carta da ucrânia
Jonathan Littell Out 2022 11h11
31 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
De Kiev
Tradução de Claire Laribe
Antes, a viagem de Paris a Kiev durava apenas três horas. Agora, pode levar até três dias e meio. De avião até Varsóvia; de carro até Lviv, cidade ucraniana perto da fronteira com a Polônia; por fim, um trem noturno até Kiev: é uma viagem à moda antiga, que permite ver com calma as paisagens desfilarem pela janela e ter uma noção concreta das distâncias e interrupções causadas pela guerra, mesmo estando longe do front.
A minha última visita a Kiev tinha ocorrido antes da guerra, para comemorar o Ano-Novo com amigos. Ksioucha Palfi nos levou ao Vognyk, um novo clube da moda onde ela trabalhava como DJ. Havia poucas medidas sanitárias contra a Covid na entrada, garagens enormes, gente festiva, chique e bem-vestida, bebida à vontade. Por volta das cinco da manhã, fomos para o novo apartamento dela, logo atrás da Khreshchatyk, a rua principal da cidade.
Como era de se esperar, entre um drinque e outro falamos dos rumores a respeito de uma eventual guerra entre Rússia e Ucrânia. Ksioucha, pequena, frágil, ficou furiosa: “Ah, não! Esperei cinco meses para receber minha cozinha Ikea. Cinco meses! Se esses malditos russos vierem e estragarem tudo, juro que vou sair na varanda com um Stinger [míssil] e acabo com eles!” Todo mundo riu. Menos de dois meses depois, Ksioucha se refugiou com o namorado e o gato com deficiência em Ujhorod, na fronteira com a Eslováquia, e me enviou pelo WhatsApp um vídeo que a mostrava preparando caixas de coquetéis molotov, junto com dezenas de mulheres, na praça do mercado. Nós rimos de novo, mas não era engraçado.
Em maio passado, devido à falta de gasolina, poucos carros circulavam nas ruas de Kiev. Mas o estado de sítio tinha sido suspenso na cidade depois da saída das forças russas no final de março, os restaurantes estavam reabrindo, não faltava nada nos supermercados, as máquinas de venda automática funcionavam bem, o metrô e os ônibus tinham voltado a circular, os táxis apareciam depois de serem chamados. A Rua Khreshchatyk estava cheia de curiosos à noite, de hipsters que invadiram o bairro da Porta Dourada como faziam antes. E ninguém ficou surpreso ao ver um jovem soldado passar em um patinete de aluguel, muito alinhado em seu colete à prova de balas e com uma Kalashnikov pendurada no ombro.
Os alertas aéreos continuavam a soar uma ou duas vezes por dia, mas ninguém prestava atenção neles, mesmo que a cada três semanas alguns foguetes ainda caíssem na cidade. Claro, os restaurantes fechavam no happy hour e o toque de recolher às onze da noite limitava a vida social. Mas ninguém reclamava, e assim as coisas iam se acomodando rapidamente. No dia 21 de maio, o clube Vognyk reabriu, tendo Ksioucha – que voltara de Ujhorod para a ocasião – como atração principal (infelizmente, eu não estava na cidade).
Kiev continua preparada para um retorno dos russos, o que muitos preveem que possa ocorrer no próximo inverno (entre dezembro deste ano e março de 2023). Todas as principais estradas e pontes sobre o Rio Dnieper estão bloqueadas, com postos de controle fortificados e chicanas de concreto, onde só pode passar um veículo de cada vez. Caminhões destruídos foram deixados perto dos postos para serem usados como bloqueio da estrada. Em maio, em todos os cruzamentos importantes, ou frente a complexos industriais ou no entorno dos parques, era possível ver barreiras de ferro, bunkers cobertos com redes de camuflagem caseiras e longas trincheiras escavadas pelos moradores da região.
Um dia, uma assessora de imprensa do Exército chamada Oksana nos levou para visitar posições da Defesa Territorial (Terytorialna Oborona, em ucraniano) na floresta que margeia uma longa estrada. As pessoas que atuam nessa força, na casa dos 30 ou 40 anos, são todas voluntárias. Muitas compraram pela internet lunetas de mira, óculos de visão noturna e silenciadores de armas para complementar o equipamento básico fornecido pelo Exército.
Dois deles, Roman e Oleksandr, são veteranos do Donbass (o enclave separatista no Leste da Ucrânia, em guerra desde 2014), e treinam os outros, todos novatos. Aleksei, por exemplo, é soldador e ingressou na Defesa Territorial em 25 de fevereiro; Sasha, que morou em Dubai durante sete anos trabalhando como consultor de imigração, voltou à Ucrânia para se alistar.
Oksana também é uma veterana: gravemente ferida por uma bomba perto da cidade de Lugansk, em 2015, ela enxerga pouco ao anoitecer e nada quando chega a noite. Mesmo de uniforme, continuava vaidosa. “Gosto tanto de vestidos!”, ela me confidenciou, um pouco antes de o fotógrafo Antoine d’Agata, que me acompanhava, fazer seu retrato. “De vestidos longos. Quando posso, vou para casa, olho para o último que comprei pouco antes da guerra, e choro.”
IRPIN
A estrada que eles vigiam vem de Irpin, cidade ao lado de Kiev, e passa por um pequeno bairro pouco abaixo de um rio por onde muitos civis aterrorizados fugiram durante todo o mês de março. Ali, se pode reconhecer os lugares onde foram feitas as imagens que se espalharam pela imprensa: a igreja de cúpulas douradas cheia de cacos ou o pomposo monumento aos mortos da Segunda Guerra Mundial, em frente do qual, em 3 de março, um morteiro matou uma mulher, seus dois filhos e um jovem voluntário que os estava ajudando.
