poesia
Tarso de Melo Out 2022 18h30
2 min de leitura
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AMANHÃ
falávamos de gente
que aos cinco, aos dez
já sabia o que queria
e o que não queria
para a vida toda
de uma vez por todas
não apenas a cor predileta
a estação mais linda do ano
mas cada ínfima resposta
para as perguntas que ainda
não lhe foram feitas
já estava decidido
que os dias seriam assim
que as noites seriam a salvo
que a aposentadoria viria
leve, branca, calma
mais o mar que a montanha
as manhãs que as madrugadas
uma dose de sol, da lua
uma distância segura
a medida dos passos
em que fibra do tempo
em que ponto do espaço
o deus para sempre louvado
o mal? como ser evitado
o que fazer do amor
o que fazer do sexo
o que nunca fazer
falávamos de gente
que aos vinte, aos trinta
já havia preenchido
de planos infalíveis
a agenda das próximas
décadas
enquanto o vento batia
em nossos corpos velhos
em nossos copos velhos
sem dizer uma palavra
sobre o amanhã
LER
ler até se perder
ler até não ter
mais o que dizer
ler até sufocar
o que insiste
em querer
ler até não ter
do que esquecer
ler até querer
apenas mais
e mais ler
ler devagar
deixar-se
ultrapassar
pelo que ler
ler séculos
em semanas
dias em anos
ler por horas
uma mesma hora
o que se há de ler
ler até encontrar
no desvio
o que escrever
e não escrever
senão no desvio
incontornável
do que ler
2020
dois terços do dia
no computador
que se arrasta
vinte e quatro
horas na tomada
o telefone também
com essa fome
por noites e dias
meses e meses
elétricos
ligar, desligar
desligar, ligar
fechar janelas
reduzir as abas
navegar devagar
ser acessório
de algum aparelho
em modo de economia
de energia
ou essa bateria
irremediavelmente
viciada
CANINO
o cão
entranha
a folga
madruga
estranha
ioga
cobra
um afago
e colhe
rasga
caga
draga
ri
do bafo
ao rabo
engole
uma ceia
e meia
boceja
mais que
ladra
encanta
enquanto
corre
morde
as normas
da casa
arrasa
uma a uma
as penas
e ensina
em si
dia a dia
as formas
selvagens
da alegria

Poemas do livro As Formas Selvagens da Alegria, a ser lançado neste mês pela Alpharrabio Edições.