questões editoriais

SE NOS PERMITE UMA SUGESTÃO

Ao fazer uma limpeza em seu computador, um ex-editor de livros encontrou alguns e-mails
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PARA: GRACILIANO RAMOS
ASSUNTO: VIDAS SECAS

Prezado senhor,

Lemos seus originais com interesse, a despeito da aridez do tema. Aliás, o título vem bem a calhar nesse momento de crise hídrica pelo qual passa o planeta (hahahaha). Julgamos, porém, que a narrativa ganharia se ao final oferecesse alguma possibilidade de redenção. É muita desgraça. Aqueles coitados sofrem o tempo todo, o leitor não tem nem um momento de trégua, é só ziquizira. Tanto pessimismo afasta as pessoas, acredite em nós, temos experiência no ramo. Nosso departamento comercial encomendou inúmeras pesquisas e os resultados foram eloquentes: ninguém, absolutamente ninguém quer saber de adversidade. De amarga basta a vida, como diz o outro. E mais: morte de animal já extrapola qualquer limite.

Pelo menos o caçula poderia se sair bem, abrindo um negócio no Sul, não? Ah, justamente: O Menino Mais Novo. Eis outro ponto a ser considerado: a ausência de nome dos filhos do protagonista. Se até a cadela Baleia, que Deus a tenha, é nomeada, por que o senhor condenou os meninos ao anonimato? Teria sido esquecimento?

Seguem algumas sugestões (não se peje em adotá-las, caso seu livro encontre acolhida em alguma casa editorial):

* Filho mais velho: Fábio Júnior, Marlon Wagner, Marcelantony, Selton (têm forte apelo midiático);

* Filho mais novo: Cauã, Fiuk, Justin, Chay Suede (estimulam o imaginário das adolescentes).

Boa sorte!

PARA: MACHADO DE ASSIS
ASSUNTO: MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS E DOM CASMURRO 

Prezado postulante,

Talvez o senhor não esteja sendo bem orientado (seu agente literário tem péssima reputação na praça – quem avisa amigo é…), mas via de regra os candidatos a um lugar ao sol no inclemente mercado editorial deveriam enviar apenas um, e olhe lá, original por vez.

O romance delirante que o senhor classificou como “memórias póstumas” definitivamente não nos interessa. Como assim, um autor defunto? É do conhecimento de todos que não somos uma editora de filiação kardecista. Podemos, no entanto, encaminhar sua obra aos responsáveis pelo nosso selo de religião, autoajuda e assuntos espirituais. Avise-nos, caso seja de seu interesse (por e-mail, por favor, pois não dispomos de infraestrutura para receber uma comunicação mediúnica, do tipo mesa branca).

Quanto ao outro original, aquela história de um casamento malsucedido, Dom Casmurro, detectamos um problema na trama: afinal, Capitu traiu ou não o marido? Isso não fica claro. Talvez fosse preciso reescrever o texto adotando outro ponto de vista que não o de Bentinho, parte interessada em nos fazer crer ter sido ele vítima de adultério. E se a narradora fosse a prima Justina, que “dizia francamente a Pedro o mal que pensava de Paulo, e a Paulo o que pensava de Pedro”? Parece-nos uma voz mais isenta, capaz de narrar os acontecimentos com a distância que o enredo exige.

Last but not least, para usar uma expressão do agrado dos autores anglo-saxônicos que o senhor frequenta, gostaríamos de reconhecer sua coragem e perseverança em nos ter submetido outros exercícios literários de sua lavra, não obstante havermos recusado Casa Velha. Magoou-nos, porém, seu agente (ele, de novo…) ter vazado para a imprensa a notícia da recusa (cf. Folha de S.Paulo de 21.04.1999). Isso não se faz.

Por ora, são esses os nossos comentários.

PARA: REINALDO MORAES
ASSUNTO: PORNOPOPÉIA

Meu caro,

Já há algum tempo recebemos seu cartapácio em epígrafe, estamos lhe devendo uma resposta. Aqui está ela, com certo atraso, pelo qual pedimos nossas sinceras desculpas.

Vamos aos fatos. Nosso editor sênior não conseguiu superar o primeiro parágrafo: “Vai, senta o rabo sujo nessa porra de cadeira giratória emperrada e trabalha, trabalha, fiadaputa. Taí o computinha zumbindo na sua frente. Vai, mano, põe na tua cabeça ferrada duma vez por todas: roteiro de vídeo institucional. Não é cinema, não é epopéia [sic o acento agudo, a despeito de o acordo ortográfico estar em vigência há tempos], não é arte. É – repita comigo – vídeo institucional. Pra ganhar o pão, babaca. E o pó. E a breja. E a brenfa. É cine-sabujice empresarial mesmo, e tá acabado. Cê tá careca de fazer essas merdas.”

