questões de vida e de morte
Andrew Solomon Dez 2017 19h22
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Fui um garoto assustado. Não gostava de brinquedos velozes em parques de diversão, de filmes que provocassem medo ou de qualquer coisa que me fosse estranha ou desconhecida. Ficava nervoso com facilidade. Certa noite, quando eu tinha 6 anos, a mãe de Mindy Silverstein nos levou a um bingo; fiquei tão agoniado que vomitei e ela teve que me levar para casa. Quando visitávamos o tio Milton e me mandavam brincar lá fora com meu primo Johnny, um menino brigão, eu tinha ataques de pânico e corria para dentro para ficar com meus pais. Como muitas outras crianças assustadas, eu vivia nos livros, e não na realidade. Via programas sobre a natureza na tevê e gostava especialmente dos documentários de Jacques Cousteau sobre a vida submarina. Adorava as aventuras de outras pessoas, mas não queria nenhuma na minha vida.
Quando eu tinha 12 anos, minha mãe me levou para almoçar fora e, a propósito de algo que esqueci há muito tempo, ela deu a entender que eu perdia muita coisa por não ser mais corajoso. “Mas, mãe”, protestei, “eu não acabei de pedir um prato de enguia?” Ela respondeu, delicadamente: “Ser corajoso em relação a comida não é o mesmo que ser uma pessoa corajosa.”
Decidi me tornar corajoso por simples força de vontade. Ao contrário da maior parte das pessoas, que ficam cada vez mais cautelosas à medida que envelhecem, eu me tornei cada vez menos limitado na vida adulta. Já fiz paraquedismo e voei de asa-delta; como jornalista, cobri zonas de guerra e desastres; e enfrentei alguns constrangimentos, às vezes brutais, por falar abertamente sobre minha vida pessoal.
Fazer um curso de mergulho autônomo me pareceu uma boa ideia quando me encomendaram uma matéria que me obrigaria a cruzar as ilhas Salomão. Antes da viagem, combinei com um amigo alemão que nos visitava em Nova York de tomar aulas de mergulho numa piscina pública da rua 90 East, mas as datas disponíveis não nos convinham. Ainda assim, decidimos tentar um mergulho em águas abertas; fomos de carro até a Pensilvânia, a uma pedreira inundada cujo solo era decorado, um tanto sinistramente, com ônibus escolares velhos, de modo que os candidatos ao certificado de mergulhador pudessem ver “naufrágios”. Além disso, também poderíamos pensar em crianças afogadas. Entendendo mal a recomendação de um instrutor grosseiro, saltei na água antes da hora, o que fez com que ele nos mandasse sair da água e ir embora. Voltamos para casa depois de ter visto um único ônibus afundado.
Em nossa lua de mel, John e eu viajamos a Zanzibar. Nosso casamento o deixou com um alto-astral incrível, pois a cerimônia tinha sido muito alegre; já eu me sentia bastante deprimido porque a festa tinha acabado. Em nossa primeira noite em Zanzibar, ele disse: “Não consigo parar de pensar no casamento”, e eu respondi: “Nem eu.” Ele continuou: “Não consigo parar de pensar como tudo foi tão bonito, perfeito, festivo, com tantos de nossos amigos incríveis nos cumprimentando.” Eu respondi: “Não consigo parar de pensar como teria sido bem melhor se eu tivesse posto Nicky na mesa 5, e não na 6.”
John concluiu que eu precisava de um pouco de distração a fim de acabar com essas bobagens e propôs que fizéssemos o curso de mergulho de uma semana oferecido no hotel. Aceitei a ideia porque não me parecia haver muito mais o que fazer num centro turístico em Zanzibar, mas fiquei muito intimidado com a complexidade do equipamento de mergulho. Eu prestei o exame para tirar a carteira de motorista três vezes – e no fim, minha mãe disse que a única razão pela qual o examinador me aprovou foi o medo de entrar num carro comigo novamente. Sou disléxico e não distinguia o lado esquerdo do direito até usar a aliança de casado. Jacques Cousteau havia feito o mergulho parecer muito fácil e tranquilo. E eu me esforçava para aprender o nome dos componentes do aparelho de respiração e também para montá-los.
Depois tivemos que treinar o que fazer no caso de uma falha no suprimento de ar.
