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UM CANTEIRO DE RÉPLICAS DA REDAÇÃO

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DEPOIS DA QUEDA

O artigo de André Singer (“Do sonho rooseveltiano ao pesadelo golpista”, piauí_140, maio) é magistral, por conseguir lincar os acontecimentos recentes com a história do Brasil, de forma clara e quase incontestável. No entanto, Singer reproduz uma interpretação corrente na esquerda tradicional, em especial as ligadas (em maior ou menor grau) ao PT: a de que as manifestações de 2013 foram antilulistas. Não há dúvida que os protestos contribuíram para a desestabilização do sistema político do país. Porém é um equívoco reducionista classificá-las como “anti” algum governo em si. O ano 2013 no Brasil (assim como na Turquia) é mais um episódio num cenário mundial de grandes manifestações pós-crise de 2008 que questionavam, em geral, a qualidade da democracia e seus reais influenciadores. A crise econômica, aliada à mobilização via redes e mídias sociais de uma geração nascida após a queda do muro de Berlim, catapultou às ruas os ressentimentos nesse sentido. Foi assim na Primavera Árabe, na Espanha, na Grécia e, ainda em 2016, na França (com o movimento Nuit Debout), trazendo ecos dos movimentos antiglobalização do final da década de 90. Singer também ignora que, apesar dos oportunismos da mídia, da Fiesp e do PMDB, a maioria da população brasileira não concordava com os gastos para a Copa e a Olimpíada enquanto muito ainda havia para fazer no país. Daí o mote “Não é por 20 centavos”, ou seja, não se tratava só do preço da passagem, mas das reais prioridades da República que não deveriam se encontrar na farra de gastos por ordem da Fifa e do Comitê Olímpico Internacional (beneficiando muitas empreiteiras, veja só). Insistir em classificar Junho de 2013 como mera oposição a um partido ou governo destoa do restante do artigo, que nos oferece uma reflexão madura (e muito necessária) sobre como funcionamos e como isso deságua em nossa democracia.

MARCOS ANDRÉ LESSA_RIO DE JANEIRO/RJ

Penso que, se o Partido dos Trabalhadores tivesse lançado Lula candidato após o primeiro mandato de Dilma Rousseff, ele teria ganho de lavada, talvez até mudado o rumo da economia, pois Lula é mais político, no que diz respeito a negociações, que ela. Hoje ele não estaria encarcerado em Curitiba. Porém, o que dá a entender é que eles queriam se perpetuar no poder. Lembrando um velho ditado: “Quem tudo quer nada tem.”

LUIS COUTINHO_VALINHOS/SP

Ao ler o texto do professor André Singer sob o sugestivo título “Do sonho rooseveltiano ao pesadelo golpista”, introdução do livro O Lulismo em Crise: Um Quebra-Cabeça do Período Dilma (2011-2016), nota-se a total parcialidade de um militante na análise de fatos ocorridos, que resulta numa defesa intransigente das gestões petistas, passando por cima de fatos fundamentais como o mensalão.

Na Despedida “Pensando em Paul Singer”, no mesmo número da revista, Roberto Schwarz se lembra da discussão do PT no Sindicato dos Químicos sobre as denúncias do mensalão, quando o ilustre pensador morto recentemente pôs o dedo na ferida ao referir-se à inegável importância que o dinheiro grosso passara a ter na política do partido. Isso indicava que militantes que não soubessem levantar fundos para as suas campanhas já não teriam condições de se candidatar a postos eletivos. Todos sabem que ele foi um dos fundadores do PT e um ativo militante político da esquerda desde a década de 50.

Ao contrário do pai, que apontou o desvio ético, o articulista, que foi porta-voz da Presidência da República no perío-do de 2003 a 2007, além de secretário de Imprensa do Palácio do Planalto (2005 a 2007) – portanto participou ativamente do primeiro período do governo Lula – não poderia ignorar fatos tão graves como aqueles denunciados pelo mensalão. Somente uma cegueira ideológica poderia justificar tais delitos como uma conspiração da direita, mesmo porque o governo tinha praticamente nomeado a maioria dos membros da Suprema Corte.

O mais grave é não ter enxergado que o mensalão foi um ensaio para delitos de maior envergadura, como revelado pela Operação Lava Jato. Desvios bilionários das estatais alimentaram as campanhas políticas do governo de coalizão, numa simbiose com as grandes empreiteiras.

A gestão de Dilma foi analisada com enorme complacência. Nenhuma crítica à “nova matriz econômica” -– criada por ela quando exercia a chefia da Casa Civil –, a grande responsável pelos desastres que ocorreram a partir de 2012, provocando a maior recessão que o país enfrentou na história.

