questões eleitorais I

CONTADORES DE VOTOS

Uma história do Ibope, da miséria dourada à venda bilionária
Imagem Contadores de votos

43 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

O trânsito paulistano estava especialmente carregado naquela tarde garoenta de sexta-feira. Os 22 quilômetros entre a sede do Ibope, o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, na Água Branca, e nosso destino no Jabaquara custaram duas preciosas horas, ou quase. Fazia uma semana que Jair Bolsonaro havia sido esfaqueado enquanto era carregado nos ombros por entusiastas de sua campanha a presidente da República. O candidato do PSL estava hospitalizado, e ainda não se sabia qual impacto o atentado contra a vida do líder da corrida presidencial teria na opinião do eleitor. Era o que iríamos ajudar a aferir.

Enquanto o Uber abria caminho em meio à chuva fina, Adislene Machado Meireles me contava os macetes que aprendeu em dezesseis anos como pesquisador do Ibope. Ele explicou que é muito mais fácil fazer entrevistas domiciliares na periferia do que no Centro rico da cidade. O melhor lugar para trabalhar, disse, é em uma favela: “O acesso é bem mais fácil. Os moradores querem falar, te convidam para entrar.” E a segurança? “O pesquisador não pode ficar depois que escurece.” Meireles sabe do que está falando. Palmilhou Norte, Sul, Leste e Oeste de São Paulo. Conhece a capital de Perus a Marsilac, do Lajeado ao Rio Pequeno. Perguntei qual é o pior lugar para pesquisar. “Os setores mais difíceis são os verticais”, sentenciou, sem hesitar. Traduzindo: as áreas adensadas, onde quase todos moram em prédios de apartamentos. E o pior dos piores? Os Jardins, lar da burguesia paulistana. Nos bairros ricos gasta-se mais tempo para encontrar quem responda aos questionários porque o pesquisador não consegue autorização para entrar nos condomínios. O medo de assalto endureceu as regras de segurança nos edifícios. O jeito é ficar esperando em frente, na rua, até que alguém entre ou saia. Mas isso pode demorar. Pesquisadores experientes tentam convencer o porteiro a interfonar para os apartamentos e pedir a um morador para descer e dar a entrevista na calçada. Mas não um morador qualquer.

Antes de sair para cumprir sua meta de catorze questionários do dia, cada pesquisador a serviço do Ibope recebe uma folha de papel com o perfil dos entrevistados que precisa encontrar: tantos homens e tantas mulheres desta ou daquela faixa etária, que possuam determinados graus de instrução e que se ocupem economicamente ou não. Dica de Meireles: convém começar pelos tipos que, por experiência, o pesquisador sabe serem mais difíceis de achar. Se deixar para cumprir a cota de nível superior no final, o entrevistador se arrisca a gastar horas procurando um perfil raro em setores de renda mais baixa, como, por exemplo, uma mulher de 55 anos ou mais que cursou faculdade e seja economicamente ocupada.

Mas por que é preciso fazer esse jogo de gato e rato com os eleitores? Por que não entrevistar qualquer um que passa na rua? Nos Estados Unidos, onde as pesquisas eleitorais começaram e se desenvolveram, elas são 100% probabilísticas: o pesquisador disca aleatoriamente para um número da lista telefônica e entrevista um eleitor. Não no Brasil. Aqui, o acaso corre solto só para determinar os locais onde será colhida a amostra. Na etapa seguinte, os principais institutos brasileiros combinam a aleatoriedade com o preenchimento de cotas de sexo, idade e escolaridade representativas do universo de votantes. Sem isso, as pesquisas em um país tão desigual e heterogêneo quanto o Brasil demorariam tempo demais e teriam um custo proibitivo. Não seria viável medir a intenção de voto toda semana, muito menos todo dia, como ocorre na reta final de uma eleição.

Meireles e eu chegamos ao setor 059 do Jabaquara, segundo o código do Ibope. A aparência do pesquisador não deve destoar do ambiente em que estiver nem chamar atenção. Nas roupas, nada de logomarcas nem estampas com frases ou números. Em pesquisas eleitorais, é proibido usar vermelho ou qualquer cor associada a um partido. Meireles pendura o cordão com o crachá no pescoço. Tem um mapa com o perímetro do setor numa mão e o tablet na outra – há muitos anos o Ibope não usa mais questionários de papel.

Ele toca no ícone do aplicativo Ibope 2.0, digita seu cpf e a senha. Aparece na tela o código da pesquisa que irá fazer. Não há outra opção. A partir de então, toda vez que abrir um formulário para fazer uma entrevista, o GPS do tablet marcará o local em que ela foi realizada, e o gravador interno registrará tudo o que foi dito. São dois mecanismos de segurança muito úteis para fiscalizar o trabalho do entrevistador e, principalmente, para combater fraudes. Assim que Meireles der o.k. para fechar o formulário da entrevista, o equipamento enviará os arquivos de texto para processamento no Ibope por meio da rede de telefonia celular. O arquivo de áudio seguirá depois, quando o entrevistador encontrar um lugar onde haja wi-fi.

Enquanto isso, na sede do instituto, na Água Branca, vinte pessoas da equipe de Michele Matos da Silva ouviam uma de cada cinco gravações das entrevistas feitas por todos os pesquisadores que haviam ido a campo naquele dia ou na véspera. O objetivo é checar se as perguntas foram formuladas corretamente e se as respostas registradas conferem com o que foi dito pelo entrevistado, me explicou a gerente de Controle de Qualidade em entrevista durante uma de minhas muitas visitas ao Ibope. Se notam algo suspeito em uma das gravações, os verificadores ouvem todas as entrevistas daquele entrevistador. Às vezes, detectam fraudes.

Há quinze anos no Ibope, Matos da Silva já ouviu de tudo. “Quando grava em casa recorrendo a parentes para forjar as entrevistas, o fraudador não se toca que o latido do cachorro do vizinho vai aparecer em todas as gravações.” Por isso, quando percebe algo suspeito, ela gosta de dizer: “Já ouvi esse cachorro antes.” A gerente me explicou que o risco de o pesquisador fazer algo impróprio aumenta quando ele não consegue preencher toda sua cota de entrevistados com o perfil demandado pela folha que leva consigo. Se estiver atrasado, o entrevistador pode ficar tentado a marcar no tablet que a entrevistada que declarou só ter cursado até o ensino médio fez faculdade, por exemplo. Em casos mais raros, a fraude é planejada. A gerente me deixou ouvir uma gravação sui generis. Duas pesquisadoras conversam entre si, sem se darem conta de que deixaram o tablet gravando o que falavam. Reclamam do seu coordenador de campo. Combinam o que dizer se ele perguntar onde estavam. Ouve-se a digitação na tela do tablet. Depois, uma delas se dirige a uma terceira pessoa e diz que ela não precisa arrumar o quarto porque ficariam ali o dia todo. Depreende-se que era a camareira do hotel, e que a dupla jamais fora à rua fazer as catorze entrevistas que cada uma deveria conduzir naquela cidade. Compreende-se: estava chovendo.

Ouvi outra gravação, ainda mais intrigante. O entrevistador pergunta e, após um curto intervalo no qual se ouve barulho de teclado, o entrevistado responde sempre com o mesmo tom de voz e no mesmo ritmo. O que chamou a atenção de Matos da Silva nessa gravação foi que o eleitor nunca fazia nenhum comentário. “As pessoas sempre dizem alguma coisa além do que foi perguntado. Fazem piada”, ela conta. A voz monótona do entrevistado também não lhe era estranha. Depois de ouvir algumas vezes a gravação, finalmente caiu a ficha: Google Tradutor! A ferramenta de tradução on-line permite que o usuário ouça o texto a ser traduzido, mas, quando as frases são longas, a entonação mecânica não deixa dúvida de que se trata de um robô. Por isso o fraudador teve o cuidado de limitar as respostas criadas por ele ao mínimo indispensável.