Reajo bem diante de qualquer crise que me permita pelo menos meia hora de reflexão. Sou capaz de definir uma estratégia e encontrar o melhor caminho em situações complicadas. Já consegui me livrar de uma detenção policial em Berlim Oriental, analisar como sair de um labirinto intrincado de tratamentos tenebrosos para a depressão, dominar a logística barroca de criar filhos sendo gay. Mas não sou bom em coordenar olhos e mãos, ou em reagir instintivamente, numa fração de segundo – a perspectiva de ter que encontrar meu companheiro de mergulho e partilhar com ele a mangueira de ar, se não conseguisse respirar por mim mesmo a 9 metros de profundidade, me deixava tão nauseado como na noite do bingo com Mindy Silverstein.
Mesmo assim aprendi a mergulhar e nos anos seguintes pratiquei sempre que estávamos num lugar em que houvesse o que admirar debaixo d’água. Durante muito tempo, nutri o desejo de ver a tão elogiada Grande Barreira de Corais no mar de Coral, na costa nordeste da Austrália. Por isso, quando fui convidado a fazer o discurso de abertura do Festival de Escritores em Sydney, levei comigo John e nosso filho, George, e tomamos providências para visitar os recifes. Minha querida amiga Sue Macartney-Snape, uma cartunista brilhante que desenha as esquisitices superficiais de uma pessoa para revelar suas profundezas mais ocultas, foi quem me incentivou a participar do festival. Com seu incrível dom de reunir pessoas, me apresentou a meus mais novos amigos de infância em Sydney e organizou inúmeros programas durante a visita. Eu a convenci a ir conosco aos recifes, embora ela não se interessasse por mergulho, e Sue generosamente se dispôs a ficar com Geor-ge, que acabara de fazer 5 anos, durante nossa expedição. Em geral, os melhores hotéis nas proximidades dos recifes não aceitam crianças, o que, como não passam de hotéis de praia, beira o absurdo. O Orpheus Island é um dos poucos onde elas são bem-vindas, de modo que foi lá que nos hospedamos.
Em nosso primeiro dia no hotel, simpático e descontraído, John e eu escolhemos o equipamento – o colete de mergulho ou dispositivo inflável de controle de flutuação, que ajuda a pessoa a subir à superfície, os cilindros de ar, os reguladores pelos quais respiraríamos, os pesos extras a serem presos num cinturão de náilon etc. – e subimos na confortável lancha do hotel. Sue e George, já construindo castelos de areia, acenaram para nós. Também estavam na lancha a instrutora de mergulho e um homem afável de Maryland, que viajava com sua agitada filha universitária. Ela logo anunciou que o mergulho era sua atividade de lazer predileta. Confessou que, quando estava longe do mar, “passo muito, muito tempo em aquários”. Ela e o pai haviam feito centenas de mergulhos juntos, e ela descreveu muitos deles.
A lancha passou primeiro por umas ilhotas e só depois tomou o rumo do mar aberto; então se distanciou da terra a ponto de não vermos nem sinal dela e lançou ferro para que pudéssemos descer para a água, um a um, pelo cabo da âncora. A instrutora avisou que a área tinha correntes fortes e repassou o plano de mergulho: nós desceríamos, deixaríamos a corrente nos carregar um pouco e cada um seria resgatado no ponto em que subisse à superfície. Era um plano conveniente, ela disse, porque nos permitiria cobrir uma boa distância e ver muita coisa sem despender muita energia.
As coisas começaram mal. O regulador do homem de Maryland não funcionava e ele não conseguia respirar. Por sorte ele descobriu o defeito a tempo de voltar para a lancha e esperar pelos que mergulhariam. Eu estava tenso demais para me abater com a irresponsabilidade do hotel em mandar um hóspede mergulhar em mar aberto com um equipamento defeituoso. Desci do barco corajosamente. Os corais tinham sua beleza, embora nada extraordinária, e os peixes eram coloridos, mas nem de longe numerosos e variados como os que eu vira doze anos antes, ao mergulhar com um snorkel, na boca da lagoa Marovo, nas ilhas Salomão. A corrente forte tinha levantado areia e sedimentos, o que prejudicava a visibilidade. A moça dos aquários viu uma lula e acenou para nós, usando os sinais manuais corretos para “venham ver” e “lula”, mas não tivemos tempo para tanto. A súbita redução da luz indicava que o sol havia se escondido atrás de uma nuvem. Como sempre fico nervoso ao mergulhar, respiro com muito mais intensidade do que fazem os mergulhadores hábeis, de modo que meu medidor de ar chegou à zona vermelha muito mais depressa que o dos outros. Mostrei o aparelho à instrutora, que perguntou, usando sinais manuais, se eu estava bem para subir e retornar à lancha sozinho; com um enfático sinal de positivo, respondi que sim. E subi, fazendo uma parada de descompressão no caminho.