Fiéis aos princípios do bardo francês (“Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!”), decidimos submeter seu “livro” a alguém que com ele pudesse se identificar. Um igual, um irmão seu. Um de nossos assistentes editoriais, cujo nome omitimos por razões de confidencialidade, um velho hippie conhecedor da corrente beatnik e admirador de sua obra pregressa, ficou incumbido da leitura.

Pois bem: nem mesmo ele deu conta de tanta baixaria. Riu em algumas passagens, verdade seja dita. Mas não conseguiu chegar ao fim.

Sentimos muito, mas, do modo como você o ideou, seu “livro” não tem a mínima chance de ser publicado. (E, caso o fosse, jamais integraria algum dos programas do governo, que infelizmente andam meio capengas.) E se você inserisse, de tanto em tanto, um mea-culpa? Admitisse que errou, errou sim? Sujou o seu nome e o de outros? Reescrevesse tudo adotando a terceira pessoa, com um distanciamento favorável à reflexão? Bem, é uma ideia (sem acento, por favor).

Nós, no entanto, não podemos nos comprometer com a publicação das memórias de um sujeito que se apresenta assim depravado, mesmo que, como sugerimos, ele viesse a manifestar arrependimento. A descrição de encontros de sexo grupal regados a drogas é por demais naturalista. (Ou sua intenção era oferecer uma metáfora para a bandalheira política em que se encontra o país? Se era, não ficou muito claro. Talvez coubesse um paralelismo mais consistente.)

PARA: SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA
ASSUNTO: RAÍZES DO BRASIL

Caro professor,

Antes de mais nada, permita-nos sugerir a alteração do título de seu ensaio, caso contrário o volume poderá figurar nas estantes de assuntos agropecuários. Lavoura Arcaica, Urupês e Caetés, entre outros, careceram de uma palavra amiga de seus respectivos editores. Até mesmo A Fronda dos Mazombos padece dessa confusão, pois em geral as pessoas tendem a ler “mazombos” como se árvores fossem, frondosas. Dentre os livros traduzidos, o mesmo ocorre com Como Era Verde o Meu Vale e Os Frutos da Terra, por exemplo. Os livreiros cortam um doze. Há anos lutamos por uma maior conscientização dos publishers, pena que uma batalha inglória. Mas esse é outro assunto, a ser discutido nos sindicatos.

Seu estudo sem dúvida tem muito mérito, mas… Será que a noção de “homem cordial” cunhada pelo senhor não se presta a um entendimento ambíguo? Mais de um de nossos pareceristas leu-a positivamente, como se o brasileiro fosse de boa índole, um sujeito pouco afeito a brigas, avesso à controvérsia. O senhor poderia desenvolver um pouco mais essa passagem, para afastar interpretações equivocadas? Ou era isso mesmo que o senhor tinha em mente? Somos gentis? Afáveis?

Saudações cordiais 😉

PARA: OSWALD DE ANDRADE
ASSUNTO: SERAFIM PONTE GRANDE

Prezado senhor,

Analisamos seu romance (?), constituído de 203 fragmentos (!). A nosso ver, falta um fio condutor a orientar o impávido (que nem Muhammad Ali!, hehehe) leitor que ousar penetrar (sem duplo sentido, por favor) as páginas que o senhor nos apresentou.

Ainda que, ao “explicitar uma linguagem chula de modo que termos como ‘trepar’, ‘pau’, ‘cu’, ‘dá’ (na acepção de permitir o coito), entre outros” (nas palavras do nosso parecerista universitário), o efeito provocado seja a derrisão, não julgamos que um punhado de expressões vulgares sustente uma decisão editorial, para que sejamos reconhecidos como moderninhos, ou up to date, como se diz. “Brincadeiras como ‘Cu…pido’, ou a referência ao órgão masculino como ‘mandioca’, ou ainda ter o membro enrijecido (ele fica de ‘pau duro’) ao pensar na possibilidade ‘absurda e idiota’ de ‘enrabar’ Pinto Calçudo” (ainda o parecerista), mesmo funcionando como “elementos burlescos”, não são suficientes para nos convencer da oportunidade de fazer vir a lume uma narrativa (?!) desse naipe. Ou, se preferir, com essa “pegada”.

Atenciosamente.

