anais do riso

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Todos os epitáfios, se proferidos pelo inquilino da sepultura, são uma piada
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O túmulo de John Gay,[1] na Abadia de Westminster, tem uma inscrição que diz:

Life is a jest; and all things show it,

I thought so once; but now I know it.

Uma possível tradução para português seria: “A vida é um chiste; e tudo o revela com clareza,/Pensei assim em tempos; mas agora tenho a certeza.” Como as memórias de um famoso defunto brasileiro, o epitáfio de Gay foi escrito “com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, programa estilístico que encontra muitos cultores entre os finados. Os versos exprimem uma espécie de angústia jovial, e é difícil saber se a jovialidade suaviza a angústia ou se a aprofunda, mas é possível que faça ambas as coisas: suaviza porque lhe retira peso, aprofunda porque lembra a sua razão de existir.

O epitáfio de Gay é uma piada em dois versos, e a piada começa pela circunstância de os versos serem apenas dois. Apresentar uma definição da vida costuma requerer um pouco mais de espaço. No meio de cada verso há uma pausa que transmite ao dístico uma cadência de lenga-lenga infantil, e essa puerilidade é reforçada pela pobreza da rima. A inocência do tom e a crueza do que é dito produzem um contraste simultaneamente aflitivo e cômico, como a ideia de uma criança velha. E há ainda a pequena maldade escondida naquele “mas”. Ao contrário do que se esperaria, a palavra não designa oposição, dado que confirma o sentido da primeira metade do verso. No entanto, há uma razão para Gay ter escrito “Pensei assim em tempos; mas agora tenho a certeza”, em vez de, por exemplo, “Pensei assim em tempos; e agora tenho a certeza”. É que, na verdade, ter uma certeza terrível é muito diferente de ter uma suspeita terrível. Talvez uma seja mesmo o oposto da outra.

Seis anos após a morte de Gay, o Gentleman’s Magazine publicou uma carta de Samuel Johnson acerca daquele epitáfio. Dizia que a composição, um gracejo frívolo e poeticamente medíocre, era indigna de estar escrita num templo. Quando muito, poderia aceitar-se que figurasse na janela de um bordel. E terminava sugerindo que se poupasse à posteridade o trabalho de a apagar.

O dr. Johnson dá o exemplo de um epitáfio que considera admirável, uma frase que está gravada na sepultura de Sesóstris, um rei do Antigo Egito: “Que todos os que me contemplam aprendam a ser devotos.” E volta a criticar o epitáfio de Gay, desta vez com um argumento de ordem lógica. Há, diz ele, dois tipos de pessoas: um pequeno grupo que acredita, ou finge acreditar, que a vida acaba no momento da morte; um outro que considera que existe uma outra vida, na qual os homens receberão uma recompensa ou uma punição. Se Gay pertence ao primeiro grupo, não pode ter a certeza de nada, uma vez que o conhecimento cessa com a existência; se pertence ao segundo, já descobriu, e dolorosamente, que a vida não é um chiste.

Ora, de certo modo, todos os epitáfios – ao menos os que, como esses, fingem estar a ser proferidos pelo inquilino da sepultura – são uma piada. Trata-se, seja qual for a crença do falecido, de ventriloquia de defuntos. E há uma quantidade considerável de epitáfios que são, além disso, deliberadamente humorísticos. Acontece o mesmo com as últimas palavras. Não parece um acaso que tantas últimas palavras, muitas delas apócrifas (o que também é significativo), sejam espirituosas. Diz-se, por exemplo, que Buster Keaton morreu rodeado de amigos. Pouco antes de morrer esteve muito tempo imóvel, e por isso os amigos não sabiam se ele ainda estava vivo. Um deles sugeriu então a outro: “Toca-lhe nos pés. As pessoas, quando morrem, têm os pés frios.” Buster Keaton abriu os olhos e disse: “A Joana d’Arc não.” E morreu.