De acordo com o protocolo, o mergulhador chega à superfície e acena com um braço no ar; em seguida, o barco vem tirá-lo da água. Quando atingi a superfície, percebi que a corrente não tinha nos levado para tão longe como parecia a 9 ou 12 metros de profundidade. Animado, agitei o braço sobre a cabeça. O jovem capitão olhava vagamente na minha direção, e esperei que ele viesse me buscar. A lancha não se moveu. Acenei de novo, com um pouco mais de vigor. O capitão continuava de frente para onde eu estava, com o olhar vidrado, e acenei mais uma vez, agora com os dois braços. Levantei a máscara, tirei o regulador da boca e tentei gritar, porém o vento soprava na minha direção e eu sabia que ele não me escutaria. Pensei no “apito para chamar a atenção”, sempre mencionado nos salva-vidas de aviões.
Vale observar que em geral uma pessoa fica exausta depois de um mergulho, que o sol australiano é violento, que as ondas não eram pequenas e que a corrente era forte. Por isso, eu precisava de fato sair da água. Lembrando de filmes vistos tarde da noite na televisão, soltei um grito de Tarzan. O capitão então caminhou para o outro lado da lancha e me deixou fitando o vazio.
Quando eu encarava o vento, de frente para a lancha, as ondas quebravam sobre minha cabeça. Eu nunca compreendera, antes disso, como uma pessoa podia se afogar usando um colete salva-vidas, mas, inflando o colete de mergulho, percebi que não poderia me manter voltado para o barco sem respirar e engolir água. Aquilo era a versão da natureza para a modalidade de tortura que chamam de afogamento simulado. Por essa razão, virei de costas para a lancha, lançando olhares para ela a intervalos de alguns minutos, a fim de verificar se o capitão tinha voltado para onde eu pudesse vê-lo, quando então ele também poderia me ver. Esperei, esperei e esperei até que, depois de uns dez minutos, ele por fim voltou e de novo parecia estar olhando para mim. Àquela altura, meus acenos eram dignos do Cirque du Soleil, com os dois braços oscilando rapidamente sobre a cabeça, para a frente e para trás, para trás e para a frente, e também de um lado para outro. Cheguei a tentar usar os pés de pato para saltar acima da água, como uma espécie de peixe-voador com braços. O capitão olhou calmamente na minha direção por alguns minutos e em seguida retomou sua peregrinação pela lancha.
Quando uma pessoa faz um curso de mergulho, na Pensilvânia ou em Zanzibar, recebe muitas instruções sobre como proceder se o fornecimento de ar falhar, aprende sinais que alertam o instrutor se alguma coisa sair errada e decora técnicas para minimizar uma grande variedade de erros, defeitos e perigos. Mas não recebe nenhuma orientação sobre o que fazer na superfície se, por algum motivo, ficar invisível.
A correnteza estava me levando para longe da lancha, e tentei nadar contra a corrente. Mesmo com meu mais vigoroso nado livre, não avançava um palmo, e logo percebi que não poderia nadar contra as ondas – além do mais, sobrecarregado com os cilindros de ar e os pesos no cinto – e ao mesmo tempo respirar, a não ser que repusesse a máscara e usasse o pouco ar que restava nos cilindros. Eu tinha subido à superfície porque estava ficando sem ar e precisava dele não só para respirar como para me manter flutuando, pois o colete de mergulho estava vazando um pouco e eu era obrigado a inflá-lo continuamente. E os pesos na cintura? A vantagem de não me desfazer deles era que retardavam a velocidade com que eu estava me afastando do barco. A desvantagem era que impediam que eu nadasse mais depressa e poderiam estar aumentando o arrasto sobre meu colete de mergulho, cada vez mais vazio. Procurei despertar minha mente lógica e tomar uma decisão, mas, apesar de mais de meia hora pensando sobre a questão, não tinha ideia do que fazer. Os outros já deviam estar na lancha, preparando-se para me procurar. A despeito da falta de marcações, a instrutora sabia o ponto em que eu havia subido. Só havia uma direção em que eu poderia ter me afastado: a direção da corrente. Não seria tão difícil me achar. Mantive os pesos na cintura, calculando que, quanto mais perto eu estivesse da lancha, mais fácil seria me encontrar.
Nesse caso, não havia nada a fazer senão deixar-me levar pela corrente e conservar a energia, enquanto mantinha o rosto afastado do vento e da lancha, cercado pelo mar sem limite.
Por fim, ouvi um som animador.
O motor da lancha havia sido ligado. Dei um longo suspiro de alívio, girei o corpo, retomei meus acenos olímpicos – e vi a lancha começar a se mover e partir na direção oposta. Afastando-se de mim e sumindo no horizonte.
