moral e cívica
Alejandro Chacoff Dez 2016 18h23
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No papel, estavam impressas as fotos de dois homens. O papel era meio vagabundo, a tinta da impressora falha, e era difícil diferenciá-los ou reconhecê-los. Logo me dei conta de que eu nunca tinha visto aqueles homens. Embaixo de cada foto havia um nome. De um lado do papel, via-se GEORGE H. W. BUSH, do outro, MICHAEL DUKAKIS. Tínhamos recebido a instrução de marcar o quadrado de nossa preferência (“Marque apenas um quadrado, não os dois”). Depois os papéis seriam recolhidos e haveria uma contagem final dos votos.
Era 1988. Eu tinha 5 anos. Vivíamos na Filadélfia, num bairro perto da Universidade da Pensilvânia, onde minha mãe fazia o seu doutorado. A nossa casa era rodeada por outras casas idênticas, que por sua vez eram rodeadas de árvores escuras e simétricas, que por sua vez eram rodeadas de ruas muito parecidas umas com as outras. No inverno, a casa era sitiada pela neve, e da janela da sala só alguns galhos de pinheiros ficavam visíveis. A paisagem, então, escondia-se, tornava-se ainda mais homogênea e repetitiva.
Naquele dia, durante o jantar, contei para os meus pais sobre a aula. Falei da eleição presidencial organizada pela professora, e do meu voto. Eu tinha marcado o quadrado de George H. W. Bush, mas na contagem final venceu Dukakis, o candidato democrata. Os meus pais, que brigavam quase todo dia, começaram a rir da história. Riram muito, gargalharam, e percebi uma qualidade diferente nas risadas – não expressavam sarcasmo e eram simultâneas; eles estavam rindo juntos, coisa rara.
Fiquei com raiva, achei que estivessem rindo de mim. Crianças às vezes são paranoicas, narcisistas, e eu não era exceção. “Por que vocês estão rindo?”, perguntei, mais de uma vez, e eles não me responderam – não conseguiam parar de rir.
Hoje penso que devem ter sentido um misto de fascínio e repulsa pela história. Eles eram dois sul-americanos (ela, brasileira; ele, chileno), na casa dos 30 e poucos anos, de passagem pelo império, curiosos dos costumes alheios. Uma “aula de democracia” para crianças que mal sabem ler e escrever é o tipo de dieta cívica (tão ridícula quanto fascinante) que os Estados Unidos servem a seus imigrantes. Era 1988 – em um ano o muro de Berlim cairia. Mas o exercício escolar, vagamente marcial, reforçava a aura da Guerra Fria. O simbolismo era exacerbado pelo fato de vivermos na Filadélfia, cidade em que os pais fundadores da nação assinaram o documento de independência.
Não me lembro muito bem de como o resto da conversa se desenrolou naquela noite. Tenho receio de inventar algo, e dar demasiada forma à anedota. Mas lembro de uma frase do meu pai. Ele tocou meu ombro, interpretando mal a natureza da minha raiva e do meu silêncio, e com ar grave, e talvez uma ponta de ironia, disse: “Não se preocupe, o seu candidato vai ganhar.”
Que o meu primeiro voto tenha sido para um candidato do Partido Republicano é um pouco humilhante. Imagino que os meus colegas de sala também não soubessem quem eram aquelas figuras. Mas éramos crianças, e quando a professora disse que Dukakis tinha vencido a eleição da classe, sentimos (falo por todos que votaram no Partido Republicano aquele dia) uma pontada vaga e irritadiça, a dor fantasma de uma derrota que não entendíamos bem. Meu pai estava certo; alguns meses depois Bush triunfou na eleição nacional. Desse evento, assim como da queda do muro de Berlim e de suas repercussões históricas, não lembro absolutamente nada.