Perguntei a Matos da Silva o que acontece quando sua equipe detecta uma falha de procedimento do entrevistador na condução da pesquisa ou quando uma fraude fica comprovada, como nos exemplos que ela me mostrou. Depende do tipo de erro, explicou. Os erros nível 1 são aqueles que não interferem no resultado da pesquisa. Ocorrem quando o pesquisador omite uma palavra em uma pergunta ou se esquece de dizer “mais alguém?” em uma questão sobre quais candidatos o eleitor não votaria de jeito nenhum. Os de nível 2 são erros de informação não intencionais, quando o entrevistado diz uma coisa e o pesquisador marca outra no tablet. Aí é preciso interferir no banco de dados para corrigir a resposta e, eventualmente, ligar para o entrevistado para conferir o que ele disse. Mas isso não anula a entrevista. Em ambos os casos, o chefe imediato é notificado e o entrevistador tem que passar por novo treinamento. O erro é anotado em sua ficha.

Os erros de nível 3 são os intencionais. Nesse caso, os verificadores cancelam não só o questionário problemático, mas todas as entrevistas feitas por aquele pesquisador. Outro tem que ser mandado para refazer o trabalho, não importa onde seja. O pesquisador é punido financeiramente – não recebe pelas entrevistas que fez – e seu chefe é avisado de que aquele indivíduo “não está mais apto a trabalhar para o Ibope”. Na grande maioria, os pesquisadores são autônomos e trabalham para diferentes empresas especializadas em organizar pesquisas de campo. Mesmo que ele troque de contratante, não conseguirá mais operar os tablets do Ibope porque seu cpf ficará bloqueado no aplicativo. A lista de Matos da Silva é longa e implacável. Seu departamento cadastrou 17 429 pesquisadores de campo que passaram pelo treinamento básico do Ibope desde 2008. Desses, 1 590 apresentaram erro de algum tipo nos últimos dois anos.

No Jabaquara, descemos pela rua Mennucci. Casas coladas umas às outras, quase todas com o mesmo partido arquitetônico. Por entre as grades de ferro se entrevê a garagem coberta ocupando quase toda a parte da frente. Ao fundo, na sombra, uma janela e a porta da sala. Piso de cimento ou lajota. Raras plantas. De algumas moradias nada se vê, o portão não tem frestas. Numa e noutra, um rolo de arame farpado sobre a grade frontal serve de obstáculo para eventuais invasores com habilidades de alpinista. Um típico bairro de classe média paulistano, com calçadas estreitas, postes de concreto e muita fiação aérea. A cada dois minutos, ouve-se o ronco dos jatos que pousam e decolam da pista do Aeroporto de Congonhas, a 500 de metros de distância.

Meireles previu que, naquela tarde chuvosa, não seria fácil fazer as entrevistas. Por algum motivo esotérico, a chuva deixa as pessoas menos propensas a atender aos pesquisadores, mesmo depois que a água para de cair, como era o caso. Resignado, o entrevistador tocava a campainha, batia palmas. Quando alguém respondia, ele dizia: “Boa tarde. Sou do Ibope e estamos fazendo uma pesquisa aqui no bairro. O senhor (ou a senhora) poderia responder a algumas perguntas, por favor?” Se a pessoa dissesse qualquer coisa, Meireles logo indagava se ela mora ali e, em caso positivo, se era eleitora e se votou na última eleição. São filtros para evitar os que se abstêm nas urnas e podem enviesar a amostra. Qualquer resposta negativa a uma das três questões faz abortar a entrevista.

O primeiro abordado disse não morar na casa; o segundo, que não votava; o terceiro, que não pretendia votar. E assim foi, de casa em casa: “Não moro”; “Não voto mais”; “Passa mais tarde”; “Estou fazendo a janta.” Ninguém disse: “Não quero responder à pesquisa.” Sempre havia uma desculpa. Trocamos o lado da rua. Na 11ª tentativa, um senhor de aparência oriental consentiu, passou pelos filtros e começou a responder ao questionário. Ele, do lado de dentro; Meireles, do lado de fora da grade. Na terceira pergunta, uma mulher saiu da casa e veio ao portão ver o que acontecia e interrompeu: “Nós não vamos votar este ano.” Diante do ar de perplexidade do companheiro, ela disse, impaciente: “Vamos viajar.” “Vamos?”, indagou o entrevistado, que sorriu maroto para Meireles e se despediu. “Fica pra outra. Outra encarnação.”

Foram dezenove recusas, num período de quarenta minutos, até que um jovem terapeuta que trabalha por conta própria e se revelou eleitor de Ciro Gomes desse a primeira entrevista completa para Meireles. Tampouco nos convidou para entrar, mas, diferentemente dos vizinhos, saiu até a calçada para atender ao entrevistador. Durante cerca de vinte minutos, respondeu pacientemente à bateria de perguntas. Desde quantos banheiros há na sua casa (um indicador de renda que costuma ser mais preciso do que o valor declarado dos rendimentos somados dos moradores do domicílio) até sua chance de votar ou não em cada um dos principais candidatos. Reclamou apenas da repetição das perguntas quando, depois de já ter dito verbalmente sua intenção, Meireles pediu que ele marcasse seu voto também no tablet, como se estivesse usando a urna eletrônica. Como eram muitos cenários de segundo turno, o aparelho trocou de mãos entre os dois seguidas vezes.

A simulação da urna é uma técnica adotada pelo Ibope para medir a “espiral do silêncio”. Trata-se de fenômeno recorrente quando há um candidato no qual, por qualquer motivo, o eleitor tem vergonha ou medo de declarar seu voto. Uma parcela dos que não verbalizam sua intenção acaba revelando-a na digitação no tablet. Sentem-se possivelmente mais à vontade sabendo que o entrevistador não verá em quem estão votando. O Ibope começou a tentar medir o tamanho do eleitorado enrustido depois de não captar toda a intenção de voto em Jânio Quadros na eleição para prefeito de São Paulo em 1985. Na época, o instituto usava uma cédula de papel que o entrevistado preenchia e depositava em uma urna. A diferença entre o voto declarado e o voto no tablet é levada em conta nas análises internas feitas pelo Ibope comparando os resultados da pesquisa com o número apurado nas urnas. Na eleição presidencial de 2018, o voto no tablet indicou preferência ligeiramente maior tanto para Bolsonaro quanto para Fernando Haddad do que a intenção de voto declarada verbalmente.

Assim que a entrevista terminou, o jovem terapeuta eleitor de Ciro disse que aquele havia sido um “momento histórico”, pois nunca tinha sido entrevistado por nenhum instituto de pesquisa. De fato, para a maioria das pessoas não se trata de algo corriqueiro. Ao longo de 2018, o Ibope terá feito 282 mil entrevistas face a face em pesquisas eleitorais. Daria para lotar quase quatro vezes o Maracanã. Entretanto, a chance de isso acontecer com um eleitor específico foi de 1 em 522. Ou seja, para cada entrevistado pelo instituto haverá ao menos 521 eleitores que elas não fazem a cara de nenhum pesquisador. Esse é um dos motivos pelos quais tanta gente duvida das pesquisas; elas não fazem parte de sua experiência pessoal.

Comentei com Meireles que algo havia me impressionado em todas as vinte abordagens que ele fizera. Ninguém, nem mesmo as pessoas que demonstravam menos interesse em conversar com o pesquisador, perguntou o que é Ibope. Meu comentário não soou como novidade para ele. Meireles me contou que, por isso mesmo, é comum entrevistadores que prestam serviços terceirizados para mais de um instituto guardarem o crachá do Ibope. Não como souvenir, mas por comodidade, para usarem quando estiverem fazendo pesquisas para outros institutos. Sabem que ao falarem a palavra mágica não precisarão explicar mais nada ao entrevistado.