Na Legenda Áurea, Jacopo de Varazze conta a história da morte de são Lourenço – que, aliás, morreu por causa de uma piada. Décio, não sei se por ganância ou necessidade, ordenou a Lourenço que lhe trouxesse o tesouro da Igreja. O diácono percorreu a cidade e arrebanhou todos os doentes e pobres que conseguiu encontrar. Depois se apresentou perante o soberano com esse exército de desgraçados e disse: “Cá está. É este o tesouro da Igreja.” O soberano não achou graça e condenou-o a uma morte macabra: Lourenço morreu queimado numa grelha. E reza a lenda que as suas últimas palavras foram qualquer coisa como: “Este lado já está. Podem virar.”

A Igreja Católica, num gesto de gosto bastante duvidoso, nomeou Lourenço como santo padroeiro dos chefes de cozinha – mas também dos humoristas, o que é justo. Rir na face da morte é uma provocação vã: morremos na mesma. O riso é impotente em relação à morte, isso é certo, mas talvez tenha algum poder sobre a vida. Vive-se pior, acho eu, se se viver com medo. A certa altura de Jacques, o Fatalista, Jacques fala ao seu amo de um momento de desespero que tinha vivido, e da estratégia que tentou adotar para o ultrapassar:

O AMO: Diz-me o que tentaste.
JACQUES: Troçar de tudo. Ah, se eu tivesse conseguido…
O AMO: Para que te serviria?
JACQUES: Para me livrar de preocupações, para não ter necessidade de mais nada, para me tornar perfeito senhor de mim mesmo, para sentir tão bem a cabeça encostada a um marco, à esquina da rua, como a um bom travesseiro.[2]

O riso subverte o medo. Corrói-o, domina-o, torna-o menor. É por isso que o dr. Johnson não quer piadas em templos: humor e religião são duas formas inconciliáveis de lidar com a morte – ou com o medo da morte. O verbo temer, na expressão “temer a Deus”, tem a dupla acepção de recear e respeitar. Sem medo não há reverência. Daqui decorre, evidentemente, que o que devasta o medo devasta o respeito.

Não é só por isso que o riso tem má reputação. É um fenômeno do corpo, uma convulsão física violenta e pouco civilizada que deforma o rosto. Tem afinidades suspeitas com a loucura, a futilidade e o mal. Além disso, Deus não parece apreciá-lo. Conheço os argumentos para defender que o Deus da Bíblia é um Deus alegre. Mas acho que há mais e melhores para sustentar a posição contrária. Quando, no Gênesis, o Senhor anuncia a Sara que vai ser mãe, ela ri-se. É natural: nessa altura, Sara tem 90 anos, e Abraão, seu marido, tem quase 100:

[…] e Sara tua mulher terá um filho. Sara, ao ouvir isto, riu-se detrás da porta da tenda. Porque ambos eram velhos, e de idade avançada, e o que é ordinário às mulheres tinha cessado para Sara. Ela, pois, riu-se secretamente, dizendo: Depois que sou velha, e meu senhor avançado em anos, entregar-me-ei ao deleite? Mas o Senhor disse a Abraão: Por que se riu Sara, dizendo: Será verdade que eu possa dar à luz sendo já velha? Há porventura alguma coisa difícil a Deus? Voltarei a ti, segundo a promessa feita, neste mesmo tempo no próximo ano, e Sara terá um filho. Sara cheia de medo negou, dizendo: Eu não me ri. Mas o Senhor disse: Não é assim, mas tu riste-te.[3]

Sara prefere mentir a Deus a confessar que riu, mas Ele mantém a acusação. A Virgem Maria, a quem também foi anunciada uma gravidez improvável, não riu no momento do anúncio. E, precisamente por isso, é, em contraponto a Sara, considerada um modelo de fé.

Também Jesus Cristo, conforme João Crisóstomo terá sido o primeiro a notar, nunca riu. De acordo com os evangelhos canônicos (nos apócrifos não é bem assim), Jesus chora duas vezes (quando avista Jerusalém e quando Lázaro morre), mas não ri nenhuma. Que o modelo de ser humano dos cristãos nunca tenha rido parece indicar que, para Deus, o mundo é um lugar mais adequado ao luto do que à alegria.