De pé na calçada, procurei em vão o local no asfalto impactado pelo morteiro, tendo sempre em mente a famosa imagem feita pela fotojornalista Lynsey Addario em que vemos os quatro mortos enfileirados, caídos entre suas malas e uma caixa que guardou o cachorrinho da família poupado pelo feixe de estilhaços, o mesmo que ouvimos latir freneticamente no vídeo do New York Times.
Logo depois está a grande ponte destruída, com a passarela improvisada pela qual os refugiados atravessaram – ainda era possível ver a van branca derrubada lá no início de março, cercada de cartazes e quadros patrióticos. Na própria ponte, o engarrafamento de carros abandonados havia sido substituído pelos equipamentos de construção e por um posto de controle; a estrada de desvio, rebaixada ao nível do rio, já estava asfaltada.
Em Irpin, quase todos os prédios tinham cicatrizes dos combates ferozes ocorridos ali e que transformaram esse vilarejo em uma terra de ninguém situada entre o rio, protegido pelas forças ucranianas, e a cidade de Bucha, ocupada pelos russos. A arquitetura barata desses subúrbios fez a destruição parecer particularmente terrível: nas casas e pequenos edifícios, as placas isolantes de poliuretano usadas nas fachadas e mascaradas por uma camada de estuque pintado foram arrancadas, espalhadas e carbonizadas pelas detonações, deixando as escurecidas paredes dos prédios cobertas pelos glóbulos de silicone que antes fixavam as placas.
BUCHA
Antes da guerra, Bucha era uma cidade tranquila de 37 mil habitantes, cercada por grandes florestas e muito perto do “mar” de Kiev – um vasto reservatório artificial criado na década de 1960. Cortado ao meio por uma linha ferroviária, o pequeno município tem seu bairro chique, com datchas luxuosas, hotéis, lojas de decoração e restaurantes, vários “condomínios privados” com pequenas casas isoladas, onde vivem principalmente aposentados, conjuntos habitacionais da era soviética e grandes blocos de apartamentos projetados nos últimos anos para atrair jovens em busca de ar fresco e espaços verdes.
Cinco semanas após a retirada russa [no final de março], a cidade foi tomada por um frenesi de limpeza: as carcaças dos veículos blindados destruídos desapareceram, as ruas marcadas por estouro de bombas foram repavimentadas, as valas comuns e as sepulturas nos jardins foram esvaziadas. A Rua Vokzalna, onde a artilharia ucraniana devastou uma coluna russa no início de março, estava limpa novamente; no cruzamento com a Rua Yablunska – onde foram encontrados durante a libertação da cidade vários cadáveres com as mãos amarradas –, funcionários municipais haviam terminado a pintura das faixas de pedestres.
Havia famílias passeando com seus cães, homens em bicicletas esportivas circulando no meio das ruínas, algo incongruente com as roupas justas fluorescentes e os pequenos capacetes que eles vestiam. Alguns mantinham seu senso de humor, como Mika Skoryk-Chkarivska, a vice-prefeita de Bucha. Quando eu lhe perguntei sobre as portas das salas da prefeitura, que foram arrancadas das dobradiças e encostadas nas paredes, ela deu um sorriso: “Os russos estão fazendo de tudo para nos aproximar da Europa. Agora, graças a eles, trabalhamos em open space.” Mas as casas destruídas, o impacto das bombas nos prédios e a vasta e nova área do cemitério, com suas centenas de sepulturas recentes decoradas com coroas de flores de plástico de cores berrantes, ainda testemunham a violência do que aconteceu ali, a desolação que permanece. Isso e as histórias.
“Estamos cansados de falar com jornalistas!”, uma senhora gritou para mim da entrada de seu quintal. Mas outros eram mais acolhedores. Na Rua Vokzalna, um pouco acima das casas pulverizadas durante o bombardeio, um homem de 66 anos, Vladimir Ivanovitch, nos convidou a entrar em seu quintal e nos apresentou ao seu sobrinho Viatcheslav, que o ajudava com os reparos.
Soldados russos se instalaram em sua casa, junto com um morteiro de grande calibre, que foi armado no quintal. O interior da casa era um caos absoluto, tudo tinha sido revirado e quebrado. Tudo que era novo foi roubado. Quando os russos tomaram a cidade, Ivanovitch primeiro se refugiou em seu pogreb, uma área subterrânea no quintal usada para armazenar alimentos. Depois fugiu com sua mulher para o porão de uma escola perto de sua casa. Em 12 de março, os dois escaparam dali, com a ajuda da Cruz Vermelha.
De acordo com os vizinhos que permaneceram no local, durante a ausência do casal os soldados instalados na residência levaram para lá mulheres jovens. Ivanovitch encontrou várias camisinhas usadas e garrafas de álcool vazias no meio da bagunça que deixaram, bem como dois colares, bijuterias que ele pendurou em uma estaca enferrujada. Havia também uma mulher morta no pogreb. Foi o sobrinho dele, Viatcheslav, quem descobriu o corpo quando foi inspecionar a casa após a libertação da cidade.
“Ela estava nua, deitada de barriga pra cima, a cabeça estilhaçada, as pernas e a barriga cortadas com uma faca”, ele me explicou calmamente. “Ela estava usando apenas um chouba [casaco de pele] e chinelos, e seus olhos estavam voltados para cima. Era uma menina daqui que morava em Kiev, mas tinha voltado para ajudar a avó. Eles a mantiveram como um brinquedo e, quando foram embora, atiraram três balas em seu rosto. A polícia encontrou duas delas, e eu encontrei a terceira depois.” Ele me mostrou uma bala longa fina, de 5,45 mm.
