poesia

BALADA EXASPERADA

“O rei sem coroa/com sua língua obscena/invoca Deus e o Diabo”
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o país está cercado
pelo riso das hienas
nossas muralhas têm frestas
os mendigos são centenas
de milhares, e os cadáveres
dos homens de vida amena
são jogados nas calçadas
sobre as botas das bebenas
– o que é bebena, Bebel?
– porra, abre o dicionário!
enquanto o rei sem coroa
com sua língua obscena
invoca Deus e o Diabo
como nas velhas novenas
e convoca pro repasto
quem quebrar a quarentena

&

na Rua Augusta, nenhum
carro passa, nem pedestre
as lojas foram fechadas
é hora de ler A Peste
madrugada, vinho e medo
alguém sonha no piano
e os acordes cravam pregos
nos caixões italianos
as certezas se esfarelam
a infância está perdida
a mocidade já era
ah, maturidade à vista
e a velhice sempre a prazo!

AMIGUES, CORONAVÍDEO
“D’Umbra, que doideira é essa?
Bressane, cadê seu filho?
Rimbaud era um assassino
Camus sim é que era o fino
Drummond maior que Pessoa
vai morrer meio milhão?
como será que será
lá pras bandas do Capão?”
os bancos sobem os juros
nos bancos ninguém mais senta
NÃO TOQUE NO ELEVADOR
se quiser cagar, aguenta
já não me sinto seguro
nem no chão nem nas palavras
Bia: “Angústia aqui é mato”
o mato, que coisa abstrata

&

minha mãe, toma cuidado
“papai, não vai na vovó”
não somos feitos de aço
nós somos feitos de pó

&

Kintarô, meu São Cristóvão
Sabiá, Box 62
manda um chope bem gelado
sardinha e baião de dois
mas os bares são ex-bares
– BOLSONARO GENOCIDA –
nunca mais vai haver bares
É UMA RELES GRIPEZINHA
releitura da ralé
uma dose de cachaça
e me empresta dez real

panelaço, panelaço
leiteira e colher de pau
minha síndica evangélica
não suporta Carnaval

Bibi, Gabi, Gabriela
Mariana, meu amor
jumentos de Bodocó!
e os vira-latas em flor

&

grilo chinês, pernilongo
mosca morta, milf mara
dentadura de piranha
Hermógenes, para, cara…
onde o mundo foi parar?
ESTAMOS TODOS PARADOS
abro um livro de haicais
e logo estou do outro lado
mas não existe outro lado
terceira margem do rio
aquele pai nunca morre
e quem se fode é o seu fio

&

como é frágil uma cidade
prateleiras, avenidas
e em cada janela acesa
a miséria de uma vida
– mamãe, sobrou mortadela?
– filhinha, engole o peru…
mas o fogo dos espaços
acaba sempre no cu

salve, Zeca Pagodinho!
viva Marielle Franco
feministas, anarquistas
e a boa torta de frango
da padaria aqui perto
que agora ficou distante

&

mal chegou já ficou velha
minha mesa toquestoque
não é mais tempo de samba
e nem é tempo de funk
é tempo de dormir cedo
de amargar as amarguras
e rebentar (Cruz e Souza)
em estrelas de ternura

&

mas o silêncio é uma farsa
esse silêncio aí fora
faz o sábio da montanha
diante de um mar de bosta

mas o silêncio é uma farsa
eu só quero é ser feliz
hiena, vem, me estraçalha
comece pelo nariz


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É poeta e tradutor. Publicou Esquimó e Baladas pela Companhia das Letras