Bush e Dukakis eu não conhecia, mas Ronald Reagan, presidente americano entre 1981 e 1989, é a primeira figura pública de quem tenho lembranças nítidas. Desenvolvi certa obsessão por ele naquela época. Ela surgira por causa de um clipe da banda inglesa Genesis, Land of Confusion. No clipe, que passava a toda hora na MTV americana, o presidente e sua mulher, Nancy, eram representados por dois bonecos de massinha. O boneco de Reagan surgia de pijama na cama, segurando um ursinho. Após encenar uma historinha ao longo do clipe, ele acordava banhado em suor e, assustado, apertava um botão ao lado da cama – uma bomba atômica era então acidentalmente lançada. “Tá passando o Reagan!”, minha mãe berrava da sala, e qualquer pessoa que chegasse ali e me visse sentado no carpete, de pernas cruzadas e a cabeça ligeiramente inclinada, esperando ansiosamente a aparição do presidente, estranharia a cena. Reagan era ubíquo, inescapável. A sua presença era difusa mas intensa, menos uma pessoa de carne e osso do que um artefato cultural – algo como Os Simpsons, o desenho que estrearia em 1989; ou o logotipo verde do Holiday Inn, que a cada meia hora surgia na estrada quando viajávamos de carro no inverno.
A campanha de Donald Trump, em 2016, teve uma aura similar. Assistir a ela não parecia uma escolha, mas o resultado inevitável de circunstâncias históricas. Era impossível se esquivar. Quando ele não aparecia em montagens curtas do noticiário – os seus discursos, narrados em staccato e breves como resumos, com uma frase racista ou xenófoba em destaque para ganhar a manchete, pareciam feitos sob medida para serem divulgados –, os comentários chegavam via terceiros. Não escutei os famosos áudios misóginos, mas absorvi, indiretamente, algumas das frases.
Ao mesmo tempo, essa presença intensa era permeada por uma sensação de impermanência. Trump parecia sempre prestes a ir embora. A sua campanha – contraditória, birrenta, instável – estava perto do limite a todo momento. Era como se, na falta de uma ideologia ou direção política consistente, ele se alimentasse de um radicalismo que, crescendo em progressão geométrica, estava condenado a ser cada vez mais estridente para que os holofotes não se apagassem. Mas em algum momento seu radicalismo se chocaria com a opinião pública: Trump ofenderia tanta gente que sua vitória se tornaria matematicamente inviável. Daí a premissa de que a sua campanha era autofágica – vista tanto na relutância de muitos conservadores em apoiá-lo como na segurança excessiva dos democratas. É verdade que alguns previram sua vitória. Mas, com a exceção do comentarista político Andrew Sullivan – aqui mesmo, na piauí de junho de 2016 –, a maioria dos analistas que acertaram o resultado eleitoral (o cineasta Michael Moore, o intelectual e historiador militar Edward Luttwak) tem fama de provocateurs, e é difícil saber até que ponto eles acreditaram nas próprias previsões.
Donald Trump é uma criança. Essa foi a mensagem central da campanha de Hillary Clinton, uma candidata pouco inspiradora que tentou, mas não conseguiu, tornar o debate mais adulto. Por anos, as aulas de democracia no colégio da Filadélfia ficaram adormecidas em minha memória, mas as eleições americanas de 2016 – repletas de metáforas escolares e referências ao mundo infantil – as reacenderam. Ao longo da campanha, articulistas usaram vários personagens para descrever Trump. Ele era o homem de negócios vigarista; o aristocrata mimado; o machista burro que vê as mulheres só como objeto. Todas essas caricaturas servem, são verdadeiras. Mas nenhuma tem o poder descritivo do bully de colégio, essa figura tão vívida do imaginário americano. Com a sua estratégia de insultar e colocar apelidos (Little Marco; Lyin’ Ted; Crooked Hillary), inventar musiquinhas (Build the Wall; Lock Her Up), e a todo momento interromper os adversários nos debates, o bully escolar é o personagem mais preciso, de maior riqueza explicativa.