O pogreb era muito pequeno, com paredes de tijolos e uma prateleira com frutas e tomates enlatados. No meio do chão de terra havia uma pequena poça com água podre repleta de larvas: impossível determinar se aqueles restos eram de comida ou da pobre menina. Ela já foi identificada, mas a lei proíbe o promotor de revelar seu nome. Eu também já tinha visto sua foto na imprensa, seu corpo meio coberto por um shuba na entrada do pogreb.
Mas é diferente quando você vê os lugares. A sequência dos acontecimentos aparece claramente: os soldados violentos indo e vindo entre o morteiro no quintal e a casa saqueada, bebendo, ficando entediados, trazendo garotas e estuprando-as, decidindo então manter uma delas consigo. O que permanece impossível de imaginar são os pensamentos dessa garota durante os dias intermináveis, seu terror, sua dor, sua angústia.
VALA COMUM
Todo mundo agora sabe o que aconteceu em Bucha. Todos viram as imagens da enorme vala comum, escavada por voluntários atrás da bela Igreja de Santo André. Jornais publicaram reportagens sobre os crimes cometidos, muitas vezes detalhando os acontecimentos rua por rua: os oito voluntários civis baleados ao lado da base russa da Rua Yablunska, nº 144; os dois funcionários encontrados perto da ferrovia desativada, um deles decapitado; o velho baleado em sua bicicleta.
Segundo Andrii Nebytov, chefe da força policial ucraniana na região de Kiev, em meados de maio havia 1 102 cadáveres somente nesse distrito, mais da metade deles mortos enquanto tentavam fugir da cidade ou executados friamente. Em todos os lugares os investigadores estão compilando arquivos para futuros julgamentos de crimes de guerra. Mas ninguém entende tudo isso, muito menos os habitantes de Bucha. Eles estão desesperados para compreender não apenas as causas, mas também os fatos essenciais.
Eu tive uma demonstração impressionante disso durante uma longa entrevista com um jovem chamado Vadim Evdokymenko. Eu o encontrei em uma parada de ônibus na Rua Yablunska, perto de seu prédio bombardeado e parcialmente queimado. Evdokymenko, de apenas 20 anos, é um rapaz muito doce de rosto angelical. Cabeleireiro, ele fala muito rápido, nervosamente, mas com clareza.
Enquanto caminhávamos, ele me falou dos mortos do seu entorno, como uma cliente de 23 anos que foi estuprada e depois morta, e o pai a encontrou no necrotério com as mãos quebradas, provavelmente porque ela tentou resistir. Também me mostrou seu bairro, a estação de trem, sua escola fundamental, os prédios de tijolos dos anos 1960 construídos para os trabalhadores de uma fábrica de vidro. Um bairro de ruas tranquilas, pequenas lojas, vizinhos pacíficos.
Finalmente, por uma estrada de terra que serpenteia entre a ferrovia e um campo esportivo gramado, a dez minutos do prédio de Evdokymenko, chegamos a uma área de pequenas garagens feitas de chapas metálicas, tão comuns em torno de prédios em toda a ex-União Soviética. Ele parou em frente a um cubículo completamente queimado, com o telhado desmoronado e crivado de buracos: “Havia cinco pessoas escondidas aqui. Quando os russos chegaram, eles se recusaram a abrir a porta. Os russos jogaram uma granada, a garagem queimou por muito tempo. Meu pai estava entre eles.” Em seu celular, ele me mostrou as fotos que lhe permitiram identificar o pai: um pedaço de coxa em um resquício de jeans, quatro cartões bancários, uma carteira de identidade da fábrica de aviões Antonov, um sapato.
Aos poucos, consegui reconstruir a história. Os russos, que entraram em Bucha em 27 de fevereiro, invadiram o bairro do rapaz no dia 1° de março; no dia 3, Aleksei, seu pai, saiu para apanhar madeira perto da estação, depois foi para sua garagem; por volta das 16 horas, ligou para a esposa uma última vez. Então, o sinal telefônico foi cortado, e Evdokymenko e sua mãe não ouviram mais falar de Aleksei. No dia 8, o rapaz e sua mãe deixaram a cidade por um “corredor verde” (como é chamado o corredor humanitário), atravessaram um campo com atiradores russos em frente até chegarem aos ônibus de evacuação. Todo esse tempo eles pensaram que Aleksei deveria estar escondido em algum lugar, incapaz de se comunicar com eles, e que o encontrariam mais tarde. Mas em 10 de março, quando já estavam no Oeste do país, um amigo de seu pai ligou para dizer que Aleksei estava desaparecido desde o primeiro dia. “Ele saiu de sua garagem para comprar cigarros e seu amigo nunca mais o viu. Ele deve ter ficado preso aqui e se refugiado com essas pessoas. Não sei quem elas eram”, disse Evdokymenko.
Naquele momento, um homem com o rosto enrugado se aproximou de nós e nos perguntou o que estávamos fazendo ali. O rapaz explicou a ele, e o homem, Anatoli, balançou a cabeça:
– Seu pai não morreu aqui, tenho certeza disso.
Surpreso, Evdokymenko respondeu:
– Mas o pessoal que fez a investigação me disse que foi aqui!
– Não, não. Moro no bairro há quarenta anos, conheço todo mundo. Eu sei o que aconteceu aqui melhor do que os investigadores.
– Você conhecia meu pai?
– Aliocha? [diminutivo de Aleksei] É claro. Vem.
Anatoli nos leva por um caminho cheio de entulhos e lixeiras de metal, até o final da área de garagens, onde nos mostra outro cubículo queimado.
– Seu pai morreu aqui. Havia também uma mulher, duas crianças e um homem desconhecido. Lá na frente tinha um tanque estacionado.
Na pequena garagem tudo estava carbonizado e coberto de preto, dava para ver uma bicicleta, um fogão, uma máquina de lavar roupa, decoração de Natal, tudo espalhado entre os escombros. Evdokymenko estava tenso, desconsolado, mas mantinha a calma.