PARA: GUIMARÃES ROSA
ASSUNTO: GRANDE SERTÃO: VEREDAS

Prezado senhor,

Primeiramente, gostaríamos de parabenizá-lo pela atualidade da trama, que incorpora um dos tópicos que permeiam nossa sociedade, como a questão de gênero. É muito bonito o modo como o leitor é conduzido à revelação de que Diadorim é um travesti (Ou seria transexual? Transgênero, talvez?). No entanto, a fatura da obra, como um todo, não está à altura da ambição a que o senhor pretende. E isso se deve única e exclusivamente a sua linguagem.

Se nos permite uma consideração franca e objetiva, pareceu-nos que o senhor se encantou sobremaneira com o personagem Yoda, da série Guerra nas Estrelas. Vê-se que a saga o fisgou. Vamos aos exemplos.

Ao abrirmos seus originais aleatoriamente, em qualquer trecho, à maneira do I Ching (não nos passou despercebida sua profunda ligação com o plano místico da existência, portanto decerto o senhor está familiarizado com o Livro das Mutações), encontraremos frases cuja sintaxe apresenta clara inspiração nas falas do Mestre Jedi:

* “Parece que, com efeito, no poder de feitiço do contrato ele muito não acreditava.”

* “Permeio com quantos, removido no estatuto deles, com uns poucos me acompanheirei, daqueles jagunços, conforme que os anjos da guarda.”

* “Até amigo meu pudesse mesmo ser; um homem, que havia.”

* “Verdadeiro meu propósito era esse, como está dito.”

Mas não desanime, não é o caso de deletar tudo. Pensamos que a obra poderia ser desmembrada, de modo a resultar num florilégio de frases (algumas delas muito tocantes, a bem da verdade), que decerto encontraria excelente recepção entre os internautas. A título de exemplo, pinçamos:

* “O senhor ache e não ache. Tudo é e não é…”

* “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.”

* “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.”

* “Viver é um descuido prosseguido.”

* “Um sentir é o do sentente, mas o outro é o do sentidor.”

* “Deus existe mesmo quando não há.”

* “O diabo não há! Existe é homem humano. Travessia.”

Se a ideia o agradar, poderemos disponibilizar um de nossos estagiários para compilar o livrete. (Que tal o título Qualquer Maneira de Amor Vale a Pena? Nosso time de vendas disse ter apelo.) Caso o volume tenha bom desempenho comercial, poderemos pensar em subprodutos, como agendas com frases inseridas a cada dia do ano, à guisa de máximas (cf. o sucesso de Mario Quintana), ou um estimulante jogo de caça-palavras.

Sempre poderemos fazer de um limão uma limonada, não é mesmo? Afinal, “a morte é para os que morrem”.

Sem mais.

PARA: EUCLIDES DA CUNHA
ASSUNTO: OS SERTÕES

Senhor,

Nesses dias de econômicos 140 toques, é digno de louvor seu fôlego, que o levou a produzir uma obra de mais de 1 milhão de caracteres. Mas, por favor, raciocine conosco: quem, em sã consciência, empunharia esse catatau e o leria na praia, na piscina ou mesmo na cama, antes de dormir? Sim, o leitor é, antes de tudo, um forte (kkkkk), mas não vamos exagerar. Nos tempos atuais, o que tem de gente com tendinite não é um fator a ser desprezado. As estimativas da OMS estão aí, para comprovar.

Por isso, na hipótese de nosso parecer final vir a ser favorável (não conseguimos terminar a primeira parte, bem pedregosa, por sinal), seria de bom alvitre considerar a possibilidade de uma edição apenas em e-book, já que o leitor digital não pesa mais de 200 gramas. E ainda há que se ponderar uma vantagem: o dispositivo oferece a opção de se clicar na palavra e a definição da mesma surgir na tela instantaneamente. Como seu livro está coalhado de termos esdrúxulos, tal facilidade evitaria que o leitor precisasse recorrer amiúde ao dicionário.

Entraremos em contato posteriormente.

PS: Um de nossos colaboradores (freelancer no departamento de marketing), afeito à numerologia, aventou a troca do “i” de seu nome por um “y”: Euclydes. Fica a dica.

PARA: DALTON TREVISAN
ASSUNTO: QUEM TEM MEDO DE VAMPIRO?

Prezado senhor,

Foi com imensa satisfação que nos debruçamos sobre seus originais, cujo título já acenava com um duplo clin d’oeil, fosse ao leitor mais culto (numa velada citação a Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, a peça de Edward Albee magistralmente levada ao écran numa encenação arrepiante de Elizabeth Taylor e seu então marido Richard Burton – ao que tudo indica o casal vivia às turras por ocasião da filmagem, tal e qual o casal protagonista), fosse ao leitor dos dias de hoje, fã de zumbis, duendes, lobisomens e vampiros.