As suas idas e vindas, suas inconsistências ideológicas reforçaram essa imagem. Nos debates, Trump frequentemente se comportava como uma daquelas crianças que improvisam as respostas para a lição de casa, deixando o professor irritado enquanto os colegas riem de suas gracinhas. O emprego recorrente de substantivos genéricos (something; things) e adjetivos bombásticos (tremendous; beautiful; terrific), quase sempre permutados entre si (beautiful thing; something terrific), lembra uma criança descrevendo algo sensacional aos pais, prospectando um vocabulário que ela ainda não tem. Alguns dias depois da vitória, quando o New York Times apontou a bagunça no processo de transição do presidente eleito, Trump foi ao Twitter: “A transição está indo muito bem, sim!” Enquanto a imprensa especulava sobre quem seriam os novos membros do gabinete, ele tuitou: “Só eu sei os finalistas!”
As referências ao mundo infantil acabaram por servir a propósitos vários. Num minuto, os adversários de Trump afirmavam que ele era pateticamente imaturo; no seguinte, alertavam que era necessário preservar as crianças do país de sua má influência. Uma das peças publicitárias centrais da campanha de Clinton mostrava diversas crianças sentadas em frente à tevê, ouvindo e vendo Donald Trump dizer atrocidades. “Nossas crianças estão vendo”, dizia uma legenda. “Que exemplos vamos dar a elas?” Clinton enxergou nesse discurso um caminho para unificar o apoio de um eleitorado desconfiado. Sua campanha deixou sistematicamente de lado questões econômicas e políticas para se concentrar em questões morais. Era compreensível. As falas racistas, xenófobas e misóginas de Trump merecem esse tipo de escrutínio. Levada ao extremo, a mensagem central da campanha democrata pode ser resumida em uma frase levemente cômica: Precisamos proteger as crianças dessa criança. Ainda assim, foi das poucas mensagens genuínas em uma campanha marcada pela infâmia.
Os meus pais riram da história que contei naquela noite de 1988, mas sei que, em outro sentido, eles gostavam daquele tipo de coisa. Mesmo estrangeiros de passagem raramente ficam alheios a rituais de assimilação. Em casa, falávamos português, mas às vezes minha mãe me interrompia. “Conte em inglês”, ela dizia. Lembro de poucos momentos mais íntimos e desconcertantes na minha infância: a minha mãe, por alguns momentos cedendo a sua autoridade de linguista, mostrando-se vulnerável diante de certas gírias e sutilezas de pronúncia. O discurso em torno de imigrantes é sempre maniqueísta – ou são santos ou aproveitadores. Mas dá para manter uma distância irônica do país adotivo (rindo de rituais patrióticos meio bobos, por exemplo), e ainda assim, num dia meio nublado e tedioso, levar os filhos para visitar monumentos históricos e museus.
Fomos a Virgínia, a Washington. Vimos bustos e estátuas de políticos locais, inclusive o Abraham Lincoln sentado em algo muito parecido com um trono. Ele tinha uma expressão sóbria no rosto e o seu pé direito estava posto ligeiramente à frente. Fomos ao Museu de Arte da Filadélfia. Em uma viagem de carro a Nova York (“Aqui é perigoso”, minha mãe disse perto do Harlem, uma frase que soaria cômica na Nova York ricaça de hoje), minha irmã e eu fomos ao Museu de História Natural, e é dessa época que herdei, penso, o princípio de que idas ao museu devem durar o dia inteiro – um princípio apropriado quando se trata de dinossauros, mas não tanto quando o programa envolve arte abstrata. Nessas visitas, os adultos ganhavam um ar solene e mantinham os cenhos franzidos. Havia um senhor, de cabelos muito brancos e óculos imensos, que dirigia a van que nos levava à creche algumas tardes da semana. Íamos sempre conversando no caminho sobre os Philadelphia Flyers, a equipe local de hóquei no gelo, um esporte que, embora nunca tivesse assistido e nem conhecesse bem as regras, eu me convencera de que amava (o interessante era o gelo). Uma tarde o motorista se virou para mim e disse, sério: “A minha perna direita não é minha.” Passaram-se alguns segundos de silêncio. “Foi na Coreia.” Ele então cerrou o punho e bateu levemente na perna, com algum desdém. “Aqui é tudo metal.”
