jorge Caldas Pereira, secretário-geral da Presidência.
[7] Os agentes e delegados da PF encarregados do grampo que flagrou Júlio César Gomes dos Santos foram acusados de ocultar da chefia da corporação e da Justiça os verdadeiros motivos da escuta, bem como o fato de que o alvo era um assessor direto do presidente da República. Em depoimento na Câmara, o ministro da Justiça, Nelson Jobim, alegou ter tomado conhecimento da existência do grampo poucos dias antes de o escândalo vir à tona, informado pelo próprio FHC (que havia sido avisado por Xico Graziano).
[8] Julio César dos Santos havia sido afastado por FHC em 17 de novembro, um dia antes da publicação do grampo. Em 1997, foi nomeado representante do Brasil junto à FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), em Roma, e depois, em 2002, cônsul-geral em Nova York.
[9] O presidente e o ministro anunciaram o programa de reestruturação do setor e a privatização da Telebrás.
[10] Rubens Ricupero. Embaixador e ex-ministro da Fazenda do governo Itamar (março-setembro de 1994), sucedeu FHC no cargo. O real entrou em circulação durante sua gestão, em julho de 1994.
[11] O grupo solicitava o reajuste da tabela de preços adotada pelo governo federal para o atendimento de pacientes do Sistema Único de Saúde em estabelecimentos privados.
[12] Euler Ribeiro era deputado pelo PMDB-AM; Marco Maciel, do PFL, era vice-presidente da República.
[13] Brigadeiro Lélio Lôbo substituiu o brigadeiro Mauro Gandra no Ministério da Aeronáutica, que se demitiu na esteira do escândalo dos grampos do caso Sivam. Ronaldo Sardenberg, embaixador e ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE).
[14] Presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, Gilberto Miranda (PMDB-AM) vinha importunando o governo no caso Sivam.
[15] José Sarney, senador (PMDB-AP) e presidente do Senado.
[16] Antônio Carlos Magalhães, senador (PFL-BA), havia instalado uma “supercomissão” de investigação do caso Sivam, presidida por ele próprio. ACM morreu em 2007.
[17] Senador (PMDB-PA), líder do partido no Senado.
[18] Deputado federal (PMDB-SP), líder do partido na Câmara.
[19] Hélio Garcia, ex-govenador de Minas Gerais.
[20] Governador tucano de Minas Gerais.
[21] O Banco Central decretou intervenção no Banco Nacional, da família Magalhães Pinto, em 18 de novembro de 1995. O governo estimava na ocasião o rombo do Nacional em quase 7 bilhões de reais, a maior parte em operações de crédito fictícias e fraudes contábeis. Era então o oitavo maior banco do país.
[22] Octavio Frias de Oliveira, publisher do jornal, morto em 2007.
[23] Inauguração do novo parque gráfico do jornal, na região metropolitana de São Paulo.
[24] Celebração do aniversário de 50 anos da fundação do banco.
[25] Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal-arcebispo de São Paulo.
[26] José Arthur Giannotti, professor emérito de filosofia da USP e amigo de FHC.
[27] O psicanalista Luiz Meyer e a urbanista Regina Meyer, amigos de FHC.
[28] Vilmar Faria, assessor especial da Presidência, coordenador das políticas sociais do governo. Morreu em 2001.
[29] Tributo a Tom Jobim, espetáculo no Theatro Municipal de São Paulo em comemoração ao primeiro aniversário da morte do compositor carioca.
[30] O caso da lista de políticos que teriam recebido contribuições ilegais do Econômico em 1990 ficou conhecido como Pasta Rosa, alusão à cor da pasta de cartolina que continha os documentos apreendidos no banco baiano pelos interventores do Banco Central. O Econômico, de Ângelo Calmon de Sá, era o sétimo maior banco do país quando quebrou, em agosto de 1995. Na ocasião, a bancada pefelista (ACM à frente) ameaçou romper com o governo se o banco não fosse socorrido. O rombo estimado era de 3 bilhões de reais.
[31] Arquiteto, amigo de Fernando Henrique e seu vizinho de sítio em Ibiúna (SP).
[32] Inocêncio de Oliveira, deputado federal (PFL-PE) e líder do partido na Câmara.
[33] Amazonino Mendes, governador do Amazonas (PFL).
[34] Presidente do Banco Central.
[35] Gustavo Krause, ministro do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal e ex-ministro da Fazenda do governo Itamar.
[36] Brigadeiro Marco Antônio de Oliveira, presidente da comissão coordenadora da implantação do Sivam.
[37] Henrique Hargreaves, ex-ministro-chefe da Casa Civil do governo Itamar e ex-presidente dos Correios, pediu demissão do cargo em setembro de 1995.
[38] Ana Tavares, subsecretária de Imprensa da Presidência.
[39] Geraldo Brindeiro, procurador-geral da República.
[40] Clóvis Carvalho, ministro-chefe da Casa Civil.
[41] O secretário-geral da Presidência foi acusado de acumular a remuneração de membro do conselho diretor de uma empresa de seguros sediada em Nova York, subsidiária do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB).
[42] Antonio Lavareda, cientista político e consultor contratado pela Secretaria de Comunicação Social do Planalto.
[43] O senador baiano foi acusado de movimentar milhões de dólares recebidos do Banco Econômico através de uma empresa de fachada sediada no paraíso fiscal das Ilhas Cayman, gerida em sociedade com Ângelo Calmon de Sá. A acusação nunca foi comprovada.
[44] Deputado federal (PFL-PI).
[45] Paulo Maluf, prefeito de São Paulo (PPB).