– Viu? Ninguém concorda sobre onde isso aconteceu. Vou ter que voltar a conversar com os investigadores. Na verdade, a polícia nunca me disse nada. Comecei a procurar por conta própria. No necrotério, tive que implorar pelas fotos.
Outro homem se aproximou:
– Aqui havia seis corpos. Cinco em cima, um embaixo, na vala. Alguns podem ter sido mortos do lado de fora e depois jogados dentro.
Uma grande discussão começou entre os dois trabalhadores sobre quem foi morto onde, como, quando, e rapidamente outros passantes entraram na conversa. Um homem em uma bicicleta parou perto deles:
– Eu gostaria de saber o que aconteceu! Aquela garagem queimou três dias seguidos, não conseguimos abri-la, teríamos sufocado.
Ninguém entrava em acordo, eles se interrompiam enquanto trocavam histórias de terror, as vozes eram vibrantes, mas calmas, misturando russo e ucraniano. Não consegui acompanhar. Eles tentavam reconstruir os acontecimentos, estabelecer uma cronologia, chegar a um consenso: uma comunidade que operava coletivamente sua incompreensão e sua tristeza.
VYSHEHRAD
Bucha tornou-se um símbolo. Mas o que aconteceu lá também ocorreu, em diferentes escalas, em todos os vilarejos ocupados pelos russos ao redor de Kiev. Tomemos um exemplo aleatório, entre vários que já coletei. No final de maio, recebi uma proposta da polícia para observar uma exumação no distrito de Makariv, a cerca de 60 km a Oeste de Kiev. Alguns policiais nos guiaram até um pequeno vilarejo chamado Vyshehrad, onde deparamos com os restos abandonados de uma base russa, encobertos por uma vasta floresta de pinheiros: bunkers, trincheiras, grandes escavações para proteger veículos blindados e artilharia. Ao chegarmos, dois trabalhadores – cercados por policiais, especialistas e jornalistas – já haviam praticamente desenterrado o corpo de uma vala, mas ainda lutavam para extraí-lo dali.
Um cheiro forte se espalhava, os homens se esforçavam, xingavam, respiravam pesadamente. O cadáver, quase em pé no buraco, estava com as pernas presas na areia, a cabeça balançava, a sua pele, visível quando puxavam as roupas, tinha coloração verde, vermelha, rosada. Pochyol? (Ele saiu?) – Pochyol. Finalmente, conseguiram içá-lo e deitá-lo na grama, revelando o rosto coberto de terra e como se estivesse derretendo. Policiais e jornalistas o cercaram para fotografá-lo; uma investigadora de uniforme e colete à prova de balas escrevia um relatório, sua colega fazia medições.
Um promotor me mostrou os documentos esverdeados e fedorentos encontrados: eles mostravam o nome de Serhii Ivanovitch Kyslytsky, nascido em 1983. O chefe de polícia se afastou para dar uma entrevista: era o sexto cadáver que ele havia descoberto naquela base. Quatro tinham uma bala na cabeça; o quinto, os órgãos internos destruídos. Esse último foi encontrado pelo vigia do local, que estava sondando os montes de areia com um pedaço de pau. Todo mundo se afastou para ouvir o oficial, ou filmá-lo, e o corpo ficou sozinho, abandonado, quase esquecido.
Finalmente fomos embora. Uma pequena estrada de terra, bloqueada por um portão de madeira que a polícia deixou aberto, levava da floresta à estrada principal. Ao passar pelo portão, um homem se aproximou e fez um sinal para eu parar. Abri a janela do carro e ele se inclinou:
– Quem é o cara que eles encontraram? Você sabe?
Abri meu caderno e mostrei o nome para ele.
– Droga, é o Serioja. E Stas? Encontraram o Stas?
– Não, havia apenas um.
O homem, com o cabelo penteado para a frente, barba branca curta sem bigode e olhos azuis, estava inquieto, tenso. Kyslytsky e Stas, ele explicou, costumavam trabalhar como faz-tudo em uma grande propriedade que se vê no fim da estrada. E que Roman, o proprietário, ligava o tempo todo para saber o que tinha acontecido com eles. O nome do homem que se aproximou de nós era Dmytro. Eu contei a ele que a polícia não tinha certeza de que os documentos pertenciam realmente ao morto, eles precisavam fazer um teste de DNA para confirmar.
– Serioja era órfão, ele não tem família, eles não vão encontrar ninguém para comparar. Você tem alguma foto?
Mostramos as imagens feitas pelo fotógrafo Antoine d’Agata. Dmytro fez uma foto da imagem com seu celular e enviou por WhatsApp para Roman. Depois, ligou para ele. Mas Roman afirmou que não, que aquelas roupas não eram de Kyslytsky. Uma longa discussão começou sobre os dentes do desaparecido, que Dmytro tentou comparar com aqueles pouco visíveis nas fotos do cadáver. Uma senhora se juntou a nós, uma vizinha chamada Irina, e eles conversaram sobre a última vez que viram Kyslytsky e Stas.
– Para mim, foi no dia 2 de março. Depois disso, eu não vi mais ninguém – disse Irina.
– Eu acho que foi no dia 4. Foi o dia em que chegaram os orcs [como muitos ucranianos se referem aos militares russos]. Eles fizeram a minha casa de base para um atirador – afirmou Dmytro, e apontou na direção de uma grande construção na esquina da estrada principal.
A casa de dois andares com paredes de concreto aparente estava em obras. Ele ainda não tinha se mudado para lá.