Adultos anseiam em passar os símbolos da vida adulta às crianças, e há algo terno e ao mesmo tempo forçado nesse processo. Roland Barthes, em um de seus ensaios mais famosos, lamenta o desaparecimento dos brinquedos de madeira (manipuláveis, aqueles que suscitam a imaginação infantil) e condena os brinquedos modernos: soldadinhos de plástico; bonecas que urinam; pequenos Citröens e motocas. Esses brinquedos preparam a criança para aceitar os valores de um mundo adulto já formado: Estado, guerras, o lar.
Mas Barthes subestima o potencial de resistência perante esses símbolos. Eu entendia que meus pais queriam me explicar coisas sérias e importantes, assim como entendia, nebulosamente, que havia algo diferente naquele exercício em que marcávamos o quadrado e escolhíamos um de dois homens de terno. Mas as estátuas e os bustos me entediavam; e assim como eu notava algo de teatral no cenho franzido do meu pai, por outro lado eu tinha o meu próprio teatro, que consistia em fazer algum comentário de interesse fingido para poder escapar rapidamente para o café. No Museu de Arte da Filadélfia, eu não quis entrar, pois queria ficar subindo e descendo os degraus que Rocky Balboa corria no filme – a cena tinha sido filmada lá. Quando o motorista da van me contou, num tom grave e elíptico, que era veterano de guerra e havia perdido uma perna na guerra da Coreia, senti alguns dos sentimentos adequados à ocasião, sentimentos que talvez ele esperasse de mim – um rascunho do que poderia se definir como “respeito” por alguém mais velho, certa ternura. Mas também pensei no Exterminador do Futuro e nas entranhas robóticas de Schwarzenegger. E quando, na tevê, o homem mais poderoso do mundo surgia para fazer um discurso, eu só me lembrava do boneco de massinha, perguntando-me como conseguiam construir um boneco tão perfeito.
Donald Trump e Ronald Reagan fizeram carreira no mundo do entretenimento; ambos refinaram, ao longo do tempo, formas de captar a atenção do público e da imprensa. Durante a campanha, Reagan foi uma espécie de porto seguro comparativo, uma referência usada para acalmar os ânimos. Diante da responsabilidade do cargo, Trump ficará moderado, dizem certos apoiadores, pois, como Reagan, ele é um líder pragmático. Diante da responsabilidade do cargo, Trump ficará moderado, dizem certos detratores, pois, como Reagan, ele é um populista mentiroso. Na verdade, Trump é incomparável. E é talvez por isso que Reagan seja tão citado: no deserto de referências históricas que expliquem um candidato tão grotesco, o presidente dos anos 80 é uma gotícula d’água lida como poça abundante e reveladora. O pensamento mágico que não soube prever a vitória de Trump segue o seu curso. Agora se trata de mitigar o peso de sua vitória, de ler moderação e pragmatismo em alguém que nunca deu sinais disso.
Décadas depois de viver na Filadélfia, voltei aos Estados Unidos, dessa vez para fazer um mestrado em Chicago. Cheguei no começo do inverno e me inscrevi num curso de filosofia ministrado num predinho gótico do campus, mais afastado dos prédios centrais. Éramos pouquíssimos alunos. No primeiro dia de aula, o professor se apresentou e pediu para cada pessoa explicar o que a interessava no filósofo que estávamos prestes a estudar. Alunos, estejam num mestrado ou no jardim de infância, gostam de impressionar. Alguns citaram as reflexões do filósofo sobre o judaísmo; outros, um interesse em sua releitura de Thomas Hobbes; outros ainda, a sua influência na política externa americana. Lembro do episódio porque não consegui justificar o meu interesse. O professor, um senhor magrinho que tinha o tom de voz baixo e usava uns óculos de aro fino, assistiu a tudo com uma expressão misteriosa; nenhuma resposta parecia agradá-lo.