O termo “Ibope” está dicionarizado desde 1986, quando apareceu na segunda edição do Aurélio. Em 2001, entrou no Dicionário Houaiss. Consta do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, editado pela Academia Brasileira de Letras, e foi traduzido no Dicionário Collins de português-inglês: “Ibope – To get high ratings; to be popular.” Segundo os dicionaristas, “ibope” quer dizer três coisas ligeiramente diferentes. É a marca registrada da empresa tornada famosa por medir  desde a década de 40 quem assiste o quê no rádio e na tevê, e uma das siglas mais valiosas do Brasil – o Ibope Media foi avaliado em 1 bilhão de dólares em 2014, quando o controle acionário da empresa foi vendido pela família Montenegro à gigante multinacional Kantar. Além disso, ibope é um substantivo masculino que significa o índice de audiência de meios de comunicação, como na frase “O ibope de tal programa bateu em tantos pontos”. Mas a acepção mais usada é a figurativa, como sinônimo de sucesso, popularidade, reputação: “Isso deu ibope” ou “Fulano tem ibope”.

Menos no período eleitoral. Aí o Ibope perde ibope e vira sinônimo de polêmica. Em tempo de eleição, após a divulgação de qualquer pesquisa de intenção de voto, o lado que aparece com menos pontos do que gostaria usa o Ibope em maiúsculas para desferir todo tipo de impropérios. Estudos acadêmicos feitos tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos concluíram que as pesquisas eleitorais brasileiras estão entre as melhores do mundo. As taxas históricas de acerto do Ibope e do Datafolha são mais altas do que a média dos institutos norte-americanos. Mas o senso comum discorda. Todo eleitor parece se lembrar de ao menos um caso em que “as pesquisas erraram feio”. Quase ninguém se lembra dos casos em que “acertaram bonito”, só os pesquisadores e quem se ocupa de estudar sistematicamente o assunto. Como os goleiros sabem de cor, o erro é sempre mais memorável do que o acerto.

Políticos estão entre os maiores críticos e, ao mesmo tempo, os mais fiéis clientes dos institutos e usuários das pesquisas. Detonam publicamente as sondagens quando não gostam do resultado, mas tampouco hesitam em colocar na sua propaganda eleitoral o número do Ibope ou do Datafolha que os agrada. Em 2018, apenas, políticos pediram na Justiça a impugnação e censura de mais de trinta pesquisas do Ibope. Em 2016, ano de eleições municipais e, portanto, de muito mais candidatos e pesquisas em mais lugares, foram 67.

Mas esse é o comportamento em público. No privado, tudo o que os políticos fazem numa campanha é avaliado e guiado por pesquisas junto ao eleitorado, tanto as que são divulgadas pelos meios de comunicação quanto as que eles próprios contratam apenas para seus olhos. Não foi por coincidência que, na véspera do segundo turno das últimas eleições presidenciais, a campanha de Bolsonaro voltou a fazer propaganda via WhatsApp associando o chamado “kit gay” a seu adversário do PT. Nos dias anteriores, Ibope e Datafolha haviam mostrado que Fernando Haddad tinha diminuído a diferença que o separava de Bolsonaro entre eleitores evangélicos. Se o WhatsApp é a arma da vez dos candidatos, a pesquisa é o sistema de inteligência que detecta, identifica e mapeia seus alvos.

Meu celular começou a vibrar com mensagens de WhatsApp. Era Márcia Cavallari, CEO do Ibope Inteligência, perguntando se estava tudo bem comigo e Meireles. Fazia horas que tínhamos saído do Ibope e nenhuma entrevista tinha entrado no banco de dados. Justifiquei pela chuva, pelo trânsito, pelo motorista do Uber ter errado o caminho. “Não vale ter ido de Uber. Tinha que ter ido de metrô e ônibus”, Cavallari ironizou, por escrito, em referência ao jeito pelo qual os pesquisadores costumam se locomover. “Quantas entrevistas fizeram?” Duplamente envergonhado, respondi a verdade. “Só? Que pobreza!” Era tempo de voltar à sede e (tentar) entender o processo probabilístico que nos levou, Meireles e eu, a passar uma hora percorrendo ruas do Jabaquara.

“A gente faz uma seleção sistemática com probabilidade proporcional ao tamanho, o método PPT”, tentou me explicar Bruna Suzzara, sem se intimidar com minha expressão provavelmente aparvalhada. A gerente de Estatística, há treze anos no Ibope, se referia ao método usado por sua equipe para sortear municípios e, dentro dos municípios, setores censitários – as áreas com cerca de 300 domicílios que um recenseador do IBGE, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, é capaz de percorrer a pé sempre que faz um novo censo demográfico. Foi um desses trajetos que Meireles e eu percorremos no setor 059.

O pouco que assimilei do muito que Suzzara didaticamente me ensinou foi o óbvio: pela seleção PPT, quanto mais populoso é um município, mais chances tem de ser incluído em uma pesquisa do Ibope. Assim, os maiores, como São Paulo e Rio de Janeiro, constam de todas as amostras. Só mudam os endereços onde as entrevistas são feitas. Já os pequenos e médios municípios se alternam: entram em uma pesquisa, mas não necessariamente na próxima, depende da sorte. Em uma amostra nacional de 2 002 entrevistas, 462 serão realizadas no estado de São Paulo, distribuídas por 66 setores censitários. A localização desses 66 não é decisão de um estatístico, mas do acaso. Também é feita por sorteio.

E por que 2 002 entrevistas e não 2 mil? Como cada pesquisador faz catorze entrevistas por dia, o total delas tem que ser um múltiplo de catorze: 602, 812 ou 2 002. E como é possível que apenas 2 002 pessoas representem a opinião de 147 milhões de eleitores? Pelo mesmo princípio da amostragem que faz com que o sangue de apenas uma ampola seja suficiente para revelar se o seu doador está saudável ou não. E por que o tamanho das amostras é o mesmo para um grande país e para uma pequena cidade? Pelo mesmo motivo que a colher que usamos para experimentar a sopa não muda de acordo com o tamanho da panela. Como assim? Somos tão diferentes uns dos outros, mas pensamos igual? Minha citação favorita para responder a essa questão existencial é de Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes: “Enquanto cada homem individualmente é um quebra-cabeça insolúvel, coletivamente ele se torna uma certeza matemática.” Não é elementar, mas é fato.

Esta reportagem é a história de quem conta a eleição. Conta votos, ou melhor, intenções de votos. É um trabalho detalhista, técnico e sujeito a pressões poderosas. Bem feito, envolve centenas de milhares de pessoas e dezenas de milhões de reais. Acompanhar uma campanha presidencial sem pesquisas eleitorais seria o mesmo que atravessar a avenida Brasil com os olhos vendados, orientando-se apenas pelas buzinadas. As pesquisas são o cão-guia do eleitor e das campanhas. Elas influenciam e são influenciadas pelas mudanças da opinião pública, pautam a imprensa, determinam quais presidenciáveis serão convidados para os debates na tevê. E também são determinantes aos apoios financeiro e político que cada candidato recebe de seus aliados.

Em 2018, bastou que as pesquisas demonstrassem que Geraldo Alckmin não iria decolar na preferência do eleitor para que seus correligionários do psdb e dos partidos que o apoiavam o abandonassem muito antes do primeiro turno. Do mesmo modo, caciques políticos não desperdiçam dinheiro dos fundos eleitoral e partidário em candidatos com percentuais muito pequenos no Ibope e no Datafolha.