Qual não foi nossa decepção quando deparamos com contos cujos personagens têm quase sempre o mesmo nome: João e Maria. O senhor não poderia ter dado asas à imaginação para batizar suas criaturas? Não lhe ocorreu que o leitor pudesse se confundir? Num conto, um João e uma Maria. Noutro, uma Maria e um João. Tal homonímia não se salva pelo aparecimento de um tio Garibaldi (Tio Garibaldi? O senhor está falando sério? Quem é que se chama Garibaldi hoje em dia?) aqui, um Pedrinho acolá.

Bem, quanto aos contos em si, foi muito corajoso (ou cínico, como notou um de nossos colaboradores) da sua parte encomendar um prefácio apócrifo, no qual se lê: “Quem leu um conto já viu todos. Se leu o primeiro pode antecipar o último – bem antes que o autor.” E mais adiante: “Mais de oitenta palavras não tem o seu pobre vocabulário. O ritmo da frase, tão monótona quanto o único tema, não é binário nem ternário, simplesmente primário.”

Com um prefácio assim, vamos e venhamos, uma carta de recusa é totalmente dispensável.

Passe bem.

PARA: MÁRIO DE ANDRADE
ASSUNTO: MACUNAÍMA

Anauê![1]

Foi com júbilo que recebemos seus originais, nesse momento em que as Diretrizes Curriculares Nacionais privilegiam a cultura indígena, afro-brasileira e africana. Agora é a hora e a vez da cultura de raiz, como dizem.

No entanto… A trama desenvolvida, não obstante as pesquisas etnolinguísticas levadas a cabo pelo senhor, não só é muito confusa, como está eivada de preconceitos. Por exemplo: o protagonista é filho de mãe indígena, mas nasce preto. Ao pai, supostamente afrodescendente, não é feita nenhuma referência. Essa passagem não poderia ser lida como uma crítica velada ao homem negro que abandona a família, não assumindo a paternidade? Fosse branco, estaria presente, poderíamos deduzir.

Não bastasse a principal virtude do “herói” ser a preguiça, ele se dedica incansavelmente a “brincar”, passando a ideia de que a civilização avança à custa de jogos sexuais. É isso mesmo que o senhor advoga? E o trabalho? A meritocracia?

Se concordar em rever esses tópicos (o senhor inventa um pai amoroso para o protagonista, que por sua vez trabalha mais e brinca menos, entre outros), talvez pudéssemos considerar uma eventual publicação. Mas seria indispensável esclarecer as referências com notas de rodapé ou num glossário, para não deixar o leitor tão à deriva. Quem sabe uma linha do tempo, um caderno de imagens com documentos históricos atestando o jugo do colonizador sobre o povo ameríndio?

Por favor, pense com carinho nessa sugestão.

Até breve.[2]

PARA: RADUAN NASSAR

ASSUNTO: UM COPO DE CÓLERA

Senhor,

Malgrado havermos lançado seu livro anterior (que, diga-se de passagem, teve um pífio desempenho de vendas), vemo-nos na desconfortável posição de recusar os originais que o senhor nos apresenta. Apesar das inegáveis virtudes da obra em questão (a qual, se nos permite um palpite, poderia se beneficiar de algumas aberturas de parágrafo), infelizmente não publicamos relatos confessionais em que a intimidade dos autores fica tão exposta.

Pensamos, porém, em sugerir outros formatos para a sua história. A desavença entre o casal, provocada por um ataque de saúvas na cerca viva do sítio do protagonista, talvez pudesse render uma matéria para alguma revista feminina, na linha “homem mais velho tem caso com jovem jornalista feminazi”. Que tal? Ou talvez uma reportagem para o Globo Repórter, já que formigas sempre alavancam uma boa audiência, sabe-se lá por quê. Fora que esses insetos poderiam servir de trampolim para se discutir a situação médico-sanitária do país (“Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são”, lembra?).

De qualquer modo, agradecemos por nos ter procurado.

[1] Favor não confundir com a saudação integralista, trata-se apenas de um cumprimento em tupi, contagiados que fomos pela linguagem de suas páginas.

[2] Ou, se preferir, jajo hecháta ko’erõ.


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Maria Emilia Bender trabalhou no mercado editorial de livros de 1981 a 2013. Foi editora da piauí de 2014​ a 2019.