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O ÚLTIMO AMIGO

O mais antigo aliado de Dilma se aposenta da Eletrobras e critica a gestão do setor elétrico
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A equipe de trabalho estava reunida para o almoço. Sereno Chaise, um homem alto e de porte ereto, se levantou. Com voz grave e pausada, discursou para os presentes. “A vida é feita de gomos”, disse. “Eu encerro este para começar um novo. Só espero que este último gomo não seja curto. Quero ter tempo para ler.” Aos 87 anos, Chaise se despedia da presidência da Eletrobras CGTEE, geradora de energia ligada à Eletrobras que atende o Rio Grande do Sul.

Havia sido colocado ali pelas mãos de Dilma Rousseff, mal ela fora nomeada ministra das Minas e Energia, em 2003. Já contava 75 anos quando assumiu a diretoria financeira da empresa. Chaise e a atual presidente são aliados políticos desde os anos 80, quando ambos militavam no PDT de Leonel Brizola – e juntos se transferiram para o PT, de mala e cuia de chimarrão, quase duas décadas mais tarde.

O gomo mais recente da vida do político gaúcho não foi dos mais doces. Não só porque o setor elétrico do país vai mal, mas porque ele próprio tem enfrentado problemas de saúde. Há dois anos sofre de insuficiência renal, o que o obriga a fazer um tratamento diário de hemodiálise. Neusa, a secretária, garantiu que o chefe nunca reclamava de desconforto ou de dor.

Poucos dias depois, em seu apartamento no bairro do Rio Branco, em Porto Alegre, Sereno Chaise explicou com entusiasmo as benesses de uma máquina de diálise recém-adquirida, instalada no quarto. No escritório, chamou a atenção para o seu gênero literário de predileção. Dezenas de biografias se enfileiravam nas prateleiras repletas: Lincoln, Mao Tsé-tung, Getúlio Vargas, Churchill, Pepe Mujica. Estávamos em meados de novembro, e o tempo lá fora era cinza e abafado. O anfitrião lançou um olhar oblíquo para a janela. “Aqui no Sul tem um ditado: cavalo magro, quando passa agosto, está salvo. Agosto já passou.” Por trás das lentes de seus óculos de aros finos, os olhos se fecharam. Depois contou com satisfação histórias de outros agostos.

Quando Chaise ainda era guri em Soledade, no noroeste do estado, o pai mantinha com zelo uma foto do “doutor Getúlio” pendurada na parede. O filho do pequeno produtor rural cresceu admirando o “velhinho”. Durante a faculdade de direito, já na capital, dividiria um quarto de pensão com o estudante de engenharia Leonel Brizola. Não demoraria a ingressar na ala moça do PTB, o Partido Trabalhista Brasileiro.

Daquela época, lembra-se com alegria do dia em que Brizola casou com Neusa, irmã de João Goulart. O amigo pediu que Chaise lhe fizesse um favor, e fosse de avião até São Borja buscar o padrinho. O monomotor em que viajava desceu numa região de pasto, a 1 quilômetro da sede da estância. Ao chegar à casa, avistou pela porta aberta uma figura diminuta. Era o “velhinho”, vestido com um pijama listrado.

Anos depois, em 1961, o mês de agosto se anunciaria sombrio, com a renúncia de Jânio Quadros. Os ministros militares consideravam Goulart, o vice, uma ameaça – e quiseram impedir que ele assumisse a Presidência. Em resposta, políticos gaúchos se mobilizaram. Leonel Brizola, então governador do estado, liderou a Campanha da Legalidade, defendendo a posse de Jango. Sereno Chaise, líder do governo na Assembleia, ficou encarregado de articular o apoio no Legislativo. Montaram uma estação de rádio nos porões do Palácio Piratini, de onde Brizola fazia um discurso atrás do outro. Em meio à crise, os resistentes foram informados de que a Base Aérea de Canoas recebera ordens de Brasília para bombardear a sede do governo do Rio Grande do Sul. Chaise teve certeza de que iria morrer. Pouco depois, chegou um pedido do comandante do III Exército, com sede em Porto Alegre, para falar com o governador. Não houve dúvida: Brizola seria preso. O general, no entanto, queria prestar apoio à Campanha da Legalidade. Garantido por parte das Forças Armadas, Goulart tomou posse no dia 7 de setembro de 1961.

Em 1963, Chaise foi eleito prefeito de Porto Alegre. No ano seguinte, com o golpe, acabou preso e teve seus direitos políticos cassados. Quando veio a redemocratização, ajudou a fundar o Partido Democrático Trabalhista, o PDT, de novo ao lado de Brizola. Foi quando conheceu Dilma Rousseff, então casada com Carlos Araújo, liderança entre os trabalhistas.

Chaise e Dilma deixariam a legenda em 2000, por discordar da decisão do PDT de lançar uma candidatura própria ao governo do estado. Defendiam que o partido deveria apoiar o PT na disputa. A separação não foi amigável. Sereno Chaise informou Brizola, por telefone, de sua decisão. Garantiu que o gesto era meditado, doloroso, mas que não teria volta. Foi a última vez em que se falaram. Brizola morreria em 2004.

Em seu apartamento, o ex-presidente da estatal de energia do Rio Grande do Sul reconheceu a crise do sistema elétrico. Além da escassez de chuvas, ele disse, o setor sofre com o “sucateamento” de sua infraestrutura e uma máquina onerosa. Quando questionado sobre a política de subsídios que segurou o aumento das contas de luz por dois anos, simulou uma arma com os dedos e apontou para o sapato. “Eu acho que essa política de subvencionar tarifa foi um tiro no pé. Você gasta 1 real para produzir, e vende por 80 centavos. Não podia dar certo.” Sobre sua passagem pela geradora gaúcha, reconheceu não ter conseguido realizar as mudanças que desejava. “Ou melhora ou fecha”, disse em referência à estatal que administrou por doze anos. “Não é possível a União ter de arcar com o prejuízo da empresa todo ano.”

Apesar das críticas à administração do setor elétrico, o amigo continua leal à presidente. “Ela sofre uma pressão brutal, mas é uma mulher forte. Eu sou dilmista, sou fã dela.” As discussões sobre o impeachment o deixam irritado. “Qual é a razão? Apuraram alguma coisa pessoal contra a Dilma? É um absurdo.” Quando o assunto é o isolamento da presidente em seu próprio partido, o gaúcho ameniza e diz que, entre os petistas, apenas uma minoria de “batedores de panela” não apoia a mandatária.

Após mais de três horas de conversa, Chaise parecia cansado. Antes de ir embora, perguntei se seria exagero dizer que ele é o único amigo que restou a Dilma no PT. “Se tiver que ser, serei”, garantiu. Os dois não se veem nem se falam há um ano. Ele disse que gostaria de encontrar a presidente quando ela estivesse em Porto Alegre. E o que diria a ela quando a visse, afinal? “Resista!”, respondeu o gaúcho, enquanto batia a mão sobre o tampo da mesa.


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Repórter da piauí e roteirista de cinema