E por que esses dois institutos, especialmente? São os que têm maior currículo aberto a verificação, fazem pesquisas com frequência até o último dia em todas as eleições e, por essa razão, podem ter seus desempenhos mais bem comparados com as urnas. Vertendo tudo isso em frios cifrões, foram os dois institutos que mais faturaram nas eleições de 2018: o Ibope, 17 milhões de reais; o Datafolha, 13 milhões de reais. Os faturamentos foram calculados pelo Ibope com base nos custos declarados de cada pesquisa pelos próprios institutos ao Tribunal Superior Eleitoral até 14 de outubro. O terceiro colocado não faturou nem 3 milhões de reais. Ibope e Datafolha cobram mais caro por suas pesquisas. Em todas as eleições há quem pague. As cifras falam por si. A pesquisa nacional de véspera do segundo turno feita pelo Ibope custou 359 550 reais para a TV Globo e O Estado de S. Paulo. A do Datafolha, 549 440 reais para a TV Globo e a Folha de S.Paulo. Já a do instituto de pesquisa MDA custou 160 mil para a Confederação Nacional dos Transportes, a CNT. E a do RealTime Big Data Gestão de Dados, feita para a própria empresa, 20 mil reais. Depois de ver pessoalmente a quantidade de pesquisadores, verificadores, estatísticos e analistas envolvidos em uma pesquisa nacional do Ibope ou do Datafolha, compreendi onde vão parar tantos reais. Incrível que seja possível fazer algo similar por 4% do valor.

Além do dinheiro, há a relevância que as sondagens têm para o eleitor e o impacto que provocam na opinião pública. Perguntei a funcionários graduados de grandes bancos e fundos de investimento nacionais e estrangeiros quais pesquisas guiam o vaivém do mercado financeiro no Brasil durante a campanha presidencial. Todos responderam que as do Ibope e Datafolha provocam ao menos dois terços das oscilações. O resto vem de institutos novos e antigos que divulgaram sondagens com assiduidade na eleição de 2018, geralmente sob o patrocínio de uma única instituição financeira ou empresarial, como foram os casos de CNT-MDA, BTG Pactual-Instituto FSB e XP Investimentos-Ipespe (Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas).

Na média, as pesquisas de véspera do Ibope e do Datafolha (no caso do Ibope, inclui a boca de urna, feita no dia da eleição e divulgada entre o fechamento das urnas e o início da divulgação dos resultados oficiais) costumam ficar dentro do intervalo de confiança de 95% que se espera delas. Ou seja, em 95 de 100 pesquisas de cada instituto, a diferença entre o número apurado na urna e o apontado pelas pesquisas está dentro da margem de erro máxima de 2 ou 3 pontos percentuais que é inerente a cada sondagem. Mais importante do que o fetiche numérico, porém, é que ambos os institutos costumam apontar corretamente as tendências do eleitorado – identificam quando um candidato cai, quando esboça uma arrancada ou quando fica estagnado. Cada pesquisa é como o fotograma de um filme. Só faz sentido se vista em sequência, comparando-a com a anterior. É assim porque a opinião pública está sempre em movimento. O candidato que perderia hoje pode se eleger amanhã. Mesmo que individualmente uma pesquisa não se preste a prever o futuro, a curva traçada pela sequência de pesquisas aponta para a frente. Só é possível desenhar esse movimento se o instituto tiver consistência na periodicidade de publicação de seus resultados e fizer isso até o final da eleição. E só dá para saber se acertou essa tendência no passado se já tiver feito isso em muitas eleições anteriores. Confrontados esses dois critérios, sobram Ibope e Datafolha.

Embora as pesquisas de véspera dos dois institutos no primeiro turno presidencial não tenham cravado o percentual de votos válidos que Bolsonaro acabou recebendo (40% no Datafolha; 41% no Ibope), a projeção de suas curvas apontava para o valor apurado nas urnas (46%). Esse exercício de futurologia tem se provado cada vez mais necessário, e não só no Brasil. Também na Europa e nos Estados Unidos, mais e mais eleitores deixam para escolher seu candidato no dia da eleição ou na noite da véspera – ou seja, depois que a última pesquisa foi feita e divulgada. Na eleição de governadores no primeiro turno de 2018, esse foi o comportamento de 20% a 30% dos votantes.

São os políticos que mais fazem ligações para a cúpula dos institutos atrás de dicas, explicações e, quem sabe, para pescar informações sobre pesquisas que sabem que estão para sair porque aparecem nos registros da Justiça Eleitoral. Entreouvi um lado de algumas dessas conversas enquanto estava dentro do Ibope analisando os resultados de pesquisas contratadas pelo jornal O Estado de S. Paulo, onde eu trabalhava, nas eleições de 2010, 2012, 2014 e 2016.

Em 2014, estava na sala de Márcia Cavallari na antevéspera do segundo turno da eleição presidencial conversando com ela e com Carlos Augusto Montenegro, presidente e um dos donos do Ibope Inteligência, quando um punhado de mensagens de texto começou a chegar no celular dele. Carlos Augusto nos mostrou o remetente: o senador Aécio Neves, candidato do psdb naquela eleição presidencial. Ele reclamava com veemência das pesquisas do Ibope. Dizia estarem invertendo o resultado. E evocava as “suas”, nas quais aparecia na liderança. Dois institutos mineiros haviam divulgado pesquisas naqueles dias mostrando Aécio numericamente à frente da candidata do PT. A pressão deu em nada. O Ibope saiu horas depois prevendo a reeleição de Dilma Rousseff, o que se confirmou nas urnas.

Acompanhei Márcia e Carlos Augusto na véspera e na antevéspera do primeiro turno. Desta feita, no edifício para onde o instituto havia se mudado em abril de 2017, na Água Branca, em São Paulo. Passei, assim, os dias 5 e 6 de outubro assistindo aos dois e a Luís Paulo Montenegro, irmão mais novo e vice-presidente do Ibope, trabalharem nos dias mais movimentados do ano. Em 48 horas, seriam fechadas 55 pesquisas para governador, senador e presidente. Ao mesmo tempo, estariam em preparação as bocas de urna que iriam a campo no dia da eleição em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Pernambuco e Distrito Federal, além da pesquisa nacional sobre as chances de Bolsonaro ser eleito presidente no primeiro turno ou disputar o segundo contra Haddad.

Embalados pelo som ritmado dos trens da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos que passam perto dali, os três se concentravam atrás da mesa de Cavallari. Só ela tem sala própria. Carlos Augusto e Luís Paulo moram no Rio de Janeiro e vão a São Paulo apenas em ocasiões especiais. Aquela era uma ocasião especialíssima, que se repete a cada eleição. O trabalho do ano todo e a reputação da empresa estão em jogo. Nada do que foi feito até então será lembrado positivamente se essas últimas 55 pesquisas não ficarem próximas dos resultados das urnas. Em eleições passadas, vi irmãs, cônjuges e filhos dos Montenegro acompanharem esses momentos na sala de Cavallari. “É quando a gente sofre junto”, explicou Luís Paulo. “Mamãe ficava em casa rezando”, contou-me Carlos Augusto.

Como sempre acontece nessas horas, Márcia operava o computador, acessando o banco de dados das pesquisas que iam sendo concluídas e as planilhas com resultados brutos. À direita dela, Carlos Augusto apoiava na mesa folhas impressas com os nomes dos candidatos a governador e senador, com campos em branco para preencher os resultados. Ao lado dele, Luís Paulo tinha um olho no celular, onde recebia os últimos boatos sobre pesquisas pelo WhatsApp, e outro numa folha em branco, onde anotava percentuais de votos válidos para cada eleição que o Ibope estava pesquisando.