– Eu estava no carro com meu amigo Serhii Bogdan e ele me disse: “Espere aqui cinco minutos, já volto, vou ver se ali tem um tanque.” Eles o pegaram em frente ao cemitério e atiraram nele. Juntei outras pessoas no carro e fomos para o vilarejo vizinho, que os russos não tinham ocupado. Antes de ir, reunimos todos os feridos em uma casa, aquela ali. Devia ter umas 25 pessoas, homens, mulheres, jovens. Os russos levaram uma mulher ferida e o filho dela para Belarus, mas a Cruz Vermelha conseguiu levar os dois para a Alemanha. O marido dela foi baleado na rua, tinha acabado de sair de casa e… bum!
– Baleado pelo atirador que estava baseado em sua casa?
– Isso eu não sei. Mas certo é que foi ele quem levou Dyadya [Tio] Vova.
Irina explicou:
– É meu sobrinho, Vladimir Mozhartchouk.
Dmytro continuou:
– Duas balas, uma na barriga e outra no braço. Ele sobreviveu, fui eu quem o levou para o hospital, mas ele ainda não consegue andar.
Dmytro apontou para as casas atrás da sua:
– Aquela com o telhado vermelho é a casa do dr. Vynnitchouk, Pavel Vassylovitch, ele foi morto por um atirador quando saiu na estrada. A seguinte, com o teto cinza, é a de Iouri Makeev. Ele devia ter uns 60, 62 anos. Eles o mataram em sua cama quando voltaram para inspecionar.
Irina começou a chorar:
– A vida está destruída para sempre. A vida inteira.
Dmytro e sua mulher, com um monte de gatinhos nascidos durante a ocupação, mostraram a sua casa em construção: havia colchões espalhados, muitas rações russas, pichações; a polícia recuperou todos os cartuchos de 7,62 mm que lotavam o espaço sob o telhado, onde o atirador estava posicionado. Um canto da frente da casa tinha sido atingido por um foguete ou uma bomba e estava destruído.
– Bomba ucraniana ou russa?
Dmytro sorriu, depois me mostrou em seu celular uma captura de tela do Google Maps com sua casa circulada em amarelo.
– Quando eles ocuparam minha casa, mandei as coordenadas para os nossos, pedindo que a bombardeassem. Eles riram de mim, dizendo: “Olhe para esse cara, ele quer que a gente destrua a casa dele!”
– Funcionou?
– Quando voltamos, a casa estava cheia de faixas ensanguentadas. Então, talvez tenha funcionado. Quanto ao resto, não importa, vamos reconstruir.
SAQUES
As explicações para esses massacres estavam voltadas para uma unidade russa específica, que após sua retirada da região de Kiev foi parabenizada pelo próprio Vladimir Putin, a 64a Brigada de Fuzileiros Motorizados. É uma unidade baseada perto de Khabarovsk, na Sibéria Oriental, que recruta seus membros principalmente entre a população mais pobre dessa vasta região – os russos “étnicos” e várias minorias siberianas relacionadas aos mongóis, que os russos ocidentais apelidaram genericamente de buriatos. Mas o que está realmente em jogo não é a dimensão étnica, e sim social: a raiva dos invasores russos em relação à região de Kiev foi aparentemente alimentada, até as raias da loucura, tanto por certo ódio ideológico dos supostos “nazistas” ucranianos quanto pelo ressentimento de classe.
Anatolly Fedoruk, o prefeito de Bucha, me repetiu as palavras de um soldado russo ao falar ou com sua mãe ou com sua mulher por telefone: “Dá pra acreditar? Eles têm água quente nas casas, banheiros de cerâmica!” O fato de as ruas dos vilarejos serem asfaltadas parecia incompreensível para eles. Em um vídeo postado na internet, um soldado russo é visto abrindo uma geladeira e exclamando: “Caramba, Nutella! Porra, eles são muito sem-vergonha.”
Uma frase que circula entre os habitantes da região, e que já ouvi várias vezes, resume esse estado de espírito: A kto vam razrechil zhit tak khorocho? (Quem te deu permissão para viver tão bem?). Daí os saques em massa, os milhares de computadores, televisores, bicicletas e eletrodomésticos levados para Belarus em caminhões do Exército e depois enviados para a Rússia pelo correio, como mostrado por inúmeros vídeos de câmeras de vigilância que vazaram nas redes.
O jornalista russo Aleksandr Nevzorov escreveu em sua página no Telegram:
O saque selvagem dos orcs de Putin está se tornando uma das principais razões para essa guerra. […] [Ninguém tem] condições de pagar o suficiente para o pessoal poder encarar […] os horrores de uma guerra sem sentido e o medo constante de ferimentos e morte. Por essa razão, não há processos nem repreensões. Qualquer cidade ou vila ucraniana é considerada uma zona de roubo coletivo.
Uma noite em Kiev, Nevzorov, que eu tinha acabado de conhecer, me contou como encontrou, em 3 de abril, a 100 metros do supermercado MegaMart, destruído, de Bucha, o cadáver de um buriato com trinta tubos de Sensodyne nos bolsos. “Imagine! Este buriato viajou 3 mil km para vir aqui roubar pasta de dente e morrer em nossas calçadas. Dá para acreditar?”
IDENTIDADE
Uma pergunta assombra as ruínas das cidades e vilas, os cemitérios cheios de sepulturas recentes, os dias de milhões de pessoas tentando sobreviver e lutar nessa guerra sem sentido: O que é a Ucrânia? O que isto quer dizer: ser ucraniano? Essa questão está longe de ser teórica. É uma questão de sobrevivência em uma terra invadida por um país que lhe nega o direito à existência. “Quem disse que dentro de dois anos a Ucrânia ainda existirá no mapa do mundo?”, escreveu Dmitri Medvedev, ex-presidente da Rússia (de 2008 a 2012) em sua página no Telegram, em 15 de junho.