É fácil falar em golpismo, em conspiração, buscando justificativas para o total fracasso da esquerda, que aliás parece não ter aprendido nada com o ocorrido e está disposta a cometer os mesmos desatinos, dobrando a aposta, segundo declarações dos seus principais líderes e pretendentes à Presidência. Em resumo, faltou autocrítica.

DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ

A introdução do livro O Lulismo em Crise: Um Quebra-Cabeça do Período Dilma (2011-2016), que a piauí reproduziu em sua última edição, mostra uma análise completamente enviesada do período que antecedeu a sra. Dilma Rousseff e de seu governo. Daria para apontar várias ausências nessa introdução, como a falta de coragem dos governos petistas em implantar reformas de fundo no modelo político-econômico brasileiro, apesar de sua ampla maioria no Parlamento; da presença da sra. Rousseff como ministra durante todos os anos dos mandatos de Lula e de sua conivência com a corrupção, apesar do apelido de “faxineira ética”; da sua gestão temerária e errática em economia ao nomear um ministro liberal e não lhe dar autonomia de ação. Mas para ficar somente no título da introdução, se o sonho rooseveltiano acabou, tanto melhor, pois o aclamado New Deal é um sucesso de publicidade, mas um fracasso de realidade. As estatísticas do Departamento do Censo dos Estados Unidos mostram que o desemprego naquele país ainda era de 17,2% em 1939, não obstante os sete anos de “salvação econômica” implementados pela administração Roosevelt (a taxa de desemprego normal, antes da Depressão, era de aproximadamente 3%). O pib per capita entre 1929 e 1939 diminuiu, indo de 857 dólares para 847. O gasto com consumo também, de 78,9 bilhões de dólares para 67,6 bilhões. É de se perguntar se esse era o sucesso almejado pela sra. Rousseff.

ADRIANO KOEHLER_CURITIBA/PR

Agradeço pela nota estética da Redação à minha carta (piauí_140, maio), mas, como aquilo que abunda não prejudica e com “nádegas a declarar”, tal qual a música de Gabriel, o Pensador, falemos de algo que não sejam “duas luas gêmeas em rotundo meneio”, como enalteceu Drummond. André Singer faz um arrazoado profundo e contundente do que foi a experiência petista à frente do governo para tentar resgatar a dignidade econômica da população, ainda que a título de introdução para seu livro. Certo é que economia é a capacidade de prever o passado, mas fica a impressão de que os postulados socioeconômicos consagrados dificilmente explicam a derrocada brasileira rumo ao golpe. Na equação precisa entrar a falta de solução com as mazelas do passado escravagista que impede também a formação de uma classe média com iniciativa própria e sem a mentalidade colonial. Se o estrago sob Dilma Rousseff já estava feito, como avaliam até especialistas da esquerda, ou mesmo que seria inevitável, nunca saberemos se haveria possibilidade de sua recuperação.

ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP 

RADICALISMO DE RESULTADOS

Apesar da riqueza do personagem, o perfil sobre o presidenciável Guilherme Boulos (“O herdeiro”, piauí_140, maio) ficou bem abaixo dos perfis que a piauí costuma publicar. Não havia nada de errado com o texto em si, que estava bom, mas faltou a densidade costumeira, o acompanhamento mais demorado do perfilado e um maior número de entrevistados. Tome-se como exemplo o perfil do quase (ufa!) presidenciável Luciano Huck, publicado na edição anterior (“O neófito”, piauí_139, abril). O apresentador não chegou a ser um tucano, mas foi retratado por Elvira Lobato e por Roberto Kaz, que é especialista em textos sobre bichos.

A propósito, quando teremos mais textos sobre animais? O excelente Kaz sempre coloca as discussões sobre o tratamento dado aos bichos no patamar que o assunto merece, retirando-o de um nicho restrito e dando visibilidade ao tema com objetividade e sensibilidade. Parabéns ao jornalista e à piauí, revista que leio


mensalmente desde 2007.

P.S: Falta um perfil do Ciro Gomes, não acham?