Márcia lia em voz alta os números de cada estado que apareciam em sua tela. O trio conferia os valores de cada candidato, comparava com pesquisas anteriores e discutia – às vezes de maneira acalorada – sobre questões técnicas relativas aos arredondamentos, votos válidos e votos totais. Depois de concordarem com os cálculos, Carlos Augusto anotava a lápis as taxas de intenção de voto de cada candidato a governador na folha do respectivo estado. Fazia o mesmo em seguida com as taxas dos candidatos a senador. Por fim, escrevia no cabeçalho uma recomendação para o título do relatório de divulgação, com cautela inversamente proporcional à distância entre o primeiro colocado e seus adversários: quanto maior a vantagem do líder, mais enfáticas eram as palavras empregadas. Um funcionário levava a folha, e o trio continuava o trabalho.

A tensão crescia à medida que o tempo passava. O prazo é curto para fechar os relatórios destinados aos clientes porque a TV Globo tem que dar o resultado de cada estado no telejornal local, no início da noite. A emissora e seus braços estaduais estão entre os maiores consumidores de pesquisas eleitorais. A Globo recomenda os institutos que suas afiliadas nos estados podem contratar para fazer pesquisas eleitorais. O mais antigo da lista é o Ibope. O Datafolha apareceu mais tarde.

Às vezes, o resultado da pesquisa estadual não agrada ao dono da emissora local. Carlos Augusto e Márcia contam dois casos exemplares. Nos anos 80, após receber uma pesquisa sobre a sucessão ao governo baiano que mostrava seu candidato muito atrás do rival, Antônio Carlos Magalhães telefonou para Montenegro. Fundador da Rede Bahia – afiliada da TV Globo –, ACM estava furioso. Disse que a pesquisa estava errada e não sairia no telejornal local. “Garoto, posso até perder, mas humilhado eu não serei. Nosso candidato não vai perder por 1 milhão e meio de votos”, disse a Carlos Augusto, que avisou a diretoria da TV Globo no Rio. A pesquisa foi divulgada no Jornal Nacional, com os números que desagradavam ACM. Mais previdente, José Sarney também não concordou com uma pesquisa do Ibope sobre a eleição no Maranhão, em 1994. Pelo telefone, disse a Cavallari que a campanha mudara “da água para o vinho” desde que os pesquisadores haviam ido a campo e que, por essa razão, não seria conveniente divulgá-la na TV Mirante. Márcia respondeu que já havia passado os resultados para a Central Globo de Jornalismo e que eles seriam apresentados no Jornal Nacional. Horas depois, ela recebeu um telefonema de um político maranhense perguntando sobre os resultados da pesquisa em seu estado. Cavallari perguntou se ele não tinha visto no Jornal Nacional. “Não consegui. Na hora faltou luz em São Luís.”

No começo da noite de sexta-feira, 5 de outubro, a maratona da primeira bateria de pesquisas estaduais acabou. A dos quinze estados restantes e a pesquisa nacional para a Presidência ficariam para sábado. “Amanhã vai ser puxado. Não vai dar pra comer nem conversar”, previu Carlos Augusto. Nessa hora, Maria Pia Marcondes Ferraz Montenegro, que tinha ido ao Ibope dar apoio moral ao marido, comentou ter recebido uma mensagem da mulher de um político pelo WhatsApp. A interlocutora tentava descobrir o resultado de uma das pesquisas. “Amiga, desculpe, mas a ansiedade é grande. Me dá uma luz.” Carlos Augusto foi rápido: “Manda uma lâmpada pra ela.”

Antes de ir jantar com a família, o presidente do Ibope conjecturou sobre o que teria sido da eleição presidencial de 2018 se Luciano Huck tivesse se lançado candidato. Carlos Augusto foi uma das pessoas que o apresentador de tevê consultou enquanto se decidia sobre a candidatura. “Ele iria para o segundo turno contra o Bolsonaro porque tiraria votos do PT no Nordeste”, avaliou, completando: “Luciano é como uma cartela da Mega-Sena, o único candidato que venderia esperança de o eleitor ganhar alguma coisa.” E Bolsonaro? “É uma virada de página.” Luís Paulo foi além: “A direita está saindo do armário. Antes ela se fantasiava de tucano. Agora, o eleitor brasileiro está atrás de um macho alfa. Somos primatas na urna.”

Contrariando as previsões sobre jejum feitas na véspera, ao chegar no Ibope no dia seguinte encontrei Márcia, Luís Paulo e Carlos Augusto almoçando torta de palmito e salada na sala de reuniões. O trio conversava sobre as surpresas e novidades do pleito de 2018. Luís Paulo contou que participava das redes sociais “como pesquisador” e argumentou que foi a primeira eleição em que elas influenciaram para valer. “O horário eleitoral não teve impacto nenhum na campanha. Na tevê, só as entrevistas na Globo tiveram algum”, emendou Carlos Augusto, que não tem Facebook, nem Twitter ou Instagram. Mas tem WhatsApp e usa com assiduidade.

Acompanhei-os de volta à sala de trabalho e à rotina com as planilhas e folhas a preencher. “Nessa hora a gente se desprende de tudo. Deixa a emoção pra depois. É só número”, resumiu Márcia. Porém, olhando os trilhos que avista de sua janela, ressalvou: “Gosto do barulho do trem. Parece que estou no interior.”

Márcia Cavallari tornou-se CEO do Ibope Inteligência em julho de 2010, mas trabalha no instituto desde fevereiro de 1982. Quando entrou para a empresa, o escritório paulistano ficava num prédio antigo da rua 7 de Abril, no Centro da cidade. “Era tudo velho, os móveis eram de 1942. Não tinha computador. Eu usava máquina de calcular para fazer as amostras. Fiquei três meses sem receber salário depois que entrei.” Estatística formada pela Universidade de São Paulo, ela foi contratada por Luís Paulo, que, na transição da primeira para a segunda geração dos Montenegro, tinha assumido a área técnica do Ibope e ajudou o irmão mais velho a remodelar o instituto.

O ano da virada para o Ibope foi 1982. As primeiras eleições diretas para governador depois de quase duas décadas de ditadura propiciaram o primeiro grande contrato de pesquisas eleitorais com a TV Globo. Vieram demandas de sondagens por partidos e candidatos. Quando a última urna foi apurada, o Ibope estava pagando salários em dia e tinha parcelado os impostos em atraso. O instituto descobriu como fazer dinheiro com a democracia. “No ano seguinte, mudamos para outro prédio, com móveis novos e espírito renovado”, relembra Cavallari.

Até então, o Ibope era o que a matriarca dos Montenegro, Désirée Saade, batizou de miséria dourada. No comando comercial do instituto desde os anos 40, seu marido, Paulo Montenegro, falava diariamente com as pessoas mais importantes da República. Com magnatas da imprensa, como Assis Chateaubriand e Roberto Marinho, com celebridades, como Chacrinha, e, principalmente, com políticos de todas as vertentes ideológicas, de Carlos Lacerda a Leonel Brizola passando por Juscelino Kubitschek. Mas dinheiro mesmo, de enriquecer, a família demorou a ver. Foram quatro décadas de vida remediada até que o Ibope começasse a dar lucro suficiente para que os sócios pudessem comprar imóveis amplos em vizinhanças emergentes como a Barra da Tijuca, ou nos mais famosos bairros da elite carioca, como Leblon e Ipanema.

Na sala de trabalho, Cavallari pilotava seu notebook Dell com destreza e comentava sobre um telefonema que recebera de Jader Barbalho, um dos poucos caciques do MDB cuja família sobreviveu ao tsunami eleitoral que varreu Sarneys e Jucás.