Pouco antes da invasão, Putin martelou que a Ucrânia não passava de uma terra dada “de presente” por Lênin aos camponeses sem nacionalidade, e que os ucranianos, ou “pequenos russos”, como os chamavam na época dos czares, eram apenas russos que falavam um dialeto ou, na melhor das hipóteses, um “povo irmão”, conforme a velha fórmula bolchevique que até o presidente francês Emmanuel Macron costuma retomar sem o menor distanciamento crítico.
É necessário que se diga que, desde a independência da Ucrânia, em 1991, de fato não é fácil ser ucraniano. Existem profundas divisões históricas e culturais no país: não apenas entre o Oriente e o Ocidente ou entre pessoas de língua russa e ucraniana (duas divisões que, ao contrário da crença popular, não se sobrepõem), mas também entre o Sul da Ucrânia e o resto do país, entre a cidade de Odessa e o resto do Sul, entre a população rural e a urbana, entre as pessoas instruídas e as não instruídas.
E depois há as minorias étnicas locais – húngaros, romenos, búlgaros, gregos, tártaros, ciganos –, os judeus e as minorias que se estabeleceram ali na época da União Soviética, antes de se tornarem ucranianos em 1991: russos, é claro, azeris, armênios, uzbeques, afegãos… O próprio nome “Ucrânia” vem de um termo eslavo que significa “barreira” ou “fronteira”, marcando sua posição territorial, durante tanto tempo esquartejada por impérios que traçaram uma das principais linhas de fratura do país: entre as regiões anexadas pelos czares russos a partir do século XVII – Donbass, a margem direita do Rio Dnieper, o Sul e a Crimeia – e a Galícia e os contrafortes dos Cárpatos, que pertenciam ao Império Austro-Húngaro.
Após um breve período de independência conjunta sob o nome de República Popular da Ucrânia (1917-20), a maioria dos territórios anteriormente czaristas foi ocupada pelos russos, e as províncias ocidentais foram oferecidas à República da Polônia, criada pelo Tratado de Versalhes em 1919. Por isso, as regiões Leste e central experimentaram a fome programada por Stálin em 1932-33 para derrubar o campesinato ucraniano, o Holodomor, que resultou em pelo menos 4 milhões de mortes, e depois o Grande Terror, cujos expurgos dizimaram a elite política e científica ucraniana, bem como a minoria polonesa. As regiões do Oeste, por seu lado, experimentaram a dominação polonesa e o terrorismo dos nacionalistas ucranianos, e em seguida, no contexto da divisão da Polônia entre Hitler e Stálin em 1939, a ocupação soviética e a série de massacres e deportações em massa.
Essa separação deixou o país com duas lembranças distintas da Segunda Guerra Mundial: os habitantes do Oriente a experimentaram através do prisma da devastação causada pela invasão nazista e da luta dentro do Exército Vermelho, os do Ocidente através da resistência ao totalitarismo soviético, o que levou primeiro à colaboração com os alemães, à participação no Holocausto e à feroz limpeza étnica da população polonesa, e depois a anos de guerrilha até a anexação definitiva da Ucrânia Ocidental pela União Soviética em 1944.
Essa divisão é profunda e forja uma relação muitas vezes sem nuances com a história, em que algumas pessoas classificam os nacionalistas do Exército Insurgente Ucraniano (UPA) como fascistas, colaboracionistas e traidores, e outras os consideram heróis que lutaram corajosamente contra o ogro soviético. A guerra atual terá pelo menos o benefício de fazer tábula rasa dessas tensões, como Volodymyr Viatrovytch, o ex-diretor do Instituto Ucraniano de Memória Nacional, uma vez me sugeriu: “Agora todos os ucranianos têm a mesma experiência da guerra. E eles não estão lutando em um exército estrangeiro, seja alemão ou vermelho. Estão lutando no Exército ucraniano, seu exército.”
INDEPENDÊNCIA
É claro que o sentimento de unidade que tomou conta do país inteiro em 24 de fevereiro [quando a Rússia fez seu primeiro ataque à Ucrânia] não surgiu da noite para o dia. Isso é o que Anton Drobovytch, sucessor de Viatrovytch à frente do Instituto Ucraniano de Memória Nacional, me explicou quando o encontrei pouco antes de deixar Kiev. Eu o conhecia de antes da guerra, mas o que ele estava me dizendo não era fácil de entender. Desde o primeiro dia, Drobovytch, um jovem barbudo com uma personalidade afável e intensa, tornou-se voluntário nas unidades da Defesa Territorial e em maio estava atuando como soldado nas trincheiras a Leste da cidade, de onde às vezes, quando seu superior lhe dava uma folga de uma ou duas horas, fazia conferências pelo Zoom. Ele estava com pouco tempo e marcou o encontro em um restaurante barato à margem esquerda do Rio Dnieper, onde falou comigo enquanto tomava sopa de peixe:
– Aqueles que disseram antes da guerra que o assunto da identidade não era um problema, porque o que importava era dinheiro, gasolina barata e tudo mais, agora entenderam que é um assunto importante, uma vez que os russos vieram nos matar por causa disso. Putin diz: “Não há povo ucraniano, somos um só povo.” Mas, em 24 de fevereiro, milhares de pessoas se alinharam em frente aos gabinetes militares, sob as bombas, para dizer, com sua presença: “Não, somos um povo diferente. Não somos piores ou melhores do que vocês, somos apenas diferentes.” Essa guerra mostrou que todas as nossas discussões sobre identidade são atuais.
