questões de privacidade
José Roberto de Toledo Mai 2018 23h06
6 min de leitura
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Foi impossível não perceber a anomalia. Uma enxurrada de diferentes e-mails sobre “mudança da política de privacidade” inundou milhões de caixas-postais mundo afora. Eram empresas – Facebook à frente – que dependem da coleta dos seus, dos meus, dos nossos dados pessoais para fazer dinheiro, correndo para se adequar a uma nova e pretensamente rigorosa legislação europeia. O Regulamento Geral de Proteção de Dados entrou em vigor em 25 de maio.
Como bits e bytes não têm passaporte, as exigências que a Europa fez aos aplicativos caça-dados acabaram por se tornar globais. Chegaram aos rincões mais afastados do centro de poder. Até no Brasil. A nova lei manda que as empresas obtenham consentimento explícito para coletar informações do usuário – daí a correria para pedir a permissão de centenas de milhões de pessoas para continuarem capturando, guardando e negociando nossos dados. Essa foi apenas uma das consequências da legislação que entrou em vigor.
Agora, companhias só podem pedir informações essenciais ao seu negócio. Um aplicativo de viagem não pode perguntar seu partido político, se você é destro ou canhoto, se gosta de rock ou de sertanejo. Não que ele precise saber. O ecossistema comercial de captura de dados pessoais compartilha informações sobre usuários tanto quanto passageiros compartilham o ar dentro de um vagão de metrô. O troca-troca de dados equivale ao de germes. A diferença é que nossos organismos digitais não desenvolvem anticorpos.
Popular plataforma para compra e leitura de e-books, o Kobo foi das empresas que enviou mensagem aos clientes brasileiros às vésperas de a nova legislação entrar em vigor. A companhia listou as atualizações em sua política de privacidade: 1) Como os dados dos usuários são compartilhados com terceiros; 2) Como ela usará essas informações pessoais; 3) Por quanto tempo elas serão guardadas; 4) Como o usuário pode saber o que foi coletado sobre ele e como deve fazer para controlar o uso de seus dados.
Tudo muito transparente – desde que o destinatário das mensagens se anime a clicar nos links embutidos em todos os e-mails que recebeu, visite cada um dos incontáveis sites das empresas que coletam informações sobre ele, leia milhares de palavras mal traduzidas para o português sobre temas tão excitantes quanto “termos de serviço” e “política de privacidade” e, finalmente, faça o download de dezenas de arquivos com seus dados. Trivial.
As empresas donas dos aplicativos que passaram a fazer parte do nosso cotidiano apostam, com muita chance de ganhar, que a imensa maioria dos usuários simplesmente vai deletar essas mensagens e dar o.k. no primeiro botão que aparecer em sua tela pedindo para ele ou ela consentir em ceder o que lhe for pedido – sem ler. A praticidade matou a privacidade, e vai continuar matando.
Maior sinal de que a matança continua é o gráfico que traça a evolução do valor das ações do Facebook. Mark Zuckerberg continuou apanhando depois que a revista Wired publicou na capa de março o rosto desfigurado do fundador da rede social mais valiosa do planeta e a investigação jornalística sobre a crise que a atingiu nos últimos dois anos (reproduzida entre as páginas 50 e 60 desta edição). O escândalo envolvendo uma empresa de marketing político com o pretensioso nome de Cambridge Analytica provocou a desvalorização de 18% do Facebook na Bolsa, e levou seu dono a depor durante horas no Congresso norte-americano.
Mas, assim que os investidores perceberam que o modelo de negócio da rede social – e das companhias de tecnologia que dependem dela – não corria risco de ser ameaçado pelo governo nem pelos combativos congressistas, a mão invisível do mercado tratou de desenhar uma curva ascendente para as ações do Facebook, tão íngreme quanto havia sido a de sua queda. Hoje, cada ação vale os mesmos 185 dólares de antes de o escândalo estourar.
E que escândalo: um que envolve manipulação de eleições, belas modelos ucranianas e chantagem. Tudo começou quando um rapaz de cabelo cor-de-rosa e argola bovina no nariz pareceu ter desenvolvido uma consciência do dia para a noite.
Christopher Wylie contou a uma repórter do jornal britânico The Guardian que, em 2014, participara de uma reunião com o estrategista da campanha presidencial de Donald Trump e com um dos maiores financiadores do Partido Republicano. O encontro era para seu patrão à época, Alexander Nix, convencer os gringos que Wylie, com a autoridade de seus 24 anos, poderia programar um sistema supostamente capaz de influenciar eleitores a votar em Trump.
O sistema se baseava em algoritmos que – segundo seus vendedores – eram capazes de prever o comportamento eleitoral de cada indivíduo com base em perfis psicológicos e informações pessoais detalhadas de 87 milhões de usuários do Facebook. Parecia bom demais para ser verdade. A Cambridge Analytica – que da famosa universidade só tinha o nome, propositalmente copiado – provou-se uma empresa de marketing político fazemos-qualquer-negócio.
Usando câmera escondida, um repórter do Channel 4 inglês gravou várias reuniões com representantes da Cambridge Analytica, passando-se por um político interessado em manipular eleições. Os marqueteiros ofereceram ao repórter um rol de serviços bem mais apimentado do que os aborrecidos algoritmos – entre eles, contratar sensuais garotas ucranianas e filmá-las com os adversários do cliente para depois chantageá-los.
Os detalhes sórdidos ajudaram a tirar o foco da história principal: aplicativos usam o Facebook – e outras redes sociais – para coletar todo tipo de dados de usuá-rios e depois vendê-los em um mercado pouquíssimo regulado. A polêmica que se seguiu ao escândalo da Cambridge Analytica provocou mudanças cosméticas nas políticas de privacidade adotadas pelas empresas cujo negócio é coletar, analisar e vender dados pessoais. A nova legislação europeia que provocou a enxurrada de e-mails endereçados aos clientes dessas empresas é um exemplo.
Nada disso vai mudar o fato de que as empresas de tecnologia sabem mais sobre nós do que nós mesmos. Para que a frase anterior seja verdadeira basta você admitir ser incapaz de lembrar de cabeça o caminho que percorreu, com quem falou, quais fotos tirou, quantas calorias gastou em todos os dias de sua vida desde que passou a andar com um smart-phone no bolso ou na bolsa e do qual se desgruda apenas para tomar banho.
O iPhone e o Android são nossa memória terceirizada, mas ela não é mais só nossa. É coletiva. Os aplicativos que nos facilitam a vida são custeados pelos dados que registram e compartilham sobre o nosso cotidiano: nossos passos, nossas navegações pela internet, nossas curiosidades saciadas no Google, nossos likes, comentários, compras. Se o conteúdo dos telefonemas e mensagens é, em tese, sigiloso, seus metadados não são: as informações de para quem, quando e de onde foram transmitidos ficam registradas. E às vezes são compartilhadas inadvertidamente.
Em meados de maio, uma família de Portland, no oeste dos Estados Unidos, teve uma conversa corriqueira dentro de casa. Por alguma razão que os engenheiros da Amazon ainda não descobriram, o Echo – assistente pessoal fabricado pela empresa e que responde a comandos de voz – entendeu que era para gravar o que a família dizia. Em seguida, o aparelho interpretou errado outra frase da conversa familiar e ligou para uma pessoa que constava de sua agenda de telefones. Por fim, enviou a conversa gravada para a pessoa do outro lado da linha. Os donos da casa só descobriram o que acontecera quando o destinatário ligou para eles contando.
Quanto mais tecnologicamente prática a vida se torna, menos privada ela é. Pergunte ao seu celular.