E no entanto, como disse Aristóteles, o riso é próprio do homem. É o que nos distingue dos animais, mas também de Deus. Eis a minha hipótese: o homem é o único que ri porque também é o único que tem consciência da sua própria extinção. Os animais desconhecem que vão morrer, e Deus sabe que é eterno.

Se estivermos atentos, encontramos essa ligação entre o riso e a morte por todo lado. No mito com que os gregos explicavam as estações, Hades, o rei dos infernos, rapta Perséfone, filha de Deméter, a deusa da terra. Deméter procura Zeus e exige que ele obrigue Hades a devolver-lhe a filha, mas Zeus é irmão de Hades e prefere não se meter no assunto. Então, Deméter decide fazer uma espécie de greve, e a terra fica estéril e devastada. Nessa altura, Zeus vê-se forçado a intervir e propõe a seguinte solução de compromisso: todos os anos, Perséfone passa seis meses com Deméter e seis meses com Hades. Nos seis meses que passa com a mãe, é primavera e verão, e a terra parece resplandecer; nos seis meses que passa lá embaixo, a terra entristece, e ocorre o outono e o inverno. Em certo ponto da história, precisamente no momento em que Deméter se convence de que perdeu a filha, a deusa senta-se numa pedra que ganha um nome: passa a chamar-se pedra agelasta – que significa, literalmente, ausência de riso, ou privação de riso. Parece-me interessante que os gregos tenham identificado a incapacidade de rir com a única coisa que, como sabem todos os pais, é pior do que a morte: a morte de um filho. Em certas versões do mito, é nesse ponto da história que aparece uma figura chamada Iambe (noutras versões chama-se Baubo; noutras ainda, Iambe e Baubo são duas pessoas diferentes, e formam uma espécie de equipe), que é a razão por que Deméter retoma o ânimo de continuar a procurar a filha, até a encontrar finalmente, junto de Hades. O instrumento que Iambe usa para restaurar as forças de Deméter é o riso. Consegue fazer com que a deusa dê uma gargalhada, daquelas que agitam o ventre – o mesmo lugar onde se geram os filhos. E parece-me ainda mais significativo que Iambe, a figura que consegue a proeza de fazer rir uma mulher que perdeu um filho, fosse considerada pelos gregos a deusa do humor.

Quase no fim da tragédia, Hamlet e Horácio passam por um cemitério, onde dois coveiros estão a abrir uma sepultura. Como se sabe, é nessa altura que o príncipe encontra a caveira de Yorick, que tinha sido o bobo da corte quando Hamlet era criança, e lhe dirige estas palavras:

HAMLET: Yorick, onde andam agora tuas piadas? Tuas cambalhotas? Tuas cantigas? Teus lampejos de alegria que faziam a mesa explodir em gargalhadas? Nem uma gracinha mais, zombando da tua própria dentadura? Que falta de espírito! Olha, vai até o quarto da minha grande Dama e diz a ela que, mesmo que se pinte com dois dedos de espessura, este é o resultado final; vê se ela ri disso![4]

Não conheço melhor definição do trabalho do humorista. Fazer com que as pessoas se riam desta ideia: por mais que façam, vão morrer. Fornecer-lhes uma espécie de anestesia para esse pensamento. É um ofício belo, nobre, indispensável e inútil: sim, o riso tem o poder de esconjurar o medo, mas só durante algum tempo, talvez apenas durante o tempo que dura a gargalhada. Às vezes, nem tanto.

[1] Poeta e dramaturgo inglês do século XVIII.

[2] Tradução de Pedro Tamen, edição Tinta-da-china.

[3]  Tradução do padre Matos Soares, edições Paulinas.

[4] Tradução de Millôr Fernandes, edição L&PM.


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Ricardo Araújo Pereira é humorista português. Lançará A Doença, o Sofrimento e Morte Entram num Bar, em março, pela Tinta-da-china Brasil