O curso ministrado chamava-se “Leo Strauss”, em referência ao filósofo alemão que emigrara para os Estados Unidos nos anos 30. Strauss instalara-se como professor na Universidade de Chicago e suas ideias iriam influenciar gerações de intelectuais americanos conservadores, parte dos quais ocupariam posições importantes em governos republicanos. Alguns de seus alunos teriam papéis cruciais na formulação da política externa desses governos, uma política que culminaria nas duas invasões do Iraque. Aquele professor não tinha participado desse processo. Mas foi com certa surpresa que descobri, um pouco depois de começar as aulas, que ele havia sido redator de discursos de Reagan nos anos 80.
As ideias de Leo Strauss obtiveram a admiração de pensadores célebres e com orientações políticas contrárias à dele, incluindo Jacques Lacan, Walter Benjamin e Alexandre Kojève. Mas quando penso em Strauss, só consigo me lembrar da frase que um professor já falecido da USP me disse, com certo desdém e um ceticismo tipicamente brasileiro: “Para ele, tudo o que vem depois de Platão é uma merda.” E era engraçado observar a atmosfera cabalística daquela aula (imigrantes sempre mantêm uma distância irônica). Os alunos, sentados em volta da mesinha de madeira, entravam em uma competição sutil (e às vezes não tão sutil) de inteligência, um processo universal que nos Estados Unidos parecia ter uma intensidade peculiar. Tentavam, assim, ganhar a intimidade do professor e talvez um acesso a uma elite decisória obscura – acesso que, a julgar pela expressão do professor, nunca esteve aberto.
Ainda assim, foi um choque traçar a linha entre o boneco de massinha que dominara a minha infância e uma pessoa real, uma escola intelectual, um redator de discursos. Por semanas, eu havia caminhado pelo campus, num estado de hiperatenção desconfortável, como se pequenas coisas que eu não via ou sentia havia décadas – a perfeita imobilidade das árvores esqueléticas; o barulho da sola da bota raspando a neve – quisessem dizer algo. Como se eu fosse encontrar alguma sensação que recuperasse a minha infância. Quando soube do professor, esse processo acabou. Soa banal, mas o que senti foi o seguinte: a infância é irrecuperável, e Reagan não era nenhum boneco.
O conteúdo desumano das falas de Trump desvia a atenção de sua opacidade. Em sua ascensão demagógica, ele parece ter dominado mais um método do que uma mensagem. O seu radicalismo é vazio, meramente instrumental. Reagan e Bush tinham os straussianos; Nixon se apoiava no realismo cético (e para muitos, criminoso) de Kissinger; Bernie Sanders é um social-democrata à moda europeia (ou um New Dealer, como Noam Chomsky recentemente o definiu). O que é Trump? Costuma-se citar a influência de grupos supremacistas brancos, da Ku Klux Klan, do racista David Duke em sua formação. Mas houve formação? Ainda que Trump aceite todas essas influências, os grupos parecem aliados de ocasião, um pouco como o líder russo Vladimir Putin. Uma acusação comum, na imprensa americana, é a de que Trump ignora a realidade e os fatos em favor de crenças. Mas ele parece nem ter crenças.
Ideias políticas, por si sós, obviamente não garantem o bem-estar coletivo, e as maiores tragédias da história foram levadas a cabo com o respaldo de intelectuais talentosos e persuasivos. O poeta alemão Heinrich Heine advertia para nunca se subestimar o poder de conceitos filosóficos cozinhados no silêncio estéril de um gabinete de professor: foi Rousseau quem deu as armas para Robespierre derrubar o antigo regime. O mesmo Heine, segundo um ensaio de Isaiah Berlin, profetizou que um dia os seguidores fanáticos do romantismo alemão encabeçado por Fichte e Schelling se voltariam contra a cultura liberal do Ocidente. E os straussianos arquitetaram a desastrosa invasão do Iraque. Mas é difícil imaginar um jogo político que se mova e se direcione sem ideias.