Eu estava sozinho no mar, vendo apenas água e céu em todas as direções. Não havia ninguém para quem acenar, nenhum ponto em cuja direção nadar. Pela primeira vez naquela manhã, pensei: “É assim que as pessoas morrem.” Presumi que a corrente estivesse me levando, cada vez mais, para alto-mar. Lembrei que o oceano Pacífico é uma imensa massa de água; lembrei que nele existem tubarões – a maioria deles inofensiva, mas alguns agressivos. Minha cabecinha balouçante parecia um alvo minúsculo para quem quer que se aventurasse a me procurar.
Em alguns momentos morri de medo; em outros, achei que estaria bem enquanto o colete de mergulho funcionasse e eu pudesse simplesmente flutuar por um ou dois dias. Nunca imaginara que iria morrer afogado e pensava se a agonia se estenderia e se eu sofreria muito. Não conseguia enfrentar a possibilidade de não poder respirar, mas lembrava vagamente que algumas pessoas que foram reanimadas depois de quase se afogarem haviam declarado que a experiência trazia certa paz perto do fim. Calculava por quanto tempo o ar que restava no cilindro me manteria à tona. Estava muito cansado e me perguntei se chegaria a adormecer flutuando no mar.
Foi então que ouvi a voz dos meus pais. Vislumbrei meu pai perguntando: “Você correu esse risco todo só para ver peixes exóticos?” Pude escutá-lo sugerindo que eu passasse bastante tempo vendo peixes em aquários. Não havia nenhuma nuvem no céu, e imaginei minha mãe, que tinha morrido havia 25 anos, me repreendendo: “É por isso que é preciso usar protetor solar sempre.”
As ondas pareciam crescer. Se eu fosse levado para além dos recifes, estaria em meio a vagalhões e não conseguiria manter a cabeça fora d’água por muito tempo.
Às vezes eu tentava nadar, só para fazer alguma coisa, e logo desistia.
E ninguém vinha. Outros vinte minutos passaram. E mais quarenta. E uma hora.
Senti pena de John, aflito na lancha. Imaginei Sue e ele explicando a George o que tinha acontecido. Pensei em minha filha Blaine, no Texas com a mãe, e me senti mal diante da ideia de que não a veria crescer. Eu tinha enorme curiosidade a respeito de como meus filhos seriam quando adultos. Pensei em Oliver e Lucy, nossos filhos mais velhos, que moravam em Minneapolis com suas mães. Eu havia conquistado muitas coisas que sempre desejara: amor, filhos, aventuras, uma carreira expressiva. Era grato pela vida que havia vivido, mesmo que não tivesse muito mais a desfrutar. Passou pela minha cabeça que meu desaparecimento poderia matar meu pai e lamentei seu sofrimento. Sobretudo, temi que meus filhos pensassem que eu os tinha abandonado e me senti culpado por isso – culpado e muito triste. Será que eles se lembrariam de mim?
“Esses podem ser meus últimos pensamentos. Eu devia estar pensando em algo importante”, refleti. Mas não me ocorria nada de importante em que pensar. Minha mente vagava entre Shakespeare e os grandes filósofos, no entanto não me vinha nada. Tentei fazer com que minha vida passasse diante de meus olhos como um filme, porém tudo o que vi foram as cores prismáticas e rápidas decorrentes do longo tempo ao sol flutuando no mar. Pensei em minhas últimas palavras, mesmo que não houvesse ninguém por perto para escutá-las. Não consegui formular nada de profundo ou espirituoso para dizer às ondas. Dei comigo lembrando do meu episódio favorito da série Ursinho Pooh – “Na qual Leitão é inteiramente cercado de água” –, em que Leitão, assustado, sente saudades de Pooh e pensa: “Com dois é muito mais divertido.”
Eu me sentia feliz por John estar em segurança (e poder cuidar de George e Blaine) e lamentei que ele não estivesse comigo – as duas coisas, ao mesmo tempo. Àquela altura, fazia uma hora e meia que eu vinha lutando para flutuar. Já estava muito queimado de sol e me sentia febril. Tinha a impressão de ter engolido galões e mais galões de água do mar.
Nunca me senti tão sozinho.
Lembrei do clichê segundo o qual todos morremos sós, qualquer que seja a causa da morte.
Tentei enumerar o que havia planejado fazer com meus filhos e para eles. Minha vida não estava passando diante de meus olhos como um filme, mas a deles sim. Nunca fui bom em relação ao momento presente, de modo que mais uma vez me refugiei em planejar um futuro cujo planejamento era impossível.