Barbalho queria saber se poderia “ficar tranquilo” com a eleição no Pará, em que seu filho Hélder se elegeria governador e ele próprio ganharia mais oito anos no Senado. Aliviado, comentou o desempenho de Cavallari nas entrevistas diárias que ela vinha dando na GloboNews nas últimas semanas: “Você está se saindo com classe das pegadinhas que te fazem na tevê.”

Desde setembro a CEO do Ibope Inteligência tem se deitado às três da manhã e acordado às oito, quase todo dia de semana. Ela é o motor que faz rodar o instituto. Atende clientes, elabora questionários, faz orçamentos, conversa com jornalistas, supervisiona milhares de colaboradores e aprova todas as pesquisas, sem exceção, antes de elas serem divulgadas ou enviadas a quem as contratou. Nos últimos anos, com o afastamento de Carlos Augusto do dia a dia do negócio, tornou-se também a face pública do Ibope. Faz tudo isso rindo, como quem está se divertindo. Se um dia teve febre e precisou ir ao médico, ninguém nem percebeu, pois continuou fechando as pesquisas pelo notebook e atendendo chamadas pelo celular de onde estivesse. Além dos papéis de executiva e relações-públicas, Cavallari ainda arrumou tempo para assinar 147 pesquisas como estatística responsável.

Na sala de comando do Ibope começavam a chegar as pesquisas de estados importantes. “O acordo do PT com o PSB elegeu o Paulo Câmara governador em Pernambuco”, constatou Carlos Augusto. Ele se referia à intervenção de Lula para que o PT não lançasse Marília Arraes como candidata a governadora, em troca de o PSB não se coligar com o PDT de Ciro Gomes. A manobra custou preciosos minutos de propaganda e apoio logístico ao principal rival de Haddad na esquerda. E causou uma mágoa tão profunda em Ciro que o pedetista não declarou voto no candidato do PT durante o segundo turno presidencial.

Na eleição para o Senado em Pernambuco, Mendonça Filho, candidato do DEM e ex-ministro da Educação de Temer, havia reclamado com Carlos Augusto, ao ver que o Ibope não indicava que ele seria um dos dois senadores eleitos em seu estado: “Vocês me perseguem! Vocês vão errar.” Não erraram.

Chegou a vez de Minas Gerais. “Caramba, a Dilma caiu de 29% para 20%”, espantou-se Luís Paulo, antevendo que as urnas seriam cruéis com a ex-presidente e ela não se elegeria senadora. Na eleição para governador, os três estranharam o crescimento repentino de Romeu Zema, do Novo. “É capaz de deixar o Pimentel fora do segundo turno”, arriscou Luís Paulo. De fato, o incumbente petista ficaria em terceiro lugar. Zema tinha declarado voto em Bolsonaro no debate da TV Globo e depois disso cresceu vinte pontos em 72 horas.

“Chegou Brasil! Vou abrir. Tchã-tchã-tchã-tchã.” Cavallari não fez suspense por muito tempo. Cantou os números, os três analisaram, checaram, discutiram e, quando veio o momento de anotar as intenções de voto dos candidatos a presidente na folha de divulgação, Carlos Augusto me entregou o lápis e o papel. “Você escreve”, ele sugeriu, “Bolsonaro, 41%; Haddad, 25%; Ciro, 13%; Alckmin, 8%; Amoêdo, 3%, Marina, 3%…” Entregue o relatório da pesquisa nacional, Luís Paulo e Cavallari repetiram o mantra que dizem ao final da última rodada de pesquisas de cada eleição: “Agora só falta combinar com o TSE” – em referência ao Tribunal Superior Eleitoral, responsável por apurar o resultado oficial. Na urna, Bolsonaro teve 46%; Haddad, 29%; Ciro, 12%; Alckmin, 5%; Amoêdo, 2,5%; e Marina, 1%. Os números que escrevi ficaram fora da margem de erro para Bolsonaro, Haddad e Alckmin. “Vamos tomar um uísque para relaxar”, convocou Carlos Augusto. “Ih, esqueci o uísque”, lamentou Cavallari. E saíram para jantar no Rodeio, tradicional churrascaria paulistana.

Eleições são expressões da mudança: candidatos mudam de partido, eleitores mudam de candidato. Mas os questionamentos sobre a acurácia das pesquisas eleitorais são uma constante a cada dois anos. Pleito após pleito, as dúvidas se repetem e se multiplicam. O fenômeno se intensificou após o advento das mídias sociais. Também se tornou mais agressivo. A novidade da campanha de 2018 foi que a crítica às pesquisas eleitorais saiu da arena virtual para a realidade, com tentativas de coação e intimidação chegando à casa dos responsáveis pelos institutos. O diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, registrou queixa na Polícia Federal após ter sofrido ameaça de morte feita por um seguidor de Bolsonaro inconformado com uma pesquisa do segundo turno. A ameaça dizia:

“Discutir e pesquisar democracia, tortura e etc nessa semana é muita putaria sua, seu filho da puta. Merece uma navalha na garganta! Comunista ordinário e sem vergonha!!! Te dar tiro é desperdício! Você não vale a bala! Mas só esperar! Bolsonaro vai te foder tanto quanto merece!

VAGABUNDO!

SUJO!

COVARDE E FACCIOSO!

Eu teria um orgasmo se te desse um belo soco na cara!”

O caso é emblemático do comportamento de Bolsonaro em relação às pesquisas eleitorais. É o único candidato relevante que só se refere a elas para dizer que são fajutas. O Ibope e o Datafolha tornaram-se alvos preferenciais do presidenciável do PSL e de seus seguidores. Não foi à toa. Para dar sentido à narrativa bolsonarista de que as urnas eletrônicas foram, são ou serão fraudadas em algum momento faz-se necessário desacreditar os dois institutos também. Senão, como explicar que o resultado supostamente forjado da urna bate com o das pesquisas? Para sustentar a versão da fraude eleitoral é preciso envolver as sondagens dos institutos de maior credibilidade na teoria da conspiração. A campanha de difamação contra Ibope e Datafolha nunca foi tão violenta quanto na eleição de 2018. Sua consequência não se limita ao linchamento virtual de reputações.

Pesquisadores que vão à rua estão sujeitos a todo o tipo de constrangimento violento. No primeiro turno de 2018, em Monte Santo, no interior da Bahia, militantes do PT ameaçaram a entrevistadora do Ibope, tomaram seu tablet, jogaram no chão e pisaram em cima, para que ela não pudesse mais trabalhar. No Rio de Janeiro, uma entrevistadora, enquanto fazia pesquisa em uma comunidade comandada pelo narcotráfico, foi abordada por jovens armados com fuzis. Chegaram a espetar o cano da arma em suas costelas e dizer: “Você não é do Ibope. Acho que é do Bope” (o Batalhão de Operações Policiais Especiais da PM do Rio, tornado famoso pelo filme Tropa de Elite). Ela cogitou mudar de profissão, mas voltou atrás.

Também a polícia persegue os pesquisadores. Na cidade paranaense de Ivaiporã, dois entrevistadores do Ibope que faziam pesquisa de boca de urna em escolas diferentes durante o primeiro turno foram abordados pela PM e impedidos de trabalhar. Nos dois casos, os policiais os levaram à força até onde haviam se hospedado. Do primeiro, arrancaram o crachá e ameaçaram prendê-lo por um ano se ele saísse do hotel antes de a votação acabar. Fizeram o mesmo com o segundo e, ao verem no documento de identidade que era nordestino, comentaram: “Isso não presta.”

