poesia

O MANGUE RESPIRA LAMACENTO

Imagem O mangue respira lamacento

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POR TODAS AS PALAVRAS
GUERREIRO-SÍLEX

a desordem se organiza no avaliar das colinas
sob a vigilância de árvores de saltos altos
implacáveis diante de um focinho sem o rigor
do focinho dos búfalos

isso

isso deglute rumina digere
sei a merda (e a sua quadratura)
mas merda

que zelo de asas alimente o carniceiro bico
a podridão sem escrúpulos
tanto nos falta o coração
falso o sonho tão peremptória a roda
deste lado pelo menos se exsuda
cada sol conservado ao contrário
do desastre

porque

olho intacto da tempestade

aurora

ozônio

zona orógena

por algumas das palavras perseguindo um torpor e
o acolher e o despertar de cada um dos nossos males
enuncio o teu nome

FANON

riscas o ferro
riscas as grades das prisões
riscas o olhar dos carrascos
guerreiro-sílex

regurgitado

pela goela da serpente do mangue

A CONDIÇÃO-MANGUE

O desespero não tem nome
a mão agita mole a bandeira de todas as rendições
é a grande salamandra branca que nos faz sinal
de que gentilezas não cabem.
Estamos às voltas. Em torno da questão.
A questão negra, claro.
Negro o mangue continua um espelho.
Também uma manjedoura.
O mangue isolado mói emboscado
O mangue respira. Mefítico. Lamacento.
O pântano seria bem pior.
(Não é nada se visto do alto: a morte na base mesmo parecendo belo)
Ao contrário o fruto flutua o peixe sobe
nas árvores
Pode-se muito bem sobreviver mole
tomando assento sobre a vasa comensal
O bom aspecto é das florestas.
A cadeira de balanço

a do balanço das marés

QUANDO MIGUEL ÁNGEL ASTURIAS DESAPARECEU

bom batedor de sílex
lançador rápido de grãos de ouro na espessa crina da noite
hipocampo
semeador demente de diamantes
quebra-machado como nenhuma árvore na floresta
Miguel Ángel sentava-se no chão
pondo um amuleto no pequeno osso de suas palavras
quatro palavras de sol branco
quatro palavras de paineira vermelha
quatro palavras de cobra coral

Miguel Ángel tomava um gole
de aguardente de estrelas maceradas nove noites
postas a ferver na goela não extinta dos vulcões
e sua traqueia de obsidiana

Miguel Ángel contemplava no fundo dos seus olhos
as sementes ascendendo gravemente até seu perfil de árvore

Miguel Ángel acariciava com sua pena
a grande calota dos ventos e o vórtice polar

Miguel Ángel iluminava de pinheiros verdes
os papagaios de crista azul da noite

Miguel Ángel injetava sangue de estrelas de leite
de veias irisadas e ramagens de luzes
a marca cinzenta
da hora do dia dos dias do tempo dos tempos
e depois

Miguel Ángel desencadeava suas músicas severas
música de arco
música de vagas e cabaças
música de gemidos de riachos
pontuada por tiros de canhão dos frutos do curupitã
e os cortes de quartzo se punham a bater
as agulhas de jade despertavam as facas de sílex
e as árvores de resina

ó Miguel Ángel mago dos pirilampos

o xamã balançava enredado nos seus braços enlouquecidos
com todos os seus penduricalhos agitados
com o riso manso do mar
no pescoço das enseadas com cócegas
e a amizade minuciosa do Vento Forte[1]

quando as flechas da morte atingiram Miguel Ángel
ninguém o viu deitar
antes expandir toda a sua envergadura
no fundo do lago que se iluminou

Miguel Ángel imergiu sua pele de homem
e vestiu sua pele de delfim

Miguel Ángel despiu sua pele de delfim
e se transformou em arco-íris

Miguel Ángel tirando sua pele de água azul
vestiu sua pele de vulcão

e instalou-se montanha sempre verdejante
no horizonte de todos os homens.


Poemas do livro eu, laminária…: últimos poemas, a ser lançado neste mês pela editora Papéis Selvagens. Tradução, posfácio e notas de Lilian Pestre de Almeida.

[1] Título de um romance de Asturias, Viento Fuerte (1950).


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Poeta, dramaturgo e político da Martinica