Assim como as falas de Trump disfarçam a sua opacidade, elas também lhe dão um verniz retrógrado, como se ele fosse mais um bufão, mais um tirano à moda antiga. A sua vulgaridade não é particularmente original, mas Trump é sem dúvida um homem do seu tempo. Suas características – a ausência de vida interior; o modo superficial e zombeteiro como rebate os críticos; a escolha das redes sociais como o meio mais adequado para comunicar-se; o desdém por qualquer tradição institucional – são ubíquas hoje, e não dizem respeito a credos políticos particulares. Assim como o hipster, que se apropria da estética e de maneirismos da contracultura sem aplicar na vida pessoal os princípios mais radicais dessa mesma contracultura, Trump se apropria da estética e do discurso da extrema direita sem se sentir na obrigação de assumir os custos mais inconvenientes dessa escolha. As contradições são tragicômicas: ele se diz um patriarca tradicional, mas se divorciou duas vezes; é um anti-imigrante casado com uma eslovena e que emprega imigrantes ilegais em seus empreendimentos; um suposto antielitista que herdou a fortuna do pai. Só a sua fraudulência e misoginia parecem consistentes, sinceras.
Há muitos anos não tenho uma relação boa com o meu pai, ou sequer uma relação, mas tenho afeto por aquele tempo em que vivíamos na Filadélfia, antes das brigas e separações que nos distanciariam. Uma das primeiras memórias que tenho é ele lendo o jornal pela manhã. Eu devia ter uns 3 ou 4 anos. Na mesa do café, ele brincava um pouco comigo, fazia piadinhas, mas espiava o jornal com o canto do olho. Às vezes eu o via reclinando-se no sofá, escondendo o rosto com as folhas, que pareciam surgir do nada, como se ele as estivesse multiplicando conforme as dobrasse com estardalhaço. Havia certo mistério naquele ritual. Crianças aspiram justamente aos símbolos que não lhe são entregues; aos objetos do mundo adulto que lhe são negados.
Às vezes, em momentos de autoindulgência, penso que escrevo por essa aspiração difusa da infância – a promessa de um mundo adulto encapsulado naquela cena do jornal, e que envolvia coisas que pareciam vagamente interessantes: mistério, paciência, concentração, complexidade (ou a promessa de complexidade); algo, qualquer coisa, a ser desvendado com lentidão e calma. Se escrever é anacrônico, talvez seja porque alguns desses valores se tornaram anacrônicos. E nenhum político atual representa a erosão desses princípios valorativos como Donald Trump. Ele é menos um fascista do que um fascistoide, é alguém que viu muitos filmes e desenhos sobre ditadores e tenta imitá-los; um populista pós-moderno, e o sintoma de uma terrível inversão barthesiana: a criança que dá os símbolos e valores do mundo adulto. O boneco de massinha não esconde uma cabala de intelectuais ou uma formação ideológica – é simplesmente um boneco de massinha.
O que ele oferece, no fim, é um ego e uma “atitude” preconceituosa, uma foto mal impressa, e a versão mais reducionista possível de um demagogo. O seu paradoxo é parecer ao mesmo tempo manipulador e totalmente manipulável; as suas palavras raivosas e inconsequentes, nas mãos de fanáticos, serão letais. “Todo mundo fica triste quando o seu lado perde uma eleição”, Barack Obama disse em seu discurso após a derrota democrata. “Mas no dia seguinte temos que lembrar que estamos todos no mesmo time.” Soava como um diretor de colégio, ou, para forçar uma analogia, como a minha professora da Filadélfia (“Marque apenas um quadrado, não dois”). Era um adulto acalmando a criançada após uma briga feia. O sentimento de irrealidade vinha de quem tinha vencido a briga – e do medo de que ele não irá se comportar.