Procurando um exemplo, Drobovytch mencionou Ihor Terekhov, o prefeito de Kharkiv:
– Ele é um homem muito soviético, um homem de percepção soviética. Muitas vezes discuti com ele na televisão. Quando os milicos russos chegaram, o FSB [o serviço de segurança russo] foi até sua casa e propôs que ele devolvesse a cidade para a Rússia. Muitas pessoas estavam preocupadas, porque Terekhov era a favor de dar às ruas nomes russos, como Moscou, Joukov [general e herói militar]… Mas, quando começaram a bombardear Kharkiv, ele lhes disse: “Desculpe, vocês não são nem um pouco nossos amigos ou nossos irmãos. Aqui é um país independente não devolveremos Kharkiv nem a Ucrânia.”
NACIONALISMO
Logo depois de cruzar a fronteira da Polônia com a Ucrânia, no início de maio, eu fiquei em Lviv com amigos que haviam fugido de Kiev no final de fevereiro e estavam ansiosos para voltar às suas casas. Darina Solodova trabalha no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), e Savelii Barashkov é especialista em mídia online, mas ambos são principalmente ativistas de esquerda, daqueles que se referem às tradições pré-bolcheviques e se opõem ferozmente aos nacionalistas de extrema direita, grupo que predominou no final dos anos 2010, mas foi marginalizado por um nacionalismo mais amplo e inclusivo que se seguiu às manifestações de Maidan, em 2014, e à irrupção da guerra no Donbass.[1]
Jovens, apaixonados, eles procuram avidamente entender a súbita mudança de sua situação existencial.
– As pessoas mais estranhas, as mais estúpidas, estavam certas. A gente achava que eles eram filhos da puta. Eles ainda são filhos da puta, mas estavam certos – resmungou Barashkov.
– Para os nacionalistas é fácil. Eles estavam certos e sabem disso. Para os esquerdistas como nós que é difícil. Temos que nos ajustar a essa nova realidade – continuou Solodova.
– Mas cuidado, essa não é uma guerra nacionalista. Essa é uma guerra nacional – enfatizou Barashkov.
Os “filhos da puta” de que falava Barashkov são os nacionalistas da direita dura, os famosos “nazistas” usados como pretexto por Putin para justificar sua “operação especial”. Falou-se muito disso desde então, especialmente sobre o famoso Batalhão Azov.[2] Um dia, em Kiev, encontrei outro conhecido de antes da guerra, Dmytro Reznichenko, no terraço de um restaurante italiano. Ele estava meio estranho. Depois de ser desmobilizado da Defesa Territorial logo após a retirada russa, foi baleado no rosto por um vizinho esquizofrênico e ficou preso durante um mês por ordem de um promotor corrupto que esperava extorquir dinheiro dele.
Reznichenko, que ainda não tinha 40 anos, estava bem situado para falar dos nacionalistas: ele mesmo é um ex-neonazista, um verdadeiro, que, depois de sobreviver ao terrível cerco de Ilovaisk, no Donbass, em agosto de 2014, passou por uma conversão mental de 180º e se tornou psicólogo e ativista liberal, antifascista e pró-LGBT. Ele estudou de perto a personalidade fascista e tirou algumas conclusões curiosas com base em sua experiência muito pessoal.
– Sabe, Jonathan, a verdade é que nós éramos assim naquela época.
Ele procurava as palavras, tentando explicar sua ideia com precisão:
– Para nós… entende… quando você tem algum tipo de ideia, algum tipo de… não uma compreensão do mundo, mas um sentimento do mundo, você tem que vesti-lo de certas formas ideológicas, porque ele não pode ser transmitido ao nível das sensações. E, neste país, você não tinha onde encontrar ferramentas para isso, exceto pescar todos esses símbolos no passado, como a bandeira vermelha e preta do Exército Insurgente Ucraniano.
Mostrei a ele a foto do perfil do Telegram de um combatente do Batalhão Azov que conheci no ano anterior em uma demonstração de extrema direita, o corpo inteiro tatuado com runas vikings e símbolos macabros. Ele disse:
– Olha, se você mostrar isso para qualquer europeu, ele vai entender imediatamente que esse homem é um criminoso e um neonazista. Mas, quando eu estava na extrema direita, todos os meus companheiros tinham um amigo judeu ou um amigo negro, era normal. Era como se brincássemos com isso, como se não fôssemos fascistas de verdade, mas apenas quiséssemos parecer fascistas de verdade. Até onde eu me lembro, o assunto do antissemitismo nunca foi levantado, de uma forma ou de outra, exceto por algumas pessoas meio loucas, às quais ninguém prestava atenção. Pelo contrário, os judeus eram bastante respeitados. No entanto, a gente usava a suástica.
Ele parou para pensar, e continuou:
– Agora, há um estranho tipo de substituição, à qual ainda é preciso dar um nome. Os russos pegam os Azov, tiram fotos de suas tatuagens, como as que você me mostrou, e gritam: “Então, não há fascismo na Ucrânia?” Mas tatuagens não são fascismo. Fascismo é proibir a oposição no país, é quando não há liberdade de expressão, quando as paradas gays são reprimidas… Azov não é fascismo de jeito nenhum, é uma subcultura, com sinais que não significam nem mesmo o que representam. Como diria Jean Baudrillard, é um simulacro. Agora os russos estão preparando esses processos [dos combatentes do Batalhão Azov] para tentar iludir e fazer pensar que estão lutando contra o fascismo. Mas, na verdade, em Mariupol, em Azovstal, os verdadeiros fascistas derrotaram as pessoas que queriam parecer fascistas. É uma espécie de conjunto totalmente novo de significados que não se encaixa nos antigos entendimentos. Já que, de acordo com o antigo entendimento, os russos são os antifascistas e os Azov são os fascistas. Mas, na verdade, é o contrário. Só que o governo russo não adotou a estética nazista como nós adotamos. Sua estética é soviética. Mas sua ideologia é nazista.