THIAGO CASTANHO DE CARVALHO_RIO DE JANEIRO/RJ

NOTA EXPLICATIVA E BIOGRÁFICA DA REDAÇÃO: Thiago, a gente acha que o Boulos não vai gostar muito de saber, mas nós, burgueses irrecuperáveis, somos seguidores fanáticos da seita de Voltaire: “Somos todos cheios de fraquezas e de erros; perdoemo-nos reciprocamente as nossas tolices.” Discordamos de você, mas, antes disso, achamos que a tolerância, ontem como hoje, continua sendo uma virtude em falta nas prateleiras da humanidade. Os caminhoneiros venceram faz tempo. Quanto a Roberto Kaz, o rapaz ficou ambicioso e não se contenta mais com o reino animal. Animado com o último perfil que publicou, ele agora anda nos propondo pautas sobre Eliana, Ratinho, Gugu e Amaury Jr. (a quem acompanha religiosamente desde criança e é de longe a personalidade brasileira que mais admira; em homenagem ao apresentador, Kaz, então com 15 anos, fez sua primeira aplicação de Botox, que, de resto, lhe caiu muito bem). Nosso diretor tem sido tolerante até demais com esse já não tão jovem repórter. Nem Voltaire aguentaria.

MEMÓRIAS DO CALABOUÇO

Após correr os olhos pela matéria de Flora Thomson-DeVeaux (“Notas sobre o calabouço”, piauí_140, maio), verdadeira peça de arqueologia da história e da literatura do Brasil, senti-me quase obrigado a cobri-la de elogios pelo estilo apurado, narrativa precisa e capacidade de entrelace de temas sortidos, sem aparente conexão natural, num todo coeso e provocador. Feito raro, a prosa envolvente faz o leitor replicar o mesmo ato de comparar mentalmente presente e passado, hábito que a autora revela ter como seu. Ansioso, aguardo por novas digressões, prazerosas de ler como a desse mês.

RAFAEL FERREIRA_SÃO PAULO/SP

Enquanto lia a matéria “Nota sobre o calabouço”, de Flora Thomson-DeVeaux, veio-me a lembrança do dia em que, passeando pelo Parque da Juventude, em São Paulo, deparei-me com a placa indicativa de que aquele era o local onde se erguia outrora o famigerado Pavilhão 9 da Casa de Detenção do Carandiru. De imediato minha mente, num surto sinistro, começou a reproduzir a gritaria que se deu no dia do massacre ocorrido exatamente ali onde eu estava. Pois então, a partir de agora, quando eu estiver no Aeroporto Santos Dumont, no Rio, o barulho das turbinas dos aviões dividirá espaço com os gritos dos escravos que por ali em outros tempos foram tão severamente torturados. E, assim, nosso presente vai claudicando. Anda trôpego e, embora de ouvidos tapados, ouve todos os gritos que o passado ecoa.

FLÁVIO SANTOS DE SOUSA_VOLTA REDONDA/RJ

POR DENTRO DO PCC

“Ro-ro” é abreviatura de roll on, roll off, não row, como colocado na página 24, primeira coluna, na matéria “Guerra do pcc” (piauí_140, maio).

ALDO DÓREA MATTOS_SALVADOR/BA

NOTA CONSTRANGIDA DA REDAÇÃO: O leitor está absolutamente correto. Só nos resta admitir que somos solidamente monoglotas. Quebramos a cara toda vez que nos aventuramos numa língua estrangeira. Sory. Sorrie. Sorri. Perdão.

A reportagem sobre o pcc comete uma impropriedade com os auditores fiscais da Receita Federal, no trecho que segue: “Com o recrudescimento do tráfico e o aumento dos ganhos, o pcc passou a corromper em escala inédita estivadores, funcionários dos terminais portuários, guardas e até fiscais da Receita Federal. Há uma tabela informal de propinas: de mil dólares pela foto de um contêiner que tenha destino internacional de interesse do esquema, até 1.500 dólares por quilo de cocaína embarcado, destinados a corromper toda a cadeia logística e de fiscalização.” Isso estaria ocorrendo no porto de Santos.

Tal parte da matéria se choca com os fatos. Os auditores fiscais da Receita Federal foram responsáveis, somente em 2018, por onze grandes apreensões da droga no porto de Santos – o acumulado já alcança nada menos que 4,4 toneladas. O volume de apreensões cresce a cada ano. Em 2016, os auditores fiscais impediram o embarque de 10,6 toneladas; em 2017, de 11,5 toneladas.

O Sindifisco Nacional apoia todas as iniciativas para se combater desvios dentro da Receita Federal, depois de percorrido o devido processo legal. Por isso, defendemos o fortalecimento da Corregedoria da RFB.

CLÁUDIO DAMASCENO_PRESIDENTE DO SINDICATO NACIONAL DOS AUDITORES FISCAIS DA RECEITA FEDERAL

FIGURINHAS E FIGURÕES

A esquina “Figurinhas e figurões” (piauí_140, maio) permitiu-me uma associação bem oportuna. Nada contra álbum de figurinhas, aliás, hábito infantil muito salutar. Metaforicamente, porém, lembrou-me a citação atribuída ao saudoso Raulzito: “No fim dos tempos, o bem e o mal andarão de braços dados sobre as cinzas da cidade.” Trágico, não? Mas a Copa vem aí, então o Brasil ficará, mais uma vez, “anestesiado em berço esplêndido”.