[46] Presidente nacional do PFL.
[47] Em 8 de março de 1996, o Senado aprovou requerimento para a criação de uma CPI destinada a investigar fraudes no sistema financeiro em 1995, com foco nos bancos Econômico e Nacional.
[48] Temer substituiu Euler Ribeiro na relatoria da PEC da reforma da Previdência.
[49] Em 3 de novembro de 1995, o presidente instituiu por medida provisória o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer), destinado a socorrer bancos em dificuldades. O socorro federal a instituições privadas, incluindo o Econômico e o Nacional, custaria mais de 16 bilhões de reais, cerca de 77 bilhões em agosto de 2015, corrigidos pelo IGP-DI da Fundação Getulio Vargas.
[50] Paulo Renato Souza, ministro da Educação, morreu em 2011.
[51] Referência ao artigo “De rabo para o poder”, publicado pelo diretor de Redação da Folha em 7 de março de 1996.
[52]O Partido Progressista Brasileiro tinha a terceira maior bancada do Congresso em 1996. O senador Esperidião Amin (SC) era o presidente nacional do partido; o deputado Odelmo Leão (MG) era o líder do partido na Câmara; e Epitácio Cafeteira (MA), o líder do partido no Senado.
[53] Embaixador e porta-voz do governo.
[54] No pronunciamento de rádio e televisão, o presidente defendeu o Proer.
[55] Ex-governador de São Paulo (1991–95). A intervenção federal no Banespa se deu no último dia útil de seu mandato.
[56] Senador (PFL-PI), líder do partido no Senado.
[57] Senador (PSDB-CE), líder do partido no Senado.
[58] Senador (PFL-ES), líder do governo no Senado.
[59] Governador do Tocantins.
[60] Govenador de Roraima.
[61] Deputado federal (PPB-RJ) e ex-ministro do Planejamento durante a ditadura militar. Morreu em 2001.
[62]Subchefe da Casa Civil para Assuntos Parlamentares.
[63] Sociólogo, coordenador do Grupo de Análise e Pesquisa, assessoria especial da Presidência. Morreu em 2014.
[64] Senador (PSL-SP). Morreu em 2010.
[65] Senador (PTB-DF).
[66] Iris Rezende, senador (PMDB-GO).
[67] Ibrahim Abi-Ackel. Deputado federal (PPR-MG) e ex-ministro da Justiça do governo João Baptista Figueiredo (1979–85).
[68] Francisco Dornelles, deputado federal (PPB-RJ).
[69] José Aníbal (PSDB-SP), líder do partido na Câmara.
[70] Pouco depois da decisão da Comissão de Constituição e Justiça, a CPI dos Bancos foi rejeitada na votação do plenário do Senado. O governo venceu por 48 a 24, rachando a bancada do PMDB. A vitória governista determinou o arquivamento da CPI, instalada por Sarney cinco horas antes.
[71] Patrus Ananias, prefeito de Belo Horizonte.
[72] Deputado pelo PPB-RJ.
[73] José Richa, ex-governador do Paraná (1983–86) e ex-senador pelo PSDB. Morreu em 2003.
[74] José Lírio Aguiar. Lobista e corretor de imóveis ligado a políticos.
[75] Senador licenciado (PTB-PR), ministro da Agricultura e dono do Banco Bamerindus, então o quinto maior do país. O Bamerindus sofreu intervenção em março de 1997 e foi posteriormente vendido ao HSBC. Andrade Vieira morreu em fevereiro de 2015.
[76] Fábrica de papel controlada por Andrade Vieira.
[77] Regime de Administração Especial Temporária, aplicado pelo Banco Central a instituições financeiras em dificuldades.
[78] Dorothea Werneck, ministra da Indústria, do Comércio e do Turismo.
[79] Antônio Britto (PMDB).
[80] Deputado federal (PMDB-CE), presidente nacional do partido. Morreu em junho de 2015.
[81] Orestes Quércia, ex-governador de São Paulo. Morreu em 2010.
[82] Em 17 de abril de 1996, centenas de manifestantes sem-terra bloqueavam uma rodovia estadual, em Parauapebas (PA), protestando contra a lentidão da desapropriação de terras na região. O governador tucano Almir Gabriel (morto em 2013) ordenou que a estrada fosse desobstruída. A ação da Polícia Militar resultou na morte a tiros de dezenove sem-terra, além de outros 69 feridos. O episódio ficou conhecido como Massacre de Eldorado dos Carajás.
[83] Superintendência da Zona Franca de Manaus.
[84] Deputado federal (PPB-SP).
[85] Empresário e diplomata canadense, ex-secretário-geral da conferência Eco-92, no Rio de Janeiro.
[86] Presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT).
[87] Ministério da Indústria, do Comércio e do Turismo.
[88] Presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
[89] Comissão Econômica da ONU para a América Latina e o Caribe.
[90] Cristovam Buarque, governador petista do Distrito Federal.
[91] Presidente do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).
[92]João Elísio Ferraz, presidente da Bamerindus Seguros.
[93] Diretor de redação do jornal.
[94] Adib Jatene, ministro da Saúde. Morreu em 2014.
[95] Secretário-executivo do Ministério da Fazenda.
[96] Senador (PSDB-AL).
[97] Deputado federal (PSDB-AM).
[98] Presidente da Empresa Brasileira de Turismo (atual Instituto Brasileiro de Turismo).
[99] Delfim Netto, deputado federal (PPB-SP) e ex-ministro da Fazenda durante a ditadura militar.
[100] FHC refere-se às eleições municipais que seriam realizadas em outubro de 1996.