HORIZONTALIDADE
O mínimo que podemos dizer é que, ao contrário dos russos, os ucranianos não têm o culto ao líder. “Se os russos tivessem conseguido matar Volodymyr Zelensky, todos nós ficaríamos muito tristes. Mas isso não teria mudado nada, de forma alguma.” Foi uma jovem da vida cultural ucraniana, Sofia Cheliak, que me explicou isso em Lviv, calmamente, em um quintal charmoso, enquanto tomava um café expresso. Estávamos falando sobre a tentativa de assalto do palácio presidencial ucraniano pelos comandos russos na madrugada de 24 de fevereiro, o que acabara de ser revelado pela revista Time. Ela contou:
– Temos tantas redes horizontais, teríamos resistido de outra forma. Eu dirijo um festival literário, o Fórum Internacional do Livro de Lviv. Bem, ativei todos os meus contatos literários no país, em todos os lugares, para arrecadar dinheiro, gasolina, armas para nossos caras. Ninguém nos pediu para fazer isso, não recebemos ordens. Nós o fizemos porque as circunstâncias exigiam.
Foi graças a essa conversa que comecei a entender um aspecto crucial: no fundo, se há algo que realmente distingue os ucranianos dos russos, não é a língua ou a história, mas uma forma de organização social horizontal, que se opõe radicalmente à verticalidade russa. Isso se aplica aos ativistas, sejam os de extrema direita, sejam os de esquerda ou os anarquistas, e também às pessoas comuns e às autoridades públicas. A descentralização realizada pelo governo de Zelensky, que dá tantos poderes aos prefeitos locais, poderes dos quais eles fizeram tão bom uso nessa guerra, é apenas a última expressão institucional desse instinto profundamente enraizado.
Anton Drobovych, do Instituto Ucraniano de Memória Nacional, ao término de sua fala sobre o prefeito Ihor Terekhov, insistiu nisso: “Quando ele recusou as propostas russas, disse, nesta ordem: ‘Kharkiv – Ucrânia’. Porque na Ucrânia a questão do autogoverno local não é uma piada para nós.” O nacionalismo ucraniano de direita, com suas raízes austro-húngaras, é muitas vezes considerado a principal expressão política da “ucranidade”, quando na verdade é um fenômeno minoritário e enraizado especialmente no Oeste do país. Desde os cossacos zaporogos [povo eslavo que está na origem do país] que viviam na região no século XVII, até Maidan, passando por Nestor Makhno e sua ilhota utópica em Huliaipole,[3] no início dos anos 1920, a verdadeira tradição política ucraniana, aquela que realmente molda as consciências do país, é a de uma resistência ao mesmo tempo anarquista e local.
TOTEM
A mais bela expressão dessas ideias eu encontrei no final de maio durante um jantar em um restaurante chique de Kiev com outros dois amigos. Sevguil Musaieva é tártara da Crimeia e dirige Ukrainska Pravda, a principal mídia online do país. Seu marido, Nikolai Davydiouk, é analista político. Ele me disse:
– Recentemente, Sevguil e eu estávamos discutindo qual animal poderia ser o símbolo da Ucrânia. Todos os países têm um, o urso russo, a águia americana, o galo francês, mas a gente não. Finalmente, pensamos que deveria ser a abelha. Por quê? Em tempos de paz, a abelha trabalha duro sem ser solicitada, sem prejudicar ninguém e sem incomodar seus vizinhos. Mas, se você ameaçar a colmeia, ela fica muito irritada, e todas as abelhas atacam juntas, prontas para morrer.
Eu refleti, e disse:
– É uma boa combinação, de fato. Mas quem é a rainha nesse caso? Vocês não têm um czar.
Foi a vez de Davydiouk refletir, bebericando seu vinho – até que seu rosto se iluminou:
– Ah, isso é fácil. A rainha-mãe é o país.
[1] Entre novembro de 2013 e fevereiro de 2014, milhares de pessoas tomaram as ruas das principais cidades da Ucrânia. Em Kiev, concentraram-se principalmente na Maidan Nezalejnosti (Praça da Independência). Os manifestantes reivindicavam maior aproximação da Ucrânia com a União Europeia, após o presidente Viktor Yanukovitch se recusar a assinar um tratado de cooperação com os europeus. Os protestos aumentaram a ponto de levar à destituição de Yanukovych, que se refugiou na Rússia. No bojo das manifestações, a população de origem russa da Crimeia pediu que a região fosse separada da Ucrânia, o que serviu de pretexto à Rússia para ocupar o arquipélago. Na região do Donbass, no Leste da Ucrânia, habitantes de origem russa tentaram o mesmo que os da Crimeia, mas dessa vez o governo ucraniano reagiu rapidamente, enviando forças para conter os rebeldes. Iniciou-se então um conflito militar com os separatistas, apoiados pela Rússia. (N. R.)
[2] O Batalhão Azov surgiu durante os conflitos de 2014 na Ucrânia. Foi criado na cidade de Mariupol, no litoral do Mar de Azov, por combatentes voluntários de extrema direita e neonazistas, todos eles nacionalistas ucranianos. Depois, no contexto da invasão russa, o batalhão foi transformado pelo governo ucraniano em regimento da Guarda Nacional do país. Seus combatentes foram a principal força de resistência à ocupação pelas forças russas de uma usina siderúrgica em Mariupol. A defesa durou meses até que, em maio passado, todos que estavam na siderúrgica se renderam aos russos. (N. R.)
[3] Nestor Ivanovich Makhno (1888-1934) foi um líder anarcocomunista, fundador do Exército Insurrecional Revolucionário Ucraniano, que chegou a ter 50 mil homens e combateu o Exército Branco, anticomunista, e depois o próprio Exército Vermelho, dos bolcheviques russos. Em Huliaipole, sua terra natal, no Sul da Ucrânia, Makhno participou da criação de uma sociedade libertária e de autogestão. (N. R.)