GILSON MARINHO LUZ_ITAOCARA/RJ

NÃO FUI EU

O que me surpreendeu no artigo de João Moreira Salles publicado na edição de abril (“Anotações sobre uma pichação”, piauí_139) foi perceber certo parentesco lírico com outro João, o do Rio. Se este nos revelou “a alma encantadora das ruas”, aquele, num instantâneo literário, demonstrou que ela, a Rua, também possui fala – e eu procuro ouvi-la lendo os muros da cidade. Eis que me deparo com outro leitor de muros que de forma sóbria se dispôs a grafitar numa revista o clamor acusatório da Rua diante da necrose social cotidiana: “Não fui eu.”

WALDEMIR TAVARES_NITERÓI/RJ

Como leitor assíduo da seção de cartas da piauí, fiquei feliz em encontrar esta briga. Talvez consiga colocar o assunto “CPMF” na seção. Já tentei muitas vezes escrever para Cartas do Leitor em diversos jornais. Nunca publicam. A CPMF é um imposto “maldito”. Ele é SIMPLES, INSONEGÁVEL e DENUNCIADOR, por isto é detestado e combatido principalmente pelos tributaristas (eles iriam perder o emprego). Na guerra, só o que é SIMPLES funciona. Para quem acompanha esta pelea – Globo versus piauí –, Coaf e Receita não são “dois órgãos ineficientes”. Eles não tinham as informações (a imprensa também não). Como seria diferente se conseguíssemos criar este “imposto maldito”. O artigo do Ascânio Seleme e sua carta, a do Salles, assim como as Notas da Redação da piauí, tudo seria muito diferente se existisse este “maldito imposto”. Continuo não acreditando que a piauí tenha coragem de publicar esta carta.

RUY MOZZATO_RIO DE JANEIRO/RJ

NOTA ENIGMÁTICA DA REDAÇÃO: Tampouco nós acreditávamos, Ruy. O que talvez seja sinal de que, às vezes, a covardia pode ser uma virtude. (Ganha um pinguim quem tiver compreendido essa resposta.)

Incrível a resposta que vocês deram ao ex-editor de O Globo. Quem escreveu foi o João Moreira Salles mesmo? Nunca escrevi para a piauí, tenho todas as edições, comecei a comprar na edição 7 e depois completei a coleção, mas dessa vez fiquei com vontade de escrever só para elogiar essa resposta. E para pedir algum perfil de alguém que eu gosto (David Milch, por exemplo, ou o perfil do David Lynch escrito pelo David Foster Wallace, já que vocês gostam dele – do Wallace, do Lynch não sei –, ou um perfil do Terrence Malick, quem sabe?). E para dizer que a piauí precisa traduzir mais algum texto do Charles Siebert (“Caminhos cruzados”, piauí_120, de setembro de 2016, foi o melhor texto que já li nesses 140 meses – decorei a parte final inteira). Mais algumas coisas:

  1. Gosto das cartas do Dirceu Luiz Natal;
  2. piauí anda bem esquerdista mesmo, mas tudo bem, os escritos são bons;
  3. Não quero usar o fato de ter todas as edições (até porque não posso provar, uma vez que não tenho celular para tirar uma foto) para pedir nada, mas digo que também tenho todas as edições da Serrote. Que tal atender algum pedido meu ali ao lado (não quero pinguim)?

CARPEGIANNY FERREIRA LAURENTINO_BRASÍLIA/DF

NOTA MAIS DO QUE JUSTA DA REDAÇÃO: Se você (1) tem todas as edições da revista; (2) não usa celular; e (3) gosta das cartas de Dirceu Luiz Natal, então você pertence ao clube rarefeito dos leitores de piauí a quem tudo é devido – das viandas mais raras ao mais doce hidromel. Sugestões anotadas. Malick, Milch e Lynch talvez sejam desconhecidos demais do pobre leitor brasileiro já tão assolado por greves, coletivas de Carlos Marun e nova novela de Susana Vieira para suportar o fardo adicional de ter de traçar 50 mil caracteres sobre gente bacana mas meio distante. Portanto, periscópio piauiense apontado na direção de Charles Siebert.

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Por questões de clareza e espaço, piauí se reserva o direito de editar as cartas selecionadas para publicação. Somente serão consideradas as cartas que informarem o nome e o endereço completo do remetente.

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