Embora os percalços tenham aumentado em frequência e intensidade, eles não vêm de hoje. Contratado pela Prefeitura de São Paulo para cadastrar potenciais beneficiários do Bolsa Família, o Ibope espalhou entrevistadores pelas comunidades mais pobres da capital em 2006. Numa delas, ao final do primeiro dia de entrevistas, a equipe foi assaltada enquanto esperava o ônibus. Perderam todos os Palmtops que usavam à época com os registros do trabalho que havia sido feito. Um diretor do Ibope foi até a comunidade, procurou o líder local, explicou que ia ser bom para quem morava lá porque iam receber dinheiro do governo e, no fim do mesmo dia, todos os equipamentos reapareceram, intactos. A partir de então, os pesquisadores passaram a deixar os equipamentos de trabalho no “escritório” do líder comunitário ao final do dia, para evitar riscos.

Esse tipo de acordo foi exceção. Todo ano o Ibope perde 25% de sua “frota” de tablets. Alguns quebram ao cair no chão, outros não resistem ao calor e à chuva, mas a grande maioria é roubada. Duzentos desses equipamentos somem por ano. Quase todos vão parar com os amigos do alheio, muitas vezes por força de uma mão armada. O prejuízo anual de 160 mil reais já seria ruim o suficiente, mas, para piorar, os ladrões parecem preferir fazer os assaltos no fim do dia – ou seja, depois que os pesquisadores rechearam os tablets com as entrevistas. Principalmente no Rio e no Pará. A situação é mais grave quando o crime ocorre em um lugar distante, onde o sinal de celular é fraco ou inexistente, e antes de o entrevistador conseguir enviar os arquivos digitais de texto e áudio para o Ibope. Foi o que aconteceu em Jacundá, a 440 quilômetros de Belém, durante o primeiro turno. Uma pesquisa eleitoral sobre a sucessão ao governo do Pará quase atrasou porque o entrevistador foi assaltado quando tentava embarcar de volta para a capital. O ladrão levou um tablet com catorze entrevistas que só existiam lá. Com a experiência de quem faz pesquisas há 22 anos, a gerente-executiva de Operações, Claudia Fernandez, tratou logo de mandar outro pesquisador para Jacundá no ônibus noturno e fazer catorze entrevistas novamente, logo que chegasse na cidade pela manhã.

Fernandez administra um exército de mais de 5 mil pesquisadores terceirizados, dos quais mais de 1 mil podem estar simultaneamente em campo em qualquer dia de qualquer semana em todas as unidades da Federação. Literalmente, do Oiapoque, no Amapá, ao Chuí, no Rio Grande do Sul, de Ponta do Seixas, na Paraíba, a Mâncio Lima, no Acre. Em muitos desses dias os tablets próprios do Ibope não dão conta da demanda por entrevistas, e a gerência de Fernandez precisa alugar os suplementares. Todos, porém, são monitorados em tempo real. Graças ao GPS interno, ela sabe onde está cada um dos entrevistadores a qualquer tempo e quantos questionários cada um deles aplicou – desde que haja sinal de celular no lugar, é claro. Foi assim que Fernandez avisou Márcia Cavallari que Meireles e eu não tínhamos subido nem uma mísera entrevista até o final daquela memorável tarde de sexta-feira no Jabaquara.

Além das 282 mil entrevistas domiciliares face a face, o Ibope vai terminar 2018 tendo realizado outras 47 mil entrevistas telefônicas. Total: 329 mil entrevistas no ano, apenas sobre eleição. As telefônicas são feitas, na maioria, para clientes que contratam o que se chama de “tracking eleitoral”: pesquisas diárias feitas pelo telefone com um número menor de entrevistas que uma tradicional, mas que vão sendo somadas até formarem uma amostra representativa do universo de eleitores brasileiros com acesso a celular e telefone fixo. Cavallari estima que isso represente 89% do eleitorado brasileiro. Ficam de fora os mais pobres e idosos, por isso essa pesquisa não substitui uma pesquisa face a face, pelo menos não no Brasil. O objetivo é outro, porém: identificar movimentos nas curvas de intenção de voto dos candidatos. Trackings não são registrados na Justiça Eleitoral. Seu propósito não é a divulgação, mas o consumo interno pelo cliente. Não raro, o tracking telefônico antecipa o que vai aparecer nas pesquisas face a face dias depois. A ferramenta costuma ser contratada por campanhas e pelo mercado financeiro.

O Ibope Inteligência manteve a liderança nas pesquisas registradas na Justiça Eleitoral em 2018: foi a empresa que mais registrou sondagens no primeiro turno (147), a que mais faturou financeiramente e a que mais entrevistas fez. Mas quem olha os números de um ano só não tem ideia do tamanho da revolução por que está passando o mercado de pesquisas eleitorais na última década. Duas eleições presidenciais atrás, em 2010, o Ibope fez 143% mais entrevistas do que em 2018: 800 mil. A diminuição vem desde antes, e reflete várias transformações. A mais recente foi a proibição de doações empresariais para candidatos e partidos durante as eleições. Essa mudança, que constrangeu significativamente o caixa um das campanhas, poderia ser atribuída à redução em 50% do número de entrevistas feitas pelo Ibope entre as eleições de 2014 e 2018. Mas não só. Somaram-se o encurtamento do período de campanha (praticamente não foram feitas pesquisas no primeiro semestre de 2018), o aprofundamento da crise econômica e um fator cujo impacto ainda é desconhecido nas finanças eleitorais: a massificação do uso político das mídias sociais. É difícil cravar, mas é possível que parte dos orçamentos que partidos e marqueteiros dedicavam às pesquisas de intenção de voto, às pesquisas qualitativas e às discussões em grupo tenha sido desviado para monitorar Facebook, Instagram e Twitter, além de promover ações no WhatsApp. São um mundo e um mercado novos, no qual o Ibope procurou se inserir comprando a empresa DTM, especializada nesse tipo de monitoramento.

Porém, é um mercado que requisitará, além de novas habilidades e conhecimentos, muito, mas muito capital para investimento. Esse foi um dos motivos que levou a família Montenegro a vender os 60% da participação que tinha na joia da coroa, o Ibope Media, em 2014. A Kantar, multinacional de origem inglesa que já detinha os outros 40%, pagou 620 milhões de dólares para ser a única dona da empresa. O braço que mede audiência de tevê e rádio era responsável por 80% do faturamento do Grupo Ibope e tem praticamente o monopólio no Brasil, além de ser líder em catorze mercados latino-americanos. O monopólio não é por falta de concorrência. Pelo menos em três ocasiões outras empresas de medição de audiência tentaram se instalar no Brasil. A última foi a alemã GfK. Nenhuma teve sucesso. O motivo, segundo os irmãos Montenegro, é que as concorrentes acabam encontrando os mesmos resultados que o Ibope já encontra. Com o tempo, as emissoras de tevê que esperavam desbancar a Globo com o novo termômetro acabaram desanimando e deixaram de pagar a segunda medidora de audiência. Além disso, os custos de implantação da agora Kantar Ibope estão diluídos há muitos anos. A empresa Ibope Media foi pioneira no mundo em medição de audiência de tevê em tempo real, e numa época em que só 20% da população tinha telefone fixo residencial. O Ibope precisou instalar linhas particulares, as chamadas lps, em todos os domicílios onde já havia colocado o seu Peoplemeter, que registra tudo o que é assistido no aparelho de tevê da casa. Mas agora os hábitos são outros. Tão ou mais importante do que aquilo que aparece na tela grande é o que cada indivíduo observa e com o que interage na tela pequena do seu celular. Para medir isso e se adaptar às mudanças tecnológicas que sobrevêm a cada dezoito meses, só mesmo grupos multinacionais como Nielsen ou wpp que faturam 16 bilhões de dólares por ano.