Eu sentia minha própria insignificância, sentia a pequenez do homem. Senti como era desimportante, realmente, que qualquer pessoa vivesse ou morresse.
Meu devaneio foi interrompido por uma voz no vento, uma voz que estranhamente lembrava a de John, que gritava: “Ajudem! Ajudem!” Tentei gritar de volta, mas o vento continuava a frustrar meus esforços. Em seguida ouvi outra voz. Então me ocorreu que os outros três poderiam estar na mesma situação que eu. Como eu me encontrava a favor do vento, podia ouvi-los, só que eles não me ouviam. A julgar por suas vozes, estávamos longe uns dos outros e do barco. Mas talvez a instrutora de mergulho tivesse ciência de tudo que eu ignorava.
De repente avistei um barco no horizonte, mas não tinha certeza de que era o nosso.
Vi uma coisa que parecia uma gigantesca mama cor-de-rosa, com cerca de 1,5 metro de altura, que ia na direção do barco, agora claramente discernível. Talvez as vozes, o barco e a mama não passassem de alucinações. O barco, que começava a parecer bastante com a nossa lancha, seguiu na direção da mama cor-de-rosa, e foi como se os dois se fundissem. Em seguida ele avançou para o ponto de onde vinham as outras vozes. Parou ali por alguns minutos.
E então começou a vir na minha direção.
Nunca na vida eu havia saudado um amante com a alegria que tomou conta de mim quando agarrei a escadinha de mergulho. Subi, tremendo, e caí nos braços de John.
John também passara por uma expe-riência difícil, mas bem diferente da minha. Estava em companhia de duas outras pessoas – uma das quais era instrutora de mergulho – que tinham subido à superfície 45 minutos depois de mim. Enfrentaram o mesmo dilema de não conseguir chamar a atenção do capitão do barco. Revezaram-se na tentativa de nadar para a lancha, que sempre ia para outro lugar antes que a alcançassem. Num momento, John chegou a 15 metros dela. A mama cor-de-rosa era, na verdade, um balão de emergência trazido pela instrutora
de mergulho. Mais tarde, perguntei-me como alguém que sabia que um objeto daqueles poderia ser necessário podia ter deixado que um novato como eu voltasse à superfície sozinho. A instrutora inflou o balão ao avistar a lancha e depois nadou ao lado dele até que o capitão finalmente o visse e fosse buscá-la. Uma vez a bordo, ela mostrou onde estavam John e a moça dos aquários. Durante todo o tempo em que John e a moça estiveram na superfície, ele imaginou que eu já estivesse no barco, e quando soube que eu estava desaparecido foi tomado de angústia. Mas a instrutora havia escutado meus gritos e soube indicar para onde o barco deveria ir. Eu tinha flutuado durante quase duas horas e me afastara muitas milhas.
Só depois de subir a bordo é que comecei a sentir raiva – do capitão, da instrutora e da direção do hotel. Mas também me senti felicíssimo por estar vivo, e é difícil sentir raiva e felicidade ao mesmo tempo. Abracei John, abracei a moça dos aquários, abracei a instrutora de mergulho e abracei o homem de Maryland, deixando-o meio espantado. O capitão tentou entabular uma conversa cordial, a que respondi num tom que John mais tarde descreveu como minha “voz de Linda Blair”, um grunhido gutural como o da menina possuída pelo demônio no filme O Exorcista.
Na verdade, uma pessoa pode se sentir feliz e colérica ao mesmo tempo.
Enquanto estive à deriva, pensei muito em meus filhos. Não que eu me tenha em altíssimo conceito como pai, mas realmente tenho uma noção clara de minha responsabilidade. De volta à terra, decidimos não contar a George o que tinha ocorrido. Achei que o assustaria, como ainda assustava a mim. No entanto, embora eu me mantivesse em silêncio, ele narrou animadamente suas aventuras – como tinha sido seu café da manhã, o que ele e Sue haviam feito na praia, as conchas e gravetos que cataram e o tanto que ele tinha nadado sozinho. Na ansiedade de sua narrativa, encontrei o complemento de meu infortúnio. Compreendi que a temeridade de pedir enguias no almoço, os saltos de paraquedas e as viagens a países em guerra empalidecem se comparados à aventura doméstica de ser pai – uma atividade que envolve, simultaneamente, levar em conta a vastidão do mundo e concordar, ao menos durante algum tempo, em ser essa vastidão para nossos filhos.
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Trecho do livro Lugares Distantes – Como Viajar Pode Mudar o Mundo, que será lançado em fevereiro pela Companhia das Letras