Mas esse não foi o único motivo que provocou a venda do Ibope Media para a Kantar. Talvez nem tenha sido o principal. Ninguém da terceira geração dos Montenegro se interessa pelo ramo de pesquisas, muito menos trabalha no Ibope. Os herdeiros têm seus próprios negócios e avisaram anos atrás aos pais e mães – Luís Paulo e Carlos Augusto têm duas irmãs que também são sócias do Ibope – que não pretendiam sucedê-los: no Ibope Media, por causa das razões econômicas expostas acima; no Ibope Inteligência, porque não têm paciência para lidar com a política e os políticos.

O Grupo Ibope chegou a ser a 14ª maior empresa de pesquisa do mundo e a única do hemisfério Sul entre as 25 maiores – além de líder de mercado na América Latina, com operações em catorze países. Nas mãos da família Montenegro sobrou 51% do capital da prima menos rica, o Ibope Inteligência, da qual a Kantar adquiriu 49% por 45 milhões de dólares, na mesma ocasião em que comprou 100% do Ibope Media. Apesar de ser um dos maiores do Brasil nessa área, o Ibope Inteligência atua em um segmento com duas centenas de concorrentes, num campo cuja receita cai a cada eleição.

A história dos Montenegro no Ibope está em seus capítulos finais. A novela só não foi abreviada porque a própria Kantar não quis comprar 100% da participação no Ibope Inteligência. Preferiu manter como sócios os irmãos que conhecem profundamente o negócio e, tão ou mais importante, se relacionam bem com os políticos e donos de meios de comunicação que são grande parte da clientela.

Carlos Augusto e Luís Paulo são complementarmente diferentes um do outro. O primogênito é extrovertido, brincalhão e bom vendedor. Pode passar o dia contando histórias de políticos. O mais novo, introvertido, irônico e reconhecido por sua competência com o que tem a ver com os bastidores das pesquisas, como discutir técnicas de amostragem. Um é fanático pelo Botafogo de Futebol e Regatas, do qual foi presidente nos anos 90, e o outro torce pelo Flamengo*. Carlos Augusto não foge de jornalistas, já foi entrevistado para as “Páginas Amarelas” da Veja e esteve no centro do Roda Viva mais de uma vez. Luís Paulo pode caminhar anônimo pelo calçadão de Ipanema toda manhã.

Foi como estagiário que Carlos Augusto começou a trabalhar no Ibope em 1971 , mas logo assumiu funções executivas e passou a ser uma espécie de braço direito do pai. Luís Paulo entrou em 1978 e foi fundamental na modernização técnica do Ibope e na expansão internacional da empresa a partir dos anos 90. Os dois conversaram comigo separadamente, e até os locais que escolheram para nossos encontros mostram as diferenças entre os irmãos.

Luís Paulo marcou um jantar numa segunda-feira no restaurante Satyricon, em Ipanema. Nós nos encontramos, por acaso, na calçada em frente e entramos juntos. Pela quantidade de cumprimentos que recebeu, desde o porteiro até o maître, passando por todos os garçons e alguns dos clientes, percebi que o mais novo dos Montenegro faz dali uma extensão da sua cozinha. “Doutor Luís Paulo” pra cá, “Doutor Luís Paulo” pra lá. Diante disso, nem olhamos o cardápio, especializado em frutos do mar com uma pitada italiana. Imitei os pedidos do entrevistado, no que fiz muito bem. Ele me contou que, à parte o Ibope, investe em startups de internet (foi sócio do Cadê, um dos primeiros mecanismos de busca brasileiros), patrocina uma escola florestal no Acre e coleciona arte brasileira. Não é um colecionador amador, mas um dos mais cobiçados pelos galeristas. Não é raro vê-lo ao lado do compadre José Roberto Marinho visitando galerias no Rio e em São Paulo. No começo de 2018, 218 obras de sua coleção foram expostas pela primeira vez ao público em Madri, na Fundação Banco Santander. A exposição Visiones de la Terra. El Mundo Planeado recebeu vasta cobertura da imprensa espanhola. Ao Diario Sur, contou que, duas décadas atrás, não entendia nada de arte nem tinha um quadro em casa. Começou arrematando uma obra em um leilão em 1999 e não parou mais. Possui cerca de 500 peças, com predileção pelo modernismo e pelo concretismo brasileiros. A coleção foi premiada pela Fundação Arco, em 2018.

Carlos Augusto me recebeu em sua nova casa, no alto do Jardim Pernambuco – um privilegiado enclave sem edifícios junto ao Alto Leblon. Ele me contou que já morava de aluguel no bairro e, sempre que passeava em frente à casa que viria a comprar, Maria Pia, com quem está junto desde 2012, a elogiava. O primogênito dos Montenegro conseguiu desembaraçar o inventário de Nelly Maluf Jafet, a primeira moradora, comprou o imóvel das herdeiras e fez uma surpresa para sua segunda mulher. Em um amplo escritório, com pé-direito alto e vista para o jardim, costuma receber os políticos que ainda o procuram com frequência. Na tarde que passei lá, o deputado Alexandre Molon, do PSB, fez uma interrupção em sua bem-sucedida campanha à reeleição para ver pessoalmente as pesquisas sobre a eleição parlamentar no Rio e avaliar suas chances. Dias depois, Cid Gomes, do PDT do Ceará, foi até lá conversar sobre a eleição presidencial e a viabilidade de seu irmão, Ciro – o mesmo que, oito anos atrás, disse que Montenegro vendia até a mãe. Mas o presidente do Ibope não coleciona ressentimentos. Prefere gastar o tempo ocioso com meia dúzia de amigos de infância com quem, todo ano, vai assistir à partida final da Champions League, não importa em que país europeu ocorra. Ele compra os ingressos e cada um dá um jeito de chegar lá. Passam uma semana juntos. Antes de nos despedirmos, perguntei a Carlos Augusto se, em tantos anos convivendo com políticos, ele nunca tinha recebido uma oferta para “fajutar” um resultado de pesquisa. Só uma vez, disse. E me revelou o milagre sem dar o nome do santo.

Um cliente, candidato a governador, lhe telefonou, durante a eleição de 1990: “Carlinhos! Preciso falar urgentemente com você.” Marcaram um encontro para o mesmo dia, no apartamento dos pais do presidente do Ibope, à noite, para dar tempo de o político se deslocar desde o estado onde concorria. Ao chegar, o candidato cumprimentou Carlos Augusto, mas, antes de falar com ele, passou meia hora conversando com a sua mãe, Désirée, sobre culinária libanesa. Só então puxou Carlos Augusto para o terraço e explicou: “Carlinhos, estou me aproximando do meu adversário e seria muito importante que na pesquisa Ibope que vai sair no Jornal Nacional eu chegasse a 18%. Já tenho 15%. São só três pontinhos. Quanto custa isso?” Carlos Augusto respondeu de supetão: “Custa 880 milhões.” O político, estupefato, redarguiu: “880 milhões? Por três pontinhos?” O anfitrião explicou: “É quanto vale o Ibope. O senhor compra e põe quantos pontos quiser na pesquisa.” O candidato não passou recibo: “Então está bem. Vamos torcer.” E voltou a trocar receitas com a mãe de Carlos Augusto.

O epílogo da história dos Montenegro no Ibope tem data marcada. Em 2021, a Kantar tem opção de compra dos 51% restantes, por um preço previamente combinado. Se quiser exercê-la, os quatro irmãos terão que vender. Resta, talvez, apenas mais uma eleição, a de prefeitos em 2020, sob o comando da família. Desde a primeira, terão sido 75 anos, 38 pleitos, alguns milhares de pesquisas e muitos milhões de entrevistas.

*

Correção: versão anterior dessa reportagem afirmava erroneamente que o time de Luís Paulo Montenegro era o Fluminense.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


Foi presidente da Abraji e co-apresentador do Foro de Teresina. É colunista de política do Uol.